O Ego

junho 20, 2007 às 1:50 pm | Publicado em Blogroll, Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 1 Comentário

Me fizeram uma pergunta bastante interessante outro dia:

“Agora aqui vai uma pergunta que estou querendo fazer há muito tempo. O Buda falou (ou dizem que ele falou) que o apego gera sofrimento e que para acabar com o sofrimento temos que acabar com o apego. Certo?? Pois bem, com o Zazen tenho tomado consciência do meu enorme apego ao meu EGO!! É verdade. Parece que eu me dou muita importância. Pois bem, o que é que é que eu faço agora? Qual é o exercício para diminuir o apego ao EGO. Continuo sentando e meditando??”

Hmmm. Vejo duas respostas para esta pergunta.

Primeiro, que bom que você tem apego ao seu ego! Um ego saudável é absolutamente necessário para a gente funcionar direito neste mundo! Então, por favor, cuide bem de seu ego! Aí surgem as questões de como fazer para ter um ego saudável. Quem teve a bênção de crescer numa família saudável, provavelmente já tem um ego saudável. Mas, dependendo da história pessoal de cada um, às vezes, pode ser conveniente e apropriado fazer terapia com um bom psicoterapeuta (psicólogo ou psiquiatra) com quem sentimos afinidade. Os traumas pessoais podem prejudicar o funcionamento adequado do ego. Têm coisas que somente uma boa terapia podem resolver. A Espiritualidade não pode substituir a terapia nestes momentos. Também, a terapia não pode substituir a espiritualidade e aí vamos para a segunda resposta.

Em lugar de ficar numa dualidade de apegar-se ou desapegar-se do ego, que tal pensar em termos de “transcender” o ego, encontrar aquele espaço de não-dualidade onde você possa manifestar a sua Natureza Buda naturalmente? Com isto, poderá deixar o ego cumprir o seu papel sem que ele tente ser mais do que é.

A nossa prática não é bem para “matar o ego”, mas, de certa forma, domesticá-lo, deixá-lo fazer aquilo pelo qual existe, sem mais nem menos. Para isto, primeiro, temos que acolhê-lo com o mesmo carinho com que acolhemos uma criança e aceitá-lo como ele é – parar de brigar com ele. A partir desta aceitação, ganhamos espaço e tranqüilidade para observá-lo e aprender como ele funciona – para depois “administrá-lo” e escolher de que forma seria mais próprio deixar o ego se manifestar no mundo.

Temos, sim, que nos desapegar do orgulho, das raivas e ressentimentos, dos medos, e toda uma série de gostos e desgostos, opinões, conceitos e preconceitos e aprender a vivenciar cada momento em sua plenitude. Não vamos deixar de ter sentimentos e emoções, mas vamos aprender a não ser controlados, nem movidos, pelas nossas emoções. Não vamos deixar de ter pensamentos, mas vamos aprender a não ser controlados, nem movidos, pelos nossos pensamentos.

Mais ainda, não vamos mal-interpretar a própria palavra “desapego” – não vamos deixar de nos relacionar com os outros, de amar e ser amados, mas vamos, sim, aprender a respeitar os outros e não ficar tentando controlá-los, nem nos deixar ser controlados.

Então, como vamos fazer? A nossa prática é formidável e tem três aspectos, nenhum dos quais deve ser esquecido: o Zazen, corretamente sentado; o estudo do Darma, através dos textos e com o relacionamento com um professor de Darma; e a prática dos Preceitos, junto com uma Sanga saudável.

Quando um destes elementos falta, a nossa prática vai ficar limitada, mas não é por isto que não vamos fazer o melhor que podemos.

Mesmo que não tenhamos professor ou mesmo que não tenhamos Sanga, podemos sentar zazen, estudar os textos e nos esforçar ao máximo para evitar quanto mais possível as armadilhas do caminho. Podemos considerar todas as pessoas em nossa volta como os nossos professores, cada um ensinando, de seu jeito, um pedacinho do Darma. Podemos considerar todos os acontecimentos de nossa vida como o Darma se manifestando, nos ensinando constantemente. Podemos considerar todas as pessoas com quem nos relacionamos como a nossa Sanga, grupo com quem praticamos os Preceitos. Mas, o caminho solitário é muito, muito difícil.

Melhor seria praticar com um grupo, pois, se o grupo zelar mesmo, sempre procurando manter os preceitos, todos vão poder se ajudar mutuamente na prática. É o espaço perfeito para exercitar a gratidão e a compaixão, observar as nossas ações, junto com pessoas que compartilham a mesma prática. Mais uma vez, se não tiver professor de darma, alguém que já passou por treinamento, vai ser bem mais difícil. Mesmo assim, não é por isto que não devemos procurar praticar da melhor forma possível, especialmente se temos uma pessoa com “rakusu” (que já recebeu os preceitos) para co-ordenar o grupo. É só tomar bastante cuidado, o tempo todo, para não cair nas armadilhas de auto-ilusão ou de ilusão-grupal. Para isto, a constante re-lembrança dos preceitos e prática de arrependimento, constante reflexão sobre o seu próprio comportamento e ações são necessárias.

Sentar zazen e mais zazen é imprescindível – mas somente sentar zazen daria num beco sem saída, pois, sem o estudo do Darma e a Prática dos Preceitos, depois de um tempo, o zazen acaba estagnando-se, sem progredir além de um certo ponto. Tem que ser Zazen corretamente sentado, e isto não é fácil. Como saber se o seu zazen está correto? Isto também não é fácil, mas, em princípio, mesmo que a gente senta “sem objetivo, sem meta”, mesmo assim, quando o Zazen é correto, a gente deve perceber aprofundamento da prática, abertura cada vez maior do Olho de Sabedoria e Coração de Compaixão, constante auto-transformação.

E nesta auto-transformação, que possamos nos tornar a Paz, transcendendo o ego pequeno, manifestando mais e mais a nossa Natureza Buda.

Que os méritos de nossa prática possam se estender a todos e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado.

Gassho,

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1 Comentário »

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  1. Gostei do texto. Muito explicativo em materia de conhecimento da mente e nos aponta um meio de lidar com o ego.É um pena que aqiu em São Luís do Maranhão não conheço ou não tem grupos budistas para praticar esses conhcimentos.Obrigado


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