Entrevista do Caderno Literário Pragmatha

julho 25, 2011 às 12:38 pm | Publicado em Blogroll, Compaixão Zen Budista, Entrevista, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Caderno Literário Pragmatha: Quem é Monja Isshin?
Monja Isshin:
Resposta Zen: um saco de pele e ossos, uma bolha efêmera ou, para citar o Bodhidharma “não sei.”
Resposta Mundana: Monja Zen Budista; norte-americana naturalizada brasileira; residente em Porto Alegre; orientadora espiritual de grupos de prática Zen Budista em Porto Alegre, Pelotas, RS e do Zendô Virtual; e autora do livro “A Vida Compassiva”, do blog “Monja Isshin” e de artigos para revistas.

Caderno Literário Pragmatha: O que ‘escrever’ significa para a senhora?
Monja Isshin: Significa verbalizar, na escrita, aquilo que o meu coração quer compartilhar. Não escrevo ficção – não tenho a menor capacidade para isto e, na verdade, nem me considero uma “autora” ou “escritora” – sou uma monja que escreve. Comecei o meu blog quase por acidente, como um meio de poder colocar a minha posição em relação a alguns acontecimentos durante uma fase complicada da minha vida. Aí, precisava “alimentar” o blog… . Então escrevi alguns textos bem despretenciosos, com reflexões sobre a nossa prática Zen Budista, a espiritualidade, a vida – e, para a minha surpresa, não demorou aparecer um amigo de São Paulo me cobrando “livro, livro!”… . Foi uma grande surpresa para mim ao constatar que o meu blog conquistou um bom conceito entre os blogs budistas em português e alguns dos textos até que foram traduzidos e publicados em blogs de outros países. Paralelamente, às vezes, para mim como monja,“escrever” pode significar simplesmente transmitir informações, por exemplo, sobre a nossa tradição ou sobre como se realiza a formação de um monge Zen Budista, pois há muito pouca informação deste tipo disponível para o público em geral.

Caderno Literário Pragmatha: Como é seu processo de escrita? Obedece a alguma lógica ou a senhora se guia mais pela inspiração?
Monja Isshin
: Diria que é uma mistura das duas coisas. Dependendo do tipo de assunto, o texto pode ter um componente maior de lógica ou de intuição. Os textos que são reflexões geralmente são baseados essencialmente na inspiração – mas com começo, meio e fim lógicos – enquanto que os textos informativos seguem uma sequência quase exclusivamente lógica.

Caderno Literário Pragmatha: Seu texto é canalizado, dirigido, com um objetivo claro de promoção de consciência. A senhora se guia por alguma técnica, neste processo, ou faz empírica e intuitivamente?
Monja Isshin
: Hmmm… Nunca parei para pensar nisto. Acho que novamente é uma mistura das duas coisas. Alguns dos meus textos mais “populares” foram escritos de uma forma talvez 95% empírica/intuitiva e 5% usando técnicas de organização de ideias e de pesquisa. Até mesmo os textos mais “intuitivos” necessitam a verificação da origem de citações dos nossos ensinamentos, por exemplo, pois gosto de citar as fontes para quem deseja se aprofundar mais no assunto. Os textos “intuitivos” costumam “nascer” de uma forma assim: algum tópico me chama a atenção (me inspira, me incomoda ou me comove) e resolvo que quero escrever sobre o assunto, pois sinto que tenho algo a dizer a respeito. Pode acontecer de eu fazer algumas anotações e organizar algumas ideias, mas a característica principal destes textos é que eles não podem ser produzidos “na disciplina”. Quando tento escrever este tipo de texto “na disciplina”, porque li em algum lugar que um escritor deve sentar-se e escrever todo dia, com regularidade – bem, nestas horas só sai “lixo”. Mas se eu simplesmente deixo o assunto “rolar” na minha mente inconsciente, acaba surgindo um momento em que o texto ficou “pronto” dentro da minha cabeça. Nesta hora, eu só preciso sentar e digitá-lo no computador. Se eu tiver um prazo de entrega para cumprir, este processo pode se tornar meio “assustador”, pois preciso realmente me entregar e confiar na minha mente inconsciente, confiar no processo de gestação. Quando não tento forçar as coisas, os “partos” dos textos costumam ser bastante suaves, resultando em textos que necessitam pouquíssimas modificações, além das correções do meu português… . Nestas horas, estou “falando” do meu coração – e parece que os meus leitores sentem isto.

Caderno Literário Pragmatha: A senhora é americana, escreve em português e boa parte de seu treinamento, como monja, aconteceu em japonês. Como é transitar por todos esses idiomas?
Monja Isshin
: Divertido – e complicado. Gosto muito de línguas e acredito que o estudo de outras línguas abre novas maneiras de pensar e de enxergar o mundo. Penso que, neste mundo globalizado, o estudo de outras línguas e da comunicação trans-cultural se torarão cada vez mais importantes. Como o português não é a minha língua “materna”, sinto limitações e pobreza no meu uso da língua. Na linguagem falada, dá para “enrolar” e “disfarçar” mas na escrita, é outra coisa. Demorou para eu ganhar a confiança para escrever em português “publicamente” – como falei acima, comecei o meu blog praticamente por acidente, por força das circunstâncias daquele momento. De outra forma, certamente não teria me metido a começar um blog e estar escrevendo até hoje… Tenho consciência das minhas limitações no português e é frustrante precisar depender de ter alguém para revisar a gramática dos meus textos em português. Confesso que fico desmotivada para escrever quando não tenho ninguém disponível para fazer isto para mim. Já cheguei a postar texto no blog sem este tipo de revisão – e não demorou um dia para que alguém postou comentário criticando o meu descuido em errar a conjugação de um verbo (ou algo assim)…

Caderno Literário Pragmatha: Fale sobre o livro ‘A vida compassiva’, editado pela Pragmatha. Como foi a caminhada até o lançamento, objetivos, etc?
Monja Isshin
: Já fazia três anos que estava com aquele amigo de São Paulo me cobrando a publicação de um livro meu. Também, como monja, sou mantida exclusivamente pelas doações das pessoas que eu oriento e sei que a venda de livros, CDs e DVDs pode vir a ser um bom reforço para a renda do nosso grupo. Assim, já estava nos meus planos para tentar editar um ou mais livros – mais cedo ou mais tarde. Mas não estava “trabalhando” no assunto. Como monja, frequentemente descubro que tentar “fazer acontecer” só atrapalha e tenho que esperar a coisa “acontecer por ela mesma”. Aí, a Sandra, da Editora Pragmatha, apareceu para aprender a meditar. Eu estava com alguns seminários programados onde podia vender livros – e aí foi saindo este livro – o primeiro de uma série de seis previstos. Foi uma correria, mas deu tudo certo e fiquei bem contente com o resultado. Se der tudo certo, espero conseguir lançar o segundo volume em outubro deste ano.

Caderno Literário Pragmatha: O que a senhora gosta de ler?
Monja Isshin
: Hoje em dia estou com pouquíssimo tempo para ler – o que me deixa um pouco chateada, pois sempre fui uma leitora “voraz”. Antigamente, adorava ler ficção científica e acho que esta leitura me ajudou muito “abrir a cabeça” para novas ideias e outras maneiras de enxergar o mundo. Nunca fui muito chegada aos romances e não tinha muito paciência para os livros de filosofia (o Zen é muito pragmático). Adoro ler sobre a psicologia, a comunicação transcultural e sobre a espiritualidade. Também aprecio biografias de “grandes” homens e mulheres.

Caderno Literário Pragmatha: A literatura pode auxiliar no processo de lapidação da personalidade?
Monja Isshin
: Certamente. Sem leitura não teremos pessoas “cultas”. Acho muito importante que o Brasil investe não somente na educação do povo, mas também em meios de facilitar o acesso da população à leitura e a bons livros. Um dos meios seria através da redução dos custos para a publicação e distribuição de livros e um outro meio seria a criação de mais bibliotecas de fácil acesso, facilitando o empréstimo de livros à população. Achei fantástica a iniciativa da criação de postos para o empréstimo gratuito de livros em estações de metrô em São Paulo. Nunca me esqueço dos livros e mais livros que emprestei de um biblioteca-ônibus que passava de 15 em 15 dias perto da minha casa quando fui criança. Foi um fator muito importante na minha formação. Queria ver algo assim funcionando em todos os cantos do Brasil…

– Publicado originalmente no site do Caderno Literário Pragmatha

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