Vídeo: Me Chame pelos Meus Verdadeiros Nomes

janeiro 28, 2017 às 7:05 pm | Publicado em Blogroll, Cultura Japonesa, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Vídeo, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

nomesFaz um bom tempo que desejo escrever esta reflexão – que, bem ou mal, acabou ficando bastante longa – e espero que alguns dos meus leitores possam a achar informativa e interessante.

Um monge japonês é tratado por vários “nomes” – e basicamente nunca pelo seu primeiro nome civil, o seu nome pessoal – até mesmo na intimidade. Acho bem interessante este fato.

Na cultura japonesa, são os membros da família que mais merecem consideração e respeito, pois são justamente eles que suportam as nossas características menos nobres e nos toleram quando estamos tendo um dia ruim. Portanto, nem dentro da família deve-se deixar de usar os termos de consideração, os honoríficos. Pessoalmente, acredito que nós ocidentais devemos adotar um pouco desta mesma atitude de dignidade e consideração pelo outro e agir um pouco menos egoisticamente como os “Homer Simpsons” da vida junto com os nossos familiares.

Consultei com um dos monges japoneses sobre como são tratados e recebi a informações abaixo. Lembramos que ao falar com uma pessoa japonesa, nunca-nunca-nunca usa-se o nome dela sem algum tipo de honorífico, nem mesmo dentro da família, pois isto seria uma ofensa grave. (Mas, nota-se que a própria pessoa nunca fala o seu próprio nome adicionando um honorífico!)

Os honoríficos mais comuns são “-san” (さん), usando entre iguais; -“sama” (様), significa respeito e consideração podendo ser usado entre iguais também; “-chan” (ちゃん) ou “-kun” (くん), para crianças. No Zen, temos “-sensei” (先生, professor) e “-rôshi” (老師, literalmente professor velho, usado para professores de alto nível e acima de 65 anos de idade), –oshô (和尚, monge plenamente formado) e –dai-oshô (大和尚, literalmente grande monge plenamente formado). Vejamos alguns exemplos do Zen:

  1. De um monge para o outro, costumam tratar-se por: (sobrenome)+san/sama, (sobrenome)+roshi/sensei,  (nome do templo)+san/sama. Assim sendo, outros monges me chamariam Havens-san* (de igual para igual), Havens-sama*, Havens-sensei*, Jisui-san, Jisui-sama, Jisui-sensei, Ryûgaku-san, Ryûgaku-sama ou Ryûgaku-sensei. Nota: Jisui (慈水) é o nome do nosso templo e Ryûgaku (龍覚) é o nome da nossa “montanha”.  Nota: veja observação (*) abaixo.
  2. Um outro termo que ouvi sendo usado bastante dentro dos templos no Japão – até pelas esposas dos monges abades dos templos que visitei – mas que implica numa certa intimidade, é hôjô-san (方丈さん/様). Este já é uma forma de endereçamento que significa um grau de intimidade (congregados do próprio templo, monges que treinamento lá ou que trabalham lá e até a própria esposa). Havendo um pouco menos de intimidade, a forma correta seria (sobrenome)+hôjô-sama. O termo hôjô refere-se ao quarto onde vive o monge responsável pelo templo.
  3. O monge formado, depois de passar pelas formalidades de Zuise, torna-se um Oshô (和尚) e pode, eventualmente, tornar-se um Dai-oshô (大和尚). Na minha experiência pessoal, só vejo o uso deste honorífico durante a cerimônia de Zuise, quando o monge é formalmente reconhecido pela ordem Soto Zen como monge plenamente formado e, depois e de acordo com a graduação que possui, quando é abade de um templo, na recitação de linhagem na cerimônia matinal diária.
  4. Ainda mais, dôchô (堂, dô = local de prática ou, neste caso, monastério e 頭, chô = cabeça) é o termo usado para se referir ao monge principal  de um mosteiro. Assim, podemos dizer: (sobrenome)+dôchô-sama/rôshi. Quando realizei o meu treinamento no mosteiro, chamávamos a nossa abadessa (cujo sobrenome civil é Aoyama) de Dôchô Rôshi ou de Aoyama Sensei, pois lá, vivemos em mais intimidade com ela, pois o mais correto é de chamar ela de Aoyama Rôshi.
  5. Por fim, um professor de darma qualificado também pode ser chamado de “(sobrenome)+sensei” (ou de “(sobrenome)+rôshi” dependendo da graduação que possui) ou, no ocidente, (nome de darma)+sensei ou (nome de darma)+rôshi.  Assim, os meus alunos me chamam de “Isshin sensei” ou simplesmente de “sensei”, enquanto que eu chamo o meu professor de Transmissão de Darma de “Ônoda Rôshi” ou simplesmente “Rôshi”.

