O jogo de bonzinho (2)

janeiro 23, 2014 às 10:27 am | Publicado em Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 7 Comentários

continuação de O jogo de bonzinho, parte 1

O japonês, na minha experiência, sorri e se mostra agradável com a finalidade de harmonizar os relacionamentos, procurando deixar a outra pessoa confortável. Pelas regras sociais japoneses, nunca se deve deixar a outra pessoa passar por um constrangimento ou ficar com vergonha em público (“lose face” em inglês). Nas empresas, esta mesma regra se aplica e, ao terminar o expediente, frequentemente todos vão a um boteco beber. Nesta hora, sob o pretexto de estar bêbado, o subordinado expressa suas opiniões e faz suas críticas ao superior, que ouve. Se o chefe achar que havia fundamento nas colocações do subordinado “bêbado”, ele implementa mudanças já no dia seguinte, quando tudo volta ao padrão de evitar confrontos. Ou, quando as reclamações foram baseadas em mal-entendidos, o bom chefe vai buscar meios para esclarecer aquilo que estava causando problema para o subordinado. Quer dizer, neste modelo, que parece ser tão semelhante ao tipo “bonzinho” brasileiro, existe a saída onde os sentimentos são expressos, ouvidos e, espera-se, resolvidos. É óbvio que o sistema nem sempre funciona, pois os japoneses são “seres humanos” como todos nós, mas este sistema tem funcionado bem na cultura deles já há alguns séculos.

Agora, a motivação do brasileiro ao agir como um “bonzinho” me parece ser totalmente diferente. A impressão que tenho é que ele é motivado pelo desejo de fugir das brigas por comodismo e não por consideração ao outro ou para proteger o relacionamento. Geralmente, esta pessoa tem medo das discussões e quer ser vista como “santa” – ou, pelo menos, como “santinha”. Certamente, não deseja ser vista como uma pessoa briguenta ou raivosa.

Afinal, na história brasileira, temos a Inquisição, a escravidão, a ditadura… Um sorriso no rosto e cara de bonzinho ficou uma questão de sobrevivência na mente coletiva do povo. E imagino que isto deve estar profundamente enraizado na mente coletiva do brasileiro e outros povos sul-americanos.

Numa Sanga, os conflitos são inevitáveis entre os praticantes e entre professor e aluno. E surgem os comportamentos de “bonzinho” e “boazinha”. O aluno não entendeu alguma coisa que foi dita, não gostou de algum comportamento do professor ou de uma colega, mas não tem a coragem de tratar o assunto direta e corretamente com a pessoa em questão. Ao se perguntar por que não vai lá conversar, uns simplesmente se fecham enquanto outros alegam que “não querem briga”, em tom de vítima impotente perante o outro que é mau.

Muitas vezes, recorre às “conversas de corredor” para desabafar sua raiva. Busca apoio de colegas, defendendo o seu argumento de vítima – pode até eventualmente reclamar para superiores. Já soube de casos onde uma pessoa tratava outra com muita deferência, sempre sorrindo, mas ao simples fechar da porta da sala ao ir embora, saía xingando-a. Considero este tipo de comportamento extremamente desonesto e até covarde.

Pior ainda, a pessoa pode simplesmente fugir, se afastar, sumir do mapa – sem dar a menor explicação para a outra pessoa. Isto é uma das dificuldades que enfrentamos para o desenvolvimento das sanghas leigas ocidentais, pois, no mosteiro quase todos respeitam o compromisso de completar o angô (período de treinamento intensivo) de 90 dias e, por isso, são obrigados a continuar lá, praticando, até – espera-se – aprender a conviver com as diferentes personalidades e abrir mão de seus aspectos de “vitimosidade”. A rotina de mosteiro certamente traz à tona todas as nossas tendências de nos acharmos “vítimas” disto ou daquilo! Mas, numa Sangha leiga, é extremamente fácil simplesmente fugir. É uma pena, pois o aluno que foge perde oportunidades preciosas de crescer como praticante e como ser humano.

E qual é o sentimento da pessoa que foi enganada, tratada com sorrisos para, de repente, sem aviso, levar um chute como se fosse um monstro? E os sentimentos dos outros membros da Sangha, que perdem um amigo espiritual sem despedidas, sem serem lembrados, ouvidos ou levados em consideração?

Numa situação familiar, surge a mesma dor quando um lado, depois de sabe-se lá quanto tempo de jogo de bonzinho/boazinha, “chuta o balde” e some. O(a) parceiro(a) sofre pelo sentimento de traição, pela mentira nos sorrisos do bonzinho/boazinha e os filhos sofrem com o afastamento de um dos pais. Frequentemente ficam até com problemas psicológicos/emocionais devido às crenças de que eles foram os culpados pelo afastamento desta figura parental.

Quanto sofrimento o bonzinho deixa por trás de si! Quanta falta de conexão e consideração pelos sentimentos dos outros! Quanto egoísmo!

A vida na Sangha é muito semelhante à vida em família. Relacionamentos são relacionamentos, não importa o lugar. E habilidade de cuidar de relacionamentos existem ou não.

Uma das funções da Sangha é justamente oferecer um espaço onde os “bonzinhos” possam treinar, tirar as máscaras, até aprenderem a ser simplesmente eles mesmos, manifestando a sua Natureza Buda, livremente.

Então, vamos praticar, abrir os nossos corações e tirar as nossas máscaras?

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7 Comentários »

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  1. Excelente.

    A senhora está familiarizada com o conceito de “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda?

    Caso tenha tempo…

    Na Wikipedia, uma nota rápida:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Jeitinho#O_Homem_Cordial

    E o texto original do prof. Holanda (quase na íntegra – falta apenas uma página – procure o capítulo “O homem cordial”):
    http://books.google.com.br/books?id=WcE6bXQ6TQUC&pg=PA139&lpg=PA139&dq=s%C3%A9rgio+buarque+d+eholanda+homem+cordial&source=bl&ots=5Z4helHyoJ&sig=OGzZJN26haYTVrAgyWHL3aMEuek&hl=pt-BR&sa=X&ei=zUThUouqMOnNsQS_roJ4&ved=0CGgQ6AEwBzge#v=onepage&q=s%C3%A9rgio%20buarque%20d%20eholanda%20homem%20cordial&f=false

    Trata-se de uma tentativa de definir o comportamento do brasileiro, que evita o conflito e busca reduzir todas as relações interpessoais a relações informais/familiares. Aponta outro traço marcante de nosso caráter, o autoritarismo e a busca da quebra de qualquer hierarquia – o que pode parecer contraditório, mas reflete perfeitamente o choque entre todos os autoritariozinhos. Trata, finalmente, de nossa dificuldade em conviver com o rigor das práticas religiosas.

    Alguns trechos de “O homem cordial”:

    “Entre os japoneses, onde, como se sabe, a polidez envolve os aspectos mais ordinários do convívio social, chega a ponto de confundir-se, por vezes, com a reverência religiosa. Já houve quem notasse esse fato significativo, de que as formas exteriores de veneração à divindade, no cerimonial xintoísta, não diferem essencialmente das maneiras sociais de demonstrar respeito.
    Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência […]

    Nada mais significativo dessa aversão ao ritualismo social, que exige, por vezes, uma personalidade fortemente homogênea e equilibrada em todas as suas partes, do que a dificuldade em que se sentem, geralmente, os brasileiros, de uma reverência prolongada ante um superior. […]

    O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros cegam a penetrar com facilidade. […]

    Essa aversão ao ritualismo conjuga-se mal – como é fácil de imaginar – com um sentimento religioso verdadeiramente profundo e consciente. Newman, em um dos seus sermões anglicanos, exprimia a ‘firme convicção’ de que a nação inglesa lucraria se sua religião fosse mais supersticiosa, more bigoted, se estivesse mais acessível à influência popular, se falasse mais diretamente às imaginações e corações. No Brasil, ao contrário, foi justamente o nosso culto sem obrigações e sem rigor, intimista e familiar, a que se poderia chamar, com alguma impropriedade, ‘democrático’, um culto que dispensava ao fiel todo esforço, toda diligência, toda tirania sobre si mesmo, o que corrompeu, pela base, o nosso sentimento religioso.”

    Desculpe-me o longo comentário.

    Gasshô

    • Prezado Paulo,
      Muito obrigada pelo comentário! Não conhecia este material, este conceito do “homem cordial” e apreciei ter este contato. Realmente, está sendo um desafio ajudar o brasileiro a se adaptar às práticas religiosas verdadeiras e falo sempre para os meus alunos que deve haver algum motivo por eles terem uma professora norte-americana!
      Informal = informe = sem forma = caos… . Se, de um lado, o excesso de “formalidade” também faz mal, o excesso de informalidade, ao meu ver, está prejudicando muito este país.
      Cuide-se bem!
      Gassho,
      Monja Isshin

  2. Obrigado por me ajudar a abrir os olhos e sentir profunda vergonha de mim mesmo. Gasshõ.

    • Prezado Flavio,
      Não precisa ficar com vergonha – simplesmente pratique e vá aprendendo a ser você mesmo, sem máscaras!
      Boa sorte na sua caminhada.
      Gassho,
      Monja Isshin

      • Obrigado, Monja. Não vou cultivar a minha vergonha, sei que é um sentimento passageiro e transitório, como tudo na vida. Apenas me abriu os olhos sobre a minha responsabilidade no sofrimento dos seres.
        Gassho.

  3. Olá, Isshin-san. Muito bom o texto. Eu me identifiquei (infelizmente)… rsrsrs
    Se quiser enriquecer seu conhecimento sobre este típico comportamento brasileiro, acredito que irá encontrar bom material na Internet fazendo uma pesquisa por “cordialidade brasileira”. E sobre o japonês, talvez procurando pelo termo “honne tatemae”.

    • Obrigada, Emerson,
      Do “honne tatemae”, já conhecia, mas este “cordialidade brasileira” de Sérgio Buarque de Holanda, realmente não havia ouvido falar, até receber o primeiro comentário deste artigo – e você está confirmando a importância desta pesquisa… .
      Cuide-se bem!
      Gassho,
      Isshin


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