Trecho do livro “A Lição Final”

agosto 13, 2008 às 11:22 am | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 1 Comentário
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Trecho do livro “A Lição Final”, de Randy Pausch, com Jeffrey Zaslow
da Folha de S.Paulo
22/05/200802h32

Introdução

Estou enfrentando um problema de planejamento.

Embora em geral eu esteja em excelente forma física, tenho dez tumores no fígado e me restam apenas alguns meses de vida.

Sou pai de três crianças e sou casado com a mulher dos meus sonhos. Seria cômodo ficar me lamentando, mas isso não faria bem a eles nem a mim.

Então, como viver esse meu tempo tão limitado?

O óbvio é ficar com minha família e cuidar dela. Enquanto posso, estou com eles todos os instantes e tomo as providências logísticas necessárias para lhes facilitar o caminho na vida sem mim.

O menos óbvio é como ensinar a meus filhos o que eu lhes ensinaria nos próximos vinte anos. Agora eles são jovens demais para essas conversas. Todos nós, pais, desejamos ensinar os filhos a distinguirem o certo do errado, o que consideramos importante e como lidar com os desafios que a vida lhes trará. Também queremos que conheçam histórias de nossas vidas, uma maneira de ensinar-lhes a lidar com suas próprias vidas. Meu desejo de fazer isso me levou a ministrar uma “palestra de despedida” na Carnegie Mellon University.

Essas aulas costumam ser filmadas. Naquele dia eu sabia o que estava fazendo. A pretexto de promover uma palestra acadêmica, tentei me colocar dentro de uma garrafa que um dia aportasse à praia, para meus filhos. Se eu fosse pintor, teria pintado para eles. Se fosse músico, teria composto uma música. Mas, como sou professor, dei uma aula.

Falei da alegria de viver e de quanto eu apreciava a vida mesmo me restando tão pouco tempo. Discorri sobre honestidade, integridade, gratidão e outras coisas que estimo. E me esforcei ao máximo para não ser enfadonho.

Para mim, este livro é um meio de continuar o que iniciei naquele palco. Como o tempo é precioso e pretendo passar a maior parte dele com meus filhos, pedi ajuda a Jeffrey Zaslow. Todos os dias passeio de bicicleta pela vizinhança, um exercício fundamental para minha saúde. Durante 53 desses longos passeios de bicicleta, falei com Jeff pelo fone de ouvido do meu celular. Depois ele passou horas a fio ajudando a transformar minhas histórias suponho que poderíamos denominá-las 53 “aulas” –neste livro.

Desde o início sabíamos que nada substitui um pai vivo. Mas planejar não significa obter soluções perfeitas; significa fazer o melhor possível com recursos limitados. Tanto a palestra de despedida como este livro representam minhas tentativas para fazer exatamente isso.

A Palestra de Despedida

1. Um leão ferido ainda tem vontade de rugir

Muitos professores realizam “palestras de despedida”. Talvez você já tenha assistido a alguma.

É uma prática comum nas universidades. Pede-se aos professores que avaliem seu legado e discorram sobre assuntos que considerem importantes. E, enquanto eles discursam, os ouvintes não conseguem deixar de se perguntar: que ensinamentos transmitiríamos ao mundo se soubéssemos que se tratava de nossa última oportunidade? Se deixássemos de existir amanhã, o que desejaríamos deixar como herança?

Durante anos a Carnegie Mellon realizou uma série de “palestras de despedida”. Mas quando os organizadores solicitaram que eu realizasse a minha, a série foi renomeada “Trajetórias” e pediu-se aos professores convidados que “fizessem reflexões sobre suas trajetórias pessoais e profissionais”. A descrição não era das mais atraentes, mas concordei em participar. Minha palestra ficou marcada para setembro.

A essa época, eu já recebera o diagnóstico de câncer no pâncreas, mas estava otimista. Talvez viesse a ser um dos sortudos que sobrevivem.

Enquanto me submetia ao tratamento, os organizadores das palestras continuavam me enviando e-mails: “Que assuntos você vai abordar?”, “Por favor, envie-nos um resumo”. Há certas formalidades acadêmicas que não podem ser ignoradas, mesmo quando se está ocupado com outras coisas, como por exemplo, tentar não morrer. Em meados de agosto fui informado de que seria preciso imprimir um cartaz para a palestra e que, portanto, eu deveria decidir o tema.

