Entrevista no Blog Autoajuda-se

agosto 1, 2011 às 8:55 pm | Publicado em Blogroll, Entrevista, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

1. A senhora já foi musicista, professora de inglês, professora de trompa, dentre outras profissões. Quando você resolveu virar monja? E por quê?

Apesar de gostar muito da música, ela foi uma “segunda opção” de profissão, que acabou se esgotando. Desde que me lembre, sempre queria trabalhar com o ser humano, queria ser uma “curadora das almas”, por assim dizer. Mas, na época de escolher a faculdade, não conhecia ainda a psicologia e a minha família não apoiava a idéia de eu estudar medicina. Ficava até triste por não ser católica, pois a idéia de ser freira me atraía… . Mal imaginava as voltas que a vida daria.

Como musicista, acho que o que me dava mais prazer era dar aulas – mas havia poucos alunos do meu instrumento (trompa). Gostava de tocar em orquestra, mas, de alguma forma, era uma vida que me deixava muito isolada das pessoas. Saindo da orquestra, passei a dar aulas de inglês para me sustentar, enquanto voltava aos estudos, me preparando para prestar vestibular para a psicologia ou a medicina-psiquiatria – até que o Plano Collor acabou com aquele caminho.

Li os meus primeiros livros sobre o budismo aos 21 anos de idade, mas, naquela época, havia poucos professores no ocidente. Gostava dos ensinamentos e tentava aplicá-los na minha vida. Pesquisei vários caminhos da espiritualidade, onde aprendi a respeitar todas as religiões – mas ainda não me encontrava “em casa”.

Quando inicie na prática de Aikidô, procurei o Zen Budismo, mas quando me disseram que só se falava japonês no templo que havia no bairro da Liberdade, desisti de ir lá… .

Entrei em treinamento de Xamanismo Urbano no Instituto Paz Géia, fiz cursos de vários tipos de terapias “alternativas” (Cura Prânica, Cinesiologia Especializada, etc), além do curso de Formação de Massoterapeuta da Universidade Holística (agora chamada Humaniversidade). Foi na recepção deste último curso que, um belo dia, encontrei um folheto anunciando um retiro Zen – em português – lá, naquele templo do bairro da Liberdade – o Busshinji. Fui lá na primeira oportunidade – e conheci a Monja Coen.

Veja como funcionam os “timings” – as interconexões – das coisas: não adiantava eu ter ido para o Busshinji antes, nas outras épocas quando procurava, pois a Monja Coen ainda não estava lá – e era ela quem se tornaria a minha professora de ordenação.

Me identifiquei imediatamente com a prática do Zen Budismo, com a vida num templo Zen e com a Monja Coen. Finalmente, havia chegado “em casa”. Não demorou muito para eu perceber que este era o caminho que eu sempre havia buscado. Pedir a ordenação, tornar-me monja-noviça, ir para o Japão e os Estados Unidos fazer treinamento, praticar até me tornar monja “formada” com a Transmissão de Darma e, agora, continuar a minha “prática Zen Budista” no papel de orientadora de grupos de prática – cada um destes passos tem sido simplesmente “o próximo passo natural” a ser tomado.

2. É comum nos dias atuais muitas pessoas afirmarem que são budistas por se identificarem com a filosofia. Mas, o que é ser verdadeiramente budista?

De acordo com os sutras, ao tomar os Refúgios em Buda, Darma e Sanga, a pessoa torna-se budista. Mas o que significa verdadeiramente “tomar os Refúgios”? Aí que está o “x” da questão.

Há muitas formas de praticar o budismo – há uma infinidade de escolas e linhagens, com variadas abordagens e métodos. Vejo muitos praticantes do Zen, por exemplo, criticando a maioria dos budistas leigos japoneses, afirmando que eles não seriam “budistas de verdade” porque não praticam o zazen, a meditação zen budista. Isto, ao meu ver, é uma atitude bastante arrogante, que lembra “brigas sectárias”, e uma falta de compressão das variadas maneiras de praticar o budismo.

Assim, se a pessoa se considera budista, tomou os Três Refúgios no seu coração e procura viver de acordo com a ética budista, não vai caber a mim dizer que ela não seria “verdadeiramente budista”.

3. Você acredita no poder do pensamento? É possível atrair para nossas vidas tudo o que desejamos?

Teria que dar uma resposta de “sim e não”.

De um lado, criamos o nosso mundo através dos nossos pensamentos que dão origem às nossas palavras e ações. E, certamente, as nossas palavras e ações – até a nossa “atitude” – vão influenciar como os outros – e o próprio universo – respondem a nos. Neste aspecto, os meus pensamentos têm um poder de atrair muitos dos acontecimentos da minha vida. Somos todos interconectados, somos todos UM.

Mas, do outro lado, acreditar em filosofias como “O Segredo” freqüentemente não passa de uma delusão ego-cêntrico, de um tipo de pensamento mágico que vem da nossa vontade de controlar o mundo e de satisfazer os nossos infinitos desejos.

Ainda bem que não podemos conseguir “tudo que desejamos”! Porquê? Porque freqüentemente, nos falta a sabedoria para saber o que seria verdadeiramente bom para nos. Quantas e quantas vezes cultivamos desejos sem imaginar as conseqüências que a realização daquele desejo possa trazer… . A situação ecológica do planeta é um bom exemplo disto. Somos nem como crianças, querendo comer doces sem ter o juízo para saber a hora de parar… .

Finalmente, por mais que “somos UM” no plano absoluto, vivemos também um plano relativo onde somos todos diferentes. E não temos como viver a vida do outro ou fazê-lo agir de acordo com a nossa vontade. Não podemos FAZER alguém nos amar, por exemplo.

Uma grande parte da prática Zen tem a função de nos ajudar sair desta mente “pequena”, este ego condicionado da dualidade que é tão cheio de “quero/não quero – gosto/não gosto”, e nos enraizar cada vez mais na nossa “essência”. Atuando a partir da nossa “essência”, com plena atenção no Aqui e Agora, nos permite “fluir” com a vida e encontrar as melhores respostas para as situações que possam se apresentar, sem sermos levados pelos nossos impulsos inconscientes. Progressivamente, deixamos de ser “reativos” e tornamo-nos “capazes de responder” (responsáveis).

4. O Filosofo Emil Cioran disse certa vez: Todos os seres são infelizes; mas quantos o sabem? Você concorda com esta citação? Estamos fadados a infelicidade?

O filósofo tem uma certa razão, pois a Primeira Nobre Verdade  afirma que “a vida é dukka”. Esta palavra “dukka”, freqüentemente (mal-)traduzida como “sofrimento”, refere-se à insatisfatoriedade da vida. Estamos sempre correndo atrás de algo, nunca satisfeitos – que certamente pode ser interpretada como infelicidade. Mas, como falou o Buda, estamos quase todos “dormindo”, levando a vida como se fosse num sonho, inconscientes até da nossa própria inconsciência, ignorantes até da nossa própria ignorância. Mergulhados na busca do prazer/sucesso/amor/objetos, nós nos distraímos da percepção da insatisfatoriedade e impermanência que permeiam a vida – mas esta percepção está lá, bem no fundo de cada um de nos – e pode nos derrubar num momento de crise ou grande estresse… .

Mas eu não diria que somos fadados a infelicidade, pois a nossa prática nos leva à libertação do dukka.

Na verdade, nem gosto muito de falar em termos de “felicidade”, pois é impossível estar “feliz” 100% do tempo. Não gostaria de estar “feliz” na hora de saber da morte da minha melhor amiga, por exemplo – seria uma reação totalmente inapropriada. Mas posso, sim, fluir com a tristeza daquele momento, sustentada por um “bem-estar” profundo – que surge e cresce como resultado da nossa prática. Então, é este bem-estar profundo que procuro cultivar.

