A Mente que Mente

agosto 25, 2007 às 4:05 pm | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | 1 Comentário

Recentemente, um aluno me contou a seguinte experiência:

Um dia, de manhã, andando na rua, viu um rapaz com a mão próximo da boca como se estivesse chupando algo. Na hora, pensou consigo, ‘Mas que coisa, fumando maconha esta hora do dia!’ Logo em seguida o rapaz virou-se e o meu aluno percebeu que estava chupando o canudinho de uma caixinha de suco… Que lição do Darma teve!

A mente humana gera pensamentos. Esta é a sua função natural. Também não gosta do vazio, do não-saber. Por isto, sempre tenta preencher as lacunas, encontrar uma explicação para tudo – mesmo que tenha de inventar uma que pode, ou não, ser verdadeira. Isto é natural. É a função dela. Faz parte de nossa inteligência (nem sempre tão inteligente) e nossa criatividade.

Mas o problema está no fato de que temos uma tendência a acreditar em nossos pensamentos e tratá-los como se fossem fatos.

Vamos voltar ao exemplo do meu aluno e olhar para várias possibilidades, para imaginarmos como é que isto funciona e cria problemas, confusões e carmas.

Para fins didáticos, vamos imaginar algumas histórias. Vou chamar o meu aluno de “João”. Andando na rua às oito horas da manhã, ele viu um rapaz com a mão próximo à boca, chupando algo e logo pensa, “Mas, que coisa – fumando maconha essa hora do dia!” Depois, viu o rapaz, removendo a mão da boca e jogando algo fora, (mas não conseguiu ver o que), enfiar a mão no bolso, virar em sua direção e se aproximar. João ficou assustado e logo disparou, “O que você quer, seu drogado? Vá embora e me deixe em paz!” Entrou rapidamente num prédio para fugir do rapaz.

Vamos dizer que o rapaz estava, na realidade, tomando suco e jogou a caixinha na rua (que coisa feia!). Enfiou a mão no bolso para pegar um papel onde havia escrito o endereço de uma empresa que haviam lhe dito estava contratando funcionários. Queria pedir direções para chegar até lá. Estava extremamente deprimido, pois havia vários problemas em casa e ele estava desempregado já há um certo tempo e quase sem dinheiro.

História 1: A rudez do João pegou o rapaz completamente de surpresa. Não esperava coisa assim. Contudo, juntou coragem e pediu as informações de que precisava a uma outra pessoa. Conseguiu chegar à empresa a tempo e conseguiu o emprego. Mas, o incidente ainda o incomodava – aquela irritaçãozinha que a gente quase não percebe. Por isto, estava um pouco nervoso quando chegou em casa, acabou brigando com a mulher – que depois discutiu com o filho – que finalmente descarregou dando um chute no cachorro.

História 2: A rudez do João pegou o rapaz completamente de surpresa. Não esperava coisa assim. Com raiva, correu atrás do João para discutir. Veio a polícia. Havia um assaltante que estava sendo procurado e que tinha o mesmo nome dele e até com pais do mesmo nome também, e o rapaz foi preso – injustamente. Mas, levou meses para resolver o caso.

História 3: A rudez do João pegou o rapaz completamente de surpresa. Não esperava coisa assim. Já deprimido, sentiu que o mundo ficou mais negro ainda. Desistiu de tentar se informar sobre como chegar até a empresa, pois não tinha a coragem de arriscar-se a receber um outro mau-trato como aquele. Demorou para achar a empresa, chegou muito tarde, e não conseguiu o emprego. Uma semana depois, desesperançado, suicidou-se.

Pequenos incidentes podem mudar toda a caminhada de uma vida. Parece que não, mas é verdade. Estamos constantemente re-decidindo as nossas vidas e, pelas nossas interações com outras pessoas, influenciando, em grau maior ou menor, as re-decisões de cada pessoa com quem temos contato.

