A vida é uma grande rede – Revista Diálogo

abril 14, 2008 às 7:02 pm | Publicado em Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Revistas - Artigos e Entrevistas, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | 1 Comentário

Neste artigo que escrevi ano passado, a realidade das interconexões entre todos os seres é exemplificada com o que nos parece um simples pedaço de pão, tão presente diariamente em nossas vidas. Aparentemente é o mais humilde dos alimentos, mas vamos aprender a olha-lo com mais profundidade.

Foi o que me propus fazer neste artigo, publicado pela Revista Diálogo, ed. 48 em outubro, 2007.

Durante a maioria das refeições, nos mosteiros zen-budistas japoneses, os monges recitam versos das cinco contemplações. Um desses versos pode ser significativo para qualquer pessoa, independentemente da religião:

As Cinco Contemplações

Primeiro – Inumeráveis trabalhadores nos trouxeram esta comida. Devemos saber como ela chega até nós.
Segundo
– Devemos considerar se nossa virtude e prática a merecem.
Terceiro
– Como desejamos a condição natural da mente, para estarmos livres de apegos, precisamos estar livres de ganância.
Quarto
– Como um bom remédio para manter nossas vidas, aceitamos esta comida.
Quinto
– Para alcançar a iluminação, agora comeremos.

Amanhã, ao comer o seu pão, que tal pensar no verso: “Inumeráveis trabalhadores nos trouxeram esta comida”? Imagine: o caixa da padaria; a pessoa que embalou o pão; quem o colocou no forno; o motorista que trouxe a farinha, o leite e os outros ingredientes; as pessoas que venderam os ingredientes à padaria; as que moeram o trigo, pasteurizaram o leite, prepararam os outros elementos; os motoristas que transportaram as matérias-primas até as fábricas; os trabalhadores rurais que plantaram e colheram o trigo e cuidaram das vacas produtoras do leite; os fabricantes, os vendedores e toda a rede de pessoas envolvidas na fabricação do maquinário que foi usado no plantio e na colheita; os pássaros, as minhocas e todas as pequeninas criaturas que contribuíram para a produção do alimento das vacas, toda a rede ecológica, que faz o trigo crescer; a chuva, o vento, o sol, a própria terra… Todas estas pessoas, todas estas criaturas, tudo isto – e muito mais – são indispensáveis para que você saboreie o seu pão matinal.

A Rede de Brama

Ao ler esta página, imagine as pessoas, as plantas, os microorganismos, os ele mentos naturais, que fizeram esta revista chegar até você, começando pela chuva, o sol e a terra, necessários ao crescimento da árvore que virou papel. E você, ao ler a revista, também entrou na rede e se conectou com todos estes seres. Tudo é vida: nós, o universo que pulsa, vibrante, sagrado. Tudo está interconectado, interligado, tudo é Um. Todos, formamos uma grande rede, inseparável. O Sagrado se manifesta em sua plenitude.

O budismo dá a esta realidade o nome “Rede de Brama”. E ensina que, em cada nó da rede, existe uma pérola – cada ser vivo é uma pérola nesta rede. Ensina mais ainda, em cada pérola, refletem-se todas as outras pérolas. Dentro de você, existe o reflexo de todos os seres do universo. E o brilho que você emite se reflete também em todos eles! Somos parte da Rede de Brama – a vida sagrada do universo. Esses ensinamentos milenares agora estão sendo confirmados pela Ciência e pela Ecologia, pois ambas demonstram como toda a vida este interconectada e é inseparável. Nenhuma criatura existe isoladamente. A borboleta não está separada de mim. Eu também não estou separada da borboleta.

A Rede de Brama significa que eu tenho todas as pessoas refletidas dentro de mim. Eu nasci como sou: com o meu sexo, cor de pele, cor de cabelo e de olhos, por uma questão de genética, mas eu teria o potencial para nascer como qualquer outro ser humano. Se eu tivesse recebido dos meus pais outros genes do tesouro genético, eu poderia ter nascido com cabelo diferente, por exemplo. Por isso, não há diferença real entre as variantes raciais. Todos os seres humanos têm os mesmos sonhos, os mesmos amores, o mesmo desejo de felicidade.

Trago em mim o potencial humano completo. Tenho determinadas características hoje, porque as causas e as condições da minha vida me levaram a desenvolver certas potencialidades e deixar outras latentes. Contenho o mesmo potencial de ser de qualquer outra pessoa. Por isso, não posso julgar ninguém. Não há por que me considerar superior nem inferior a quem quer que seja.

O budismo ensina que, por sermos todos conectados, tudo o que causamos aos outros seres se reflete em nós mesmos. Se eu abater uma árvore, estarei diminuindo a minha própria reserva de oxigênio. Se eu maltratar uma pessoa, estarei maltratando a mim mesmo, pois não há separação real entre mim e ela. Somos todos elos da única rede, gotas da mesma água, ondas de um só oceano.

O caminho da compaixão

Por sermos todos um com todos, o caminho de vida apontado pelo budismo ‚ a compaixão, o “sentir com” as outras criaturas. Sentir com os ursos-polares, os tubarões, os golfinhos, as borboletas, as vacas, as guias, os cavalos, as galinhas. Sentir com as alfaces, as árvores, as cenouras… Sentir com as minhocas, as joaninhas. Sentir com as pessoas de pele escura ou clara, de olhos azuis ou castanhos, de cabelo liso ou crespo. Sentir com as pessoas das mais variadas culturas, que falam outras línguas, que têm outros costumes, que talvez eu não entenda. Sentir com ricos e pobres, jovens e anciãos. Sentir com todas as pessoas, até compreender que todos somos iguais – amando, rindo, chorando, sonhando -, todos nós desejamos uma vida de paz.

O zen budismo celebra a vida. Considera o Nirvana um estado de graça, de paz e tranqüilidade no presente. Pratica a meditação, estuda os ensinamentos budistas e procura os preceitos que conduzem ao Nirvana aqui, agora, vivendo plenamente a vida – de acordo com o Caminho do Meio, sem extremos de bem-estar nem de austeridade. O Caminho do Meio ‚ também chamado Nobre Caminho ou Nobre Caminho Óctuplo, pois propõe oito atitudes em vista da libertação e da iluminação: entendimento correto, pensamento cor reto, fala correta, ação correta, meio de vida correto, esforço correto, atenção correta e concentração correta.

Em um texto chamado “Instruções para o Cozinheiro Chefe”, o fundador da escola Soto Zen japonês orienta o seguidor do zen-budismo a desenvolver “três mentes”: a mente magnânima ou generosa, a mente parental e a mente da alegria. Com a mente magnânima, agradecemos pelo nosso sustento. Com a mente parental, cuidamos de todos os seres: pessoas, animais, plantas e a própria terra. E com a mente da alegria, desfrutamos a vida de forma saudável e sustentável.

Posso praticar o desenvolvimento das três mentes, começando com os versos das cinco contemplações: lembrando-me dos seres que contribuíram para a minha alimentação, refletindo sobre os meus pensamentos e ações, livrando-me da ganância e da raiva, alimentando-me com gratidão, para sustentar a minha vida e ser uma pessoa melhor, repleta de sabedoria e de compaixão.

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1 Comentário »

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  1. Todos os caminhos são caminhos…
    Agradecido,
    José


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