Não quero ser tratado como ladra

abril 16, 2010 às 6:03 pm | Publicado em Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 7 Comentários

Não é uma prática budista reclamar. Mas às vezes, acho que precisamos botar a boca no trombone. É o que sinto neste momento. Talvez assim, nos “gente pequena” ainda possamos fazer algo em relação às corporações e grandes instituições.

Hoje (16 de abril) tentei fazer um depósito na caixa eletrônico do Banco Bradesco da R. Benjamin Constante, 1837 de Porto Alegre. Mudei-me para esta cidade faz uns 3 anos e meio. Faz uns 25 anos que tenho contas no Bradesco e vinha pensando em transferi-las  para esta agência. Estava pensando em recomendar que o nosso grupo de prática abrisse conta lá. Até hoje, gostava desta agência.

Mas hoje mudou tudo.

Periodicamente, faço compras pela Internet e pago por depósito bancário. Até hoje, dava preferência a esta agência do Bradesco.

Mas, hoje, pela primeira vez, encontrei-me com o tal de porta rotativa com detector de metais barrando a entrada dos terminais da caixa eletrônica. Antes, barravam somente o acesso ao banco propriamente dito.

Gente, sou monja budista. Não sou ladra. Tenho 62 anos de idade e coisa muito melhor para fazer na vida do que roubar bancos.

Mas a paranóia e ganância pelos lucros dos bancos já chegaram a um ponto onde parece que não se interessam mais em cuidar do cliente e evitar que o cliente passe por constrangimentos. Parece que preferem que a gente nem vai mais nas agências. Acho que querem que a gente faça tudo pela Internet – assim, talvez vão poder cortar mais funcionários e aumentar os lucros. Mas não confio na Internet. Ponto. Ou querem que vamos fazer os nossos depósitos nas casas lotéricas (Caixa Econômica) ou correios (Bradesco) … Aí, os ladrãos também vão para lá – para os correios e casas lotéricas…

Bem, foi assim: Tentei entrar no banco, e a porta me barrou. Coloquei o celular naquela caixinha e tentei de novo. Sem sorte. Tirei as chaves da minha bolsa e tentei de novo. Ainda não deu. Tirei o niqueleiro (talvez o problema é as moedas?) e tentei de novo. Barrada.

Não sei o que é que aquele aparelho não está gostando. Será que é a canete? O cortador de unhas que tem uma parte de metal? Ah, o caderninho tem um espiral de metal… Quem sabe? E já estou me sentindo bastante constrangida, levando “rejeição” atrás de “rejeição” – e perdendo tempo. E o guarda, de uma distância (atrás de outros vidros da agência) só falando “tire os objetos de metal”…

E não tem nenhum guarda-volume no lado de fora para que eu possa simplesmente deixar as minhas coisas lá, entrar e fazer o meu depósito em paz.

Por fim, tentei simplesmente colocar a bolsa dentro daquela caixinha de plástico. Coube. Agora, mesmo ainda com mochila, a porta rotativa me permitiu entrar.

Mas a tampa daquela caixinha de plástico ficou prendendo a minha bolsa lá no lado de fora. Não queria deixar lá para um ladrão pegar. Afinal, o tamanho desconfiança do banco está me informando que o perigo de ladrão é grande, não está?

Nestas alturas eu já estava bem chateada. E o guarda aparentemente só quis me ver bem submissa, quieta e sorridente – “estou só tentando ajudar a senhora” – mas ele não oferece solução. Só fica repetindo que tenho que tirar os objetos de metal da bolsa.

Se vou ter que sair para pegar a minha bolsa e voltar a ficar tentando descobrir qual é a peça metálica que faz a máquina me bloqueiar (e certamente não tenho nada metálica do tamanho de uma arma…), vou sair e simplesmente ir embora. Chega. E foi o que fiz. Voltei para casa sem pagar a minha conta . Ainda bem que não estava no vencimento… .

