Arrependimento

junho 11, 2007 às 5:32 pm | Publicado em Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Zen Budismo em Porto Alegre | 3 Comentários

Errei! E agora, como é que faço? Somos todos seres humanos e, por mais que esforçamos para seguir o caminho de Buda, cometemos erros. Guardamos raivas e ressentimentos. Falamos mal dos outros. Deixamos de cumprir com as nossas responsabilidades. Pegamos algo que não era nosso. É lista de erros humanos não tem fim.

No Budismos, não gostamos de falar tanto em termos de “certo” ou “errado”, não gostamos muito de falar de “erros”. Falamos, sim, de ações “hábeis” ou “inabeis”. Portanto, um “erro”, na verdade, seria uma ação no qual faltou habilidade – seria uma ação inepta, desastrada – própria de uma pessoa que ainda não sabe fazer melhor, mas que está fazendo o melhor que pode naquele instante, dentro de suas causas e condições. Somos Natureza Buda, ainda andando na Samsara, sofrendo dos venenos da raiva, ganância e ignorância. E, assim, cometemos atos de pouca habilidade – na linguagem comum – erros.

Mas não é por cometermos erros que deixamos de ser Natureza Buda. Então como é que fazemos para voltar a manifestar a nossa Natureza Buda depois de cometer um erro?

O primeiro desafio é de admitir para nos mesmos que erramos. Como isto doí! Pretendemos tanto à “perfeição”! Fazemos de tudo, internamente, para justificar e racionalizar os nossos erros, tentando convencer a nos mesmos que o “erro” é “certo”, que está tudo bem, correto. Quanta energia gastamos com isto? A nossa Natureza Buda dentro de nos sabe quando cometemos erros e nós nos afastamos de nossa própria natureza verdadeira para negar os nossos erros.

Por isso, a prática Budista é tão importante. São três aspectos:

1. o estudo constante do Darma, dos ensinamentos de Buda – através do estudo dos textos, palestras de um Professor de Darma e entrevistas individuais com o Professor de Darma.

2. a prática regular de Zazen, corretamente sentado. A prática de “shikantaza” (“simplesmente sentar”) é infinitamente sutil e sujeito às mal-interpretações. Quantas vezes achamos que estamos sentando zazen, mas na realidade estamos fazendo tudo menos sentar Zazen de verdade. Com o acompanhamente de um Professor de Darma, temos como avaliar o nosso zazen.

3. a prática regular da moralidade, dos Preceitos do Bodisatva – o que é treinando na prática junto com uma Sanga saudável. Temos que observar bem a liderança da Sanga e o próprio comportamento dos membros para avaliar se é uma sanga saudável ou desfuncional. Se é uma sanga “auto-liderada”, pode ser que teremos um caso de “cegos guiando cegos” e temos que olhar bem. Se está cheia de fofocas, brigas de egos, julgamentos, reclamações “da vida”, está sendo uma sanga desfuncional. Mas se for um lugar de paz, de fala respeitosa, de transparência na resolução de conflitos – provavelmente é uma Sanga basicamente saudável.

Então, estou praticando corretamente e acabo de perceber que errei! E agora?

Um ponto importante é de ter compaixão comigo mesmo, bem como compaixão pelo outro. Compaixão não significa complacência, nem “impunidade”, mas o reconhecimento que fiz o melhor que pude naquele instante, dentro das minhas causas e condições e, se errei, foi por que não pude fazer melhor naquele momento, preso nas armadilhas dos três venenos: a raiva, a ganância e a ignorância. Compaixão significa, sim, mudar aquilo que pode ser mudado. Portando, assim que eu perçebo um erro meu, por compaixão, preciso tratar de aprender com o meu erro, mudar aquilo que precisa ser mudado e fazer o possível para consertar qualquer estrago que o meu erro provocou.

Assim, preciso refletir sobre como foi que cheguei a cometer o erro – descobrir como foi que me iludi, me justifiquei, me entreguei à raiva, por exemplo – e resolver o que posso fazer para endireitar a situação o melhor possível. Às vezes, uma situação “escapou do controle”, às vezes não há mais “conserto”, mas, mesmo assim, há coisas que posso fazer para amenizar a situação, dentro do possível.

Na Sanga original de Buda, e em muitas tradições budistas ainda hoje, os monges seguiam numerosas regras monásticas (Vinaya Pitaka) e realizavam a Cerimônia de Uposata (arrependimento) de quinze em quinze dias. Muitas tradições budistas mantêm esta tradição até hoje. Como funciona isto?

Na medida em que os preceitos (aproximadamente 247 para monges e 315 para monjas) eram lidos durante a cerimônia, as pessoas se levantavam e publicamente confessavam ter quebrado este ou aquele preceito.

Na tradição Soto Zen Japonês, realiza-se uma cerimônia de arrependimento chamada “Fusatsu”, ou, na versão curta e simplificada, “Ryaku Fusatsu”. Nesta cerimônia, não há a confissão pública dos erros – talvez mais por questões culturais do que budistas. Penso que talvez, na transmissão para o ocidente, devemos, como fez o Zen Center de Los Angeles (que segue a tradição Soto), ajustar a maneria de praticar o nosso arrependimento. Lá, hoje em dia, durante a Cerimônia de Arrependimento, os participantes vão, um por um, até a frente da sala e confessam um erro específico e afirmam a mudança que pretendem fazer. Não é uma prática fácil, mas certamente é uma prática valiosa.

Você tem o caráter necessário para poder confessar os seus erros perante a sua Sanga? Ou, pelo menos, perante à pessoa que ofendeu, machucou, magoou? No fim das contas, quanto mais você tentar esconder o seu erro, varre-lo para baixo do tapete, justificá-lo como “certo” – tanto mais você vai se afundar no Samsara, na dualidade, até na rejeição de sua própria Natureza Buda.

Errar não é o problema. Recusar-se de admitir o erro é o problema. Somos seres humanos, com toda a glória de um ser “imperfeito”. A beleza do ser humano está em sua dignidade de assumir sua “imperfeição”, e,  ao cair sete vezes, levantar-se oito (nana-korobi, ya-oki).

Que possamos nos aprofundar em nossa prática, abrir os nossos Corações de Compaixão e Mentes de Sabedoria, manifestando cada dia mais a nossa Iluminação inata.

Que os méritos de nossa prática se estendem a todos os seres e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado.

Gassho

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3 Comentários »

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  1. Muito interessante seu blog.

  2. Muito obrigado pela sua compreensão e análise dessa questão que é, O ARREPENDIMENTO SINCERO, fundamental para o desenvolvimento espiritual na presença dos ensinamentos recebidos por Buda.

    Muita paz,
    Nam-Myoho-Renge-Kyo

    • Nam Myoho Renge Kyo muito obrigado Nam Myoho Renge Kyo duriguello


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