Uma revisão de “Beat Zen, Square Zen, and Zen”, de Alan Watts (2)

março 17, 2015 às 8:08 am | Publicado em Revistas - Artigos e Entrevistas | 2 Comentários
Imagem encontrado na página: http://en.wikipedia.org/wiki/M._C._Escher

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(1ª parte)

Em que Watts errou

A primeira frase de Watts me balançou: “É tão difícil para os anglo-saxões quanto para os japoneses absorver algo tão chinês quanto o Zen”. Deixando de lado o uso tão embaraçoso do termo “anglo-saxão” para se referir aos “ocidentais”, parece-me que o Japão absorveu o Zen muitissimamente bem. Mas isso nos leva ao coração do que Watts errou.

Ao continuar a leitura, percebe-se que o “Zen quadrado” do título é o Zen japonês, “com sua hierarquia claramente definida, sua rígida disciplina e seus testes específicos do satori”. Ele comparou o Zen japonês à sua antiga versão, o Zen chinês, chamado Chan, o qual Watts imaginava ser leve e natural, e mais parecido com o Taoismo.

Entretanto, a visão idealista de Watts sobre o Chan ignora o fato de que o Chan também possuía e possui suas hierarquias, disciplina e testes, e a História aponta que devem ter sido tão bem definidos, rígidos e específicos na dinastia chinesa T’ang quanto eles se tornariam no Japão. A história do Chan é cheia de relatos sobre monges passando anos em meditação e outras práticas para atingir a Iluminação. O Zen libertário da imaginação de Watts nunca existiu.

Por exemplo, Watts citou Lin-Chi (Linji Yixuan, morto em 866), um proeminente mestre do Chan da Dinastia T’ang, dizendo: “No Budismo não há lugar para a utilização do esforço”. Essa frase vem sendo traduzida por outros como “Não há muito que fazer” e/ou “A Lei do Buda não guarda espaço para atividades complicadas”, e eu não sei qual é mais precisa.

O que eu sei é que para nossos padrões, Linji deve ter sido um terror. Ele era famoso por seus rigorosos métodos de ensino, os quais incluíam gritos, insultos e socos. Então onde está o “pouco espaço para o uso do esforço”? De fato, para a maioria de nós custa considerável esforço, antes da prática se tornar sem esforço. Nesse assunto, a maior inspiração de Watts foi o estudioso japonês D. T. Suzuki, que aprendeu o Zen num monastério Rinzai – quase o mais “quadrado” que existe.

Eu estou pensando agora sobre uma frase de um poema do venerável professor Theravāda chamado Phra Ajaan Mun Bhuridatta Mahathera, que descreveu uma mente purificada de máculas: “A mente, livre de ficar encantada por qualquer coisa, para com a sua luta”. Sim, quando a mente para de lutar, não há esforço. A literatura Zen, tanto a japonesa como a chinesa, é cheia de descrições sobre o estado de não esforço de um ser realizado. O grande paradoxo da prática é que a maioria das pessoas precisa fazer grande esforço para parar de lutar e atingir um estado de não esforço. O Budismo é fácil, sim, mas nós somos difíceis.

O ensaio é permeado de muitas referências ao Taoismo. O grau a que o Budismo chinês, incluindo o Chan, foi influenciado pelo Taoismo está sendo questionado por muitos estudiosos atuais. Alguns decidiram que não houve qualquer influência. Eu não iria tão longe; cheguei ao Zen através do Taoismo filosófico e me parece que houve alguma influência, pelo menos em como o Chan explica as coisas. Mas é ir longe demais presumir que o Chan da Dinastia T’ang foi tão Taoista quanto Budista, como parece fazer Watts. (continua)

Tradução livre do grupo “Tradutores do Zen” (colaboraram neste texto Luan Luna e Emerson Ricardo Zamprogno; supervisão de Isshin-sensei; revisão ortográfica de Rodrigo Daien). Texto de autoria de Barbara O’Brien, originalmente publicado no site http://buddhism.about.com/

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  1. […] O Zen que se espalhou foi, na maior parte, o Beat Zen. Mas o Zen “chique” ainda é Zen? E como esse ensaio permaneceu influente por mais de 55 anos? Aqui estão minhas impressões. (continua) […]

  2. […] (continuação da 2ª parte) […]


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