Naquela mesma semana, entretanto, recebi a notícia de que o tratamento mais recente a que eu me submetera não havia funcionado. Restavam-me apenas alguns meses de vida.

Eu sabia que poderia cancelar a palestra. Todos entenderiam. De repente, havia muitas outras coisas por fazer. Eu precisava cuidar de meu próprio sofrimento e da tristeza dos que me amavam. Precisava me dedicar à organização dos assuntos familiares. E, no entanto, apesar de tudo, não conseguia desistir da idéia de fazer a palestra. Sentia-me revigorado ante à expectativa de realizar uma palestra de despedida que fosse, de fato, a última. O que eu diria? Como minhas palavras seriam recebidas? Será que conseguiria chegar ao fim?

Disse para a minha mulher:

— Se eu desistir, todos vão entender, mas na verdade eu quero fazer essa palestra.

Jai (pronuncia-se “Jei”) sempre fora minha maior incentivadora. Quando eu me entusiasmava, ela também se entusiasmava. Mas ela não gostou muito dessa idéia de palestra de despedida. Acabáramos de nos mudar de Pittsburgh para o sudeste da Virgínia de modo que, depois de minha morte, Jai e as crianças ficassem perto da família dela. Ela achava que eu deveria passar meu precioso tempo com nossos filhos, ou arrumando a casa nova, em vez de dedicar horas redigindo a palestra e ainda viajar até Pittsburgh para ministrá-la.

— Pode me chamar de egoísta –disse Jai, mas eu o quero sempre por perto. Todo o tempo que você dedicar a essa palestra será tempo perdido, tempo que vai ficar longe das crianças e de mim.

Entendi onde ela queria chegar. Desde que adoecera, eu prometera a mim mesmo obedecer a Jai e atender seus desejos. Considerava um dever esforçar-me ao máximo para diminuir o fardo que minha doença impusera à vida dela. Por isso passei muitas horas acordado planejando o futuro da família sem minha presença. Mas, não conseguia me livrar do anseio de realizar a palestra de despedida.

Ao longo de minha carreira acadêmica, eu dera algumas palestras bastante boas. Mas ser considerado o melhor orador do departamento de Ciência da Computação equivale a ser conhecido como “o mais alto dos sete anões”. E naquele exato momento percebi que dentro de mim havia algo mais, que, se eu me empenhasse ao máximo, talvez pudesse oferecer aos outros algo de especial. Sabedoria é uma palavra forte, mas talvez seja a melhor.

Jai não estava nada satisfeita. Então, levamos o assunto a Michele Reiss, a psicoterapeuta com quem começáramos a nos consultar meses antes, especialista no auxílio a famílias que enfrentam uma doença terminal.

Jai disse à dra. Reiss:

— Conheço bem o Randy. Ele é viciado em trabalho. Sei exatamente como ele vai ficar quando estiver organizando a aula. Vai ficar exausto. –E argumentou que a palestra desviaria desnecessariamente minha atenção dos problemas cruciais que estávamos enfrentando em nossas vidas.

Outro assunto aborrecia Jai: para realizar a conferência como previsto, eu precisaria viajar para Pittsburgh na véspera, dia em que Jai completaria 41 anos.

— É meu último aniversário que nós comemoraremos juntos. E você vai se ausentar exatamente nesse dia? –indagou ela.

Com certeza, a idéia de estar longe de Jai nesse dia me atormentava. E, no entanto, eu não conseguia desistir da idéia da palestra. Passei a considerá-la o último momento de minha carreira, um meio de dizer adeus à minha “família de trabalho”. Também me deparei fantasiando que a palestra de despedida equivaleria, em oratória, a um artilheiro de beisebol que se aposentava lançando uma última bola para a arquibancada. Sempre gostei muito da cena final de Um homem fora de série quando Roy Hobbs, o jogador de beisebol envelhecido, supera a dor física e consegue milagrosamente aquele fantástico home run.

A dra. Reiss escutou o que Jai e eu falamos. Disse que via em Jai uma mulher forte e amorosa, que pretendera passar décadas construindo uma vida plena com o marido, educando os filhos até a idade adulta, e que agora nossa vida em comum precisava se restringir a poucos meses. Quanto a mim, a dra. Reiss me considerava um homem ainda despreparado para se recolher inteiramente à vida doméstica e com certeza ainda despreparado para enfrentar a morte.

— Essa aula será a última vez que muita gente que eu gosto me verá em carne e osso –eu disse, categórico.– Terei a chance de expor tudo o que é realmente importante para mim, de consolidar a maneira pela qual serei lembrado e de fazer o melhor possível na hora da partida.

Mais de uma vez a dra. Reiss observara Jai e eu sentados no divã de seu consultório amparando um ao outro e com lágrimas nos olhos. Ela nos disse que via um grande respeito entre nós e que freqüentemente ficava emocionada ao extremo com nosso compromisso de encararmos a hora final bem e unidos. Mas achava que não lhe cabia avaliar se eu devia ou não dar a palestra.

— Vocês terão de decidir isso sozinhos –afirmou, aconselhando-nos a conversar muito para tomarmos a decisão correta para ambos.

Em razão da reticência de Jai, percebi que eu precisaria analisar honestamente minhas motivações. Por que essa palestra era tão importante para mim? Seria um meio de lembrar a mim mesmo e aos outros que eu ainda estava bem vivo? De provar que ainda tinha forças para atuar no palco? Seria eu um amante da ribalta que queria se exibir pela última vez? A resposta foi sim para todas as perguntas.

— Um leão ferido tem vontade de saber se ainda consegue rugir –disse a Jai.– É uma questão de dignidade e de auto-estima, que não são exatamente o mesmo que vaidade.

Havia algo mais em jogo. Eu começara a ver a palestra como um veículo que me levaria ao futuro que eu não viveria.

Lembrei a Jai a idade das crianças (5, 2 e 1) e disse:

— Veja, suponho que Dylan, com 5 anos, crescerá com algumas lembranças minhas. Mas até que ponto se lembrará realmente? O que você e eu lembramos de quando tínhamos 5 anos? Será que Dylan vai se lembrar de que eu brincava com ele, ou daquilo que nós dois ríamos juntos? No máximo serão recordações nebulosas. E quanto a Logan e a Chloe? Talvez não se lembrem de coisa alguma. Nada. Sobretudo Chloe. E posso afirmar que quando as crianças ficarem mais crescidas, passarão pela fase de querer saber ansiosa e insistentemente: “Quem era meu pai?”, “Como ele era?” Essa aula poderá lhes servir de resposta.

Prometi a Jai que iria me certificar de que a Carnegie Mellon gravasse a aula.

— A gente consegue um DVD e você o mostrará às crianças, quando crescerem. Isso os ajudará a saberem quem eu era e a conhecerem as coisas que eu julgava importantes.

Jai me ouviu até o fim e depois fez a pergunta óbvia:

— Se você quer dizer algo às crianças, ou dar-lhes conselhos, por que não instala simplesmente uma câmera de vídeo em um tripé e grava tudo na sala daqui de casa?

Talvez assim ela garantisse minha presença. Ou talvez não. Assim como a floresta é o hábitat natural do leão, o meu ainda era o campus da universidade, diante dos alunos. Então eu disse a Jai:

— Uma coisa que aprendi é que quando os pais ensinam algo aos filhos, não faz mal algum haver certa aprovação externa. Se eu conseguir que o público ria e bata palmas na hora certa, talvez isso reforce o que estarei dizendo às crianças.

Jai sorriu para mim, seu artista agonizante, e finalmente aceitou. Sabia que eu andava ansioso para arranjar meios de deixar algum legado para nossos filhos. Pois bem, talvez a palestra fosse um caminho.

E assim, com a aprovação de Jai, eu tinha um desafio pela frente. Como transformar aquela palestra acadêmica em algo que repercutisse em nossos filhos daqui a uma década ou mais?

Uma coisa era certa: eu não queria que a aula se concentrasse em meu câncer. Já remoera o suficiente sobre a saga de minha doença. Não me interessava discursar, por exemplo, sobre minhas percepções da doença, como eu a enfrentara, ou quanto ela me abrira novas perspectivas. Talvez muitos esperassem uma palestra sobre a morte. Mas eu trataria da vida.

da Folha On-line, caderno Equilíbrio

Ver o vídeo: A Última Aula

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