Minha Mestra

maio 28, 2007 às 3:08 pm | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Professor de Darma Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 2 Comentários

Não demorou muito no começo de meu treinamento com a minha professora de ordenação para perceber que havia um ponto no qual eu sentia que ela não me compreendia de jeito nenhum, onde toda a orientação que ela dava, sobre este ponto, parecia que iria me colocar de volta em posturas neuróticas antigas minhas das quais eu havia levado anos de terapia para me libertar. Mesmo tentando conversar com ela sobre estes pontos, a minha experiência foi como se fosse de bater contra uma parede de concreto. Dentro das minhas limitadas habilidades, não havia como chegar a um entendimento com ela sobre este ponto.

Eu me vi obrigada a me manter firme, seguindo tudo como havia trabalhado nas minhas terapias anteriores, mesmo sentindo que não contava com a compreensão dela neste ponto.

Isto virou um koan para mim. O primeiro ponto do koan foi: continuo com esta professora apesar deste ponto de desencontro ou não?

Bem, sabia que tudo de positivo que estava aprendendo com ela era de um valor que nenhum dinheiro do mundo pudesse retribuir. Todos os outros ensinamentos que estava recebendo dela, com exceção a este ponto, estavam me levando muito além de qualquer coisa que alguma terapia do mundo pudesse me levar, pois estava me levando à Paz e Tranqüilidade, a Realizações de “pequenas iluminações” de aceitação do mundo como ele é no momento presente e de mim mesma como sou no momento presente.

Primeira resposta do koan: sim, com certeza, continuo com esta professora maravilhosa que está me ensinando tanto. Aceito este ponto de aparente não-compreensão como o Darma em ação, como um koan para estudar.

O segundo ponto do koan foi: posso esperar que ela mude? Todos nós desejamos mudar aquilo que não gostamos no outro, não é? Queremos sempre que o outro seja do jeito que nós acreditamos que deve ser – queremos impor os nossos valores, como pequenos deuses. Nós nos achamos sábios, qualificados para avaliar o que deve ser mudado no outro. E nós, não precisamos mudar a nós mesmos? Mas a verdade é que se mexer com um pontinho de um sistema qualquer, obrigatoriamente está modificando o sistema inteiro – freqüentemente com resultados totalmente imprevisíveis. Isto significa que, se mudasse uma única caraterística da minha professora, ela passaria a ser uma pessoa totalmente diferente – e talvez, assim, nem teria mais as qualidades excelentes que possui como ela é agora (com esta qualidade que eu, no meu egoísmo, gostaria de mudar). Era eu que tinha que mudar, não ela. Quem era principiante era eu, não ela – uma Professora de Darma plenamente qualificada.

Hmmm, ou eu a aceito como ela é, por inteiro, ou não a aceito.

Segunda resposta do koan: sim, com certeza, aceito-a como ela é, por inteiro. Aceito este ponto de aparente não-compreensão como o Darma em ação, como um koan para estudar.

E, foi aí, acredito eu, que eu me abri realmente para aprender com ela – e aprendi muito, mas muito mesmo. O Mestre Dogen afirma, em “Pontos a Observar no Estudo do Caminho” (Gakudo Yojin-shu) que, se não puder achar um professor verdadeiro, nem deve estudar o Budismo. É verdade, pois a nossa capacidade de nos auto-iludir é infindável. Mas eu tive a honra de achar uma professora verdadeira e tentei aprender tudo que pude.

Não posso dizer que foi um aprendizado fácil, nem que tenha sido sempre agradável. Não sou uma aluna fácil, não possuo um temperamento fácil e nem sempre é fácil mudar os nossos comportamentos. E, pior ainda, a função de um mestre espiritual verdadeiro é de enfiar o dedo nos dó-dóis da gente, para que possamos percebê-los e nos libertar dos condicionamentos por trás. Outra função de um mestre espiritual verdadeiro é de nos frustrar – nos ajudando a nos libertar das opinões e expectativas que nos afastam da realidade da vida como ela é. Alguém disse que isto seria fácil, indolor?

Quantas vezes eu saía do templo bufando de raiva, ofendidíssima, ou chorando, magoada até o fundo do coração, ou desanimada, querendo desistir – tudo ego, tudo condicionamento. Quanta libertação pude alcançar nas mãos dela! Como sou grata por esta benção que pouco mereci.

Agora é a minha vez de tentar fazer o papel de Professora de Darma para outras pessoas. Será que vou ser capaz? Será que os meus alunos vão entender as minhas tentativas de transmitir tudo que descobri nesta caminhada? Será que vão poder entender que tenho que usar todos os meios que conheço para tentar ajudá-los a despertar para a realidade como ela é? Será que vou conseguir que compreendem que o remédio que serve para um é diferente do medicamento do próximo – e que tenho que cuidar de meus alunos numa base de caso-por-caso, da melhor forma que eu puder, sem qualquer favoritismo ou preferência – não importa a aparência? Será que vão agüentar o tranco do confronto consigo mesmos – e será que vou poder ajudá-los a agüentar olhar para si mesmos até chegar naquele ponto em que descubram que são, e sempre foram, Natureza Buda?

E aquelas pessoas que vão rejeitar os meus ensinamentos ou o meu estilo de ensinar, que até que vão se virar contra mim? Será que vou conseguir sempre reconhecer que somos todos Um, interconectados nesta maravilhosa Rede de Brama, sem separação? Será que vou conseguir manter o coração de Compaixão, sempre reconhecendo que tudo é vazio, que não há nem agressão nem agressor – que só existe Natureza Buda? Será que vou conseguir manter o coração de gratidão, agradecendo mesmo as duras lições que estes professores representam? Será que vou conseguir aprender aquilo que o Darma estaria tentando me ensinar através deles? Será que vou conseguir saber dar tempo ao tempo, aceitar o momento de cada um, respeitar a escolha de cada um – não importa o que falem, o que façam? Será que vou conseguir sempre me lembrar que isto também passa, que é simplesmente o Darma em movimento, energia se manifestando? Será que vou conseguir não esquecer que está tudo perfeito – nada faltando, nada em excesso? Somos todos Natureza Buda, a vida se manifestando com todo o seu esplendor.

Que milagre! Que maravilha! Que bom poder fazer parte disto tudo! Que possamos cada dia aprofundar mais e mais a nossa prática, mergulhando na essência do Ser, nos abrigando no Buda, Darma e Sanga.

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2 Comentários »

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  1. Dúvidas de quem é exigente consigo mesmo.

    Para quem conhece Isshin Sensei, a resposta é um sonoro SIM, ela consegue, a questão não é saber, é relembrar, e as circustâncias sempre estão aí para nos lembrar.

    A memória de Isshin Sensei é boa, se não lembra em um segundo, lembra no segundo seguinte. Nenhum problema.

    Votos de imensa paz,

    no Dharma

    Cyro Masci

  2. Oi, Monja Isshin San, quanta saudades!!!
    Que belas palavras. Lê-las foram balsamo em meu coração que estava um pouco inseguro e angustiado. Estava procurando por esse “texto” e ele apareceu. Muito obrigada por compartilhar sua experiência que esbarrou na minha sensação de não entender o que a Mestra me ensina e ter cometido o erro de achar que ela também não me comprende. Que esquisito!! Se não tomar cuidado me sinto acuada e posso escolher o caminho errado que é desistir.
    Entreguei o meu Rakusu à Monja Coen e aguardo meu Jukai-e que será 30/06/2007. Tantas lembranças da senhora, vou me organizar para revê-la.
    Com carinho
    Gasho
    Helena


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