Podemos questionar o professor (2)?

janeiro 15, 2014 às 9:03 am | Publicado em Blogroll, Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Professor de Darma Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário
Dokusan (entrevista individual)

Dokusan (entrevista individual)

(ler parte 1 deste artigo)

Um texto que li de um professor de Dharma norte-americano explicava que entre 80 e 90% das reclamações dos alunos são baseadas em projeções (“Freud explica”) ou em erros de interpretação de algo que foi dito, mas que em cerca de 10 a 20% destas ocorrências o aluno tem alguma razão (parcial ou total) e quem sai ganhando (aprendendo) é o próprio professor.

Nunca tentei fazer as contas, então não sei se estes números combinam precisamente com a minha experiência, mas certamente posso dizer que acho uma delícia quando a reclamação de um aluno me alerta para algum ponto do meu trabalho que eu posso (e devo) melhorar.

Quando comecei a cuidar desta nossa Sangha aqui em Porto Alegre uns anos atrás, vi-me distante dos professores a quem eu pudesse consultar. Então, decidi considerar a entidade “Sangha” como a minha professora no dia a dia. Consequentemente, faço questão de procurar ouvir meus alunos e refletir sobre o que eles falam, mesmo que às vezes eles achem que não os estou ouvindo ou dando bola aos seus sentimentos e ideias.

Já recebi telefonemas acalorados de membros da Sangha incomodados com algo que eu fiz ou disse. Algumas vezes, parecia até que saía fogo pelo telefone, de tal modo que, ao fim da conversa, eu me sentia chamuscada! Mas adoro estes debates! Às vezes, dou razão ao aluno; outras vezes, a discussão se prolonga enquanto procuro levar o aluno a abrir mão de seu ponto de vista e compreender o meu ensinamento. Nem sempre dá certo, mas o que eu mais aprecio é justamente o envolvimento e a sinceridade destes alunos que vêm me questionar.

Quando um aluno fica calado não posso fazer nada, fico de mãos amarradas. Posso até estar vendo o “problema”, mesmo quando ele só existe na cabeça do aluno. Posso até saber exatamente o que o está incomodando, mas enquanto ele não chegar e falar comigo, fica difícil arranjar uma maneira de abordar a questão. Às vezes, um aluno calado simplesmente abandona a prática – que pena! Outras vezes, ele procura um outro professor com o desejo de passar a ser seu aluno, fugindo do primeiro.

Neste caso, geralmente, o novo professor manda o aluno de volta ao professor original com a instrução de resolver o seu assunto com ele, especialmente no caso do aluno ser alguém que já recebeu ordenação monástica, os preceitos leigos, ou foi aceito como postulante. Este aluno é considerado uma pessoa que “já tem professor”. Todos os professores conhecem muito bem as diferentes fases do treinamento e, por experiência própria, os vários tipos de crises pelos quais podem passar os alunos.

De fato, um aluno com ordenação monástica ou que já foi aceito como postulante por um professor plenamente qualificado e licenciado passa a ser um tanto “suspeito” quando tenta trocar de professor. Deixar o seu professor é muito mal visto mesmo quando o aluno tenha toda razão nos seus motivos. Pode levar até mesmo vários anos para que ele prove o seu mérito para o novo professor e seja realmente aceito – se é que conseguirá… Na escola Sōtō Zen, quando um aluno já recebeu a ordenação monástica e registro oficial, para trocar de professor é obrigatória a assinatura (concordância) do professor de ordenação!

Se este aluno já ficou “conhecido na praça” como uma pessoa problemática, a coisa fica mais complicada ainda. Na realidade, geralmente, ninguém quer por as mãos nestes casos. Os professores conversam entre si e não pensam em “roubar” alunos uns dos outros. Já soube de um caso em que um monge-aprendiz (zagen), já famoso pelos casos que criava, tentou trocar de professor, mas acabou sendo expulso e proibido de entrar novamente no templo quando se negou a atender à solicitação de tirar o lixo. Era uma tarefa que iria requer somente 5 minutos, mas este monge-aprendiz não quis fazê-la e não houve segunda chance.

Um aluno que não consegue dar certo com um professor devidamente qualificado e licenciado, na maioria das vezes, também não dará certo com um segundo. Então, é muito importante que o aluno faça tudo ao seu alcance para resolver os seus assuntos – seus questionamentos – com o seu professor.

O que não deve ser feito é questionar o professor em público – isto é desrespeitoso e não é aceitável. Também, não podemos considerar os chats, messengers, grupos de discussão ou e-mails – qualquer coisa de internet – como dokusan (entrevista individual). Tampouco podemos achar que uma conversa por telefone ou até durante uma aula ou mesmo uma discussão informal “de corredor” valem como dokusan – que é um espaço reservado precisamente para o aluno investigar os seus questionamentos junto ao seu professor.

Respondendo à pergunta inicial: Sim, podemos – e devemos – questionar o nosso professor, desde que o façamos da forma correta. A grande maioria dos professores deseja que seus alunos falem sobre o que se passa com eles, numa conversa aberta e franca.

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