Agora vamos para a versão budista da história:  Andando na rua às oito horas da manhã, João viu um rapaz com a mão próxima à boca, chupando algo e logo pensa, “Mas, que coisa – fumando maconha essa hora do dia!” Percebeu o pensamento, nota-o, mas deixou-o passar naturalmente, voltando para a mente do “não-saber”. Depois, viu o rapaz – removendo a mão da boca e jogando algo fora, (mas sem conseguir ver o que) – enfiar a mão no bolso, virar em sua direção e se aproximar. Curioso, mas com uma certa cautela, continuou na mente do “não-saber”. Notou que o rapaz tinha uma cara simpática e, vendo que ele quis falar algo, lhe deu atenção.

O rapaz tirou um pedaço de papel do bolso, mostrou um endereço e pediu direções. João explicou ao rapaz como chegar naquela empresa. Tinha uma prima que trabalhava lá. Os dois falaram da empresa durante uns cinco minutos. Por fim, sorrindo e agradecendo, bem menos deprimido, o rapaz foi embora (e conseguiu o emprego).

João, contente por ter prestado uma pequena assistência a um outro ser humano (a Prática do Bodisatva), riu de si mesmo pelo pensamento de desconfiança que cruzara a sua mente e ficou contente por haver mantido a sua prática budista, deixando o pensamento passar naturalmente. Seguiu o seu caminho, cultivando a mente do “não-saber”, respirando, no Aqui e Agora.

A nossa prática budista é maravilhosa. Permite que tenhamos a oportunidade de enxergar o funcionamento de nossa mente – e usá-la de forma mais construtiva. Não precisamos deixar que a mente nos controle. Nem precisamos tentar reprimir ou esvaziá-la. Podemos, sim, deixar que ela funcione naturalmente, enquanto mantemos o nosso foco, respirando no Aqui e Agora, observando os pensamentos passando como nuvens no céu. Podemos escolher quando queremos agir baseado num pensamento que tivemos e quando é melhor aguardar e observar, para melhor avaliar se um determinado pensamento tem fundamento.

Mais ainda, podemos evitar expressar em voz alta os nosso pensamentos para outras pessoas enquanto não verificamos a verdade ou não dos mesmos. Quantas vezes, vem à mente um pensamento qualquer sobre algum assunto – uma pré-suposição, como a do João acima – que não foi passada pelo “teste da realidade” para ver se tem fundamento ou não – mas que logo falamos para outras pessoas como se fosse um fato. Vira uma fofoca. E pessoas ficam machucadas. Conseqüências são criadas e carmas são produzidos. Por isto, quatro dos dez Preceitos Maiores do Bodisatva tratam da fala…

A mente humana é algo maravilhoso. Mas também a mente humana mente. Parte de nossa prática é de aprender a discernir quando a nossa mente está trabalhando para o bem de todos os seres e quando a mente está mentindo.

Que os méritos de nossa prática se estendam a todos os seres e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado.

Gassho

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  1. Isshin Sensei vai além da parábola, fechada, com uma “moral da história”, prescritiva, e aponta a necessidade da atenção constante aos tropeços do ~funcionamento~ da mente. A estoria é não prescritiva (faça exatamente assim ou assado), aberta, que aponta a dificuldade, sua solução (mente alerta) e consequências.

    Diversos textos budistas destacam a necessidade de atenção à mente que engana.

    Um outro modo de encarar, ou melhor, adjetivar o mesmo fenômeno, é considerar a “necessidade operacional” da mente em reduzir, abstrair e inferir coisas a partir de pequenos indícios. Um fenômeno, como outro qualquer.

    O problema então está em ~reconhecer~ o fenômeno e não se deixar levar por ele. O instrumento é a Mente Alerta, de Principiante, que não conclui apressadamente, que não age em função de conclusões incompletas e precipitadas.

    Em síntese, maior liberdade na ação (não prisioneira do automatismo) e maior consciência das consequências.

    Liberdade e consciência. Precisa mais?

    Gassho

    Cyro Masci


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