Estilos de comunicação

abril 27, 2011 às 1:12 am | Publicado em Blogroll, Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | 3 Comentários

São fascinantes os estudos da professora universitária Doborah Tannen – uma pesquisadora norte-americana e autora de vários livros (alguns traduzidos para o português) sobre a comunicação – entre membros de uma família, entre marido e esposa, entre membros de um grupo social e entre membros de culturas diferentes. Tomei contato com os seus livros quando estava fazendo o meu treinamento avançado nos Estados Unidos e me abrirem novos horizontes em relação aos encontros e desencontros na comunicação humana. Recomendo a leitura de seus livros (especialmente o “Você Simplesmente Não Me Entende”), geralmente disponíveis nos sebos ou no Estante Virtual.

A leitura destes livros me ajudou a compreender que cada pessoa aprende – na sua família e na cultura da região onde ela é criada – um estilo de comunicação. Este estilo vai ser composto de aspectos do estilo de comunicação mais usado na sua família, combinado com aspectos do estilo geral da cultura da região e do país onde passou os seus anos de formação misturados com uma pitada de aspectos de estilo “individual”.

Para simplificar, através do uso dos estereótipos populares, podemos dizer que quem cresce numa família italiana provavelmente vai ter uma tendência de estar acostumado a um estilo de comunicação que alguém que cresceu numa família japonesa poderá achar “barulhenta”, “quase histérica”, “briga”, “cheio de gesticulações exageradas”, “uma pessoa atropelando a outra”, “todos falando ao mesmo tempo”, “ninguém ouvindo os outros”, etc.

Ao mesmo tempo, aquela pessoa que cresceu na família italiana pode achar que o estilo de comunicação de uma família japonesa é “reprimido”, “frio”, cheio demais de honoríficos”, “ninguém fala o que realmente pensa”, “ninguém mostra emoção”, etc.

Continuando com os estereótipos, para fins de discussão, um japonês tenderia a se sentir “esmagado” e “sem chance de falar” num ambiente italiano enquanto que um italiano tenderia a se sentir “sozinho na responsabilidade de levar a conversa adiante” e achar o japonês “passivo demais” ou “desinteressado”.

Em algumas famílias, os debates intensos em alto e bom som, com todos aparentemente falando ao mesmo tempo representam, na verdade, a sua maneira de expressar o amor entre si e o seu envolvimento nos assuntos. Nestes casos, os membros de uma determinada família não vivenciam suas comunicações como “brigas”, enquanto que pessoas de fora podem interpretar as interações daquela família como verdadeiras “bate bocas”. Frequentemente, os membros daquela família passam a ser consideradas “briguentos” em outros círculos sociais. Pessoas com este estilo de comunicação tendem a interpretar as pessoas que tem estilos mais “quietos” como sendo “distantes”, “desinteressadas”, etc.

Algumas famílias têm um estilo mais “tranqüilo” onde não gostam de levantar a voz, não se interrompem e conduzem as conversas de uma forma que consideram como “ordeira”. Elas tendem a interpretar as pessoas que tem estilos mais “ativos” como “competitivos”, “rudes”, “sem educação”, “impacientes”, etc. Possivelmente esta seria uma família verdadeiramente democrática onde os pais mantêm a sua autoridade como pais, mas sabem ouvir os seus filhos e levar em consideração os sentimentos e opiniões dos filhos. Estes pais sabem transmitir aos filhos a sensação de “ser ouvido”.

Em outras famílias, alto e bom som sinaliza “autoritarismo” e até, possivelmente, risco de violência contra qualquer um que discorda daquilo que está sendo dito. Estas famílias funcionam na base do autoritarismo. Pode ser que uma única pessoa tem o “poder” sempre e os outros são obrigados a se calar e a aceitar as determinações do “tirano”, ou pode ser que os membros daquela família vivem em constantes “jogos de poder”, nos quais quem se impõe mais ou “grita mais alto” vence e os outros são obrigados a se calar e aceitar as determinações do “vencedor”. Tanto num caso quanto no outro, o silêncio pode não significar concordância, mas “derrota”. Os “perdedores” destas discussões não se sentem “ouvidos” podem se sentir “massacradas” pela discussão e podem acabar “engolindo sapos. E o descontentamento deles, não resolvido, vai reaparecer e causar problemas futuras. Mais ainda, a pessoa que “se impus” pode acreditar sinceramente que ouviu a todos, pode acreditar que houve “consenso”, mas, na realidade, ficou cego em relação ao desconforto dos outros e desqualificou as opiniões discordantes. Ás vezes, já de cara, na primeira palavra percebe se que “não adianta discutir”, que o outro está com a sua opinião totalmente fechada, como uma verdade absoluta.

