Perdendo Nossa Religião – Parte 3

junho 5, 2014 às 9:18 pm | Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

(continuação da 2ª parte)
Como esta ideia – de que o Buddhismo aponta para uma verdade essencial, experiencial, além do próprio Buddhismo – se torna um problema? Eu acho que existem vários problemas. Por um lado, muitos textos buddhistas e professores argumentam que, se o Buddhismo diz respeito a algo, é justamente a criticar essências! Há também certa arrogância ao afirmar que o Buddhismo não é tanto uma religião, mas o caminho para a verdade por trás de todas as religiões. Em outras palavras, quando Suzuki e outros mestres buddhistas contemporâneos argumentam que todas as religiões emergem e apontam para uma única verdade, eles também implicam que Buddhismo, bem entendido, é a expressão mais direta daquela verdade. Eu participei de alguns “diálogos” entre buddhistas e cristãos em que o discurso dos professores buddhistas sobre o sentido último ou essência do cristianismo, dito a respeitados líderes cristãos, pareceu-me arrogante, para dizer o mínimo.

De qualquer forma, esta ênfase em uma experiência única determinante tem sido muito influente no desenvolvimento do buddhismo no Ocidente. Por exemplo, o mestre zen japonês Hakuun Yasutani [1885-1973] foi professor de alguns dos mais expressivos professores no Ocidente, incluindo Philip Kapleau Rōshi, Taizan Maezumi Rōshi, Robert Aitken Rōshi e Eido Shimano Rōshi. Yasutani era famoso por sua ênfase primordial em kenshō, o que significa o mesmo que satori. (1) No Japão, ele era uma figura marginal, praticamente ignorada pelos mestres Sōtō e Rinzai. Mas, no Ocidente, em grande parte por causa do trabalho de seus discípulos, a sua abordagem do Zen e sua ênfase no kenshō tornaram-se fundamentais. Da mesma forma, se você pratica meditação vipassanā (insight) nos Estados Unidos, as chances são boas de você estar usando técnicas estabelecidas por Mahasi Sayadaw ou U Ba Khin, dois professores birmaneses de meditação do século XX. No entanto, esses dois professores eram controversos no mundo Theravada justamente por causa da ênfase que colocaram na rápida obtenção de estados experienciais, especialmente sotāpatti, ou “entrada no fluxo”. Sotāpatti, como kenshō ou satori, entende-se como uma súbita, determinante, e radicalmente transformadora experiência – um vislumbre do nirvana.

Infelizmente, essas experiências parecem mais claras na teoria do que na vida real, em que mestres de meditação gastam um tempo nada pequeno discutindo sobre o que as constitui, quem realmente as teve, quem é genuinamente qualificado para julgar tais coisas, qual método conduz a uma autêntica experiência, quais métodos levam a alguma versão falsa, e assim por diante. É significativo que Yasutani Rōshi, Mahasi Sayadaw e U Ba Khin todos foram criticados por muitos de seus pares por ofertarem uma versão “solução rápida” do Buddhismo.

Mas, essas controvérsias não são realmente o ponto. Eu acho que é certo tratar a meditação como uma disciplina religiosa séria que pode ajudar a superar o desejo e o apego. Esta abordagem é perfeitamente consistente com muitos ensinamentos buddhistas. Mas essa perspectiva é muito diferente de ver a meditação como o alfa e o ômega do Buddhismo, e também é diferente de ver a meditação em termos utilitários – um meio de provocar uma experiência, como o kenshō ou sotāpatti, que imediatamente transformam toda a existência de alguém. Buddhismo, como a vida, não é tão simples assim. Eu acho que muitos professores e praticantes americanos começaram a apreciar este fato, ainda que os velhos hábitos custem a morrer.

Mas para voltar ao seu ponto, o que se perde quando a primazia é dada à experiência espiritual individual? O Sangha se perde! A comunidade se perde. O Buddhismo tem o que chamamos os Três Tesouros: o Buddha; o Dharma, ou o seu ensinamento; e o Sangha, ou a comunidade religiosa. Ao longo da história, cada um destes tem sido interpretado de várias maneiras, mas a ideia de que um deles pudesse não ser tão importante nunca iria decolar. Mas, se você vir o Buddhismo como uma questão de experiência interior, você subestimará a sua dimensão coletiva, os recursos tradicionais que servem para aprofundar e ampliar os laços da comunidade e da tradição.

Hoje, muitas vezes você ouve muitos se descreverem como “espiritual, mas não religioso”. O que eles querem dizer, eu acho, é que eles se preocupam profundamente com suas vidas espirituais e psicológicas, mas eles não estão particularmente interessados em se afiliar a uma tradição ou instituição religiosa. O modernismo buddhista fornece uma perspectiva que não só facilita esse tipo de apropriação do Buddhismo, mas faz com que esta seja desejável.

Eu acho que essa profunda desconfiança contra as instituições religiosas é compreensível, mas, também equivocada. A instituição organizada governada pelas regras e pela tradição do Sangha fornece uma estrutura que, pelo menos idealmente, ajuda a apagar o egocentrismo. O Sangha literalmente encarna a tradição buddhista; transcende as autopreocupações de qualquer pessoa, especialmente as preocupações que surgem de termos colocado nossas vidas interiores no centro do Universo. Então, devemos nos perguntar se o Buddhismo, quando praticado sem os laços da comunidade e da tradição, em vez de mitigar a nossa tendência ao narcisismo, na verdade não a alimenta.

Historicamente, a autoridade dos professores buddhistas foi conferida e mediada pela instituição do Sangha, especificamente a comunidade ordenada, que trabalhou em um sistema mais ou menos rigoroso de senioridade. Naturalmente, pessoas muitas vezes se especializaram em determinado domínio – exegese, prática litúrgica, meditação e assim por diante – e algumas poderiam ser reconhecidas por suas áreas específicas de saber. Mas a ideia geral era de que antes que você pudesse afirmar que representa o Dharma, você tinha que absorver completamente e participar da vida da instituição à qual o Dharma tinha sido confiado. Mas, se as instituições não importam, se o conhecimento básico e a compreensão das Escrituras não importam, e se o Buddhismo é reduzido a uma experiência interior, não importando como você interpreta esta experiência, então, a autoridade torna-se uma questão de carisma pessoal. Sem o apoio e os freios e contrapesos que fazem parte de uma vida forte na comunidade, a autoridade e o destaque de qualquer professor particular, seja por opção ou necessidade, são amplamente baseados em sua habilidade como um empreendedor. Em resumo, os professores são obrigados a fazer o marketing, mesmo tacitamente, de sua própria iluminação. E é precisamente a situação de tantos professores nos Estados Unidos. Vivendo como fazemos em uma economia de mercado, eu acho que esse tipo de modelo empresarial exige escrutínio, no mínimo. (Segue)

Tradução livre do grupo “Tradutores do Zen”, sob supervisão de Isshin-sensei, de entrevista originalmente publicada no site http://www.tricycle.com/.

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  1. […] Como já mencionei, os buddhistas modernistas foram influenciados por pensadores protestantes que interpretaram a religião como uma questão de experiência interior. Para traduzir a experiência buddhista em termos passíveis de serem compreendidos pelos ocidentais, D. T. Suzuki emprestou termos de uma série de fontes ocidentais, incluindo o filósofo William James. Suzuki era fascinado pela noção de James de que a experiência religiosa é uma espécie de experiência direta pura, que é não mediada pela formação cultural ou religiosa. Suzuki e outros modernistas argumentaram que satori – a experiência repentina de um estado iluminado – seria a experiência não mediada a que James se referia, e que esta experiência não só era a essência do Buddhismo, mas, a essência de todas as religiões. Ao insistir que alguma experiência específica, reproduzível, inefável, está no cerne da tradição buddhista, eles acabaram por “essencializar” o Buddhismo. (Segue) […]

  2. […] (continuação da 3ª parte) […]


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