Padrões Repetitivos

setembro 10, 2007 às 8:45 pm | Publicado em Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | 9 Comentários

Há algum aspecto de sua vida no qual parece que sempre se repete o mesmo desastre?  Você se esforça, se esforça e, como se fosse uma maldição, a mesma catástrofe acontece de novo e de novo.

Quase todos nós passamos por este problema – em algum aspecto de nossas vidas. Para uma pessoa, acontece nos relacionamentos íntimos; para outra pessoa é no trabalho, na saúde, no relacionamento com o dinheiro – pode ser qualquer aspecto.

Os psicólogos dão vários tipos de nomes a isto: talvez o chamem de “compulsão de repetição” com o seu “acting out” – como não sou psicólogo, não sei os termos exatos. Mas, com certeza a maioria rotula os padrões repetitivos com palavras como “neurose”, “doença”, “disfunção”, entre outros. Alguns acreditam até que não exista cura, que podemos somente aprender a compreender e conviver com as nossas “neuroses”. Mas será que é só isto? Será que isto não passa de uma maneira dualista (e muito limitada) de olhar para estas coisas?

Outras pessoas, mais espiritualizadas, podem dizer que é Carma. Freqüentemente caem num jogo errôneo de palavras e conceitos – simplesmente substituindo a palavra “neurose” pela palavra “carma”. Ficou tudo praticamente na mesma. Será que isto também não passa de uma maneira dualista, limitada, de enxergar as coisas? Será que estão falando do verdadeiro significado de Carma?

Então, como podemos interpretar tudo isto?

Se partimos do princípio de que somos Natureza Buda se manifestando e que tudo o que fazemos é o melhor possível naquele momento, de acordo com as nossas causas e condições, será que até os nossos padrões repetitivos não podem ser a nossa Natureza Buda se expressando, trazendo à Luz os nossos condicionamentos para que possamos nos libertar deles – mesmo que seja num ritmo de um por um?  Será que esta tal de “compulsão de repetição” não pode ser um espécie de reciclagem de alguma dificuldade nossa, numa espiral ascendente de aprendizagem e auto-cura – pelo menos para as pessoas que realmente procuram aprender e se curar?

Na escola, ao estudar matemática, revisamos e reciclamos as matérias dos anos anteriores antes de entrar nos níveis mais difíceis da matemática – estamos ainda estudando matemática e estamos repetindo padrões – talvez até com o mesmo professor, ainda na mesma escola, simplesmente numa outra série.

Será que não é assim na escola da vida também? Vamos dizer que a matéria principal de estudo, o “carma” ou o “koan” da minha vida, seja de estudar a “auto-compaixão”. Vamos dizer que causas e condições me fizeram iniciar os meus estudos com um condicionamento de forte “auto-rejeição”. Se eu for uma aluna disposta a estudar (mesmo talvez sendo “burra” e de aprendizagem “lenta”), a escola da vida vai me enviar professores que vão trabalhar este assunto comigo – exaustivamente – pessoas que vão me rejeitar, espelhando a minha auto-rejeição de volta para mim. Para quem olha de fora, cada nova fase de estudo (novo ano escolar) pode parecer uma simples repetição – um mero “padrão repetitivo neurótico”. Mas para mim – eu que sou a pessoa que está vivenciando estas situações – isto pode estar sendo um estudo riquíssimo (apesar de toda a minha “burrice” e “lentidão”), pois os meus professores podem estar me levando a níveis de estudo maravilhosos sobre o tema de “auto-compaixão”, me fortalecendo cada vez mais, me fazendo descobrir pontos sutis que antes pareciam inimagináveis. Talvez acabe me sentindo como o aluno que vai estudando a matemática até chegar nas sutilezas incríveis da física quântica (que nós, “meros mortais” não-cientistas, não conseguimos nem imaginar)… Pode até ser que, de tanto apanhar com o assunto, possa acabar me tornando um especialista no assunto de “auto-compaixão”, podendo passar a ajudar outras pessoas.

