Comprando o Dharma (final)

agosto 25, 2014 às 1:30 pm | Publicado em Professor de Darma Zen Budista, Revistas - Artigos e Entrevistas | Deixe um comentário

(continuação da 1ª parte)
A mentalidade consumista contagia os professores também. Notícias de eventos do dharma não anunciam apenas um evento, mas vendem um produto, nesse caso o professor ou o ensinamento. A maioria das propagandas mostra uma foto atrativa de um mestre espiritual sorrindo radiante ou parecendo sábio à distância. Ele ou ela é, assim como a propaganda declara, alguém grandemente realizado, bem respeitado, um mestre totalmente consumado. O tema a ser ensinado é um ensinamento secreto que no passado foi ensinado somente a um número seleto de discípulos qualificados. É o ensinamento supremo através dos qual os mestres anteriores atingiram a iluminação. Você pode receber tudo isso por apenas R$199,00 mais a dana para o professor. Registre-se cedo para reservar um assento. O que aconteceu com o antigo costume de mestres humildes que mantinham suas qualidades ocultas?

Com uma motivação sincera, deixar as pessoas que poderiam se beneficiar de um ensinamento espiritual ou retiro saberem a respeito, é válido e necessário. Precisamos considerar como fazer isso sem exageros em uma cultura que prospera no exagero.

Em uma economia de consumo o sucesso é medido em números. Deste modo muitos professores espirituais esperam que o público que vem aos ensinamentos seja grande, que a dana cresça continuamente, que seus livros vendam bem, e que convites para falar nos programas de televisão e de rádio sejam abundantes. Até que ponto nós decidimos onde vamos ensinar baseados na quantidade de dana que receberemos? É apenas coincidência que muitos professores vão apenas a comunidades ricas? Quantos professores vão a países em desenvolvimento ou a regiões de baixa renda em nosso próprio país, onde a dana é mísera?

São necessários fundos para divulgar os ensinamentos. De que forma os professores podem conseguir apoio consistente com um meio de vida correto? Nós fazemos insinuações, adulamos, ou sutilmente coagimos as pessoas de modo que venham a oferecer dinheiro para nós ou nossa organização? Concedemos aos doadores regalias extras que são negadas aos outros devotos, que podem ser mais sinceros, mas não tão bem de vida? Para promover um produto, ele deve ser atraente a compradores em potencial. O Budismo diz que meios hábeis – ensinar de acordo com a disposição e os interesses dos alunos – são necessários para guiar as pessoas no caminho. Mas, quando nossos meios hábeis degeneram em promoção?

Omitimos certas ideias ou ensinamentos, ou os negamos porque potenciais alunos não gostam deles e parariam de vir? O quanto nós diluímos os ensinamentos das escrituras em nome dos meios hábeis, quando nossa motivação é na verdade atrair e manter um grande número de discípulos?

Nossa mentalidade de consumo como alunos e professores espirituais nos arrasta para longe de realizar nossas aspirações espirituais mais profundas. No Budismo a distinção entre ações espirituais e não espirituais é feita primariamente em termos de motivação. Motivações que buscam apenas a felicidade nesta vida são consideradas mundanas porque focam em nossa própria felicidade imediata; motivações aspirando ao bom renascimento futuro, libertação e iluminação são espirituais porque buscam objetivos de longo prazo que beneficiam a si e a outros.

Ao descrever uma mente que busca a felicidade só nesta vida, o Buda destacava oito preocupações mundanas. Estas oito se dividem em quatro pares: (1) apego a ter dinheiro e posses materiais – desprazer quando não os temos; (2) apego ao elogio, aprovação e palavras que encham o ego – desprazer quando somos criticados; (3) apego a ter uma boa reputação e imagem – desprazer quando elas são manchadas; e (4) apego a objetos agradáveis aos sentidos (visões, sons, cheiros, sabores e objetos táteis) – desprazer quando encontramos objetos desagradáveis aos sentidos. Pessoalmente falando, quando examino meus estados mentais, a maioria deles consiste nestes oito, de tal modo que uma pura motivação do dharma é bem difícil.

O consumismo espiritual claramente se enquadra nas oito preocupações mundanas. Embora seja frequentemente mascarado por racionalizações inteligentes, ele ainda nos escraviza à felicidade só desta vida e sabota nossa nobre aspiração para que nenhuma prática do verdadeiro dharma possa de fato acontecer.

Talvez mais doloroso seja o dano que o consumismo espiritual causa a outros. Ele ameaça a pureza de nossas tradições espirituais aliciando-nos a “ajustar” o significado dos ensinamentos, privando assim as futuras gerações de instruções espirituais puras. Faz com que os outros percam a fé na eficácia da prática porque nos veem ensinando uma coisa, mas agindo de forma contrária. Leva instituições espirituais a criar estruturas que prejudicam as próprias pessoas que prometem ajudar.

Nossa mentalidade de consumo como alunos e professores espirituais nos arrasta para longe de realizar nossas aspirações espirituais mais profundas.

Precisamos nos tornar conscientes de como a mentalidade de consumo funciona em nós e em nossas comunidades e instituições espirituais. Precisamos redespertar o apreço pelo modelo tradicional de um praticante que viva uma vida de simplicidade e humildade, sinceridade e esforço, gentileza e compaixão. Precisamos escolher professores com estas qualidades, cultivar estas qualidades em nós mesmos e guiar nossos alunos para seu desenvolvimento. Precisamos nos lembrar de que o propósito de uma instituição espiritual não é preservar a si mesma, mas facilitar o ensinamento e a prática de uma tradição espiritual. Deveríamos ter uma estrutura institucional suficiente apenas para fazer isto e nada mais. Isto é essencial para manter a vitalidade de nossas tradições espirituais e evitar que elas se tornem conchas vazias.

Os budistas estão tentando introduzir os valores do dharma e estabelecer um papel substancial para o dharma na cultura ocidental, mas a mentalidade de consumo dificulta isto. Nosso desafio coletivo é praticar e ensinar o dharma de maneira que beneficiem a cultura contemporânea e ao mesmo tempo preservem a pureza dos ensinamentos.

Aluna de S. S. o Dalai Lama, Bhikshuni Thubten Chodron é monja desde 1977. Ela é conselheira espiritual da Fundação Dharma Friendship e cofundadora da Sravasti Abbey.

Tradução livre do grupo “Tradutores do Zen” (colaboraram neste texto Josiane Paula Borges e Emerson Ricardo Zamprogno; supervisão de Isshin-sensei; revisão ortográfica de Rodrigo Daien). Texto originalmente publicado no site http://www.tricycle.com, de autoria de Bhikshuni Thubten Chodron.

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