Secularização do Budismo – torná-lo acessível ou arrancar-lhe as raízes?

fevereiro 25, 2015 às 9:55 pm | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Professor de Darma Zen Budista, Revistas - Artigos e Entrevistas, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Imagem encontrado na página: http://pixabay.com/pt/equil%C3%ADbrio-medita%C3%A7%C3%A3o-meditar-110850/

texto por: Ethan Nichtern
Uma postagem convidada para o One City Blog por Vince Horn do Buddhist Geeks (Biografia Abaixo)

Hoje é algo muito comum e moderno querer secularizar o Budismo. Muitas organizações e movimentos sérios se orientam por esta premissa. Para ver o amplo alcance da secularição do Budismo basta observar o trabalho que o Mind e Life Institute está fazendo para tornar a meditação uma tendência dentro das ciências ou o trabalho que Jon Kabat-Zinn realizou com a técnica de Redução de Estresse Baseada em Plena Atenção.

De fato, tive muitas excelentes conversas, para o Buddhist Geeks Podcast, com alguns dos líderes desse movimento, incluindo o fundador do Mind and Life Institute, Adam Engle, e o monge zen Norman Fischer. Cada um deles apresentou razões extremamente boas para secularizar o dharma, logo não é difícil apreciar o trabalho que eles estão desenvolvendo. Mesmo assim, acredito que há algo limitante em esta ser a única ou a principal abordagem ao transmitirmos o Dharma para o Ocidente.

Mas permitam-me ser claro sobre o que quero dizer com “secularizar o Budismo”. Trato, especificamente, da tentativa de remover as “roupagens culturais” das tradições enquanto preservamos e re-embalamos a “essência” da tradição (que geralmente tem algo a ver com a prática da meditação). Durante o processo, a linguagem religiosa é jogada fora e uma nova linguagem “menos religiosa” é utilizada em substituição. Frases como “Budismo é mais uma ciência que uma religião” ou “a tecnologia central do budismo é a meditação” são indicadores do impulso secular. O problema é que o Budismo é uma religião. E é uma ciência. E é mais ainda…

Secularização é Sexy

Antes de entrar em alguns dos problemas que tenho notado nas premissas por detrás da secularização do Budismo, gostaria de reconhecer os resultados benéficos desse movimento. O principal parece ser que algumas das maravilhosas práticas de meditação e talvez algumas noções dos modelos por detrás delas são mais capazes de entrar na cultura dominante. Ainda vou chegar no porquê que assumir que a cultura dominante ocidental seja secular é um problema, mas por hora vamos apenas presumir que de outra forma muitas das pessoas não seriam apresentadas a estas práticas do Budismo secular. Isto é algo maravilhoso. Conectado a isso vemos o campo da “Ciência Contemplativa” começando a ser validado, bem como todo um grupo grande de cientistas fazendo carreira nesta intersecção. Há também muitos modos nos quais práticas meditativas baseadas no budismo tem sido levadas até contextos educacionais. Logo, deve ser reconhecido que existem benefícios reais surgindo de alguns desses movimentos, e eles devem continuar.

Seria o Ocidente realmente secular?

E agora, algumas de minhas maiores preocupações. Uma é acharmos que a cultura ocidental dominante realmente é secular. Alguém percebeu que, de fato, somos uma cultura incrivelmente religiosa? Algumas partes da Europa são um pouco menos, mas nos Estados Unidos aproximadamente 85% das pessoas se auto-identificam com alguma tradição religiosa. Isto nos torna uma sociedade secular ou uma altamente religiosa? E não vamos confundir a separação da Igreja em nosso processo político (o qual foi, na realidde, desenhado para apoiar os cristãos evangélicos que estavam sendo perseguidos e não os ateus que tinham receio de a religião corromper o governo) com ter uma sociedade secular. Nosso processo governamental tenta ao máximo não ser influenciado por qualquer tradição religiosa, mas temos um país repleto de pessoas religiosas que são ativas na governança.

