Entrevista da Monja Isshin no “O Popular” de Goiânia

Monja Isshin, maio 2006 A paz está no diálogo
Margareth Gomes
Goiânia, 20 de maio de 2006

Ela já foi musicista, professora de inglês, intérprete e tradutora, depois que trocou os Estados Unidos, onde nasceu, pelo Brasil, em 1971. Mas a mudança mais radical foi abraçar os ensinamentos do zen-budismo, em 1996, quando conheceu a monja Coen. Trata-se da monja Isshin, uma das convidadas especiais de hoje do 2º Só Para Mulheres, ciclo de palestras para o público feminino que está ocorrendo no Centro de Cultura e Convenções de Goiânia. A monja Isshin, que participa da comunidade Zendo Brasil, em São Paulo, fará uma conferência sobre espiritualidade às 14 horas, no Auditório Lago Azul. Em entrevista por e-mail ao POPULAR, ela, que fez quatro anos de treinamento monástico no Mosteiro Feminino de Aichi, em Nagoya, no Japão, fala um pouco sobre os motivos que a levaram a seguir esse caminho. Confira a seguir os principais trechos:

Como ocorreu sua escolha em se tornar monja zen-budista?

Me tornar monja parecia a coisa mais natural. Simplesmente o próximo passo na minha vida naquela época. Gostava muito de música (e ainda gosto), mas sempre queria trabalhar com o ser humano – com a essência da pessoa. E sempre gostei de filosofar, trocar idéias sobre o sentido da vida, de como viver bem. Foi importante a fase da minha vida como musicista, mas me sinto realizada com a atividade de monja.

Quais as principais atribuições e tarefas de uma monja?
Ser monge ou monja significa servir: à comunidade, ao Darma, ensinamentos budistas. Este servir pode se manifestar de várias maneiras: ensinando, oficiando, sendo um modelo de paz. Desde o seu início, há uns 2,6 mil anos, o budismo vem ensinando a não-discriminação, inclusive a não-discriminação em relação à mulher e este ensinamento é mantido na minha tradição, o Soto Zen japonês. Foi o próprio Xiaquiamuni Buda quem ordenou a primeira monja budista e quem ensinou que tanto a mulher quanto o homem são capazes de atingir a iluminação. Há muitos relatos de grandes monjas na história de budismo. Mesmo assim, em muitos lugares, ainda há discriminação, devido às questões culturais. Em princípio, a mulher tem o direito de exercer as mesmas funções que o homem, como ser sacerdote – oficiar cerimônias religiosas, casamentos, funerais, ensinar, fazer palestras, liderar grupos de zazen, ser abade de um templo etc. No Japão, os templos maiores ainda têm um homem como abade, enquanto mulheres freqüentemente são responsáveis por templos menores. Aqui no Ocidente, parece que a igualdade está sendo praticada mais corretamente pelos grupos budistas, conforme os ensinamentos.

A senhora procura espalhar uma mensagem de paz um País que a cada dia tem alcançado patamares nimagináveis de violência, a exemplo do episódio recente
que parou São Paulo sob o comando do PCC. É possível reverter sse quadro de caos, violência e pânico, nas grandes metrópoles?

Sim. Exige determinação, coragem e confiança. A resposta à violência precisa ser uma resposta de paz – paz no coração. Às vezes, determinadas circunstâncias exigem respostas fortes, pois o crime tem de ser punido. Mas não se pode agir com violência no coração – raiva, ódio, medo. Acho importante desenvolver mais projetos de educação pela não-violência e que trabalham com os jovens na hora da primeira e segunda ofensa por delito menor, evitando-se enviá-los para a escola de criminalidade, onde convivam com os infratores endurecidos. Como sociedade, precisamos olhar mais fundo nas causas reais da violência e trabalhar, com a educação e o diálogo, essas causas mais profundas. Não se limitam às desigualdades sociais (que sempre existiram), mas podem ser encontradas nas nossas atitudes, pressuposições e nos tipos de entretenimento e estilo de jornalismo que aceitamos. Na medida em que cada um de nós deixa de cultivar as sementes de violência, corrigindo os pensamentos de divisão – direitos sem deveres, sensacionalismo, filmes e videogames violentos – até as nossas violências para conosco e com os nossos corpos. Assim, podemos corrigir a violência que se manifesta na sociedade.

Como fazer para buscar o equilíbrio interior num undo de relações altamente competitivas e comerciais?
Acredito que a educação e a espiritualidade são as principais ferramentas. Uma educação que não se limita à transmissão de informações técnicas, mas que desperta o questionamento de valores, o caráter, a sensibilidade humana e artística, os direitos e deveres, o diálogo e a convivência harmoniosa. Falo de uma espiritualidade de buscar a sua própria essência e a sua manifestação no mundo real. A espiritualidade não se limita ao momento em que estamos dentro da igreja ou templo, mas deve levar a uma transformação da vida e do coração da pessoa.

Como manter o bom humor, diminuir os níveis de irritação, diante e fatores cotidianos tão desgastantes como engarrafamento de rânsito, agenda sempre cheia de compromissos, tarefas domésticas?
Manter-me consciente da própria respiração, fazer micromeditações no decorrer do dia me ajudam a não me deixar ser levada pela irritação. A não me deixar ser escravizada pelo telefone (posso deixá-lo tocar mais uma vez enquanto faço uma respiração), pelo celular (posso desligá-lo no cinema), pela internet (não preciso estar on-line 24 horas). Um farol fechado oferece uma oportunidade excelente de fazer uma micromeditação, de olhos entreabertos (posso ver quando o farol se abrir), durante o qual posso voltar para mim mesma, à minha respiração, descansar um momento – só isso pode fazer uma diferença impressionante! A prática de meditação em grupo, retiros de meditação intensiva me ajudam muito para retomar as rédeas da minha vida no dia-a-dia.

Como é exercitar o diálogo, o perdão, numa sociedade m que poucos param para ouvir, sentir o próximo?
A paz começa com cada um de nós, individualmente, praticando o diálogo, o ouvir profundamente, a compaixão, o respeito, a aceitação, a não-violência ativa. À medida que desenvolvo essa prática, afeto as pessoas com as quais tenho contato. Assim, passo a passo, podemos transformar a sociedade.

Quais os principais caminhos para o autoconhecimento?
A prática da espiritualidade é o caminho principal para o autoconhecimento. Para mim, esse caminho é zen budista, no qual pratico a meditação, estudo os preceitos e outros ensinamentos budistas e desenvolvo-os junto à comunidade, onde os outros são espelhos, me refletindo de volta para mim.

É possível ter espiritualidade sem ter religião?
Se pela palavra religião entende-se religar, a verdadeira religião está na espiritualidade que nos reconecta com a nossa essência e não seria possível separar espiritualidade de religião. Acredito que é possível ter igrejas, templos, sinagogas, mesquitas, onde essa espiritualidade é praticada. Mas, se pela palavra religião, está se referindo a instituições humanas, com dogmas, conceitos e, eventualmente, uma fé cega, acho que, para se ter uma verdadeira espiritualidade, teria de ser sem essa religião.

Que músicas a monja curte ouvir?
Toda música tem o seu momento. Por exemplo, curto bossa-nova numa festa, adoro karaokê, gosto de música da nova era para relaxar e tenho paixão por Mozart e Bach.

“A paz começa com cada um de nós, individualmente, praticando o diálogo, a compaixão, o respeito. À medida que desenvolvo essas práticas, afeto as pessoas com quem tenho contato”

“O Popular On-line”

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