Quando o Aluno…

junho 3, 2007 às 3:59 pm | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Professor de Darma Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Existe um ditado que diz: “Quando o aluno está pronto, o professor aparece”. Acredito que há muita verdade aí. E, em algum momento da minha vida, acabei completando este ditado com: “E quando o aluno aprendeu a lição, o professor muda (ou muda de aula ou muda-se e vai embora)”.

Em outras palavras, quando eu termino de aprender a lição de que alguém está na minha vida para me ensinar, das duas uma: ou esta pessoa vai mudar de atitude e comportamento comigo (e, assim, passar a me ensinar uma outra matéria na escola da vida) ou a situação vai mudar de alguma forma e o professor vai acabar mudando-se e saindo da minha vida (e deixando espaço para um outro “professor” entrar na sala de aula da minha vida). Outras pessoas podem expressar o mesmo conceito com “quando a gente muda, tudo em volta muda”. Essencialmente, estão dizendo a mesma coisa.

Pois é, em qualquer situação quem tem de aprender – quem tem de mudar – sou eu mesma – não importa o que estiver acontecendo, não importa qual o tamanho da injustiça que possa parecer ter acontecido, tamanho da violência – nada disto importa, por mais incrível que pareça! É tudo Vazio! É tudo energia se manifestando! No fundo, não há certo ou errado, justo ou injusto – só existe a Vida se manifestando, o Darma se expressando. Quem está tendo uma oportunidade de estudar o Darma, de se aprofundar na prática sou eu!

Somos tão acostumandos a estar sempre pensando em termos dualistas, que esta maneira de olhar as coisas pode até parecer chocante, uma loucura, mas como foi bom para mim quando eu passei a me questionar sobre qual era a lição que tinha de aprender com uma determinada pessoa, e focar a investigação sobre mim mesma – como foi libertador! Mas há um certo segredo aí – um macete que faz toda a diferença! Este focar sobre o que é que eu tenho que aprender não pode ser com qualquer sentimento de culpa ou inferioridade! Toda esta auto-investigação só vai dar resultados se for feita com compaixão e auto-aceitação. Auto-flagelações não resolvem nada. Culpa não ensina nada!

Compaixão e auto-aceitação não significam complacência, mas significam o reconhecimento do fato de que, não importa qual o erro que eu possa ter comentido, foi o melhor que pude fazer naquele momento, dentro de todas as minhas causas e condições – e que, o importante é aprender, diminuir a minha ignorância, raiva e ganância, diminuir as minhas ilusões para que, num próximo momento, eu possa ter uma resposta melhor. Compaixão e aceitação do outro também não significa complacência, mas o reconhecimento que o outro está fazendo o melhor possível naquele momento, dentro de suas causas e condições – limitadas pelas ilusões – ignorância, raiva e ganância. Existem dois tipos de ignorância: o não-saber por falta de informação e a ignorância do falso conhecimento – a gente acha que sabe, mas é um saber falso. Durante quantos séculos acreditávamos sinceramente que a terra era plana e não redonda? Isto era um falso conhecimento. Os nossos condicionamentos e traumas são outros exemplos do falso conhecimento. E a ignorância é a raiz de todos os nossos venenos – raivas e ganâncias. Raivas contra os outros, raivas contra nós mesmos. Ganâncias de sempre querer mais – mais dinheiro, mais reconhecimento, mais conhecimento, mais melhorias, mais “perfeição”…

Então, eu me pergunto: o que vou fazer se eu me vejo numa situação “ruim”, “desagradável”? O que vou fazer se eu me descubro supostamente sendo “vítima”? Vou chorar, me lamentar, reclamar das injustiças da vida? Vou mergulhar nos ressentimentos, feito aluna rebelde, e ficar com raiva do meu professor, julgá-lo, falar mal dele para outros – até mandá-lo embora*, só para eu não precisar mudar a mim mesma? Será que vou tentar “matar a minha aula”, fugir da escola? Ou será que vou me sentar na minha carteira de estudante da escola da vida e me aplicar no estudo da lição de Darma que a vida está tentando me passar? Será que posso sentar-me em Zazen, estudar os ensinamentos Budistas (especialmente a Psicologia Budista) – até junto com um Professor de Darma, estudar a mim mesmo, aprofundar-me na minha prática dos Preceitos e na convivência com a Sanga? Será que posso abrir o coração, a mente, os ouvidos, os olhos?

Será que posso abrir o Olho de Sabedoria e Coração de Compaixão para discernir qual é realmente a lição que o meu professor está tentando me ensinar? Se estou lidando com um padrão “repetitivo”, um “koan” da minha vida, será que posso reconhecer partes do padrão que já mudaram (que já foram resolvidas) e perceber – e aprender com – os aspectos que aparentemente se repetem sem muita mudança. São estes aspectos que estão sendo reciclados, para que eu possa avançar mais um passo na resolução do meu “Genjokoan” (Koan da Vida Diária) pessoal (pronunciada Guen-djo-co-an)?

Será que posso manter o coração de gratidão, mesmo nos momentos difíceis? E, acima de tudo, será que posso manter uma fé inquebrantável, uma confiança completa e irrestrita no Buda, Darma e Sanga? Que possamos todos mergulhar cada vez mais em nossa prática, aprofundando cada vez mais em nossa própria Natureza Buda – além das dualidades, além dos conceitos, tornando-nos cada vez mais a manifestação da Paz e Tranqüilidade, da Compaixão e Sabedoria.

* Nota: Sabemos que, numa situação de violência doméstica, por exemplo, é absolutamente necessária a tomada de medidas para garantir a integridade física e emocional da “vítima”. Num caso destes, a primeira “mudança” pode ser de eu aprender a parar de ser “vítima” e talvez até afastar-me fisicamente do “agressor”. Mas estes tipos de situações, na realidade, não são o foco aqui neste momento e serão tratados em futuros textos.

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