E há esta ideia estranha que realmente existe uma dicotomia entre ciência e religião e que para que algo seja científico este não pode ser religioso (e vice versa). Mas será realmente este o caso, temos que arrancar qualquer coisa que remonte a “religião” do Budismo para que nossa cultura seja capaz de tolerá-lo?

Ai! Estas são minhas raízes!

O outro problema com a abordagem secular é que, frequentemente, na tentativa de distanciar-se do “Budismo como religião”, ocorre o descarte da significância histórica da tradição budista. Se você passar algum tempo estudando a história do Budismo, logo verá que é uma tradição religiosa antiga e em costante mudança. Ela possui uma série de práticas e crenças que se espalharam e misturaram com muitas outras influências. O Budismo, quando entrou no Tibet a partir da índia, misturou-se com o tradição xamanística Bon que lá havia. Quando entrou na China, mesclou-se com a influência do Confucionismo e o Taoísmo. E agora, ao entrar no Estados Unidos, está se misturando com nossa cultura científica e com as crenças estranhas sobre a diferença extrema entre religião e ciência. O problema em não enxergar como o Budismo evoluiu e em não ver a nós mesmos como parte desta evolução é que podemos acreditar que, de algum modo, somos os possuídores da “essência” do Budismo.

Mas o que é a essência removida das práticas, realizações, modelos e pessoas que contribuíram para esta tradição viva? Isto realmente existe? É possível que a ideia toda de uma essência do Budismo distinta de suas formas externas – aquelas formas que são tão irrelevantes que podemos simplismente ignorá-las e jogá-las fora – estaria vindo de um conjunto de pressupostos culturais que existe neste lugar e época? Temos que reconhecer essa possibilidade e enxergar que existe um tipo de violência em tentar arrancar algo de suas raízes históricas e que existe também um tipo de arrogância ao pensarmos que podemos ser bem sucedidos nesta empreitada.

Algumas questões para ainda considerar

Algumas questões que colocaria a mim mesmo e a algumas pessoas que se consideram influenciadas pela tradição Budista: estamos tão constrangidos por alguns componentes do Budismo (a aderência a códigos morais rigorosos, o mágico e mítico panteon da cosmologia budista, a metafísica da iluminação, etc) que sentimos a necessidade de jogar fora todos eles sem qualquer questionamento? Ou podemos suportar a dor de saber que todos os ensinamentos maravilhosos que advêm da tradição budista também são acompanhados de coisas que podemos não gostar ou entender? E se nós sabemos disso, pode isto significar que cada um de nós tem que lidar com o passado, presente e futuro do Budismo e suas relações com nossas vidas? Podemos realmente confiar que coisas como Redução de Estresse Baseado em Plena Atenção estão levando adiante todo o potencial da tradição budista? Com a secularização do Budismo, será que estamos corrento o risco real de perder algo de incrível importância enquanto tentamos dispensar o que consideramos não-essencial? Estas são questões que eu continuo a ponderar, sendo tanto um amante da sabedoria que é carregada através da tradição budista quanto da inovação e novas formas pelas quais aquela sabedoria pode ser carregada. Minha intuição é que ambas podem ser honradas – tradição e inovação – mas não se uma for valorizada em detrimento da outra. E certamente não honraremos se nós não nos colocarmos essas difíceis questões.
————————————-
Vince Horn vive como um monge moderno. Passa parte do seu ano em silêncio, meditando, em introspecção, desenvolvendo a espiritualidade. O resto do tempo passa engajado no mundo, onde produs e apresenta o show popular Buddhist Geeks, trabalha no departamento de produção da companhia de publicações espirituais Sounds True e escreve para várias publicações, incluindo seu blog pessoal Numinous Nonsense – e aprecia viver em Boulder, Colorado com sua esposa Emily.

 

Tradução livre do grupo “Tradutores do Zen” (colaborou neste texto Bruno Melnic Pir (inclusive revisão ortográfica); supervisão de Isshin-sensei). Texto originalmente publicado no site http://www.beliefnet.com/

Anúncios

Deixe um comentário »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: