Perdendo Nossa Religião – Parte 2

junho 4, 2014 às 3:00 pm | Publicado em Entrevista | 2 Comentários

(continuação da 1ª parte)
Há dois aspectos no modernismo buddhista que você trata que eu estou especialmente interessado em ouvir você abordar: a suposta compatibilidade do Buddhismo com a ciência e a perspectiva privilegiada da espiritualidade individual sobre o que muitos consideram ser a decoração exterior da religião. Estes são os pressupostos fundamentais para muitos buddhistas ocidentais; no entanto, é evidente que em seus escritos você os considera como leituras muito seletivas da tradição buddhista. Vamos começar com o primeiro, a afirmação de que o Buddhismo é consistente com a visão de mundo racional-científica ocidental. Este tem sido um de seus grandes atrativos, e certamente tem recebido muita atenção nesta revista (Tricycle). Na verdade, não é raro ouvir falar do Buddhismo como uma ciência da mente. O cânone buddhista é tão grande que você pode sempre encontrar passagens aqui e ali que apoiam qualquer leitura da tradição que você preferir. Por mais de dois mil anos, professores buddhistas influentes o leram seletivamente para promover e justificar a sua própria compreensão do Buddhismo, e não é diferente com aqueles que querem mostrar que o Buddhismo é compatível com a ciência. Você sabe, quando jovem, Daisetz Teitaro Suzuki [1870-1966] – que foi de longe o mais influente intérprete do Buddhismo Zen para o Ocidente e o mais proeminente buddhista modernista – passou muitos anos em LaSalle, Illinois, onde ajudou o editor Paul Carus, o autor de “O Evangelho de Buddha”. Carus estava interessado em uma grande síntese entre ciência e religião; ele chamou sua filosofia de “Religião da Ciência” e publicou muitos livros a respeito. Seu entusiasmo para com o Buddhismo resultou da sua convicção de que Buddha foi o primeiro profeta desta Religião da Ciência. Em sua juventude, Suzuki admirava muito Carus, e sua tradução do “Evangelho de Buda” de Carus tornou-se um best seller buddhista no Japão – até mesmo o clero o estava estudando! Então, aqui está um caso em que uma leitura ocidental e não buddhista do Buddhismo veio a influenciar a sua expressão asiática de uma maneira que encantou os ocidentais posteriores. Em outras palavras, parte do apelo do Buddhismo no Ocidente foi que o Buddhismo que estávamos vendo já tinha sido lançado em um molde ocidental.

Budistas, como os cristãos, tiveram pouca escolha a não ser se aproximarem de sua tradição seletivamente. Zen-buddhistas, por exemplo, dão preferência a certos textos e comentários, e eles fazem isso de forma muito diferente de como os buddhistas Theravada ou Terra Pura o fazem. Minha preocupação não é com a seletividade de quem lê o Buddhismo como uma religião racionalista e científica – é perfeitamente compreensível, dado o mundo em que vivemos. Realmente não é uma questão de interpretação errada. É uma questão do que se perde no processo.

Você pode me dar um exemplo do que se perde? Bem, deixe-me voltar um momento. A fim de tornar o Buddhismo compatível com a ciência, o modernismo buddhista, parece-me, aceita um entendimento dualista cartesiano do mundo. Em outras palavras, você desenha uma linha metafísica através do mundo: há o mundo espiritual imaterial da mente de um lado, que é o domínio próprio da religião; e há o mundo físico ou material de outro, um mundo governado por leis mecanicistas, o qual é do domínio da ciência. Uma vez que você aceita essa imagem do mundo, religião é compatível com ciência só na medida em que é relegada ao reino da experiência interior. Religião, entendida desta forma, não tem valor no mundo empírico. Ritual tem valor apenas indiretamente – como uma maneira de produzir mudança psicológica. Veja como muitos buddhistas ocidentais suspeitam do ritual religioso. E quando nós desvalorizamos o ritual, corremos o risco de enfraquecer os nossos laços com a comunidade e a tradição. Essa é uma perda muito grande.

Eu suspeito que a maioria dos professores buddhistas ao longo da história deve ter achado essa visão cartesiana de mundo muito estranha. Ao descartar tudo o que não se encaixa em nossa visão moderna, nós comprometemos a capacidade da tradição de criticar essa visão moderna. O Buddhismo se desenvolveu em um contexto histórico e cultural muito diferente do nosso. A tradicional epistemologia buddhista, por exemplo, simplesmente não aceita a noção cartesiana de um fosso intransponível entre a mente e a matéria. A maioria das filosofias buddhistas sustenta que mente e objeto surgem interdependentemente, então, não há nenhuma maneira fácil de separar a compreensão do mundo, do mundo em si mesmo.