Sou gente. Sou ser humano e estou me sentindo bastante desrespeitada nesta história. Sei que não é o guarda o responsável pela situação (e ele não deve ser castigado). É o banco e seus executivos que certamente demonstraram a sua falta de interesse no cliente.

Não me sinto “protegida” com estas portas rotativas, não vejo isto aumentando a “minha segurança” – vivencio a inconveniência e constrangimento. Como norte-americana, não estou accostumada a simplesmente me conformar com “paternalismo”… .

Será que os altos executivos do banco teriam a paciência para ficar lá, esvaziando os bolsos até descobrir o que é que aquela maquininha da porta rotativa não está gostando? Ah, mas eles só entram pelas portas dos funcionários. E os executivos masculinos não carregam bolsa de mulher… Não precisam se submeter a esta humiliação.

Gente, quem está fazendo favor para quem? É o banco que deve servir ao cliente ou será que o mundo mudou e agora é o cliente que serve ao banco? Só queria pagar uma conta! Mas para pagar uma conta, tenho que provar que não sou ladra???? Tenho que provar a minha inocência????

Pelo jeito, eles não precisam do meu depósito. Os lucros deles já são bastante grandes.

Podem ir barrando a gente. Vou para outro banco. Há bancos que permitem acesso aos terminais eletrônicos livremente. Outros têm guarda-volumes junto com aquelas portas rotativas. Outros aceitam depósitos nas casas lotéricas. Ainda tenho opções.

Não quero ser tratado como ladra. Não quero passar por este constrangimento. Não preciso disto.

Atualização – 19 de abril: publiquei este texto e enviei reclamação ao Bradesco através do “fale conosco” da Internet na sexta-feira. Hoje (segunda-feira) recebi telefonema de uma pessoa de São Paulo (onde tenho as minhas contas) que me ouviu atensiosamente e me atendeu com bastante cortesia. Ficou para fazer o levantamento da situação. Foi bom saber que atendem rapidamente. Vamos aguardar para ver os resultados…

Atualização – 7 de maio: No dia 23 de abril, recebi uma telefonem do gerente da agência local. Ele me informou que a porta foi transferida para aquele local por imposição de uma lei municipal e “nada podia ser feito”. Pode ser. Insisti que o banco podia e deveria investigar soluções e implementar meios de minimizar o transtorno do cliente. Apesar de não ter sido uma conversa desagradável (foi até razoavelmente agradável), não fiquei satisfeita. No final das contas, acabei sentindo que simplesmente recebi aquele papo de vendedor que diz basicamente “ficou explicado, não vamos mudar nada, venha aqui consumir o nosso produto…”. Pedi o seu endereço de e-mail, enviei uma mensagem com o link para este texto (que ele não conhecia), mas até hoje, não recebi qualquer resposta. Acho que já esqueceram do assunto.

Gostaria de, no mínimo, ter recebido uma carta ou até mesmo um simples e-mail, pedindo desculpas. Afinal, papo é fácil. Gestos concretos são mais difíceis. Mais ainda, gostaria de ver algum sinal real de interesse em melhorar o conforto do cliente frente estes transtornos.

Será que simplesmente não interessa o constrangimento que sentimos, já que os lucros crescem a cada ano? Será que não interessa o sentimento que vivenciamos quando estamos dentro daquela porta, com uma (ou mais) guarda(s) armada(s) do outro lado? Afinal, não é uma mera fantasia ter um certo medinho: Aposentado baleado em banco.

Mesmo que seja lei, uma entidade do tamanho de um banco com o Bradesco tem muito poder para propor e apoiar leis mais realistas. Fazem “lobby” toda hora, defendendo os seus interesses. Mas o interesse do cliente… .

Não somente não quero ser tratada como ladra, não quero ver o nosso país se afundando nas paranóias e violências que só favorecem os corruptos, os criminosos e as indústrias de armas e “segurança” e levam à perda dos direitos, da dignidade e da liberdade do cidadão.

