O jogo de bonzinho (1)

janeiro 20, 2014 às 10:04 am | Publicado em Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Professor de Darma Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Mask-1251459670bsponm1Um comportamento que tenho encontrado em algumas pessoas aqui no Brasil, especialmente aqui no Rio Grande do Sul, e que me choca toda vez, é o “jogo de bonzinho”.

Nascida nos Estados Unidos, cresci numa região do país onde as pessoas eram bastante diretas – quase rudes – e não tinham qualquer medo de brigar. Até hoje não tenho conseguido me livrar do tom de voz típico daquela região e, às vezes, quando ouço alguma gravação de uma palestra minha, até eu mesma acho o meu tom de voz “autoritário”, quando eu sei muito bem que não há nada disto no meu coração.

Passei por uma experiência interessante nos Estados Unidos quando tentava conversar com uma pessoa superior a mim na hierarquia. Sentia-me muito mal com o tom “autoritário” dela, achando que certamente “não estava me ouvindo”, “não estava me entendendo”, “não estava me dando uma chance” – até que, de repente, “caiu a ficha”!

Percebi que, naquele momento, estava ouvindo esta pessoa mais como brasileira que americana e ela estava falando comigo como as pessoas falavam onde eu fui criada! Neste momento, compreendi plenamente a dificuldade que alguns brasileiros encontram ao tentar conviver comigo. Infelizmente, apenas este insight não mudou o tom de voz desta norte-americana aqui…

No mosteiro feminino no Japão, a primeira vez que sentei ao lado da abadessa Aoyama Rōshi tive uma impressão muito forte da qualidade de sua energia. As únicas duas maneiras que consegui imaginar para tentar descrever esta percepção foram comparando a energia dela à fumaça de incenso e à seda, de tão leve e suave. Senti que havia uma pureza que só podia ser possível numa pessoa que foi criada em templos – não havia nada, nada de malícia na energia desta grande mestra. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, percebia que, mesmo com toda aquela leveza e suavidade, era também uma energia “imóvel”. Se ela não queria ser “movida”, ninguém podia tirá-la do lugar, de tão firme que estava o seu enraizamento, por assim dizer.

Nunca devemos nos enganar com a aparente suavidade dos mestres zen, que geralmente possuem um enraizamento e uma força incríveis, que são desenvolvidos no “Shugyô” duro do treinamento. A cerimônia japonesa de Combate de Dharma pode dar até a impressão de que os participantes estão se matando, de tanta energia que há nas trocas entre questionamentos e respostas. Consequentemente, era só notar um pequeno endurecimento no tom de voz de Aoyama Rōshi, ou de certos outros grandes mestres, que eu já “tremia nas botas”, tal a força que percebia naquela mudança pequenina no seu tom de voz – e eu não sou de tremer fácil, não!

Eu me sentia um porco-espinho ao lado dela. De certa forma, até hoje me sinto assim ao lado dela ou de outros grandes mestres, como Saikawa Rōshi. O meu consolo é que até os porcos-espinhos também têm os seus lugares e papeis no mundo.

Um dos meus sonhos ao ir para o Japão treinar era de incorporar um pouco da delicadeza japonesa. Infelizmente, parece que não nasci para a delicadeza e, de certa forma, vou ser uma “Fiona” (esposa do personagem de desenhos animados Shrek) até o fim desta vida, sem o lado “princesa”…

Para o incauto, a delicadeza de um japonês culto pode parecer ser igualzinha à postura de bonzinho de alguns brasileiros. Mas, a meu ver, há uma grande diferença entre os dois.

(seguir para Parte 2)

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