A Mentira Passiva

setembro 4, 2007 às 8:51 pm | Publicado em Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

“Sou uma pessoa honesta”, disse ele. E seguiu falando, sem falar uma única palavra de inverdade (pelo menos naquele momento), pintando uma imagem bem distorcida de uma terceira pessoa, como meio de justificar o seu comportamento.

Ô, pessoal, propositalmente pintar uma imagem distorcida de alguém ou de alguma situação, para se justificar e se proteger não é ‘ser honesto’ – não de acordo com os Preceitos Budistas. Na verdade, é o pior tipo de mentira e desonestidade, pois é a “mentira passiva”, é a “mentira pelo não-mentir”, é “mentir pelas meias-verdades”. Mais triste ainda é o fato de que a pessoa que mente passivamente talvez acredite sinceramente que está sendo uma pessoa honesta, não percebe a sua própria desonestidade…

Talvez todos nós já ouvimos falar da “agressão passiva.” Quem já teve experiência com uma pessoa “agressivo-passiva” sabe muito bem como é um desafio lidar com tal pessoa. É uma pessoa que te agride pelas coisas que não faz, pelas coisas que não diz – e, sempre quando o problema estoura na cara da gente, o “agressor-passivo” está lá, talvez até escondendo um certo sorriso afetado, afirmando, “Mas eu não fiz nada!”

E o mentiroso-passivo te joga numa posição bastante semelhante, pois sempre afirma, “Eu só falei a verdade! Eu não menti!” Claro, ele também não admite que contou somente metade de uma história e juntou essa com um pedacinho de uma outra história para que o ouvinte, ao ouvir estes pedacinhos de histórias todos juntos, imagine uma situação irreal ou distorcida que o mentiroso-passivo quer “provar”. Ele “induz” o ouvinte a acreditar numa não-realidade ou numa realidade distorcida.

Vamos ver o que diz o Sutra da Rede de Brama sobre os Preceitos do Bodisatva (este sutra é a base dos preceitos da Escola Soto Zen):

Quarto Preceito Maior: Não Mentir nem Falar com Falsidade

Um discípulo de Buda não deve usar palavras ou expressões falsas, nem encorajar outros a mentir ou mentir mediante expedientes. Não deve envolver-se nas causas, condições, métodos ou carma de mentir, dizendo ter visto o que não viu ou vice-versa, ou mentindo implicitamente mediante meios físicos ou mentais. Como discípulo de Buda deve manter sempre a Fala Correta e o Ponto de Vista Correto e levar os outros a mantê-los também. Se, em vez disso, conduz os outros a um discurso errôneo, a pontos de vista errôneos ou mau carma comete uma ofensa Pārājika (ofensa grave).

Que texto lindo – parece que foi escrito por um bom advogado! Fala não somente sobre o uso das palavras falsas (a mentira ativa) mas também fala da “mentira passiva” – o mentir implicitamente, o conduzir os outros a um discurso ou ponto de vista errôneo.

Gente, isto significa que somos responsáveis não somente pelas palavras que saem das nossas bocas, mas também pelo impacto que estas palavras têm no ouvinte. Ao falar, somos responsáveis pela indução do ponto de vista do ouvinte, responsáveis pela direção em que estamos conduzindo o assunto. Se, ao amontoar palavras verdadeiras, criamos uma imagem falsa na mente do ouvinte, cometemos a mesma “ofensa grave” das palavras falsas. Não há escapatório.

Não somos responsáveis somente pelas nossas ações, palavras e pensamentos. Somos responsáveis também pelos resultados das nossas ações, palavras e pensamentos. Esta responsabilidade pode ser aumentada ou amenizada pela intenção interior na hora de agir ou falar, mas a responsabilidade positiva ou negativa continua. Se eu atropelo uma pessoa com o meu carro, esta responsabilidade vai existir de qualquer jeito. Se aconteceu porque um motorista bêbado bateu no meu carro, jogando-o por cima da pessoa, a minha responsabilidade, num tribunal de justiça, fica reduzida, provavelmente até zero. Se aconteceu porque quebrou-se uma parte mecânica do meu carro, isto talvez possa diminuir a minha responsabilidade (a não ser que fique óbvio que eu sabia do problema e fui negligente em não consertar o carro…). Se o acidente aconteceu porque eu estava bêbada, a minha responsabilidade fica maior, vira uma dupla-responsabilidade.

Acontece a mesma coisa com a minha fala. Não sou responsável somente pelas palavras que falo, mas, com poucas exceções, também sou responsável pelo resultado criado pelas minhas palavras. Novamente, a minha intenção ao proferir as minhas palavras vai aumentar ou amenizar o grau de responsabilidade, mas a responsabilidade continua.

Em nosso mundo comum, na mente comum, somos freqüentemente forçados a apelar pelas meias-verdades ou pela mentira passiva. Isto, infelizmente, faz parte da mente comum, do mundo relativo. Mesmo assim, a nossa responsabilidade continua.

Como praticantes budistas, especialmente em nossos locais de prática budista, junto com os membros de nossa sanga, temos de zelar pelos resultados de nossas ações e palavras. Se estes levam ao sofrimento de alguém, se causam  discórdia ou rupturas na sanga, se levam outras pessoas a pontos de vista errôneos e prejudicam alguém, a nossa prática está falha. Às vezes, podemos até acreditar que estamos defendendo um bem maior ao apelar para tais métodos, mas isto é a nossa mente comum falando.

A Verdade não precisa de meias-verdades, nem de mentiras passivas para se sustentar. A Verdade se sustenta sozinha.

Conseqüentemente, se eu me achar obrigada a apelar para tais métodos para provar um caso meu, é quase certeza que não estou lidando com a Verdade. Posso estar até mentindo para mim mesma – e fingindo acreditar na minha própria mentira, mergulhando na minha delusão. Neste momento, está na hora de eu realmente olhar bem para dentro de mim – olhar os meus próprios interesses narcisistas, olhar as minhas arrogâncias, raivas, ressentimentos, orgulhos, invejas ou até as minhas covardias e medos – em lugar de abrir a minha boca e sair por aí falando.

Sentar em zazen não significa um ‘simplesmente sentar feito um sapo desmiolado’. Não significa ficar lá devaneando. Não significa ficar buscando estados místicos. Significa estar plenamente atento, observando tudo – inclusive olhando para o meu interior, as minhas motivações, a minha sombra e a minha luz, sem me apegar em nada. No ideal, o zazen torna-se um espaço onde posso entrar em contato com aqueles lados meus que gostaria de ignorar, que não queria ter – e fazer as pazes com o fato de eu ser simplesmente um Ser Humano, com toda a sua “imperfeição” e glória. É somente reconhecendo, aceitando e assumindo os meus aspectos menos nobres que posso começar a “administrá-los” e diminuir o seu impacto nas minhas ações, palavras e pensamentos.

Portanto, para eu me tornar realmente uma pessoa honesta, preciso reconhecer todas as mais variadas e sutis táticas que uso para mentir ativa e passivamente.

Esta é prática verdadeira.

Gassho

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