* Noto que nunca chamamos os monges japoneses pelos seus nomes de darma, enquanto que aqui no Brasil virou costume de chamar os monges de monge/monja+(nome de darma,) i.e. “Monge Genshô”, “Monja Coen”. Consequentemente, até os monges japoneses nos chamam pelo (nome de darma)+(honorífico).

Como isto já era a prática “estabelecida” quando retornei ao Brasil depois de terminar o meu treinamento no exterior, passei a me chamar de “Monja Isshin”. Na minha cabeça, o termo “monja” acaba tendo a mesma função que o honorífico japonês e não a função de um “título”. Desta forma, quando ouço uma amiga não-budista me chamar, dizendo, “Oi, monja!”, eu recebo isto como sendo chamada com “Oi, Isshin-san!”, com a intimidade de igual-com-igual.

Confesso que, depois dos meus anos imersa na cultura japonesa, causa, até hoje, um pequeno choque aos meus ouvidos (ou olhos) quando ouço (ou vejo) o meu nome de darma sem qualquer honorífico. Fica faltando algo. Cultivo a flexibilidade de aceitar o fato que no ocidente temos outros costumes e que os ocidentais não estão com a intenção de serem rudes comigo (no Japão seria uma ofensa um tanto grave), mas ainda dá um pequeno choquezinho aos ouvidos. Como a nossa comunidade optou para manter laços estreitos com o Japão e recebemos monges japoneses com regularidade, é o nosso costume manter rigorosamente o uso dos honoríficos com os nomes de darma (ou com os sobrenomes dos monges japoneses). Não admitimos correr o risco de referir-nos ao nosso querido superintendente para a América do Sul, o Saikawa Roshi Sokan sem o uso dos honoríficos apropriados! (Nota que podemos oferecer mais consideração usando dois honoríficos no caso dele, pois o termo Sokan se refere à função dele como superintendente. Mas, chamar ele de Saikawa Roshi já é correto e perfeitamente adequado.)

Ufa! Com tudo isto, vejo que há até por volta de 15 maneiras diferentes para referir-se a um monge – ou para endereço-lo numa conversa! Os monges abades de templos (o atual, ainda vivo e os históricos) são lembrados nas recitações de linhagen nos serviços matinais diários dos templos pelos nomes de darma completos+oshô/dai-oshô.  Neste caso, no nosso templo, sou lembrada como Sangai Isshin Oshô. (Veja a explicação sobre o nome de darma abaixo.)

E os monges da tradição histórica chinesa são lembrados pelo nome de darma, nome do templo, nome da “montanha” – na pronúncia chinesa e na pronúncia japonesa – e podem aparecer num determinado livro com um nome mas num outro livro com outro nome! Confesso que isto dá nó na minha cabeça e estou tentando até hoje terminar de organizar uma tabela com todos estes nomes para saber quem é quem!

Depois de toda esta explicação, vamos ver mais um fator. Em todos estes casos, o nome civil pessoal não é usado. Porque isto? Penso em pelo menos três motivos:

