Surfar as Ondas da Vida

novembro 14, 2007 às 3:20 pm | Publicado em Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre, ZenSurf | 6 Comentários

Recentemente, em São Paulo para um retiro, a minha anfitriã me levou para o litoral para a minha segunda aula de surfe. Imagine, eu com os meus vinte-e-tantos-bem-passados anos de idade e falta de coordenação quase total, numa aula de surfe. Que divertido! Que lição de Zen!

Isshin-surfeQuase sem onda, mesmo assim, na primeira aula (em dezembro de ano passado), consegui ficar em pé na prancha justamente o tempo suficiente para uma foto (meio-segundo? Um segundo inteiro?). A fotógrafa (a minha amiga) foi bem habilidosa… E como me diverti!

É uma maravilha sentir a força da água, a corrente levando a gente. É uma grande aprendizagem perceber a resistência no corpo, o medo de entregar-se – de deixar-se ser levado. No começo, agarrava a prancha com força total… Mas que maravilha a sensação de liberdade, ao relaxar o corpo e começar a tornar-me uno com a prancha e a água! E como é forte a descoberta que, soltando o corpo, entregando o peso para a prancha (e a água) é quando a gente passa a ter a maior estabilidade. Com maior estabilidade (o corpo solto e entregue), descobri que tinha mais espaço até para manobrar a prancha, exercendo o meu ‘livre arbítrio’, dentro da minha limitadíssima capacidade!

Descobri que não precisava ter medo de cair na água – que a água me acolhia até com uma certa suavidade quando tombava da prancha (ou seja, toda vez que tentava ficar em pé nela…). Também ficou clara a necessidade de manter a plena atenção, pois era necessário cuidar para não cair de cabeça e arriscar batê-la no fundo do oceano – que, nestas alturas, estava bastante próximo… Também era importante proteger a cabeça na hora de voltar à superfície depois de cair na água – evitando o risco de batê-la na prancha.

E não é a mesma coisa com a vida? Quanta resistência fazemos! Como sofremos de medo de nos entregar, de nos deixar ser levados pela grande corrente da vida! Que batalha que é para aprender a nos soltar – soltar o espírito, soltar a mente, abrir mão da tentativa de controlar tudo – abrir mão da rigidez, das opiniões, da falsa segurança daquela ‘zona de conforto’, do conforto do conhecido e da familiaridade .

Mas foi somente ao relaxar o corpo que pude perceber que estava segura na mão da água. E é somente ao relaxar o ‘espírito’, como em zazen, onde abrimos mão dos pensamentos, que podemos perceber que estamos seguros na mão do sagrado – que somos parte integrante dessa mão – nunca fomos separados dela. E é justamente na hora em que conseguimos nos entregar ao sagrado, deixando que a grande correnteza da vida se manifeste, que ganhamos o espaço para exercitar o nosso livre arbítrio, manobrando as nossas ‘pranchas’, aproveitando o máximo que podemos da onda que nos leva até a ‘praia’.

Enquanto resistimos, tentando ir contra a correnteza, as ondas vão-nos esmagar, mas, ao soltarmos, podemos nos divertir bastante durante a nossa jornada – surfando as ondas da vida. Podemos descobrir que errar não precisa ser o fim do mundo – pois não somente estamos sendo carregados nas mãos do universo, somos uma parte integrante do próprio universo, inseperáveis.

Refleti muito também sobre a diferença entre ter “metas” e “objetivos” na minha prática e ter uma “direção” na minha prática. O Mestre Dogen nos ensina a praticar o nosso zazen sem buscar nada, portanto, sem ter “metas” ou “objetivos” na nossa prática. Estar apegado a uma meta pode levar a muito sofrimento – frustração, sentimento de fracasso, pressão. O ego condicionado cobra da gente, não nós deixa em paz. Então procuro seguir os ensinamentos de abrir mão das metas e objetivos. Mas será que isto significa ficar simplesmente à deriva, solto no espaço e no tempo? Acho que não. Estudando os ensinamentos do mestre moderno, Uchiyama Roshi, no livro “From the Zen Kitchen to Enlightenment” chego a outra compreensão. Acredito que temos de ter “direção” no zazen, na prática Zen Budista e na vida, mas não “objetivos” e “metas” fixas.

