Comunicação Trans-cultural

agosto 20, 2007 às 10:07 pm | Publicado em Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista | 1 Comentário

Sabemos que ninguém FAZ uma outra pessoa sentir ou interpretar qualquer coisa, pois cada pessoa é dona de si mesma e escolhe (conscientemente ou não) como interpretar ou reagir aos estímulos. As nossas ações, palavras e pensamentos só podem “convidar” uma outra pessoa a sentir ou interpretar algo, sendo um “estímulo” ao qual aquela pessoa responde. Por isso, em resposta ao mesmo estímulo, uma certa pessoa reage com raiva, uma outra fica com medo, mais outra pessoa acha engraçado enquanto que o outro continua indiferente.

Mesmo assim, não podemos usar este argumento como desculpa para fugir de uma responsabilidade real, mesmo que um tanto paradoxal, que temos pelos resultados das nossas ações, palavras e pensamentos.  Somos responsáveis, sim, quando usamos palavras falsas ou até as mentiras passivas para induzir outras pessoas a acreditarem numa versão distorcida ou falsa sobre algo ou alguém. Somos responsáveis, sim, pelas nossas palavras rudes, magoando outras pessoas, agredindo-as ou rebaixando-as. Somos responsáveis pela dor que causamos.

Às vezes, isto vira uma questão extremamente complicada – vamos ver como fica na hora da comunicação trans-cultural, a comunicação entre povos de países diferentes – ou até de regiões diferentes do mesmo país.

Um exemplo disto está no fato de que eu fui criada numa região onde o padrão da fala e das expressões faciais tem um estilo que o brasileiro geralmente considera “agressivo”. Isto é uma questão cultural e não tem nada a ver com neurose ou defeitos de caráter. Acontece que os condicionamentos culturais são muito mais enraizados que os condicionamentos pessoais, e, por isto, extremamente difíceis de perceber e mudar. Temos ainda poucas informações sobre as armadilhas na comunicação trans-cultural – ou até mesmo intra-cultural ou entre os gêneros – mas é um estudo fascinante… Veja, por exemplo, os livros de Deborah Tannen sobre este tema.

Ao chegar ao Brasil, não demorou muito para eu descobrir que havia algum desencontro na minha comunicação, mas levou muitos, muitos anos para eu conseguir ter alguma noção sobre a causa deste desencontro. Por exemplo, de tempos em tempos, conversando com alguém esta pessoa repentinamente me perguntava, aparentemente sem mais nem menos: ‘ – por que você está com raiva?’. Eu, surpresa, respondia: ‘ – não estou com raiva.’ Pois, verdadeiramente, não estava com qualquer sentimento de raiva. Mas a outra pessoa insistia: ‘ – está, sim.’ E eu respondia: ‘ – não estou.’ E assim continuava uma troca de ‘está, sim! / não estou.’ que parecia interminável. Eu ficava cada vez mais confusa, não entendendo por que me encontrava nesta discussão, pois sabia que não estava com nenhum sentimento de raiva. Depois de algum tempo, presa neste bate-boca de ‘sim’/‘não’, às vezes, finalmente acabava ficando mesmo com raiva… Nesta altura, depois de toda aquela discussão, sentia raiva pela ‘teimosia’ da outra pessoa, me sentindo “não-ouvida” e desrespeitada – e frustrada por não entender o que levou a tudo aquilo…