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7 Comentários »

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  1. O vigilante que estava “tentando ajudar” tem um comando no bolso que permite destravar a porta. Da proxima vez tente mostrar a ele seus pertences, abrindo a bolsa para que ele possa ver o conteúdo etc. e espere o sinal dele para prosseguir assim provávelmente não terá de usar mais a incomoda caixinha.
    Como vai com frequencia na tal agência talvez seja conveniente sempre cumprimentar o segurança na entrada e dar um sorriso em um bom serviço na saida.
    Ele vai se sentir prestigiado, se lembrará de você, e quem sabe você talvez nem irá precisar usar mais a caixinha nem abrir a bolsa.
    Ou então apenas aceite com resignação a dificuldade, com certeza estará sendo observada e talvez assim eles se apercebam aonde devem melhorar. Abraço fraterno.

    • Obrigada pelo comentário, Jorge,

      Geralmente é isto que acontece. Sorrio, cumprimento e os guardas facilitam.

      Geralmente, sim, ao ver que o cliente está tendo dificuldade, eles se aproximam e até solicitam, “deixe eu ver a bolsa” para facilitar, mas não foi assim desta vez…

      Desta vez o guarda só ficou naquela de “tire os objetos de metal”, de uma distância (atrás das outras portas de vidro da agência, na área onde esta porta rotativa ficava antes). Só foi se aproximar e afirmar que “só queria ajudar” quando eu já estava dentro da área que dava acesso às caixas eletrônicas) e tentando retirar a minha bolsa daquela caixinha – com a história toda já chegado a um ponto absurdo. Nestas alturas, ele ainda não estava propondo soluções além de “tire os objetos de metal” e eu já estava cansada de estar tirando “objetos de metal” e nervosa (sim, até os monges acabam ficando nervosos às vezes). Talvez era um guarda novo. Talvez falta treinamento para ele saber lidar com cliente cansada e constrangida.

      Será que o problema estava com o cortador de unhas que tem metal? Caneta? Ah, o caderninho tem espiral de metal…. O que é que está disparando esta máquina???? Já não sabia mais o que tirar… E depois de três tentativas de passar por aquela porta rotativa, a situação vira bastante constrangidora…

      Mais ainda, não é o guarda que é o responsável… É a atitude que os bancos vem tomando que me incomoda.

      Precisam ter melhor consideração pelos clientes. Podiam colocar guarda-volumes no lado de fora (com acontece num dos bancos que uso), ou buscar outras soluções criativas. Será que realmente precisamos cultivar a “indústria do medo” com medidas tão draconianas assim?

      O medo que cultivamos atrai e faz acontecer aquilo do qual temos medo.

      Fazer os seus clientes passar por este tipo de constrangimento não é um bom procedimento… É uma coisa tomar medidas razoáveis e é outra coisa já estar tratando todas as pessoas como ladras que precisam provar que estão desarmadas para entrar e depositar o seu dinheiro.

      Aceitar com resignação é uma coisa – mas ficar queita e se fazer de capacho é outra coisa. Venho aceitando com resignação faz tempo já – e usando as lotéricas para fazer os depósitos na Caixa para minimizar este constrangimento de ter provar a minha inocência toda hora (por isso, acabo suspeitando que os bancos querem fazer a gente evitar ir nas agências – afinal o “perigo” fica transferido às lotéricas e correios que aceitam o pagamento de contas e depósitso (Caixa – lotéricas, Bradesco – correios).

      Tudo de bom para você!

  2. Cara Monjai Sshin,

    Tocou num ponto que acho importante: quando o reclamar e defender um direito é correto e justo.

    Muitos falam que devemos “ser bonzinhos”, não reclamar de nada, “ser cordeirinhos”. Isso é ótimo para o lobo. Quanto mais passivos menos trabalho e melhor é o escravo. Sem duvida isso pode ser usado por quem que dominar para controlar, dominar, humilhar e usurpar.