  1. Ao receber ordenação monástica, simbolicamente saímos de casa (o nome da cerimônia de ordenação – shukke tokudo 出家得度 – reflete isto) e cortamos laços com o nosso passado e simbolicamente (mas talvez não na realidade) até com a família. Receber a ordenação e fazer votos monásticas em quase todas as religiões significa receber um novo nome, como se fosse um novo nascimento. No Zen Japonês, o nome de darma completo é composto de 4 ideogramas chineses. No meu caso, Isshin (一心) é a parte do uso comum, mas tenho um outro nome, Sangai (三界), que é reservado para uso formal ou cerimonial. De forma semelhante, o Papa Francisco não é mais chamado de “Jorge”, que é o nome civil dele… Assim sendo, ser chamada pelo meu nome civil, com raríssima exceções, me parece um retrocesso e me é desagradável.
  2. Diferente das profissões de médico, professor, psicólogo, etc., consideramos os nossos votos como valendo 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, durante o resto desta vida e das vidas futuras (se elas existem) até alcançar o estado de Buda. Assim, não tenho “folga” de ser monja, não tenho horários durante os quais deixo de orientar a minha vida de acordo com os meus votos e os preceitos budistas (que, no caso do budismo japonês, não incluem votos de pobreza ou de castidade). Assim, após a ordenação, em princípio, é “monge” em tempo integral, igualmente aos monásticos e sacerdotes da Igreja Católica, por exemplo. Aqui no ocidente, nem todos os monges budistas observam isto, infelizmente, se comportando como “monges de meio período”.
  3. No Budismo, espera-se que o monge alcance determinadas realizações espirituais, incluindo a realização do “não-eu” e a “união com o todo”. Desta forma, espera-se que supere a mentalidade de um “eu individual e separado” do ego condicionado e pessoal, mesmo que mantenha o ego funcional freudiano e consciência de si-mesmo funcionando no mundo relativo da dualidade.

E  é aí, neste 3º ponto que acho que encontramos o verdadeiro motivo da tradição dos japoneses evitaram o uso dos nomes pessoais – até do nome de darma pessoal (lembramos que o nome de família é um nome de grupo e não pessoal, individual). Num monge de boa realização espiritual que superou boa parte de seu ego condicionado e pessoal, encontramos uma personalidade forte, que sabe muito bem o que pretende fazer, mas que está livre do auto-centrismo e egoismo comum. Sabe muito bem quem é, mas, como o Bodidarma, em seu famoso encontro encontro com o Imperador Wu, se vê obrigada a responder “Não sei” se alguém perguntar “Quem é que está aqui na minha frente?” pois não há como verbalizar a “essência do ser”. Só temos como vivencia-la.

Aqui no ocidente, onde a transmissão do Budismo ainda está no início (levou 600 anos na China), há pessoas que, por falta de um treinamento adequado, não cheguem a esta realização e, infelizmente, acabam vestindo “máscaras” de monge e inflando os seus egos condicionados) – às vezes, com resultados terríveis de abusos financeiros, sexuais ou de poder. Lembramos que a realização espiritual não implica necessariamente na resolução de eventuais traumas de seu passado ou dificuldades no desenvolvimento da sua personalidade, que seriam assuntos para a psicoterapia ocidental. A realização espiritual tende a levar com que a pessoa faça as pazes com o seu histórico pessoal e se incomoda menos com tais questões, mas não as cura.

O Mestre Dogen, no seu texto seminal “Fukanzazengui – Regras Universais do Zazen“, chama o nosso lar – a nossa verdadeira essência, a nossa “face original”, ao qual voltamos na meditação profunda, de “a Casa do Tesouro”, que “naturalmente se abrirá”, e onde poderemos nos servir à vontade.

Neste aspecto do união com o todo, o Mestre Thich Nhat Hanh transmite palavras importantes:

“Nosso nome deveria nos dar um sentimento de estar em casa. A sociedade pode nos rotular como franceses ou americanos, ou talvez nos chamar de afro-americano, quer nos sintamos em casa com o nome ou não. Às vezes não estamos confortáveis com nossa cultura, sociedade, igreja e não nos sentimos no nosso lar. Portanto o nome que os outros nos dão não é nosso verdadeiro nome. Mas não podemos achar nosso verdadeiro nome a não ser que tenhamos um lar verdadeiro.” (Qual é o seu verdadeiro nome?)

Que cada um possa descobrir o seu verdadeiro nome, na meditação profunda, no grande silêncio da essência do ser.

