Torcer Contra?

junho 14, 2007 às 8:35 pm | Publicado em Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Ontem, houve um jogo de futebol – um jogo importante, de um campeonato internacional. Entendo muito pouco destas coisas, acabo nunca tendo tempo para acompanhar os esportes. Me atrapalho com as regras, os nomes do times, os jogadores – mesmo assim, gosto de futebol. (Sabia que o único esporte no qual eu tive qualquer habilidade no meu tempo escolar foi justamente o “soccer” – o futebol brasileiro – e, infelizmente, tivemos este esporte somente durante um único semestre, para a minha grande frustração. Fui uma desastrada em todos os outros esportes – só passava vergonha – e levava “queimada”…).

Bem, voltando ao assunto – o jogo de ontem foi do Grêmio, de Porto Alegre, contra um time forte Argentino (esqueci o nome). Só que eu estava tonta de cansaço e fui dormir cedo. Atualmente estou hospedade na casa de uma praticante da minha sanga e comentei com ela que achava que daria para “acompanhar” o jogo pelo barulho dos torcedores nos prédios vizinhos e foguetes, caso o Grêmio fizesse gol ou ganhasse.

Imagine a minha surpresa quando ela me contou que não daria, não, pois os torcedores de Internacional (outro time de Porto Alegre) estariam torcendo contra e fariam a mesma festa quando o time oponente fizesse gol. Torcer contra???

E não é que ela falou a verdade? Lá pelas tantas, sonolenta, ouço uma torcida gritando de alegria – e ouço uma outra voz gritando “cala a boca!”.  Xi-i-i-i. E mais duas vezes, a torcida gritando e a outra voz gritando “cala a boca!”. No fim adormeci mesmo e não ouvi mais nada.

No dia seguinte, a minha anfitriã me contou que o Grêmio perdeu mesmo, de 3 a 0, e confirmou que os gritos que eu havia ouvido realmente eram da torcida “contrária”.

Gente, acho super legal este negócio de torcer pelo seu time e tudo mais. É importante. Mas, será que quando vamos para campeonatos internacionais, será que não podemos simplesmente ser Brasileiros? (Tenho dupla nacionalidade e me orgulho de ser também  Brasileira.) Vamos torcer CONTRA os nossos irmãos Brasileiros, desejar que percam? Por um joguinho de futebol?

Somos todos seres humanos e estas diferenças e divisões entre países, estados, cidades, raças, sexos, etnias, culturas, religiões e times – estas diferenças, na realidade, não importam nem um pouquinho. Somos todos seres humanos, com os nossos sentimentos de alegria e tristeza, confiança e medo, amor e ódio. Somos todos seres humanos, com os nossos sonhos e amores. 

Somos todos inter-conectados (ou “grêmio-conectados”?), co-responsáveis pelo nosso mundo – um mundo que fica “menor” a cada dia com as cresentes facilidades de comunicação e transporte.

Temos muitos desafios pela frente – de aprender a conviver em paz num mundo de tantas culturas extremamente diferentes entre si, povos com valores sociais bastante contrastantes. Para aprender a transcender estas diferenças e encontrar o mútuo respeito de povos e culturas diferentes, temos que primeiro começar conosco mesmos – em nosso mundo interior, depois em nossa casa, cidade, país… Temos que nos tornar a Paz que desejamos.

Para isto, a prática espiritual é fantástica e o Zen tem sido o meu caminho espiritual.

No Zen, a gente senta Zazen, e deixa que a mente naturalmente se aquiete e abra espaço para que uma clareza mental e um estado de Paz e Tranqüilidade possam se manifestar. Tem que ser um zazen verdadeiro, corretamente sentado, senão não vai funcionar… Mas, da mesma forma que, quando deixamos um copo de água lamacenta descansando no balcão, ao voltar veremos água límpida e transparente e sedimentos no fundo do copo, ao sentar corretamente em Zazen, a nossa mente clareia. A nossa intuição cresce. Podemos abrir o Coração de Compaixão e o Olho de Sabedoria.

No Zen, a gente também estuda o Darma, os ensinamentos budistas, lendo sutras, textos de mestre clássicos e modernos, ouvimos palestras de Professores de Darma, fazemos entrevistas particulares com um Professor de Darma. Isto nos ajuda a esclarecer dúvidas e a abrir novos caminhos de pensamento para orientar as nossa vidas – e o nosso Zazen. Sem um Professor de Darma, a situação fica mais difícil, pois a mente humana é “craque” na arte da auto-ilusão. Até mesmo um grupo, sem professor, corre o risco de cair em “auto-ilusão grupal”! O caminho espiritual (de todas as tradições) é um caminho cheio de armadilhas!

Mais ainda, no Zen, a gente pratica os Preceitos Budistas, a moralidade, na convivência com a Sanga de colegas praticantes. Quando é uma Sanga saudável, um praticante pode ajudar o outro a se manter no caminho de Compaixão e Sabedoria, a manter os Preceitos. Infelizmente, quando é uma sanga desfuncional, o inverso é verdadeiro e um praticante pode ajudar o outro a cair nas armadilhas do caminho, todos se afundando mais ainda no Samsara. Como podemos saber se a Sanga é saudável ou não? Observando como é que o grupo reage quando alguém sai por aí fofocando e falando mal de alguém, observando como resolve (ou não) os conflitos, observando como seus membros lidam com as pessoas “difíceis”, observando se praticam (ou não) a transparência, se mantêm os Preceitos. 

Se você teve a benção de encontra um Professor de Darma e uma Sanga saudável, vá em frente – se entregue à Prática Zen Budista – Zazen, Estudo e Preceitos – pois, mantendo uma prática constante e sincera, naturalmente, a sua Natureza Buda irá se manifestar com mais clareza dia após dia.

Podemos nos tornar a Paz – e torcer para todos os times nesta grande jogada que é a vida!

Que os méritos de nossa prática se estendem a todos os seres e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado.

Gassho

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