A minha direção ao sentar zazen é de sentar-me em ‘shikantaza’ (“somente sentar”), da forma mais correta possível, procurando manter a plena atenção no Aqui e Agora, tentando não me permitir cair nos estados de devaneio, torpor, distração, etc., o mais que eu possa evitar. Sentar verdadeiramente em ‘shikantaza’ exige esforço! Não fico fazendo auto-cobranças do tipo “O meu zazen foi melhor ontem”, “Não consegui me focar nem um pouco hoje”, etc., tentando cumprir um “objetivo” de fazer “bom zazen”…

A direção na minha prática é de me esforçar para me aprofundar cada vez mais no “Sangaku” (trisiksa [sânscrito], or ti-sikkha [pali]) – os Três Estudos da prática budista – estudar o Darma, praticar o viver de acordo com os preceitos budistas da melhor forma possível e manter a melhor regularidade que posso no meu zazen – para alcançar a Extinção do Sofrimento – o Despertar, a Iluminação – como o Buda ensinou. Mas como sei que isto leva kalpas e kalpas de prática (aeons e aeons), não fico me cobrando, perguntando quanto é que falta para alcançar uma meta.

E a minha direção na minha vida é de viver o mais plenamente possível no Aqui e Agora e de viver de acordo com os Votos do Bodisatva. No dia-a-dia, posso ter uma direção pequena como a de lavar as minhas roupas amanhã, mas não ficarei aborrecida se a chuva me força a mudar de direção… Parte do meu viver plenamente é aproveitar de oportunidades inusitadas como essa de brincar de surfe. Subi na prancha consciente de ter uma direção de ‘aprender a surfar’, mas sem estar apegada a um objetivo de ter que conseguir efetivamente ficar em pé e surfar já nestas primeiras aulas. Assim, me diverti maravilhosamente. Agradeço profundamente a minha amiga – uma pessoa que surfa de verdade…

Gassho,

Nota: Acontece que os meus dois professores na primeira aula de surfe (veja na foto) são os autores de um livro que recomendo muito, pois é excelente e interessa todas pessoas que pratiquem a meditação (de qualquer tradição): “Neurofisiologia da Meditação“, por Marcello Danucalov & Roberto Simões, Editora Phorte

. Visitar o blog Zendo Surf

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6 Comentários »

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  1. Sensei,

    Que demais!!!!!!!!!!!!!!!

    Gasshô,
    Ma.Eugenia Myô Hô

  2. Sensacional, Monja Isshin!
    Que lição de vida e alegria. E que analogia maravilhosa sobre a abertura, a entrega e a integração; muitas vezes a gente fica querendo entender demais e acaba vivendo de menos… aliás, integração perfeita entre a surfista, os instrutores e a fotógrafa.
    Gasshô, Andreia

  3. Olá Monja!
    Meu nome é George, sou aluno do professor Nelson Guimarães na Dojinmon. Além de karateca, sou surfista há mais de 30 anos. Li seu texto “Surfar as Ondas da Vida” e fiquei impressionado com a sua capacidade de perceber as metáforas possíveis nesta arte elementar de andar sobre a agua.
    Em novembro de 2007, lancei um livro em quadrinhos sobre surf. As histórias acontecem em um ilha imaginária (como a Gália do Asterix)onde existem ondas fantásticas e personagens clássicos do mundo do surf. Tenho na internet um blog (www.wavetoon.blogspot.com)que fomenta este universo com biografias dos personagens e a história dos lugares da ilha. Queria pedir sua autorização para criar uma visita imaginária da Monja Isshin à Wavetoon (no blog) e trancrever lá parte deste seu texto. Vou encaminhar pelo professor Nelson um exemplar do livro a você.
    aguardo sua manifestação e desde já agradeço a atenção.
    Gassho

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  5. […] Monja teve alguns contatos com o surf nos anos de 2006 e 2007, e nestas ocasiões percebeu que os surfistas, ou qualquer pessoa que conseguir deslizar numa onda, […]

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