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Vídeo: Fuji Diamante – 1 de janeiro de 2017

janeiro 18, 2017 às 2:58 pm | Publicado em Blogroll, Cultura Japonesa, Japão e Cultura Japonês, Meditação em Porto Alegre, Vídeo | Deixe um comentário
diamondfuji

foto de fujisanshuhen encontrado na http://photozou.jp/user/top/3144689 Creative Commons

Algumas vezes, no outono e inverno japonês, o nascer ou pôr do sol sobre a Montanha Fuji (富士山) pode resultar num fenômeno que os japoneses chamam de Fuji Diamante (ダイヤモンド富士). Este ano, centenas de pessoas foram até os “pontos para vista” para ver o nascer do sol do dia primeiro de janeiro, abrindo o novo ano com diamante…

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Aqui um vídeo do espetáculo Diamante Fuji poucos dias antes da virada do ano 2017.

Aqui,  uma montagem linda de fotos do nascer do sol “Diamante Fuji” do dia 1 de janeiro de 2017.

E aqui, um vídeo do mesmo fenômeno em Dezembro 2010, mostrando o reflexo no Lago Yamanaka.

 

Que este ano seja um ano de diamante para todos! Gassho

. Ler mais no site  Mundo-Nipo

Hanamatsuri e Festival da Paz na Usina do Gasômetro

maio 4, 2014 às 8:35 am | Publicado em Cultura de Paz, Cultura Japonesa, Diálogo Interreligioso, Japão e Cultura Japonês, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre, Zen e as Artes | Deixe um comentário

É com muita alegria que divulgamos o cartaz do nosso Hanamatsuri e Festival da Paz, que será realizado na Usina do Gasômetro nos dias 24 e 25 de maio.

HANAMATSURI_2014_CARTAZ_A3_FINAL

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Mais  informações:

Site: http://www.hanamatsuripoa.com.br
Facebook:
https://www.facebook.com/hanamatsuripoa?fref=ts
Vaquinha:
http://www10.vakinha.com.br/VaquinhaE.aspx?e=253128

Organização: Associação Comunidade Soto Zendo Sul – Jisui Zendô – Sanga Águas da Compaixão
R. Eliziário Goulart da Silva, 93 – 91040-430 Porto Alegre, RS – Tel: (51) 3085-7476
CNPJ 13.490.319/0001-94

Vídeo: Aprender o “Bon O-dori”

abril 26, 2014 às 10:19 am | Publicado em Cultura Japonesa, Japão e Cultura Japonês, Música, Música japonesa, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Vídeo, Zen Budismo em Porto Alegre, Zen e as Artes | Deixe um comentário

Como parte da Abertura do Hanamatsuri e Festival da Paz 2014, estamos trabalhando duro para “botar o povo dançando”!

Se der tudo certo, depois das cerimônias da Abertura Solene pela Autoridades Civis, a Procissão das Crianças com o Pequeno Buda, o Ritual do Kanbutsu-e (Banho do Pequeno Buda com Chá Doce) e a Cerimônia Religiosa de Abertura, teremos apresentações de Dança Tradicional Japonesa e da Dança do Leão Chinesa, terminando com a Dança do “Bon O-dori”, que será aberta para todos!

Aproveite para já ir treinando uma das coreografias mais populares para o “Bon O-dori” com este vídeo. Não precisa entender japonês para aprender a dança, pois é um vídeo muito bem feito.

Leia mais sobre Obon e Bon O-dori no Budismo Japonês no site do Jisui Zendô – Sanga Águas da Compaixão.

Vídeo: Cerimônia de chá chinesa

março 26, 2014 às 3:26 pm | Publicado em Cultura Japonesa, Japão e Cultura Japonês, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Vídeo, Zen Budismo em Porto Alegre, Zen e as Artes | Deixe um comentário

A Cerimônia de Chá japonesa (Sadô) teve sua origem na cerimônia de chá chinês, mas passou por grandes modificações a partir de sua importação daquele país.

Aqui temos um vídeo da cerimônia de chá chinesa:

E temos um vídeo sobre a cerimônia japonesa, no estilo “Urasenke”, que foi o estilo que cheguei a praticar um pouquinho durante o meu treinamento no mosteiro no Japão:

Gyôchá

Gyôchá

No mosteiro – e aqui na nossa Sanga – temos, além do treinamento na Cerimõnia de Chá. um estilo de servir chá formalmente, que é chamado “Gyôchá”, que faz parte da nossa prática.