    O caso do banco é recorrente. Varias vezes, nessa situação já pensei em ficar completamente nu e adentrar a agencia. Afinal, correndo risco da agressão de um guarda – pois esta armado -e onde preciso provar que não estou armada, nada melhor do que deixar tudo a vista.

    Bom, isso já esta acontecendo e aeroportos no mundo com o uso de raio X. A pessoa fica “pelada” no monitor do vigilante.

    Será que teremos que virar naturistas/nudistas para atender a paranóia de governos, estados e empresas?

    Mesmo para um naturista convicto não deixa de ser uma invasão dos diretos e da liberdades individual.

    Mas voltando ao texto, fica a pergunta: como saber se a reclamação que fazemos é justas. Como distinguir entre ser um coitadinho a mercê dos lobos e um individuo na defesas do que é bom, certo e justo?

  3. Viu o que aconteceu com o aposentado na agencia do Bradesco que usava marca passo? Foi baleado!
    Veja em http://deolhos.blogspot.com/2010/05/homem-baleado-em-banco-de-sp-foi-vitima.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+blogspot/cJRr+(De+Olhos+-+Imagens+v%C3%ADdeos+e+fotos+despretensiosas)
    Acho que vamos ter que entrar pelados na agencia…

  4. Concordo plenamente com o penúltimo comentário… Dá vontade de cometer uma loucura. Acabei de passar por esse constrangimento e precisava ler um pouco sobre isso na internet. Até liguei 190 e perguntei se isso era correto, pois coloquei ABSOLUTAMENTE TUDO o que tinha dentro da minha bolsa, inclusive papéis e caneta dentro daquela caixa de acrílico e tentei entrar por 5 vezes. Na última eu percebi que apitou quase quando eu estava entrando “o que me deixou mais furiosa”, pois senti que aquilo é controlado pelos seguranças pra depois “rirem” de nós… Os tontos!!!! Que absurdo!!!

    Pelo menos fui muito bem atendida pela polícia que me orientou e ainda quis enviar uma viatura para me ajudar, mas fiquei tão constrangida com todo o ocorrido e o vigia do lado de fora dizendo assim: “Se quiser, deixe a sua bolsa nesse armário!” que desisti. Fiz uma ligação para a ouvidoria do Santander e espero obter resposta. Pelo menos DESCULPE-NOS, eu já ouvi.

    Mas, como cidadã, tenho de escrever e pesquisar uma forma de lutar para mudar mais essa “pouca vergonha” que temos de enfrantar no nosso dia a dia.
    Ah… sem esquecer que numa das vezes em que a porta parou e eu abri a minha bolsa rapidamente, percebi o segurança que estava dentro da agência colocando a mão direita sobre sua arma ou algo do tipo e me senti realmente UMA BANDIDA TENTANDO INVADIR A AGÊNCIA E NA MIRA DO VIGIA! Pode?!

    • Para mim, como monja, as minhas opções de “agitação social” ficam um pouquinho limitadas, pois não devo “tomar partido”. Talvez a saída seria para algum cidadão iniciar uma campanha de “abaixo assinado eletrônico” como houve no caso da campanha do Ficha Limpa (http://www.avaaz.org/po/brasil_ficha_limpa/). Só não sei direito a quem tais iniciativas devem ser direcionadas, mas sei que estas campanhas funcionam.
      Realmente, é assustador estar dentro daquela porta – presa – com um cara armada do outro lado. Já sabemos como terminou pelo menos um caso…

  5. Não pode comer feijão antes de entrar, pois dai tem muito ferro no corpo e dispara o alarme, queria ver o magneto entrando e destruindo essas malditas portas.
    Ainda bem que so uso um smartphone que nunca passa a bateria de litio, da um medo de perder o smartphone, eu me sinto mais seguro fora do banco na verdade.


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