Geralmente, quando surgem as dificuldades de comunicação entre pessoas razoavelmente saudáveis emocionalmente ou em grupos razoavelmente saudáveis, o problema não está em detalhes como “tom de voz” e nem tampouco em aspectos como “autoritarismo” ou “passividade” – o problema está no desencontro daquilo que a Profa. Tannen chama de “meta-comunicação”, no desencontro dos “estilos de comunicação” que podem levar “falsos conflitos” e levam a más interpretações sobre o outro – mesmo havendo amor (por exemplo, num casamento) e intenções puras (por exemplo, num grupo).

Numa conversa envolvendo dois estilos de comunicação “opostos”, uma pessoa pode se sentir “massacrada” enquanto que outra pessoa sente que está havendo um debate maravilhoso, aberto e esclarecedor.

Uma outra forma como este problema se apresenta: a pessoa A fala X e pessoa B entende Y. Pessoa B responde (baseada na sua compreensão de Y), falando M e pessoa A entende Q. Realmente, nestas horas, um não está entendendo o outro. Na medida em que o desencontro aumenta, os ânimos se esquentam e podem começar a duvidar das intenções ou do caráter um do outro. Reina a confusão. Por isso, os títulos de dois de seus livros são “Você simplesmente não me entende” e “That’s not what I meant” (“Não foi aquilo que eu quis dizer” – infelizmente não traduzido para o português pois é um livro fantástico que trata da comunicação intra-cultural).

Para solucionar estas dificuldades, é importante aprender sobre os estilos de comunicação – o seu próprio e o das pessoas com quem se convive. A partir desta compreensão, a pessoa de um estilo “italiano” pode treinar a arte de parar e escutar profundamente, praticar a “escuta compassiva”. E a pessoa com o estilo “japonês” ou até o estilo “medroso” pode treinar a assertividade centrada na sua essência, praticar a coragem de arriscar-se em debates mais “enérgicos”.

Nem um nem o outro precisa “mudar” o seu estilo de comunicação definitivamente, mas é recomendável que todos cultivem uma flexibilidade e capacidade de adaptar-se a outros estilos de comunicação quando necessário.

Para um grupo, pode ser interessante fazer algumas reuniões no formato de “Roda de Darma” formal, com o uso da “peça de fala” e dando a vez a todos se manifestaram, sem interrupções. Cria-se, então, um espaço onde todos podem treinar o seu “ponto fraco” na comunicação – seja de se expressar de forma assertiva, seja de ouvir o outro atenciosamente sem o interromper e sem se distrair.

Assim, torna-se possível adequar os variados estilos de comunicação para chegar num verdadeiro consenso, sem qualquer tipo de “ressaca do dia seguinte”. Assim, pode-se criar a verdadeira harmonia e coesão de grupo.

. Ler, da Revista Veja: “Você não me entende!

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3 Comentários »

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  1. Sim, com certeza os livros Doborah Tannen devem colocar em evidência importantes questões de comunicação interpessoal. Interessante. Abraço.

  2. Aqui vai uma frase da Deborah Tannen:

    As sementes da cultura argumental podem ser encontradas nas salas de aula, onde um professor apresentará um artigo ou uma idéia… estabelecendo debates onde as pessoas aprendem a não ouvir umas as outas, pois estão ocupadas demais tentando vencer o debate.

    • Verdade! Influenciado pelo que aprendi no livro dela “The Argument Culture”, escrevi o texto “A Cultura de Oposição” Acho que este livro talvez não foi traduzido para o português – ou será que foi?


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