Imagem de Jizô Bosatsu

abril 30, 2013 às 4:54 pm | Publicado em Cultura Japonesa, Japão e Cultura Japonês, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre, Zen e as Artes | Deixe um comentário

Encontrei um vídeo no Youtube mostrando um artesão japonês esculpindo uma imagem pequena do Jizô Bosatsu (Ksitigarbha), protetor das crianças, animais, viajantes e da terra:

O Alimento na Religiosidade Zen Budista

novembro 30, 2012 às 9:23 pm | Publicado em Cultura Japonesa, Meditação em Porto Alegre, Revistas - Artigos e Entrevistas, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Publicado originalmente na revista Diálogo – Revista de Ensino Religioso, nº 63, de Agosto/Setembro 2011 – pp. 20 – 25.

Nas religiões orientais há vários rituais dos quais os alimentos fazem parte, assim como em quase todas as religiões. As famílias japonesas da tradição zen-budista costumam ter em suas casas um butsudan – altar –, contendo uma imagem de Buda, tabletes memoriais, ou ihai, com os nomes dos antepassados e outros familiares falecidos, vela, incensário e vaso para flores. Há também uma taça para a oferta de água. Diariamente, alguém da família troca a água, acende a vela, oferece incenso e faz a leitura de um sutra – texto sagrado budista – em frente do altar. Pode ser que se ofereça também um pouquinho de arroz e, frequentemente se oferece alguma fruta – como maça, pêra ou laranja, ou algum doce.

Uma vez ao mês, as famílias recebem um monge, que faz a leitura de sutras para os antepassados. Nessas ocasiões, outros membros da família talvez participem desta pequena cerimônia. Neste dia, a oferta de uma refeição é feita, usando um conjunto de pratinhos especiais.

Nos mosteiros, os monges costumam usar um conjunto de tigelas – oryoki – para comer e as refeições são acompanhadas da recitação de versos, relembrando o esforço de trabalhadores no plantio, colheita e transporte dos alimentos.

As duas refeições principais nos mosteiros são o café da manhã e o almoço. Quando a comida está pronta, o cozinheiro chefe – tenzo – prepara uma oferta desta comida em tigelas de tamanho reduzido e a coloca numa bandeja alta chamado sambô. Ainda na cozinha, o tenzo coloca a oferta sobre a mesa, oferece incenso e faz nove prostrações. Então leva o sambô com a oferta até a sala de meditação, onde ela será colocada no altar, como uma oferta à memória de Buda.

No momento do almoço, os monges coloquem um pouquinho de arroz como uma oferta especial – sabá – para alimentar os gaki – espíritos famintos. Todo dia, no serviço vespertino, recitam, de uma forma simples e sem oferendas, o Sutra do Portal da Doce Néctar – Kanromon , simbolicamente oferecendo alimento novamente aos espíritos famintos.

Este sutra é composto de três partes:

1ª) Saudação aos Budas do Passado, ao Darma e à Sanga, ao Shakyamuni Buda, à Kannon Bodisatva e ao Venerável Ananda que são convidados para ocuparem o âmbito purificado para presenciar e dar aprovação à cerimônia.

2ª) Oferta, aos espíritos famintos, de comida e bebida, para que se tornam satisfeitos e despertem à prática e aos ensinamentos de Buda.

3ª) Recitação da Palavra Verdadeira – Shingon – e boas vindas aos Cinco TatagatasGo Nyorai – para conduzir todos os espíritos do mundo de sofrimento à Terra Pura.

Mas quem são estes “espíritos famintos”?

O conceito de “espíritos famintos” já fazia parte da cultura da Índia antiga, num período anterior ao Budismo, e pode ser encontrado em várias religiões. No Budismo, a tradição de “alimentar os espíritos famintos” começou na Índia e passou para os outros países, como China, Tibete, Japão, Tailândia, etc. na expansão dos ensinamentos budistas.

De acordo com o Ullambama Sutra, um dos monges-discípulos de Buda, o Maudgalyāyana, tinha o poder de clarividência. Um dia, viu a sua mãe, que havia sido uma pessoa gananciosa e ciumenta durante sua vida, sofrendo num dos infernos. Havia se tornado um espírito faminto, um ser com uma barriga enorme, braços e pernas magros e um pescoço finíssimo como um palito. Devido ao pescoço tão fino, não conseguia engolir comida suficiente para satisfazer a sua fome. Sofria muito, sentindo-se “faminto” o tempo todo.