Que tipo de crítica do ponto de vista científico pode o Buddhismo oferecer de forma distinta? A postura do naturalista – a ideia de que existe um mundo insensível independente lá fora governado por leis científicas e processos impessoais – é, em última instância, uma construção humana, uma poderosa e eficaz construção humana, mas, uma construção, no entanto. Isto não é negar o poder da ciência, mas, isso põe em questão a forma como abordamos o conhecimento científico. Claro, há muitos filósofos, cientistas e historiadores da ciência que fizeram algo semelhante. Mas o Buddhismo tem suas próprias ideias e perspectivas para oferecer. Em outras palavras, quando nos envolvemos seriamente com a tradição buddhista, aprendemos outras formas de interpretar o mundo, outras histórias que podemos contar sobre como as coisas são, e estas podem ser persuasivas, coerentes e convincentes à sua própria maneira. Isto não é defender uma aceitação ingênua da epistemologia buddhista e sua cosmologia. Mas, não veremos o que o Buddhismo tem a oferecer, se desde o início o distorcemos para adequá-lo às normas contemporâneas.

O segundo ponto – que Buddhismo seria realmente sobre a experiência espiritual do indivíduo e não sobre instituições religiosas, crenças, doutrinas ou rituais – é uma suposição tão profundamente enraizada na prática buddhista no Ocidente, que eu acho que muitos se questionam se ela é, na visão buddhista, aberta à crítica. Eu certamente não acho que a experiência pessoal, meditação, espiritualidade, e assemelhados não são importantes ou não têm lugar no Buddhismo. O Buddha, afinal, alcançou a iluminação enquanto meditava debaixo da árvore Bodhi. Minha preocupação é com a forma com que o modernismo buddhista isolou a meditação do contexto de toda a vida religiosa buddhista. Muito do que já foi considerado parte integrante da tradição foi abandonado nesta corrida para celebrar a meditação – ou mindfulness, ou transformação pessoal, ou experiência mística – como a essência sine qua non do Buddhismo. Mais uma vez, não é realmente uma questão de certo ou errado. É uma questão daquilo que se perde.

Como já mencionei, os buddhistas modernistas foram influenciados por pensadores protestantes que interpretaram a religião como uma questão de experiência interior. Para traduzir a experiência buddhista em termos passíveis de serem compreendidos pelos ocidentais, D. T. Suzuki emprestou termos de uma série de fontes ocidentais, incluindo o filósofo William James. Suzuki era fascinado pela noção de James de que a experiência religiosa é uma espécie de experiência direta pura, que é não mediada pela formação cultural ou religiosa. Suzuki e outros modernistas argumentaram que satori – a experiência repentina de um estado iluminado – seria a experiência não mediada a que James se referia, e que esta experiência não só era a essência do Buddhismo, mas, a essência de todas as religiões. Ao insistir que alguma experiência específica, reproduzível, inefável, está no cerne da tradição buddhista, eles acabaram por “essencializar” o Buddhismo. (Segue)

Tradução livre do grupo “Tradutores do Zen”, sob supervisão de Isshin-sensei, de entrevista originalmente publicada no site http://www.tricycle.com/.

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  1. […] O modernismo buddhista foi um movimento global, uma espécie de fusão cultural, em que os interesses dos buddhistas asiáticos e buddhistas ocidentais entusiastas convergiram. Para os asiáticos, as críticas à religião que se originaram no Ocidente ressoaram com as suas próprias necessidades, enquanto eles lutavam com convulsões culturais em suas terras natais. Para os ocidentais, o Buddhismo parecia oferecer uma alternativa espiritual atraente para as suas próprias tradições religiosas aparentemente moribundas. A ironia, claro, é que o Buddhismo para o qual estes ocidentais foram atraídos foi um que já havia se transformado por seu contato com o Ocidente. (Segue) […]

  2. […] (continuação da 2ª parte) Como esta ideia – de que o Buddhismo aponta para uma verdade essencial, experiencial, além do próprio Buddhismo – se torna um problema? Eu acho que existem vários problemas. Por um lado, muitos textos buddhistas e professores argumentam que, se o Buddhismo diz respeito a algo, é justamente a criticar essências! Há também certa arrogância ao afirmar que o Buddhismo não é tanto uma religião, mas o caminho para a verdade por trás de todas as religiões. Em outras palavras, quando Suzuki e outros mestres buddhistas contemporâneos argumentam que todas as religiões emergem e apontam para uma única verdade, eles também implicam que Buddhismo, bem entendido, é a expressão mais direta daquela verdade. Eu participei de alguns “diálogos” entre buddhistas e cristãos em que o discurso dos professores buddhistas sobre o sentido último ou essência do cristianismo, dito a respeitados líderes cristãos, pareceu-me arrogante, para dizer o mínimo. […]


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