Foi somente depois de quase trinta anos no Brasil, que acabei descobrindo a causa do problema. Em preparação para ir para o mosteiro no Japão, estava lendo um livro, escrito para americanos, que falava sobre as diferenças culturais entre os Estados Unidos e o Japão. Uma frase simplesmente “pulou” da página e “dançava” em frente aos meus olhos, e tive a impressão de que havia luzes piscando e sirenes tocando. A frase dizia: “Tome cuidado para não fechar a cara quando estiver pensativo, pois os japoneses vão achar que você está com raiva.” Era isto! Finalmente entendia! Confesso que chorei naquele instante, pois foi um momento em que me libertei um pouco da dor de todas aquelas discussões do passado, mesclado com o alívio de finalmente compreender o porquê daqueles mal-entendidos. Percebi que quanto mais confusa eu ficava com a discussão, tanto mais eu fechava a cara – induzindo, sem saber, a outra pessoa a se mergulhar mais ainda na sua interpretação da minha expressão facial, achando que eu estava com raiva. Como eu não sabia que o meu “fechar a cara” era o estímulo que o outro interpretava como sinal de raiva e como nenhum de nós dois sabia da diferença dos significados do ato de “fechar a cara” – no meu lugar de origem e no Brasil – só podia dar num impasse, doloroso para os dois – e prejudicial para o relacionamento.

Dê uma olhada no “Pensador” de Rodin. Olhe para a cara dele. Não parece um pouco “cara de brabo”, para a cultura brasileira? Ou é simplesmente “cara de concentrado”, como eu sempre havia pensado? O fato é que, em alguns lugares – incluindo o meu lugar de origem – o povo ‘fecha a cara’ quando fica pensativo ou quando fica confuso sobre alguma coisa. Mas, este mesmo ‘fechar a cara’ será normalmente interpretado como significando que a pessoa está com raiva em outras culturas – como no Brasil e no Japão, entre outros.

Mas ‘saber’ a causa não significa que seja fácil assim mudar as expressões faciais, já que fazem parte do condicionamento cultural. O ‘saber’ somente me deu uma compreensão – tirou um peso de auto-julgamentos negativos, de sentimentos de inadequação e incompetência – e uma opção para, ao me perceber sentindo ‘confusa’, tentar fazer qualquer outra expressão facial menos a de fechar a cara. Mas, para isto, seria necessário eu desenvolver um nível de auto-percepção quase sobre-humana. Tenho tentado, mas certamente não posso dizer que tenho tido grandes sucessos.

Como resultado, até hoje, sofro as conseqüências – às vezes, pesadas – deste desencontro cultural, uma vez que, por mais que eu me esforce para me adaptar ao padrão brasileiro, a minha origem continua sendo o que foi. Não sou de origem brasileira e, mesmo tendo me naturalizado brasileira, a minha origem nunca se tornará brasileira. Por mais que eu me adapto ao país, por mais que eu me esforce para incorporar um outro estilo de me comunicar, sempre serei “diferente”. Sempre haverá pessoas que vão interpretar ‘agressividade’, ‘brabeza’, ‘raiva’ – até ‘neurose’ ou ‘defeito de caráter’ – em comportamentos meus que são, na realidade, baseados em condicionamento cultural.

Isto não me isenta de responsabilidade. Afinal, moro no Brasil. Tenho o dever de me adaptar o máximo possível às regras culturais brasileiras. Reconheço que, às vezes, as pessoas se magoam com o meu estilo e sofro com isto. Mas, se eu não tenho agressividade no coração na hora de falar dum jeito que seria normal no meu lugar de origem, isto ameniza (mas não apaga) o grau de responsabilidade na hora do brasileiro interpretar a minha fala como “agressiva” e se magoar.

O assunto começa a virar uma questão de co-responsabilidade, um desafio não somente para eu me adaptar ao brasileiro, mas também para o brasileiro reconhecer que sou de origem estrangeira e levar isto em consideração na hora de me julgar – ou, melhor, de nem me julgar. Na medida em que uma pessoa vai me conhecendo, pode passar a compreender a minha origem estrangeira e, assim, pode escolher parar de interpretar o meu estilo de me comunicar como “agressivo” e deixar de se magoar comigo. Também, não sou responsável se a outra pessoa mal-interpreta a minha fala e/ou tom de voz devido a suas próprias “projeções” e dificuldades emocionais não-resolvidas.

Onde quero chegar com isto – já que não estou escrevendo isto para ser uma ladainha de tristeza e sofrimento pessoal? O que é que isto significa para a Cultura de Paz, para a Paz Mundial? Como podemos lidar com estas questões, como Budistas?

O condicionamento cultural é tão sutil que é somente na hora do ‘choque cultural’ que temos uma oportunidade de tomar consciência de nosso próprio condicionamento cultural. Mas, com a atual globalização, os ‘choques culturais’ vão se tornando não somente mais freqüentes, mas também mais cruciais – a maneira como aprendemos a lidar com estes ‘choques culturais’ vai determinar a possibilidade, ou não, de paz mundial.

Perdidos na ilusão da individualidade e auto-suficiência, ignoramos o quanto somos ‘produtos de nosso condicionamento’, levando a vida num piloto automático condicionado, fingindo sermos livres. Isto é o ‘sono’ do qual a prática budista nos chama para um despertar.

Podemos tomar os nossos desencontros com as outras pessoas como um chamamento para o despertar. Como faremos isto?

O primeiro passo, acredito eu, seria de aprender a desconfiar da nossa própria tendência a julgar o outro, a rotular o outro. A prática do não-julgamento, abrindo mão de nossas ‘opiniões’, nos abre para imaginar outras interpretações dos estímulos. Isto se chama “mente de principiante”, “mente de não-saber.”

Podemos praticar a Compaixão, procurando enxergar a Natureza Buda, a essência sagrada do outro, e, ao achar que o comportamento daquela pessoa aparentemente (pois, até isto é uma interpretação nossa) não combina com uma Natureza Buda, questionar – não com uma pergunta-julgamento do tipo “por que você está com raiva?”, como no meu exemplo, mas perguntando “você está com raiva?” – e ouvir o outro…

Podemos perceber a inter-dependência: a minha reação ao estímulo que percebo no outro é, por sua vez, um estímulo para o outro – e esse outro vai tender a reagir ao meu estímulo baseado nos seus condicionamentos culturais. Para não ficarmos presos cegamente num círculo vicioso (como eu fiquei nas discussões que descrevi), temos de ir além – para a Plena Atenção.

Podemos procurar perceber as pistas deixadas pelos nossos próprios condicionamentos culturais (e pessoais), que inconscientemente acreditamos ser a “lei universal”, a “verdadeira moralidade” que “todos deviam saber e respeitar.” Podemos, passo-por-passo, aprender a parar de reagir automaticamente, feito robô, aos estímulos, mas de estar abertos para fluir com o momento e com a intuição mais profunda – a comunicação coração-a-coração que transcende todas as culturas.

A Cultura de Paz nos pede para ir além da ‘tolerância’ e descobrir o verdadeiro ‘respeito’ às diferenças. Sem perder a nossa própria moralidade, precisamos compreender a moralidade, igualmente válida, das outras culturas, dos outros povos. Todos têm “razão”, ninguém é “dono da verdade”. Ninguém pode impor os seus valores sobre o outro – nem ao nível pessoal entre indivíduos, nem ao nível global entre culturas.

Para isto, é necessário lembrar sempre que o outro, por mais diferente que seja, também é igual a nós – é um ser que quer ser feliz, como diz o Dalai Lama. Em lugar de continuar buscando a segurança da mesmice, vamos abrir os nossos corações para conviver harmoniosamente com as diferenças – que nos estimulam ao despertar cada vez mais do sono condicionado.

Gassho

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1 Comentário »

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  1. Texto muito rico.
    Obrigado.

    A monja escreveu: “A Cultura de Paz nos pede para ir além da ‘tolerância’ e descobrir o verdadeiro ‘respeito’ às diferenças.”

    De fato, “tolerância” não é o oposto de “intolerância”. Tolerar não implica não haver raiva. Apenas “tolera-se”, “aguenta-se”.

    O ‘respeito’ implica um passo a mais.

    Talvez, depois do respeito, cheguemos ao ‘acolhimento’. Quando acolhemos o outro, quando recebemos bem tudo o que o outro nos oferece, como o Buda aceitava bem tudo que lhe punham na tigela, temos uma cultura de paz.


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