O rigor da prática Budista

agosto 21, 2009 às 7:17 pm | Publicado em Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Professor de Darma Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 2 Comentários

A prática espiritual é rigorosa – em todas as tradições religiosas, inclusive no Budismo. Quem imagina que profunda auto-transformação, o confronto consigo mesmo, possa ser um processo “suave” e “agradável” está bastante iludido. É claro que também encontramos no caminho muitos efeitos positivos de relaxamendo, bem-estar, melhorias nos relacionamentos, até que um dia realizamos o fim do dukkha (sofrimento, insatisfatoriedade). Graças à prática é certo que vivenciamos mudanças grandes e positivas em nossas vidas.

Mesmo assim, o fato é que para nos libertarmos dos nossos condicionamentos, é preciso antes enxergá-los. E para enxergá-los é necessário que eles “apareçam”, o que em geral traz algum tipo de desconforto em nossa prática – conflitos com o professor, conflitos com colegas de Sanga, desconfortos de variados tipos. O “rigor” da prática serve para fazer “aparecer” estes condicionamentos.

Em retiros de Vipassana, é freqüente haver um rigor absoluto de manter silêncio e não se mover durante os períodos de meditação. Monges da tradição Teravada, bem como os monges das tradições Mahayanas não-japonesas, seguem mais de 200 regras de comportamento e os leigos seguem 5, 8 ou 10 regras. Nas tradições japonesas, tanto os leigos quanto os monges seguem os “16 Preceitos do Bodisatva”.

As tradições tibetanas praticam um grande rigor nos debates, que podem ser praticamente “massacrantes”. A tradição da Terra Pura japonesa mostra o mesmo rigor nos debates.

E o Zen? Geralmente, temos bastante rigor na questão da manutenção do silêncio durante os retiros e durante a prática de samu. Geralmente, pede-se rigor de evitar movimentar-se durante o zazen.

Mas talvez o rigor mais surpreendente do Zen seja o rigor nas atividades diárias, na precisão das formas. Diferente de várias das outras tradições, no Zen temos regras sobre com que pé vamos entrar no Zendo e sobre como vamos andar, servir o chá, comer (com Oryoki – conjunto de tigelas) e realizar as várias funções da Prática de Cerimonial (tocar instrumentos, anunciar o próximo sutra, recitar dedicatória, entregar e recolher os livros dos sutras, fazer oferendas, etc). Mil detalhes, detalhes que nos chamam para a Plena Atenção, para o Aqui e Agora.

Mas o que é esta Plena Atenção, este “estar no Aqui e Agora”?

A cultura Ocidental tornou-se muito “informal”. Conseqüentemente, muitos praticantes se rebelam contra o rigor da “forma” no Zen. Mas no fundo o que significa “informal”? Acaba significando “in-forme”, ou seja, “sem forma”, “caótico”. Aqueles praticantes condicionados na “informalidade” se assustam quando tentam praticar as formas do Zen, pois talvez nunca cultivaram tamanho “auto-controle” nas suas atividades. Talvez achem tudo isso “pura chatice”. E quando ouvem um professor falar da importância de fazer as coisas com “naturalidade” e “espontaneidade”, acreditam que o seu jeito de fazer as coisas já é a “naturalidade” e a “espontaneidade” do Zen. Mas esta “informalidade”, na verdade, é um certo desleixo. Ou seja, não entenderam a “espontaneidade Zen”.

Mas também temos muitos “perfeccionistas” em nossa cultura. E como eles sofrem, inicialmente, com a nossa prática! Não entendem o que significa a verdadeira “Plena Atenção”. Confundem o rigor do Zen com a sua atenção aos detalhes, com a pressão e auto-cobrança quase obsessivos do perfecionismo que viveram no passado. Quando estes alunos fazem suas atividades sem estar verdadeiramente no Aqui e Agora, tendem a cair em suas auto-cobranças obsessivas, e sofrem muito. Talvez, querendo escapar do sofrimento, mas sem perceber a verdadeira causa, reclamam que o Zen é exigente demais, afirmando que “não precisava ser tudo tão certinho”… A verdade é que não estão entendendo a prática de olhar para os seus condicionamentos se manifestando e voltar à respiração, como treinam fazer com os pensamentos no Zazen.

Já os professores, às vezes, parecem bastante estranhos, aparentemente se contradizendo, uma hora pedindo “naturalidade e espontaneidade” e logo em seguida pedindo “precisão”, corrigindo vários detalhes. Pedem que façam as coisas “corretamente” e logo em seguida falam coisas como “Não tenha medo de errar! Se vai errar, por favor, erre com tudo!”.

Estão vendo os seus alunos indo de um extremo ao outro: tentando “não errar”, caem no perfecionismo; tentando agir “naturalmente”, caem no “desleixo”. Dualidade pura.

Falando paradoxalmente, aparentemente se contradizendo, os professores estão convidando os alunos a descobrirem a Plena Atenção, uma terceira postura na vida que permite uma precisão e atenção a detalhes que é natural e espontânea – algo bem diferente dos dois extremos do desleixo informal e do perfecionismo obsessivo da mente condicionada. Estão convidando os alunos a virem para o Aqui e Agora, plenamente conscientes de si mesmos, dos outros, do ambiente, das circunstâncias e de suas ações. Estão convidando-os a descobrir o “Zen na Ação”, a levar para as atividades diárias aquele mesmo estado de paz e tranqüilidade que é vivenciado no Zazen. Estão convidando-os a libertarem-se dos seus condicionamentos, manifestando a “mente iluminada”.

Este é o método do Zen.

Aqui reproduzo as reflexões do Monge Gensho, no blog O Pico da Montanha, depois de assistir o filme “Zen, a Vida de Mestre Dogen”:

“Nossos esforços de meditação imitam pobremente os de Dogen e dos monges que iniciaram a prática Soto Zen no Japão. No início do século XIII eles eram extremamente pobres, e às vezes, em lugar de arroz, só tinham água fervida para substituir refeições. […]
A biografia do mestre é emocionante mas densa de tal modo que não passará em circuitos comerciais. Os diálogos diretamente tirados dos textos clássicos exigem comentários posteriores para serem melhor apreciados.
Ao vermos o budismo integral de Mestre Dogen, praticando como ele até morrermos sentados em zazen, compreendemos o significado da degenerescência do Dharma, como de todas as coisas que os homens fazem, sempre tentando ficar com o que é confortável em lugar de praticar verdadeiramente.”

Quanta verdade, Monge Gensho!

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2 Comentários »

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  1. Prezada Sensei,

    Apesar de já praticar budismo formalmente há mais de quatro anos, e apesar de sua habilidade e compaixão, estou experimentando uma certa resistência à prática zen, que só começou a se tornar consciente após eu ler o seu texto “O rigor da prática Budista”. Eis aí meus condicionamentos começando a se revelarem. Obrigado.

    Cuide-se bem, precisamos da senhora.
    Gassho.
    Luis

    • Prezado Luis,
      Obrigada pelo comentário. Que bom que está tomando consciência de condicionamentos. Como o Buda ensina, a “ignorância” (o não-saber e/ou o falso saber) é o venendo que dá origem aos venenos de apego e aversão. E a nossa “resistência” é aversão… Para muitas pessoas, infelizmente, esta aversão chega ao ponto da pessoa abandonar a prática ou sair a procura de outro professor menos rigoroso – e continua “escravo” de seus condicionamentos da dualidade “desleixo-perfeccionismo”, com o sofrimento resultante.

      Com a tomada de consciência, poderá compreender a resistência quando ela surge, observa-la como se fosse um pensamento qualquer no zazen, e deixa-la passar.

      Parabéns! Mantenha-se firme na prática!
      Gassho,
      Isshin


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