O Buda instruiu este monge a fazer uma oferta de alimentos à comunidade monástica no dia depois do final do retiro de verão tradicional dos monges. Assim que foi feito a oferta, o Maudgalyāyana viu, através de clarividência, que a sua mãe já estava livre de seu sofrimento e renascendo no mundo dos humanos. De tão alegre, ele dançou, o que deu origem de um tradicional modo japonês de dançar chamado Bon Odori.

Na China, devido à influência do confucianismo e taoismo, a oferta passou a ser direcionada também aos antepassados. No taoísmo acreditava-se que pessoas que sofrerem mortes violentas tornaram-se espíritos famintos. Deixar de realizar os serviços em memória dos antepassados com ofertas de alimentos levava-os a virar espíritos famintos que poderiam causar dificuldades para os vivos.

Isso, durante o sétimo mês lunar, período durante o qual se acredita que os portões dos infernos se abrem e os espíritos vêm à terra em busca de comida e entretenimento. Os chineses realizam, até hoje, o Festival dos Espíritos Famintos, quando oferecem alimentos e diversões, como música e danças aos antepassados, sendo que nas apresentações, as primeiras fileiras de assentos são reservadas para os espíritos famintos e ficam vazias.

Desde 657, os budistas japoneses observam o O-bon, a versão japonês deste festival chinês. Atualmente, nos dias 13 a 15 do mês de julho ou de agosto, conforme a região no Japão, as famílias se reúnem para esta celebração. É um feriado nacional, quando todos procuram viajar até o local de seus ancestrais, para visitar o túmulo da família, participar da cerimônia religiosa Sejiki-e e alimentar os espíritos.

No dia 13, pequenos fogos são acesos, para servir de guias para os antepassados voltaram à casa da família para uma visita durante três dias.

Os monges budistas fazem a visita habitual em frente do altar da família, que está montado de uma forma especial com ofertas especiais de alimentos para este período festivo.

Dança-se o Bon O-dori, que lembra a dança do monge Maudgalyāyana , a fim de dizer  aos ancestrais que não se preocupem com seus descendentes, pois estão bem.

Para a Cerimônia Religiosa de Alimentar os Espíritos, o templo é decorado com faixas coloridas e um grande altar – Obon-dana ou Tama-dana – é montado à entrada do templo para facilitar a chegada de espíritos dos infernos e que podem sentir medo de chegar perto do altar principal onde tem a imagem de Buda, um ponto de muita luz. Uma grande variedade de alimentos é colocada sobre este altar: verduras, frutas e produtos alimentícios secos, além de três tigelas especiais: uma com arroz cozido, outra com água limpa e a terceira com uma mistura de arroz cru, lavado e misturado com pequenos pedaços de verduras picadas – mizunoko. Ramos de cedro verde ou de bambu são amarrados em pé nos quatro cantos deste altar.

No centro do altar, é colocado um tablete memorial especial com as palavras San Gai no Ban Rei, isto é, Para Todos os Espíritos nos Três Mundos. Este ritual é dedicado aos espíritos que depois da morte não têm quem cuide de suas sepulturas , pois não mantem nenhum relacionamento com qualquer pessoa viva.

Na cerimônia, é recitado o sutra Kanromon, durante o qual o oficiante faz um ritual de chamar os espíritos famintos e preparar um alimento especial que é dado a eles.

As oferendas são expressões de gratidão aos antepassados, pois além da função de “alimentar os espíritos famintos”, esta é uma cerimônia de lembrança dos antepassados. Assim, os tabletes memoriais dos ancestrais das famílias que estão participando da cerimônia também são colocados neste altar e os seus nomes são lidos durante a cerimônia.

No último dia do O-bon, lanternas de papel – chôchin – são lançadas nos rios para iluminar o caminho de retorno para os ancestrais.

Uma cerimônia semelhante é realizada nos equinócios, também com oferendas de vários tipos de alimentos.

