Harmonia a Qualquer Custo

junho 5, 2007 às 8:50 pm | Publicado em Compaixão Zen Budista, Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Há culturas que valorizam a “harmonia” acima de tudo. Outras culturas valorizam a “justiça” ou as “diferenças”. O que será que isto significa?

Numa cultura que valoriza a “harmonia a qualquer custo”, o conflito é visto como “a pura e simples encarnação do mal e da desordem”, como escreve um amigo meu.

Ele continua: “O problema é que a realização da harmonia passa necessariamente pelo conflito e nesses momentos o fator mais importante é conhecer a natureza do conflito e saber confrontá-lo de forma correta e construtiva. Uma das expressões dessa mentalidade de ‘harmonia a qualquer custo’ é não verificar os fatos referentes aos atos de uma determinada pessoa e ser levado a acreditar em relatos difamatórios referentes a um ocasional ‘criador de casos’ (trouble-maker). Essa postura evidencia uma postura leviana que pouco ou nada se interessa pela justiça e que procura defender a suposta ‘harmonia pre-estabelecida’ contra o ‘mal’ representado pelo ‘trouble-maker’. […] A injustiça e o descaso derivadas dessa mentalidade da ‘harmonia pre-estabelecida’ ferem profundamente a dignidade de cada um de nós e provocam indignação – no entanto, o mais importante é tomar consciência do peso da responsabilidade e direcionar o conflito para o estabelecimento da Sangha.”

Este amigo ainda cita um pensador japonês, Prof. Hakamaia Noriaki, da Universidade de Komazawa, que escreve: “o caráter anti-budista da harmonia e o caráter anti-belicista do Budismo” (“wa no hanbukkyosei to bukkyo no hansensei”), em que ele demonstra de forma cabal que a “ideologia da harmonia é precisamente a justificação da guerra e do abuso aos mais fracos”.

O Japão é um país onde se valoriza a “harmonia” acima de tudo. Todos os outros valores sociais e morais são secundários a esse valor. Portanto, é um país de “harmonia a qualquer custo”. Conseqüentemente, a história japonesa está cheia de relatos de casos onde a única saída que sobrava para uma pessoa “manter sua dignidade” e “provar a sua razão” era o “harakiri”, o suicídio ritual de cortar a barriga, pois, em nome da “harmonia”, não havia outra forma de ter uma relativa “justiça”. Eu demorei para compreender a função do “harakiri” e, quando finalmente passei a entender – mesmo um pouquinho – fiquei muito comovida. Não estou criticando aquela cultura, de jeito nenhum, pois me apaixonei pelo Japão e sua cultura – mas também reconheço que é uma cultura quase totalmente “estranha” para mim.

Os Estados Unidos, o meu país de nascimento, são um país onde talvez a “justiça” seja, junto com a “liberdade”, o valor principal. A defesa dos direitos (humanos, dos grupos étnicos, de gênero, etc. etc.) serve de exemplo desta valorização da “justiça”. Valores como “harmonia” passam a ter um valor secundário. Em certos momentos até parece que os americanos seguem um estilo aparentemente “agressivo” de se relacionar, com toda uma estrutura social “confrontativa”, de constantes debates, de sempre ouvir “um outro lado” – tudo em nome da “justiça”. O lado negativo disto vem a ser uma tendência dos Estados Unidos de querer se impor, achando-se do lado da “justiça”, defensor da “justiça”.

O Brasileiro tem uma tendência a colocar um valor extremo na “harmonia” e de ter muito medo dos conflitos, deixando que muitas questões terminem “em pizza”. Ao mesmo tempo, valoriza a “justiça” – e aí, penso eu, começa a ficar um tanto confuso.

O que isto significa para nós, na hora de criar a nossa Sanga Brasileira? Qual o valor supremo: “harmonia” ou “justiça” – ou será que podemos transcender esta dualidade e descobrir como o próprio Buda cuidava do assunto?

Talvez possamos ter a “Iluminação” como o nosso valor supremo. Talvez possamos imaginar um paralelo pensando na “harmonia” como uma expressão mundana do desejo da manifestação da Compaixão e na “justiça” como uma expressão mundana do desejo da manifestação da Sabedoria. E a Iluminação seria, neste caso, o equilíbrio entre a “harmonia” (Compaixão) e a “justiça” (Sabedoria).

E como podemos alcançar a “Iluminação”? A prática Budista verdadeira leva, naturalmente e inexorivelmente, à Iluminação – mesmo que isto possa levar “milhares de vidas”.

Portanto, qual é a sua prática? Zen de Auto-transformação ou Zen de Consumo e Conforto? Você pertence a uma Sanga Verdadeira ou a um Clube de Meditadores?

Mesmo que os ensinamentos Zen falem de praticar “sem objetivos” e “sem metas”, por favor, tome cuidado para não cair na armadilha das más interpretações. Você precisa ter uma “direção” na sua prática, senão a sua prática ficará “desnorteada” e sem rumo, confusa. Não irá a lugar algum.

Assim, acredito que temos que “nortear” a nossa prática em “direção” à Iluminação (equilíbrio da Sabedoria e Compaixão). Existe a prática verdadeira, correta, que leva à auto-transformação e libertação das ilusões, e existe a prática falsa, errônea, de auto-ilusão. Se você não está crescendo em Sabedoria e Compaixão, a sua prática não será uma prática correta. Não importa quanto “conforto”, “bliss”, “relaxamento” você experimenta no Zazen – não importa quais “estados místicos” você vivencie, não importa quanta “harmonia” você compartilhe com o seu grupinho, se você não estiver crescendo em Compaixão e Sabedoria, tornando-se mais hábil em lidar com as diferenças, libertando-se dos condicionamentos – é possível que você tenha caído numa armadilha de falsa prática. Sabemos que a pessoa está com a prática correta quando vemos que ela está andando em direção à Iluminação, crescendo em Sabedoria e Compaixão.

A presença de uma Sanga correta e um Professor de Darma (sensei) passam a ser imprescindíveis, pois a prática solitária ou com uma sanga “de cegos guiando cegos” não nos protege contra as armadilhas do Caminho.

Que possamos criar uma Sanga Brasileira forte e saudável, de praticantes caminhando em direção à Iluminação, cheios de Sabedoria e Compaixão! Que cada um de nós possa mergulhar na essência do Ser, descobrindo e manifestando sua Natureza Buda e que possamos juntos nos tornar o Caminho Iluminado.

Gassho

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