Silêncio

junho 11, 2007 às 5:16 pm | Publicado em Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Fudomyo 1

Há um ditado brasileiro que diz: “Quem cala, consente”. Às vezes, isto é verdade. Às vezes, não – e aí o silêncio, interpretado erroneamente como consentimento, pode levar a sérios mal-entendidos.

Quantas vezes nós nos descobrimos numa situação de conflito porque alguém, querendo ser “bonzinho”, ficou em silêncio, não falou “não” e agora está brigando conosco? Até que ponto temos obrigação de saber “ler mentes”? Será que jogar o joguinho de “bonzinho” para depois brigar não é algo desonesto, hipócrita? Será que podemos confiar numa pessoa “boazinha” assim?

Por outro lado, há um ditado americano que diz: “O silêncio é ouro”. Nem dá para imaginar quantas vezes isto também é uma grande verdade! Mas, se ficar em silêncio, bancando de “bonzinho” e não dizendo “não” é algo ruim, quando será que o silêncio pode ser “ouro”?

Às vezes, alguém chega com um papo tão radicalizado, de mente tão fechada na dualidade, que não adianta entrar numa discussão do tipo “sim-não”, pois a outra pessoa provavelmente só vai se radicalizar mais ainda, se fixar mais ainda na sua postura de oposição. Nestas horas, um silêncio pode ser a melhor saída – ouvir o que a pessoa quer dizer com atenção e, sem nem concordar nem discordar, silenciosamente se retirar. Não há necessidade de dar murro em ponta de faca. Não há necessidade de bater com a cabeça na parede.

O Mestre Dogen escreve, nas Instruções para o Cozinheiro Chefe, que tudo fica revelado, nada é escondido. Se a gente estiver com a Verdade maior, isto vai se revelar – mais cedo, mais tarde. Como diz o ditado Brasileiro: “Quem não deve, não teme”.

Nas horas das acusações falsas ou distorcidas, temos que ter muita equanimidade para saber se devemos falar ou calar. Temos uma oportunidade de ouro para aprofundar a nossa própria prática: “Qual o caminho mais compassivo – com compaixão pelo outro e pela gente mesma?”

Às vezes, como pais, temos que deixar uma criança birrenta gastar toda a sua raiva, esperneando, chorando, xingando – fingindo não estar “dando bola”. Às vezes, este é o caminho da compaixão. Pode ser até humilhante, se a criança resolver fazer birra em público, mas às vezes, por mais difícil que seja a situação, por mais barulho que a criança possa fazer, na realidade, por amor à criança, temos que simplesmente deixá-la gastar sua energia de birra, manter a tranqüilidade e firmeza, para o seu próprio bem.

Como explica a Aoyama Roshi no seu livro, “Para uma Pessoa Bonita”: A garrafa com pouco vinho faz mais barulho ao ser chaqualhada que a garrafa cheia. Uma outra maneira de transmitir o mesmo conceito é: o côrrego, com pouca profundeza de água, é bem mais barulhento que o rio profundo.

Às vezes, quando alguém está fazendo barulho, falando mal da gente por trás das costas, sem a coragem de “enfrentar” a gente diretamente, a melhor resposta pode ser o silêncio. Existem pessoas que – de tamanho trauma pessoal, seja com a mãe, seja com o pai, seja com outra figura de autoridade – simplesmente não conseguem agir de outra forma. Merecem a nossa compaixão. Não digo “pena”, pois essa é uma palavra que facilmente implica numa superioridade em relação ao outro e não podemos nos sentir superiores em momento algum. Somos todos seres humanos, fazendo o melhor que podemos de acordo com as nossas causas e condições. Mas a pessoa que não consegue se aproximar e lidar diretamente com a gente – que precisa andar falando mal da gente para terceiros, “fofocando”, difamando, nos machucando moral e eticamente, talvez até ferindo os nossos direitos básicos de cidadão com atos ilegais – essa pessoa realmente merece a nossa compaixão – a nossa “dor compartilhada”. Podemos até passar por uma fase de constrangimento – com pessoas que ouviram, e acreditaram nas “fofocas”, olhando torto para a gente. Mas, se realmente estamos com a verdade maior, mais cedo, mais tarde, as coisas irão se esclarecer – desde que mantivermos a nossa tranqüilidade e a compaixão.

Se ficarmos perturbados, se entramos na defensiva ou, pior ainda, se contra-atacamos, perdemos a nossa verdade e a coisa vira uma bagunça total – perdemos a nossa prática e caímos no mesmo nível condicionado da mente pequena.
Fudomyo 2

Portanto, um praticante sincero precisa estar sempre atento, procurando manter a equanimidade e a compaixão – até mesmo no “inferno”. Temos uma imagem Budista que demonstra exatamente isto – o Fudomyô, um dos Protetores do Darma. É retratado como um homem feroz, de espada, cercado por chamas. O seu nome significa “protetor” (myo) “imóvel” (fudo) – no meio das chamas – mesmo no inferno, não se abala. Ouvimos muitos relatos dos esforços dos monges Tibetanos para manter o Coração de Compaixão enquanto passavam por torturas nas mãos dos invasores chineses. Será que somos capazes de seguir estes exemplos?

Não podemos mudar o outro, temos que aceitá-lo como é. Temos que amar a criança birrenta, pois, mesmo assim, ela é Natureza Buda – ainda que vivendo no Samsara da raiva, ganância e ignorância.

Podemos focar a nossa própria prática: “O que posso aprender com esta situação? O que posso mudar em mim mesma?” Podemos exercitar as Paramitas: generosidade (dana); moralidade, ou viver de acordo com os preceitos (sila); paciência (ksanti); esforço, ou empenho (virya); meditação (dhyana); e sabedoria (prajna). Podemos nos esforçao no Caminho dos Oito Aspectos: visão correta; pensamento correto; fala correta; ação correta; meio de vida correto; esforço correto; atenção correta; e concentração correta. Podemos trabalhar os três “pilares”: Estudo do Darma (estudo dos textos budistas e estudo com Professor de Darma); Zazen (corretamente sentado) e Prática dos Preceitos (junto com uma Sanga saudável). Podemos mergulhar dentro de nós mesmos, nos libertando dos condicionamentos do eu pequeno, para manifestar cada vez mais a nossa Natureza Buda, a nossa Iluminação inata de Sabedoria e Compaixão.

Que os méritos de nossa prática possam se estender a todos os seres e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado.

Gassho.

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