Se eu tiver um “koan” de “bode-expiatório”, vou buscar pessoas que vão me fazer de “bode expiatório” até aprender a me amar e deixar de carregar os problemas dos outros nas minhas costas. Se eu tiver um “koan” de “solitário”, vou achar meios de afastar as pessoas com as quais eu poderia me afinar ou vou buscar pessoas com as quais não vou conseguir me afinar (para ser abandonada ou me divorciar), para repetir (e estudar) o meu padrão de acabar sozinho, até aprender a vivenciar a minha inter-conexão com as pessoas, de parar de me colocar como “separada” ou “especial”. Somente eu vou poder saber realmente qual é o meu “koan” pessoal, o meu “carma” pessoal.

Portanto, tome cuidado ao querer julgar uma outra pessoa que parece estar repetindo algum padrão – talvez ela esteja até mesmo fazendo uma repetição cega e neurótica (e precisando de terapia), mas talvez ela esteja fazendo uma “repetição em espiral ascendente”, tendo já aprendido uma série de aspectos e agora, com bastante consciência, procurando aprender outros aspectos mais sutis do assunto em questão. Para quem olha de fora, fica difícil até de adivinhar qual mesmo seria o “assunto” que a pessoa com o tal de padrão repetitivo está trabalhando, pois as aparências enganam. Do lado de fora, talvez possamos perceber que ALGO está sendo repetido, mas não temos como entrar na vida daquela pessoa para saber, com certeza, se a repetição está sendo “repetição cega, neurótica” ou “repetição em espiral ascendente”, nem podemos determinar exatamente O QUE está sendo repetido.

Por isso, quem não estiver vivendo a vida daquela pessoa certamente não está numa posição qualificada para julgar sobre a sanidade ou caráter daquela pessoa – e está menos ainda qualificada para espalhar suas opiniões para terceiros, fofocando. Até mesmo psicólogos e psiquiatrias precisam tomar muito cuidado, através de entrevistas formais em consultório e aplicação de testes ou outra forma de observação prolongada, antes de opinar. Um ou dois encontros casuais, ou os comentários de outras pessoas, não são o suficiente para um profissional poder proferir uma opinião, de acordo com a ética que rege – com razão – estas profissões… Assim, todo profissional de qualquer área de ajuda às pessoas (psicólogos, assistentes sociais, professores, policiais, religiosos, médicos, etc) precisa tomar cuidado especial neste ponto, devido à posição de liderança e influência que ocupam.

Às vezes, parece que a acusação de “neurótico”, “doido”, “desequilibrado”, “louco” e outros termos afins é a versão moderna da antiga acusação de “bruxaria”, de buscar se livrar de uma pessoa “incômoda” (e que pode simplesmente estar sendo um espelho para as nossas projeções). E o ato de espalhar fofocas deste tipo pode acabar tendo o efeito de “queimar a pessoa viva em praça pública”, até destruindo a vida do alvo de tais fofocas – com as correspondentes conseqüências cármicas retornando ao fofoqueiro…

E se você está passando por um momento de “já vi este filme antes”, “ah não, outra vez!” – se você está se percebendo no meio de um padrão repetitivo, em primeiro lugar, não se desespere. Acredito que todo ser humano tem o seu “padrão repetitivo” pessoal, o seu “Koan” pessoal. Acho que ninguém escapa disto – mas, infelizmente, a maioria das pessoas está tão perdida no “sono” da auto-ilusão que nem percebe as repetições (fica sempre achando que o problema está nos outros, ‘projetando’). Por isto, se você percebeu a sua repetição, você já está com um bom começo.

Depois, pare um tempinho para refletir. Muitos praticantes do Zen caem numa armadilha de acreditar que a reflexão não é necessária, que somente a “meditação silenciosa sem objeto” será o suficiente para resolver todas as questões de nossas vidas. Isto não é verdade. Os ensinamentos do Zen NÃO ensinam, em absoluto, que devamos deixar de usar a nossa inteligência e razão de forma apropriada!

Então, reserve um tempinho para refletir: Cuidado com a vontade de culpar os outros. Os outros estão simplesmente refletindo você de volta para você mesmo, para que você possa perceber os seus pontos cegos. Se você está enfrentando o fim do 6º casamento, provavelmente é você que tem algo para aprender sobre como se relacionar saudavelmente com as pessoas, como escolher parceiros de forma apropriada, como manter um relacionamento ou até como parar de se envolver com pessoas que não dão certo com você… Se você está “sempre” tendo brigas no trabalho, “sempre” caindo no protesto, “sempre” sofrendo agressões… volte a luz para dentro de você. Mesmo que doa, junte a coragem e olhe bem para dentro – com compaixão, compaixão por você mesmo. De que forma você está atraindo este problema que se repete? Qual é o padrão que está se repetindo?

Depois, reflita sobre as maneiras como esta repetição é diferente da última vez que esta história aconteceu. Com esta reflexão, você vai poder tomar consciência dos aspectos onde você aprendeu, cresceu. Use esta consciência para servir de contra-peso para a chateação de se perceber caindo no mesmo problema pela enésima vez. Não se deixe desesperar, se julgando “idiota”, “incapaz”, “inadequado”, “incompetente” ou qualquer outro adjetivo daquela longa lista de rebaixamentos. Tenha compaixão consigo mesmo. Observe as coisas que já aprendeu, na sua escola cármica pessoal para dar a si mesmo o ânimo para enfrentar o novo ciclo escolar.

Aí, reflita sobre os aspectos que não mudaram – são estes os aspectos que estão pedindo uma mudança de comportamento ou de atitude ou de energia. Pergunte a si mesmo, que mudança posso experimentar? Não se contente com as respostas “fáceis”, com as primeiras respostas. Vá fundo, descubra algo “diferente” para fazer – não fique tentando “fazer mais da mesma coisa, mais da antiga resposta.” Experimente reações novas, diferentes, criativas. Talvez a sua solução vai ter de ser algo que aparentemente contradiz a lógica. Talvez vai ser aquilo que os seus amigos lhe recomendam – mas talvez não seja… Talvez este seria um bom momento para consultar um bom terapeuta – psicólogo ou psiquiatra. Ouça e pondere sobre os conselhos da família, dos amigos, dos terapeutas – mas é você que tem de tomar as suas próprias decisões. É somente você quem pode viver a sua vida. É somente você que vai viver os resultados das suas mudanças.

No fundo, depois de ouvir os outros, depois de refletir, é você que precisa se aquietar – se aquietar mesmo – para ouvir a voz do seu coração, de sua intuição. Use o Zazen para se centrar – e tome cuidado para não usar um falso ‘zazen’ para se manter – ou até mergulhar mais ainda – na auto-ilusão. Não se deixe cair na tentação de soluções “mirabolantes”, nem se enrole em “perfeccionismo”, se paralisando no desejo de encontrar a “melhor” solução, a resposta “perfeita”. Lembre-se que as regras do Absoluto servem somente para o mundo Absoluto, onde todas as possibilidades se encontram, mas as dificuldades do mundo Relativo exigem soluções do mundo Relativo, de acordo com as regras do mundo Relativo.

Com os pés plantados firmemente no chão, use o Zazen verdadeiro para entrar no silêncio profundo, donde a sua sabedoria poderá se manifestar e lhe indicar o caminho a seguir.

Há um ditado japonês – ‘cai sete vezes e levanta oito’. Não importa quantas vezes a gente cai do cavalo, o importante é se levantar, subir de novo e continuar a cavalgada. A nossa prática é para a vida toda. Não existe um “cheguei!” de iluminação onde magicamente viramos santos oniscientes e perfeitos. Sempre teremos algo mais para aprender, sempre poderemos aprofundar mais a nossa prática – a nossa Compaixão, a nossa Sabedoria. Sempre poderemos nos Despertar, nos Iluminar mais um pouco. A vida é uma jornada, um processo, uma escola que vai desde o “pré do pré” até o “pós do pós”, a “educação continuada infinita” – não há um ponto de chegada e fim. E é justamente isto que dá graça e faz da vida esta divertida, maravilhosa caminhada.

Gassho

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  1. Sabe aqueles dias em que lemos algo que parece ter sido escrito para ser lido por nós exatamente “naquele” dia?

    Hoje me sinto assim.

    Muito obrigado pelo texto.

  2. Adorei o texto, realmente depois de se repetir o padrão mais uma vez, vem aquela angustia e a pergunta”meu Deus, mas vai ser sempre assim?”
    Por isso, quando se tem consciência do que se passa e se faz a pergunta correcta a resposta aparece, depois de ler o texto tudo aparece mais claro.

  3. Sou infinitamente grata pela mensagem.
    Procurei uma resposta a uma dúvida e encontrei um caminho para caminhar.

  4. Belo blog sobre psicologia!

    Frequentarei aqui mais vezes!

    Esse post realmente tem a ver com o que eu procuro sobre psicologia! Parabens!

    se quiser que eu publique algo de sua autoria, é só falar que eu coloco no meu blog com sua identificação e endereço do blog!

    da uma olhada no http://psicologiaparatodos.16mb.com

    abraços!

    • Oops, mas é um blog sobre a prática zen budista…
      Hmmm, mas o mestre psicólogo de todos foi o Buda, e a verdadeira psicologia profunda é o Abhidharma, os ensinamentos superiores do Budismo, que estuda a mente a um nível incrivelmente profundo e sútil… . Então, também é um blog sobre psicologia… .
      Visitei o seu blog e gostei. Pode usar textos meus ou cita-los – é só dar os “créditos” e colocar o link.
      Muito obrigada,
      cuide-se bem!
      Gassho,
      Monja Isshin

  5. Ótima reflexão, gostei muito do texto, mto bem escrito e atual.
    Obrigada por seus ensinamentos!
    Gratidão por encontrar textos assim, de fácil compreensão, e ainda, gratuitos na internet

    • Prezada Simoni, Muito obrigada pelo incentivo! Cuide-se bem! Gassho

  6. Era o que eu procurava, obrigado pela resposta, não tenho religião mas sabia que o budismo falava sobre repetições. Meu caso em específico, estou atraindo sempre o mesmo tipo de companheiras, mulheres que se drogam,bebem, que tentam se suicidar e que sofrem de alguma deficiência mental. Está difícil para compreender meus erros, pois sou saudável,não uso nenhum tipo de droga, não bebo, não fumo. O pior é que olho para o passado, está se repetindo pela terceira vez o padrão exatamente igual,até a ordem/ cronograma dos fatos, a diferença é que antes eu não tinha olhos abertos para isso, me sinto péssimo, não sei o que fazer, parece um DeJavu na minha vida, me sinto com vontade de chorar escrevendo agora.
    Só um desabafo de coração ao anonimato, agradeço pelo texto, foi muito esclarecedor para mim.

    • Prezado Sr. Anonimo, Compreendo a sua dificuldade – passei por coisa semelhante até perceber que era eu que atraia este tipo de pessoa. No meu caso, era porque eu vivia um padrão que é chamado de “co-dependência”, algo sobre o qual você talvez você gostaria de fazer pesquisa na Internet Também, gostaria de sugerir que procure um psicoterapeuta que trabalhe com a “Análise Transacional” ou com a “Psicanálise Humanista”. Através da terapia, consegui me libertar deste padrão – e no Zen, fiz as pazes com todo o meu passado. Desejo-lhe boa sorte na sua jornada! Cuide-se bem! Gassho.


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