Talvez o aspecto mais importante destas cerimônias esteja no aprender a alimentar o “espírito faminto” que há dentro de nos. Todos têm um lado ganancioso, insaciável, e muitos não abrem o coração para receber ajuda. Ficamos insatisfeitos, sempre querendo mais – um novo celular, um novo jogo, uma nova roupa, um novo par de tênis, mais dinheiro… .

Ao realizar as cerimônias de alimentar os espíritos famintos, na verdade, se está cuidando de si mesmo, para que possa ficar satisfeito.

Ao colocar oferendas de alimentos no altar, se está alimentando a si mesmo, a fim de descobrir o contentamento e, assim, realizar o Caminho de Buda e encontrar a paz e tranquilidade.

Recital de Música Japonesa

setembro 13, 2012 às 3:32 pm | Publicado em Cultura Japonesa, Japão e Cultura Japonês, Música, Música japonesa, Meditação em Porto Alegre, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

O Escritório Consular do Japão em Porto Alegre convida:

“RECITAL DE MÚSICA JAPONESA”

 Dia: 19 de setembro de 2012 (quarta-feira), às 20h

Local: Auditorium Tasso Corrêa – Instituto de Artes da UFRGS (Rua Senhor dos Passos, 248)

Promoção: Escritório Consular do Japão em Porto Alegre e Depto. de Música do Instituto de Artes da UFRGS

ENTRADA FRANCA

Maiores informações: fone (51) 3334-1299

Origami: Buda

setembro 9, 2012 às 1:15 pm | Publicado em Cultura Japonesa, Japão e Cultura Japonês, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre, Zen e as Artes | Deixe um comentário
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Como fazer uma imagen de Buda usando a técnica de Origami – dobradura de papel (aviso: esta é uma dobradura avançada):

Buda (Parte 02)
Buda (Parte 03)
Buda (Parte 04)
Buda (Parte 05)
Buda (Parte 06)
Buda (Parte 07)
Buda (Parte 08)
Buda (Parte 09)
Buda (Parte 10)
Buda (Parte 11)
Buda (Parte 12)
Buda (Parte 13)
Buda (Parte 14)

Outras dobraduras (para os níveis iniciante e intermediário) podem ser encontradas na página de “Diagramas” no site A&M Origami

Viagem ao Japão 2011: 03 – Hiroshima (II)

agosto 24, 2012 às 11:04 am | Publicado em Bomba atômica, Cultura Japonesa, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Viagem ao Japão 2011, Zen Budismo em Porto Alegre, Zen e Artes Marciais | Deixe um comentário

Torre do Castelo de Hiroshima

Dando continuidade à viagem ao Japão para as cerimônias de Zuise, depois da visita ao Parque Memorial da Paz, passei a noite num albergue excelente chamado K’s House; esta foi a minha primeira experiência num albergue japonês. Na maior parte das vezes, os albergues japoneses são bem limpos e confortáveis, apesar dos quartos pequenos. Este não fugiu à regra de limpeza e conforto e, desta forma, passei uma noite bastante agradável.

Na manhã seguinte, lembrando dos meus alunos praticantes de artes marciais, fui visitar o Castelo de Hiroshima. Esse castelo foi construído no século 14 pela família Mori, que governou uma região que hoje engloba Hiroshima, Shimane, Yamaguchi e parte das províncias de Tottori e Okayama. Em 1619 o controle passou para a família Asano, que governou durante 12 gerações até a abolição dos domínios feudais, na restauração Meiji, 250 anos mais tarde.

A menos de 300 metros do epicentro da explosão da bomba atômica, o castelo e seus residentes foram literalmente vaporizados no dia 6 de agosto de 1945. Todos morreram em menos de um segundo.

Uma das torres foi reconstruída em 1958 e hoje serve como museu onde são exibidos um grande número de artigos históricos. O restante da área é mantido como um parque memorial em que se pode ver ruínas de algumas das construções originais, além de três árvores que sobreviveram à bomba.

. Ver as fotos desta etapa da viagem com legendas explicativas no álbum no PicasaWeb.

Postagens anteriores sobre a viagem:
1. Viagem ao Japão 2011: 01 – Tokyo & Sojiji (Yokohama)
2. Viagem ao Japão 2011: 02 – Hiroshima (I)

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