5. É possível ter uma vida equilibrada numa sociedade tão caótica?

Com certeza. Não é fácil – e nunca foi. Mas é possível. A prática da meditação ajuda muito – até uma prática simples de 10 minutos de zazen 5 vezes por semana já ajuda bastante.

Quanto mais aprendemos a nos centrar na nossa essência, quanto mais “equilibrada” fica a nossa vida. Sempre vamos vivenciar “altos e baixos”, mas eles não precisam nos abalar ou tirar do eixo.

6. O que você acha dos livros de Autoajuda? O que achou do Blog Autoajuda-se?

Gosto muito deles. Já li muitos livros de psicologia e de autoajuda. Me ajudaram muito.

Mas temos que lembrar que nem mesmo a leitura de todos livros de autoajuda do mundo poderá substituir uma boa terapia quando temos dificuldades ou traumas emocionais e não podem substituir a prática ativa de um caminho espiritual. A leitura dos livros podem acabar só alimentando a mente com mais palavras e conceitos ainda – e a leitura, sozinha, não pode levar à libertação do dukka, que precisa ser vivenciada, experienciada pelo corpo-mente.

Mesmo assim, os livros de autoajuda podem ajudar o leitor a encontrar direção, podem instigar reflexões e, quando a leitura é bem orientada, podem ser um bom complemento à terapia ou prática espiritual.

A sua criação deste site é uma iniciativa valiosa, pois um site como este pode ajudar muitas pessoas em suas buscas por uma vida melhor, em suas buscas pela Paz e Tranqüilidade.

7. A meditação virou uma prática constante nos dias atuais. Quais os benefícios da Meditação?

O benefício maior da meditação, quando é parte da prática de um caminho espiritual, é a libertação do “dukka”.

Os efeitos colaterais da meditação são um melhor auto-conhecimento, melhor auto-aceitação, maior bem-estar, menos estresse, menos ansiedade, redução de pressão arterial, melhor resposta imunológica, etc.

A prática solitária pode acabar ficando limitada, pois, depois de um certo ponto, a mente tenderá a andar em círculos em volta de suas próprias delusões, em lugar de continuar aprofundando o auto-conhecimento.

Se, de um lado, é bom a “popularização” da meditação hoje em dia, pelo outro lado acho que isto cria algumas causas de preocupação. Temos o risco de uma “banalização” da meditação, com pessoas acreditando que serve somente para o relaxamento ou como uma “terapia complementar”, ignorando os ensinamentos verdadeiros do budismo.

Sem a orientação adequada, a meditação pode acabar não passando de um simples exercício de relaxamento, sem levar a um melhor autoconhecimento, por exemplo. Pior ainda, se temos situações traumáticas no nosso passado, a meditação pode até abrir o caminho para o surgimento de lembranças e emoções que não estamos preparados para enfrentar. A meditação não é indicada para pessoas com tendência à esquizofrenia e precisa ser bem orientada nos casos de pessoas que sofrem de depressão. Como todo remédio, a meditação deve ser “usada” com juízo e boa orientação.

8. Nem sempre conseguimos tudo o que desejamos e no tempo em que desejamos. Como lidar com as insatisfações e frustrações da vida?

Aprender a fluir com a vida, a “surfar as ondas da vida”. Abrir mão desta mente dualista que se enche de desejos, aversões e julgamentos e que perde a capacidade de maravilhar-se com a vida como ela é, com o universo como ele é. Deixar de ser escravo da mente ou das emoções. Aprender a usar a mente corretamente… .

Que os méritos de nossa prática se estendem a todos os seres universalmente, para que junto com todos, realizemos o Caminho de Buda.

Gassho,

. devido a uma falha técnica, a entrevista foi retirada do Blog Autoajuda-se onde foi originalmente publicada e deve ser re-publicada lá assim que o problema técnico tenha ficado solucionado.

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