Cortar despesas

agosto 9, 2007 às 2:10 pm | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Uncategorized | 4 Comentários

Recentemente, um aluno-amigo meu reformou a sua casa. Por alguma mal-compreendida lei da natureza, as reformas das casas parecem sempre acabar levando duas a três vezes mais tempo que o previsto e custar ‘n’ vezes mais do que o orçamento inicial. E foi assim no caso deste aluno, um excelente profissional liberal, que trabalha muito, mas muito mesmo.

Assim, ele se viu com contas bem mais altas do que havia previsto e logo assumiu mais clientes para cobrir as despesas. Com isto, a sua carga de trabalho atingiu um nível quase impossível de ser administrado, e ele ficou bastante preocupado – até angustiado, pois é um profissional bastante sério e honesto que não gosta de atrasar com o trabalho ou “enrolar” seus clientes.

Comentando com um amigo, ouviu o conselho de cortar despesas para não ter que correr tanto. Um bom conselho de bom senso. Mas, pessoalmente, venho refletindo e querendo ajustar este conselho…

Talvez gostaria de sugerir a ele que, em lugar de pensar em termos de “cortar despesas”, pense em termos de “priorizar despesas”. Na hora em que a gente define prioridades, coisas que descobrimos ter baixa prioridade, caem para o lado quase que naturalmente, sem necessidade de “corte”. Porque gostaria de mudar as palavras? A palavra “cortar” carrega uma certa violência – e, ao “cortar despesas”, é como se eu virasse uma certa violência contra mim mesma (ou contra a minha família ou amigos), mas quando vejo algo que tem baixa prioridade para mim, posso deixar aquilo “cair” sem ter uma sensação de ter levado uma violência. Estou falando de algo muito sutil, mas que, acredito eu, seria um dos vários motivos que levam a gente a se auto-sabotar nestas horas.

Em seguida, gostaria de explicar a ele a importância que vejo em evitar provocar em si mesmo qualquer sensação de “privação”. Quando a gente faz regime para perder peso, se não o fizer corretamente, corre-se o risco do corpo, percebendo-se como sendo “privado” de alimentos, reagir tornando-se mais eficiente ainda em tirar todos os benefícios possíveis da comida. Neste estado, pode até aumentar alguns quilos em lugar de perder peso… Energeticamente, algo semelhante pode acontecer se a gente cortar despesas até sentir-se “privado”, lutando para diminuir as dívidas. Sem nenhuma melhora na qualidade de vida, as dívidas, como numa mágica, se multiplicam em lugar de diminuir – pois vai ser nesta hora que a máquina de lavar vai quebrar, o carro vai ser roubado – algum “desastre” vai acontecer. É como se a energia de “privação” trouxesse mais “privação”.

Uma outra armadilha é a de cair na mentalidade de pobreza, a mentalidade de insuficiência. “Falta dinheiro, não tenho o suficiente, sou pobre, não tenho para dar – nem para mim, nem para o outro”. Fico com medo de gastar, de viver, de assumir compromissos. Me retraio. Me amarro. É engraçado, mas muitas pessoas “ricas” sofrem da mentalidade de pobreza – passam a vida toda correndo atrás de mais e mais dinheiro, sem nunca ter o suficiente. Quantas vezes descobrimos que pessoas “pobres” são, freqüentemente, na realidade, mais generosas – compartilhando aquilo que têm com muito mais facilidade – que muitas pessoas “ricas”, comparativamente falando.

Vivemos numa “sociedade de consumo”. Somos bombardeados constantemente por propagandas nos instigando a sempre desejar mais. Hipnotizados, imaginamos que vamos ser felizes quando… conseguirmos um carro novo, uma casa nova, um novo aparelho, um novo sei lá o quê… Vamos ser felizes quando… mas não vamos ser felizes agora, neste instante aqui e agora! Ficamos presos no veneno da ganância, sempre querendo mais e mais e mais, nunca satisfeitos.

Que bom que temos a nossa prática Budista para nos ajudar a sair destas armadilhas. Temos a prática de gratidão e contentamento, e temos ainda a prática de generosidade. Como funcionam estas duas práticas?

Na prática de gratidão, treino a atitude de agradecer por tudo que encontro, tudo que aconteça. Abro um espaço para perceber algo a agradecer em cada circunstância, assim, combatendo uma tendência nossa de enxergar somente os defeitos e as faltas. Assim, crio mais espaço para a prática do contentamento – como ensinado pelo Buda na Breve Parinirvana Sutra da tradição Mahayana:

Oh, Monges! Se vocês querem se libertar de todo o sofrimento, vocês devem conhecer o contentamento.
A pessoa contente fica feliz mesmo quando tem apenas a terra para se deitar sobre ela. A pessoa que não se contenta está insatisfeita mesmo em palácios celestiais. Quem não conhece o contentamento é pobre, apesar de todas as riquezas que possa ter. Alguém que é contente é rico, não importando quão pobre possa ser. Quem não conhece o contentamento é sempre arrastado por desejos e deve ser apiedado por quem é contente. Esta é a prática do contentamento.”

Na medida em que descubro o contentamento, percebo que preciso de menos coisas materiais. Posso viver de uma forma mais simples. Não preciso criar tantas despesas – e não sinto sacrifício…

E a prática de generosidade, como é que entra? Se o dinheiro está curto, como posso praticar a generosidade? Gente, nós sempre temos algo para dar aos outros – sempre. Vamos ver o que o Mestre Dogen nos diz, no fascículo Os Quatro Métodos de Orientação do Bodisatva (Bodaisatta Shisho-ho) do Shobogenzo:

” ‘Doação’ significa não-ganância.  Não-ganância significa não cobiçar.  Não cobiçar significa não adular.  (…)  Seja de ensinamento ou de material, cada dádiva tem o seu valor e vale a pena ser doada.
(…) Buda disse: “Quando uma pessoa que pratica a doação vai a uma assembléia, as pessoas reparam”.  Deveis saber que a mente de tal pessoa comunica-se sutilmente com as outras.  Por conseguinte, doai até mesmo uma frase ou verso da verdade; será uma semente salutar para esta e as demais vidas.  Doai vossos objetos de valor, até mesmo um centavo ou uma folha de relva; será uma raiz salutar para esta e outras existências.  A verdade pode transformar-se em objetos de valor; os objetos de valor podem transformar-se em verdade.  Tudo isso porque o doador o faz de bom grado.
(…) Buda disse: “Se deveis praticar a doação para vós mesmos, quanto mais para vossos pais, esposa e filhos”.  Por conseguinte, deveis saber que doar para vós mesmos faz parte da doação.  Doar para a vossa família também é doar.  Até mesmo quando doardes uma partícula de pó deveis alegrar-vos no vosso próprio ato porque corretamente transmitis o mérito de todos os budas e pela primeira vez praticais o ato de um bodisatva.  A mente de um ser senciente é difícil de mudar.  Deveis continuar mudando as mentes dos seres sencientes, desde o primeiro momento em que têm uma partícula ao momento em que atingem o caminho.  Isso deve começar pela doação.  Por essa razão, a doação é a primeira das seis paramitas.
A mente está além da medida.  As coisas dadas estão além da medida.  Ademais, na doação a mente transforma a dádiva e a dádiva transforma a mente.”

Assim, vemos que sempre temos algo para doar – seja uma palavra bondosa, seja uma folha de grama, seja um alimento ou dinheiro – sempre temos algo para doar. Mais ainda, ‘a mente transforma a dádiva e a dádiva transforma a mente.” Ao vivenciar o fato de sempre ter algo para doar, entramos no reino da plenitude, entramos num espaço de suficiência. Textos sagrados dizem que será dado a quem tem e tirado de quem não tem. Acredito que o significado desta frase é justamente isto: ao perceber que temos para doar e ao praticar a generosidade, criamos uma energia de ‘atração’ da abundância.  Temos uma oportunidade de entrar num processo de abundância gerando mais abundância. Pelo outro lado, se acreditamos que falta para nós, que não temos para doar, ao praticar a avareza, a não-generosidade, criamos uma energia de “repulsão” da abundância e corremos o risco de entrar num círculo vicioso de falta gerando mais falta.

Portanto, queria dizer para o meu aluno-amigo: continue sendo a pessoa honrosa e generosa que sempre foi, mantenha-se firme na sua prática, sente-se regularmente em zazen, e não se desespere. No trabalho, dê a si mesmo um instante para respirar antes de atender ao telefone, um instante para respirar – e focar naquela respiração – antes de dizer um “sim” ou um “não”, aceitar ou não um serviço, combinar um preço. Você tem o direito de cobrar o valor de mercado e até mais pelos seus serviços, pois é um excelente profissional. Cultive o costume de, ao se perceber ficando angustiado, parar por um instante e simplesmente respirar.  A reforma chega ao fim, as contas acabam sendo pagas – e, nesta hora, por favor, dê a si mesmo o direito de desfrutar!

Gassho

Anúncios

4 Comentários »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. Olá, Monja Isshin!
    Estava navegando pela net e encontrei seu site. Adorei conhecer você. 🙂
    Obrigada!

  2. Muito bom, Isshin-san.
    Gostei muito desta reflexão.
    Fez-me lembrar do seguinte voto dos “Fazedores da Paz”:

    8. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não serem avarentos, eu, _________, com generosidade, pela duração de um dia, usarei todos os ingredientes da minha vida. Não cultivarei uma mente de pobreza em mim mesmo e nos outros.

    fonte: http://www.zendobrasil.org.br/pdfs/zendo_jornal_15.pdf

    Gasshô,

    Emerson

  3. Oi, Isshin-san.
    Deixei um comentário aqui ontem.
    Será que o site não o salvou ou foi excluído?

    Emerson

    Olá, Emerson,

    O site salvou direitinho. Como não tenho acesso regular à Internet no momento e dependo de Internet café (pago) acabo atrasando um pouco para receber e/ou responder mensagens. Sinto muito pela inconveniência e agradeço todo o seu apoio.

    Gassho,
    Isshin

  4. Se querem reduzir nas despesas, poderão começar pelo parlamento, ficando aqui alguns simbolicos valores:

    Diário da República nº 28 – I série- datado de 10 de Fevereiro de 2010 – RESOLUÇÃO da Assembleia da República nº 11/2010.
    Poderão aceder através do site http://WWW.dre.pt

    Algumas rubricas do orçamento da Assembleia da Republica
    1 – Vencimento de Deputados ………………………12 milhões 349 mil Euros
    2 – Ajudas de Custo de Deputados……………………2 milhões 724 mil Euros
    3 – Transportes de Deputados ………………………3 milhões 869 mil Euros
    4 – Deslocações e Estadas …………………………2 milhões 363 mil Euros
    5 – Assistência Técnica (??) ………………………2 milhões 948 mil Euros
    6 – Outros Trabalhos Especializados (??) ……………3 milhões 593 mil Euros
    7 – RESTAURANTE,REFEITÓRIO,CAFETARIA…………..961 mil Euros
    8 – Subvenções aos Grupos Parlamentares……………..970 mil Euros
    9 – Equipamento de Informática …………………….2 milhões 110 mil Euros
    10- Outros Investimentos (??) ……………………..2 milhões 420 mil Euros
    11- Edificios ……………………………………2 milhões 686 mil Euros
    12- Transfer’s (??) Diversos (??)………………….13 milhões 506 mil Euros
    13- SUBVENÇÃO aos PARTIDOS na A. R. ………………16 milhões 977 mil Euros
    14- SUBVENÇÕES CAMPANHAS ELEITORAIS ….73 milhões 798 mil Euros
    NO TOTAL a DESPESA ORÇAMENTADA para o ANO de 2010, é :€ 191 405 356,61 (191 Milhões 405 mil 356 Euros e 61 cêntimos) – Ver Folha 372 do acima identificado Diário da República nº 28 – 1ª Série -, de 10 de Fevereiro de 2010.

    DEPOIS DE SE VER ESTE VERGONHOSO ORÇAMENTO, ACHO ENGRAÇADO, MAS SEM GRAÇA NENHUMA. O MELHOR DE TUDO ISTO É QUE FOR GOVERNAR, NÃO FARÁ MELHOR.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: