Raiva – o que você faz com a sua?

junho 13, 2007 às 4:30 pm | Publicado em Compaixão Zen Budista, Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | 1 Comentário
Tags:

Ao estudar a versão original, em japonês, do texto “Shushôgui” (O Significado da Prática e Verificação) de Mestre Dogen, no Capítulo III (Ordenação e Iluminação), encontramos os Preceitos do Bodisatva, dezesseis ao total.

O nono preceito dos Dez Preceitos Maiores diz: “dai kyû, ‘fu shin i kai'”. O que significa isto?

Dai kyû – nono
Fu – não
Shin – ser raivoso, raiva, ódio
I – raiva
Kai – preceito

Literalmente: “nono – o preceito de não-raiva”.

O que será esta “não-raiva”? Como podemos viver, corretamente, de acordo com a “não-raiva”?

Será que significa nunca sentir raiva? Hmmm, aí que está uma das grandes armadilhas da prática! Para pessoas que, por traumas do passado, têm dificuldade em expressar – ou até reconhecer – a raiva, a má-interpretação deste preceito vira um campo minado que favorece a manutenção de padrões neuróticos da mente condicionada e não leva à Iluminação, achando que não se pode sentir raiva no caminho espiritual. Mas, a raiva, em si, é nada mais que uma emoção natural do ser humano, cuja função é de nos alertar quando está havendo alguma agressão e nos dar a energia para reagir e repelir o agente agressor. É uma função necessária à nossa saúde física e emocional – desde que não distorcida e levada em outras direções. E aí que entram os ensinamentos deste preceito.

É um preceito que nos ensina a não ser “raivosos”, a não guardar raivas, a não agir baseado nas raivas.

E você, como é que você lida com as suas raivas?

Ao sentir o começo de uma raiva (ainda no estágio de uma pequena irritação), você logo a reconhece, respira, observa o estímulo externo, observa a origem interna e o efeito dentro de você e deixa-a passar naturalmente – para somente aí tomar alguma ação, depois que a adrenalina já se dissipou do seu corpo? Se for assim, parabéns! Mas poucos de nós conseguimos chegar a este ponto.

Então, será que você reprime suas pequenas irritações, talvez querendo ser “bonzinho” ou “espiritual e puro”, fingindo para você mesmo que não sente raiva, fingindo que compreende o outro e que o perdoa – antes mesmo de assumir a sua irritação? Isto é um tanto como colocar a carroça na frente dos bois. O ato de reprimir não faz uma irritação desaparecer, mas a “enterra” no solo de nosso subconsciente onde ela cria raizes e se fortalece. Em seguida, as pessoas que “reprimem” suas irritações vão colecionando mais sementes de irritação, uma por uma, gerando uma futura “grande raiva”, feito panela de pressão. Na hora de explodir a panela, algumas pessoas viram as suas raivas contra si mesmas – raiva reprimida é uma das causas principais de enxaquecas e de depressão, por exemplo. Outras pessoas estouram mesmo – brigando, dizendo ou fazendo coisas das quais podem se arrepender depois. Nesta hora, passam a se sentir mais culpadas ainda por sentir raiva e voltam a reprimir suas pequenas irritações com mais força ainda, reiniciando o ciclo.

Ou será que você se torna uma pessoa “nervosa”? Sabe, aquela pessoa de “gênio” forte, que discute com todo mundo, que está sempre brigando, gritando, xingando? Sempre acha que o outro é o culpado, dizendo: “Ela me deixa com raiva! Ele me dá raiva!” Nunca assume a responsabilidade pelo próprio sentimento. Esta é uma pessoa que fica até viciada na química fisiológica da raiva – e vai ter que passar pela síndrome de abstinência para se livrar do hábito de ser “nervosa”.

E temos ainda a pessoa “ressentida”. Um exemplo típico seria uma pessoa que guarda raiva e ressentimentos do pai, por exemplo, mas que não “trabalhou” estes sentimentos, se libertando. Esta pessoa pode facilmente “projetar” sua raiva e ressentimento por cima de qualquer outra figura de “autoridade” masculino e passar a “botar defeitos” nesta segunda figura – uma pessoa que não tem nada a ver com a história real. Pode viver brigando com a figura de “autoridade” ou, pior ainda, pode declarar uma espécie de guerra do tipo guerilha, fazendo ataques por trás das costas, fazendo “fofocas”, denúncias, críticas para todos que lhe dêem ouvidos enquanto que mostram um rosto agradável e sorridente ao sujeito da guerra. No trabalho, pode fazer “sabotagens”, sutis “greves” (enquanto que reclama de sobrecarga) – são milhares as maneiras de praticar a “agressão passiva”…

E você, qual é o seu estilo preferido? Somos todos seres humanos e não escapamos de nenhum dos Três Venenos – raiva, ganância e ignorância. Portanto, é certeza absoluta que temos os nossos momentos de reprimir a raiva para ser “bonzinhos”, os momentos de ser “nervosos” e os momentos de ser “ressentidos”. Então, o primeiro desafio é de reconhecer e assumir a responsabilidade pelo nosso estilo preferido.

Por exemplo, a pessoa que prefere reprimir a raiva como padrão principal vai ter dificuldade em simplesmente reconhecer e aceitar o fato de estar com raiva, enquanto que a pessoa que tem o padrão principal de ser “nervosa” vai ter dificuldade em assumir a responsabilidade pelo seu próprio sentimento. E a pessoa que vive o padrão “ressentida” vai ter dificuldade em separar as projeções e as emoções projetadas da realidade do momento atual.

E agora, qual é a saída?

Uma das melhores soluções é a prática Zen Budista correta, de três pilares.

O Zazen, corretamente sentado, nos dá um espaço para perceber a nós mesmos com mais clareza. Na medida em que aprendemos a levar o estado de paz e tranqüilidade que começamos a descobrir no Zazen para o restante de nossa vida, passamos a perceber a nós mesmos com mais clareza durante as nossas atividades. Assim, temos mais chance de perceber e reconhecer as pequenas irritações logo de cara, assumir a responsabilidade pelos nossos sentimentos e sair das projeções, para então, mantendo este mesmo estado de paz e tranqüilidade, definir a ação mais apropriada e compassiva para solucionar a questão ainda na fase inicial, pequena. Mas, se estamos sentando um zazen falso – um zazen de conforto, consumo, devaneio, sono – não aprenderemos nada…

O Estudo do Darma, através do estudo dos textos e do estudo junto com um professor de darma é o segundo pilar da prática. Através do estudo, podemos nos conscientar dos vários aspectos de nossa prática. O professor serve como um espelho, nos refletindo de volta para nós mesmos. Serve como um “provocador”, trazendo à tona as nossas ilusões, joguinhos, padrões, para que possamos nos libertar. Se, porém, ficamos com medo ou entramos na arrogância e nos fechamos contra os ensinamentos do professor, corremos grande risco de simplesmente ficar presos nas armadilhas de nossas próprias ilusões.

Finalmente, temos a Prática dos Preceitos, junto com uma Sanga saudável. Praticando os Preceitos Budistas na convivência com uma Sanga saudável, temos a oportunidade de descobrir os nossos “botões” e padrões de relacionamento, bem como as nossas atitudes de “gosto/não-gosto”, “quero/não-quero”, preconceitos, conceitos. Quando a Sanga é saudável, a resolução dos conflitos flui bem e todas as partes envolvidas num conflito saem bem, com a prática mais aprofundada. Mas quando a Sanga é disfuncional, formam-se “grupinhos” e começam as “guerras” de ego, de poder, de interesses.

Quando a prática é correta, as raivas vão se aquietando naturalmente, a mente vai se pacificando, as necessidades de “fofoca”, vingança e tudo mais vão caindo para o lado. Descobrimos a Equanimidade. Nos libertamos dos condicionamentos e mergulhamos cada vez mais na Paz e Tranqüilidade de nossa Natureza Buda. A Casa do Tesouro se abre naturalmente e podemos nos servir à vontade.

Que os méritos de nossa prática se estendem a todos os seres e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado.

Gassho

Anúncios

1 Comentário »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. Olá, obrigado por ter escrito isso, serviu muito para meu contexto de hoje… Obrigado.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: