Pedras Roladas

janeiro 5, 2014 às 10:02 am | Publicado em Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Professor de Darma Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 1 Comentário
Pedras brutas

Pedras brutas

Uma das maneiras de se polir pedras semipreciosas é com o uso de um “tumbler”, uma espécie de tambor dentro do qual uma quantidade de pedra bruta é colocada com um pó triturador ou com água. Quando este tambor é girado, as pedras se raspam e batem umas nas outras, quebrando suas pontas ásperas, numa imitação do processo de erosão no qual as pedras de um rio, por exemplo, tornam-se redondas.

Dizemos que a nossa prática é um processo semelhante. Começamos a nossa prática como pedras brutas – cheios de arestas pontiagudas que machucam não somente os outros, mas também ferem a nós mesmos. São os nossos condicionamentos: crenças internas, interpretações dos acontecimentos, atitudes, palavras e comportamentos “programados” que são, na sua maioria, inconscientes.

Ir para um mosteiro, ou até mesmo para um simples centro de prática, seria como entrar num destes tambores. O professor vai “girando o tambor” e os alunos vão sentindo o desconforto de suas arestas sendo raspadas – até ficaram redondas, lisas e suaves, assim como acontece às pedras.

Não é um processo gostoso! Não é um processo agradável! Não é um processo confortável! Mas é um processo necessário para a prática verdadeira.

De certa forma, me lembra um pouco uma sessão de shiatsu – como dói na hora da massagem, mas como fico leve e bem depois!

Pedras Roladas

Pedras Roladas

Lembro-me do começo da minha prática no Busshinji com a Monja Coen, anos atrás. Como norte-americana, vivi uma boa parte da minha vida sentindo certa culpa por determinadas coisas que foram feitas pelo meu país de nascimento e formação. E a Monja Coen volta e meia soltava um comentário do tipo: “É, vocês norte-americanos, que querem dominar o mundo!…”. Ora eu ficava magoada: “Ela não me entende”. Ora ficava com raiva: “Ela não tem direito de falar assim comigo!”. Ora ficava triste: “Não sei o que fazer para ela parar de me tratar deste jeito”. Voltava para casa chorando, soltando fumaça ou reclamando – acho que experimentei todos os sentimentos negativos possíveis com estes comentários dela.

Até que um dia, de repente, entendi! Eu não precisava sofrer por causa de um comentário dela! Podia levar aquilo na brincadeira! Podia responder com humor!

Assim, na primeira vez que ela soltou um novo comentário sobre os norte-americanos e sua dominação do mundo, respondi dando risada e brincando: “Mas é claro! Nunca ouviu falar da Doutrina de Monroe, Destino Manifesto e Corolário Roosevelt, né?”. Ela riu, eu ri – e ela nunca mais me cutucou com aqueles comentários.

Eu havia me libertado de uma boa parte dos meus sentimentos de culpa pelos atos do meu país de formação. Afinal, não fui eu quem cometeu aqueles atos e nem moro mais lá. Sentimentos de culpa são improdutivos e inúteis – não resolvem nada. Melhor é rezar pelas vítimas, por exemplo, oferecendo incenso em Hiroshima e fazer o possível como “ativista” que se opõe às guerras.

Mas andar por aí me desmoronando quando alguém me cutuca sobre aquele país – não preciso, não! Não preciso deixar outra pessoa controlar o meu bem-estar interno.

Pude ficar livre daquela aresta dolorida e ficar um pouquinho mais “redonda”, como uma pedra sendo rolada.

Sou extremamente grata à Monja Coen por ter-me ensinado esta grande lição, que foi o início da minha aprendizagem de uma  relativa equanimidade – um vislumbre da equanimidade ensinada pelo Buda.

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  1. Sensei, muito obrigado por este post e por citar, na íntegra, sua própria experiência. Foi muito esclarecedor e consolador! Gasshô! Seu aluno, Jinke.


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