Dor, Sofrimento e Resistência à Prática

junho 5, 2007 às 8:47 pm | Publicado em Blogroll, Compaixão Zen Budista, Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Professor de Darma Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Trechos do quarto capítulo de Parte Dois (Ética, Responsabilidade, Prática) do livro “Zen-Budismo: O Caminho da Iluminação”por Roshi Philip Kapleau, Editora Arx, 2003 – pp.102-109

Às vezes, após praticar o Zen por um curto período, as pessoas sentem que não estão obtendo dele o que esperavam. Embora admitam que seus problemas pessoais tenham sido aliviados até certo ponto, ainda se sentem agitadas, impacientes, irritáveis. Muitas vezes, esse estado mental é acompanhado pela confissão de que “de algum modo sinto que não estou ajudando as pessoas permanecendo aqui no Centro. Acho um tanto egoísta minha permanência aqui*. …”

Com freqüência, o que atrai as pesssoas ao Centro é uma sensação de constrição, de frustração, de falta de controle e da necessidade de algum tipo de disciplina estruturada. […]

Aí elas vêm para o Centro, praticam o Zen por um breve tempo e sentem uma clara melhoria. Ficam mais estáveis, menos perturbadas, não dissipando mais as energias como antes. No entanto, atingem um ponto em que começam a sentir que não estão ajudando a aliviar o sofrimento. Sem dúvida, qualquer impulso em direção à compaixão é positivo. Porém, em quase todos os casos, esse tipo de declaração, quando proferida em um estágio prematuro da prática, não passa de racionalização, de uma espécie de justificação ou desculpa para tentar retornar aos velhos padrões de pensamento, sentimento e ação, àqueles padrões geradores de dor que dispersam nossas energias e acabam levando a um tipo de vida sem objetivo, fútil e dolorosa.

É fundamental que não podemos ajudar alguém antes de ajudarmos a nós mesmos. Enquanto não tivermos o suficiente, nada teremos para distribuir. Isso é tão fundamentao que é difícil entender como uma pessoa pode dizer que quer sair e ajudar as pessoas, quando obviamente ainda tem pouco controle sobre si mesma, pouca estabilidade, alegria e liberdade em sua própria vida. Além disso, não é fácil ajudar outras pessoas sem, ao mesmo tempo, prejudicá-las. […]

Se analisamos melhor a condição de pessoas que expressam essa insatisfação após um período relativamente curto de prática de Zen, vemos que o padrao é comum e que quase todos passam por ele. A pessoa exposta ou sujeita à disciplina de um centro de treinamento espiritual – na verdade, uma disciplina mínima – pode, após algum tempo, começar a ressenti-la. Ela estava habituada à dispersao das energias e à perturbação mental. Antes estava muito mais sujeita aos caprichos, como um cata-vento soprado em diferentes direções por todo tipo de vento emocional. Estranhamente, é comum que, assim que nos vejamos em uma posição de relativa liberdade dessas perturbações, comecemos a nos ressentir dela. Velhos hábitos querem se reafirmar. Começamos a sentir o antigo impulso das velhas obsessões. Não apenas começamos a ressentir o lugar, mas ressentimos também as pessoas, que vemos como responsáveis por estarmos ali, naquela situação. Isso poderia acontecer em um sesshin (retiro de meditação intensiva), com alguém que vive normalmente “solto no mundo”, ou então com alguém que esteja vivendo no Centro, participando de um programa de treinamento ou fazendo parte do pessoal residente. Esse é um ponto vital atingido na prática Zen, uma encruzilhada. Se a pessoa se entregar a esse sentimento e realmente escapar, terá de recomeçar do zero em alguma outra época e em algum outro lugar. O problema básico não terá sido resolvido.

Por outro lado, se, apesar do desejo de fugir, continuarmos nos esforçando com a disciplina e com nossa prática, subitamente descobriremos que existe uma reversão. A velha ânsia por isso ou aquilo, o desejo de fugir, de fazer determinada coisa, subitamente se aquieta. Uma verdadeira estabilidade e uma grande dose de energia vêm à tona. No sentido mais profundo, reina uma paz, uma grande tranqüilidade e uma clareza, cada vez mais profundas. De novo, tudo é uma questão de tempo, de nosso próprio carma, da força desses impulsos cegos em nós. Mas os praticantes estão sjueitos a um ou outro grau desse fenômeno: não só quem pratica no Centro, mas também quem vai para a floresta, ao deserto ou mesmo a uma cabana ou casa para praticar o zazen. Como, nessas situações, faltam a disciplina de um programa regular e o apoio dos colegas no Caminho, poucas pessoas conseguem ir em frente. Geralmente, apenas aquelas já experientes na prática conseguem obter resultados desse tipo de ambientes ou regime. A razão de termos um centro, de haver centros com uma estrutura, uma disciplina, é exatamente essa.

Existem, é claro, centros e ashrams que funcionam dentro de um princípio totalmente diferente. Trata-se, na verdade, de comunidades de pessoas que querem seguir certo estlo de vida. Mas estamos falando, aqui, de disciplina religiosa, não de pessoas que se reúnem para “curtir suas coisas” em uma atmosfera que consideram agradável. Falarei sobre isso adiante. Assim, é importante distinguir entre um centro como o nosso, onde existem disciplina religiosa e um mestre, e vários outros tipos de centro, onde a disciplina, se é que existe, costuma ser muito menos estruturada. Poda haver uma rápida rotatividade nesses lugares, ou, em caso negativo, as pessoas podem facilmente se acomodar a um tipo confortável de rotina, seus problemas básicos – os espirituais ou religiosos, as ansiedades básicas de querer saber quem e o que somos e qual o sentido da vida – sendo encobertos por um estilo de vida confortável. E ele não deixa de ser confortável porque você está comendo alimentos naturais e fazendo artesanato. Isso pode se tornar outro tipo de “boa vida”, como de fato se tornou, atualmente, para muitas pessoas nesse país**. Diferente, é claro, da versão country-club da boa vida, mas em muitos aspectos igualmente estilizada, igualmente – dada a sua personalidade e interesses – confortável. Claro que podemos falar muita coisa positiva sobre ela, mas ao mesmo tempo temos de reconhecer que ela é diferente de lugares em que existe a genuína disciplina religiosa com ênfase na Compreensão. […]

O sofrimento do mundo sempre começa no nível individual. Foi por isso que o Buda disse: “Em verdade, digo-lhes que, dentro desse corpo com altura de uma braça, reside o mundo, seu crescimento e seu desaparecimento”. A longo prazo, se você quiser exercer um efeito sobre a angústia do mundo, aprenda a atuar incessantemente sobre si mesmo, enquanto continua se esforçando, diariamente, para fazer o melhor pelos outros.

* Na época em que esta palestra foi proferida, a prática do Zen nos Estados Unidos ainda estava muito centrada na vida como residente em um Centro Zen.

** O país são os Estados Unidos, e o texto foi escrito na época da “contracultura” jovem e das comunidades hippies.

Anúncios

Deixe um comentário »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: