A Cultura de Oposição

junho 29, 2007 às 7:09 pm | Publicado em Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | 3 Comentários

No decorrer dos meus trinta e poucos anos no Brasil, venho assistindo a um fenônemo que interpreto como uma crescente Cultura de Oposição. Quando cheguei ao país, uma característica “pacificadora” do brasileiro chamou-me muito a atenção. Era uma qualidade de aceitação e respeito das diferenças, de sempre ter espaço para “mais um”. Em plena ditadura, senti uma liberdade pessoal muito grande. É difícil explicar, mas foi real – e marcante.

Com o fim da ditadura e com os movimentos de “direitos”, vejo uma tendência que me preocupa – o crescimento de uma Cultura de Oposição.

Talvez em reação à censura de outros momentos da história, muitos buscam o direito de se expressar livremente – sem se preocupar com os efeitos divisórios de suas palavras. Criticar à vontade. Reclamar. Rebaixar. Julgar.

Os meios de comunicação exercem, com toda força, o seu direito de “debater”, “investigar”, “discutir”, “trazer a verdade à tona” – e vivem de escândalos, desgraças, sofrimento. As notícias nunca são boas. Por quê?

E os movimentos que proclamam os “direitos” deste grupo ou daquele grupo – quantas vezes, sem querer, reforçam uma mentalidade de “nós contra eles”, do “bem contra o mal”. Com isto, desumanizamos, “demonizamos” o “outro” que não reconhece o “nosso direito” da forma que achamos que deveria. Ouço muito falar em “direitos humanos” mas não ouço ninguém falando em “deveres humanos”… Por quê?

Não estou dizendo que não existem injustiças a serem corrigidas – existem, sim – e muitas. Estou falando da postura com a qual abordamos estas questões, especialmente quando chegamos ao nível dos relacionamentos inter-pessoais. Acredito que precisamos aprender a “denunciar” de forma construtiva, “reclamar” de uma forma que convida à pacificação.

Ficamos cada vez mais divididos. Mergulhamos cada vez mais na dualidade. Eu contra Ti. Eu contra Você. Eu contra o Outro. Progressivamente desumanizando, afastando o outro – “ti” vira “outro”, um “outro” sem rosto, sem coração. Queremos expulsar o “outro”. Esquecemos que somos todos inter-conectados. Vamos expulsá-lo para onde? Na rede de “inter-ser”, não existe “fora”. Ao tentar afastar alguém de nós, estamos somente aumentando a nossa ilusão de separação.

“Expulsar” o outro é uma saída fácil. Não precisamos olhar para dentro, não precisamos assumir nenhuma responsabildade – o outro é o culpado, sempre o outro. Nos nós livramos do “problema”, sem precisar fazer qualquer reforma íntima – sem precisar “crescer”.

Passamos a trocar de pessoas (amigos, parceiros/as, cônjuges) como trocamos de canal de televisão. Com 200 canais de TV a cabo, vivemos um troca-troca, perdemos a capacidade de assistir (ficar) até o fim. Perdemos a capacidade de manter um relacionamento. Divórcio fácil. Troca-troca. Não investimos mais nos relacionamentos. Pensamos: “Fico com você enquanto for conveniente, mas jogo você fora na hora que me canso de você, na hora que fica difícil”. “Você é o culpado, não eu”. “Não compartilho responsabilidade”. “Sou inocente”. “O meu único erro foi de confiar em você”. “Expulso você”.

Nós nos isolamos cada vez mais. Solitários, reclamamos mais direitos. Cresce a nossa ganância – mais e mais direitos. Cresce a nossa raiva – a culpa é do outro! Temos raiva da mãe, do pai, dos professores, do governo – a culpa é deles! Grito: “Sou infeliz por causa deles!” “Quero os meus direitos!” “Tenho direito à felicidade!” “Vocês são os culpados!” Vamos mergulhando cada vez mais nesta dualidade de eu contra o outro, o outro que me faz sofrer, o outro – sempre o outro como inimigo.

A postura Ocidental parece ser de querer descobrir quem está “certo” e quem está “errado” e expulsar, mandar para longe, a pessoa que julgamos “errada” – de alocar a culpa sempre num “outro”. Mas a postura Budista é que somos todos inter-conectados, não há separação, somos co-responsáveis, não há nem fora nem dentro, portanto, devemos aprender a conviver juntos. Devemos olhar para dentro e enxergar a nossa própria parcela de responsabilidade. Por isto, temos os Preceitos de Bodisatva e as Regras Monásticas.

E onde será que ficam os nossos Preceitos nestas horas, quando mergulhamos na Cultura de Oposição, quando queremos expulsar o outro?

Já de cara, quebramos o décimo dos Dez Grandes Preceitos, que ensina a não falar  ou pensar mal dos Três Tesouros – Buda, Darma, Sanga e também o sétimo, que ensina a não se elevar nem rebaixar ou culpar o outro. Se, ao tentar expulsar o outro, tentamos nos justificar falando a outras pessoas sobre os “defeitos” do outro, estamos quebrando o sexto preceito, que nos ensina a não falar dos erros e falhas dos outros. É quase certeza que, nestas horas, estamos quebrando também o nono preceito, que nos ensina a não alimentar raiva ou ressentimento…

Ufa! E tem mais! Ao recusarmos a aprofundar a nossa prática de compaixão ou paciência, com a nossa falta de generosidade com o Darma, estamos também quebrando o oitavo preceito de não ser avarento ou abusivo. Ao falar somente em nossa versão – a nossa interpretação, a nossa “verdade” dos acontecimentos – excluíndo a versão, a “verdade” do outro, estamos também quebrando o quarto preceito, que nos ensina a não mentir ou falar com falsidade, a não induzir uma outra pessoa a uma visão errônea. Se falamos em “segredo”, sem a presença do “outro”, o acusado, estamos induzindo outras pessoas a acreditar em algo distorcido, unilateral. Estamos mentindo.

Alguém pensou que a nossa prática seria fácil? Pois não é. Vamos continuar…

O quinto preceito, freqüentemente traduzido simplesmente como ‘não negociar intoxicantes’, na realidade nos ensina a não mergulhar em qualquer tipo de enturvamento ou entorpecimento mental, de não nos deludir, seja por bebida, seja por excesso de TV ou até por nos envolver em fofocas. Será que não está sendo quebrado também esse preceito?

Ao negar a humanidade do outro, ao roubar a sua dignidade, estamos quebrando o segundo preceito, que nos ensina a não roubar e, mais ainda, ao matar o relacionamento correto, estamos quebrando o primeiro preceito, que nos ensina a não matar.

O estudo dos preceitos é extremamente profundo e não se limita somente ao nível ‘literal’, superficial. Segue por camadas e graus de sutileza. Existem muitas maneiras de ‘roubar’ e de ‘matar’…

Até agora, sobrou somente um preceito, normalmente traduzido como ‘não praticar atos sexuais impróprios`. Mas, acontece que uma análise mais profunda desse preceito, que nos ensina a tratar todos os seres com respeito, demonstra que, ao “demonizar” o outro, ao desrespeitar o outro, também este preceito está sendo quebrado.

Gente, não sobrou um único preceito sem ser quebrado! A nossa prática foi para os ares!

Talvez eu não possa consertar o mundo, mas certamente posso me esforçar para consertar a mim mesmo e posso me esforçar para melhorar aquele pedaço do mundo que me cerca. Para construir a paz no mundo, tenho que começar comigo mesmo, me tornando a paz em manifestação. Tenho que me tornar Paz.

Tenho que sair do meu ego-centrismo, deixar o meu egoísmo para trás. Se é verdade que não devo ficar num relacionamento de violência e abuso, ao mesmo tempo devo me questionar seriamente se eu e o grupo ao qual estou afiliado estamos realmente seguindo os nossos votos ao achar que ‘exclusão’ é uma solução de alguma dificuldade de relacionamento.  Culpar o outro é fácil e não soluciona nada, pois a minha não-aceitação continua, a minha limitação e incapacidade de crescer e conviver com as diferenças continua. O meu problema continua. Em lugar de expandir-se, o meu mundo se fecha. Eu me isolo – talvez junto com o meu grupinho.

Como é que faço então? Volto para o Zazen e “sento com o meu desconforto”. Esta é a orientação que normalmente é dada nos mosteiros quando alguém busca os professores para reclamar de alguém. E serve para nós aqui no Ocidente! No Zazen, corretamente sentado, podemos descobrir que tudo é Vazio – inclusive as coisas das quais estou reclamando. Que libertação!

Volto para o meu estudo do Darma, dos ensinamentos, os sutras, o estudo do significado dos preceitos. Faço perguntas ao meu professor de darma, faço perguntas aos praticantes que estão acima de mim na hierarquia – incluindo os monges – todos os meus “sempais”. Investigo, inclusive, por que motivo a nossa prática não aceita julgar o praticante acima de nós na hierarquia, não admite julgar um monge ou monja… Por que esta hierarquia perdura, mesmo depois de 2.600 anos?

Finalmente, volto-me à Prática da Moralidade, à Prática dos Preceitos – de preferência junto com uma Sanga saudável. O que define uma Sanga saudável? Principalmente, a manutenção dos Preceitos. Numa Sanga saudável, se alguém quer andar falando mal de alguém, os outros praticantes corrigem esta pessoa, não dão ouvidos a essas conversas, relembram-na dos Preceitos. Numa Sanga desfuncional, este tipo de conversa, fofoca, provavelmente corre livre – é um dos sintomas da desfunção… Como qualquer agrupamento de seres humanos, as Sangas passam pelos seus altos e baixos. Se eu acho que a minha Sanga está passando por um momento de desfunção, posso tomar uma atitude de recusar a me envolver com as fofocas e outras quebras dos preceitos, posso tentar alertar os meus colegas, me posicionando contra. E se isto não funcionar, talvez vou ter de sair da minha sanga, para não ser cúmplice – mas sem quebrar a conexão. Posso ficar sempre de olho, pronto para voltar quando a fase negativa passar.

Vejamos o Dhammapada, Capítulo 1, Versos 3-5:
3. “Ele me fez mal, ele me bateu, ele me derrotou, ele me roubou”, naqueles que dão guarida a tais pensamentos, o ódio não é apaziguado.
4. “Ele me fez mal, ele me bateu, ele me derrotou, ele me roubou”, naqueles que não dão guarida a tais pensamentos, o ódio é apaziguado.
5. Ódios nunca cessam pelo ódio nesse mundo; através somente do não-ódio eles cessam. Essa é uma lei eterna.”

Acima de tudo, purifico o meu coração. Liberto-me das raivas, dos ressentimentos, dos ódios grandes e pequenos. Faço a prática do não-ódio. Faço a prática de gratidão. Abro-me para a libertação da mente condicionada, transcendendo os meus traumas do passado, mergulhando-me na minha própria essência, a minha Natureza Buda – sem me confundir com um falso “mestre interno” que vem do meu próprio ego. Aprofundo-me na prática e abro o Olho de Sabedoria, o Coração da Compaixão, sempre caminhando em direção ao equilíbrio dos dois que representa a Iluminação.

Que os méritos de nossa prática se estendam a todos os seres e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado.

Gassho

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3 Comentários »

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  3. Hummmmm, começar o dia com essa explanação pode render muito, em como
    me posiciono frente a vida e suas vissicitudes….

    O texto é de uma sagacidade,capta as sutilezas do funcionamento mental
    de muitos de nós, arrastados pelos mecanismos da cultura de massa….esse
    tal de querer ficar bem na ” superficie”a qquer preço, pagando preços altissimos as vezes.

    Gosto e faz bem textos-reflexão em que podemos ver o Dharma aplicado no dia
    a dia de nossa vida corriqueira, das nossas relações etc. e tal.

    A forma como vc vai dialogando com os preceitos e as suas sutilezas é belissima, completa e ouso dizer que se partimos dessa sua explanação, dá
    para ir mais além na vida pratica de cada um de nós.

    Gasshô e obrigada.


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