Mestre Ikkyu

maio 28, 2007 às 3:06 pm | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Séculos atrás, no Japão, houve um monge da escola Rinzai Zen Budismo chamado de Mestre Ikkyu. Uma figura bastante não-convencional, a vida dele é fonte de inúmeras histórias.

Filho de uma família nobre numa época de constantes guerras feudais, foi entregue ao mosteiro ainda menino quando sobreviveu ao assassinato da maior parte de sua família. Uma das históias mais interessantes, como lição do Darma, ocorreu quando ele ainda era bem menino, novo no mosteiro.

Depois de ouvir explicações básicas dos ensinamentos budistas, de repente, ele se recusava a recitar os sutras virado em direção ao altar. Em resposta às perguntas sobre o motivo desta atitude, falou que, “já que é da boca que sai os nossos piores venenos, não quero jogar venenos em direção ao altar…”

Até hoje, não se assopra para apagar as velas nos templos Zen no Japão. Usa-se somente apagadores ou até os dedos – mas não o sopro da boca.

É da boca que sai os nossos piores venenos – quanta verdade!

Na nossa tradição de Soto Zen Budismo, o Verso de Arrependimento diz: “De todo carma negativo alguma vez cometido por mim, nascido de meu corpo, boca e mente, devido a minha ganância, raiva e ignorância – agora, de tudo, eu me arrependo”.

Estamos constantemente criando carmas – positivos e negativos – pelos nossos pensamentos, palavras e ações. De acordo com os ensinamentos budistas, somos responsáveis por tudo que pensamos, falamos e fazemos – sem qualquer exceção ou desculpa. E todos nós, sem exceção, estamos sujeitos a cometer pensamentos, palavras e ações “irresponsáveis” e menos dignos – até mesmo os grandes mestres espirituais correm este perigo, pois ainda são seres humanos.

Como é tentador sair por aí, contanto a nossa interpretação de “incidentes” – motivados pela nossa raiva e julgamentos – o nosso desejo de “corrigir o mundo” – de preferência na ausência da pessoa que supostamente causou os “incidentes”. Como é tentador contar “casos” de “hearsay” (“ouvi dizer”) numa festa de difamação contra alguém – que nem está presente para se defender. Como nós nos sentimos solidários em nossa posição de superioridade – julgando, criticando, ou até sentindo “pena” do sujeito de nossa fala. Quantas coisas são ditas em acessos de ira? Ditas até por professores e psiquiatras – pois são todos seres humanos, sujeitos aos venenos da ganância, raiva e ignorância.

Quantas mentiras contamos quando estamos com medo, quando achamos que temos que justificar um comportamento nosso ou uma ação menos nobre que cometemos. Quantas meia-verdades contamos, falando a metade de uma história – somente a metade que prejudique o sujeito da história – sem completar contando o restante onde a pessoa tentou voltar para trás procurando se corrigir. Nestas horas, não podemos deixar aparecer qualquer aspecto da história que possa mostrar uma imagem um pouco mais digna… Quantas meia-verdades contamos, falando de incidentes, sem falar do contexto no qual aconteceram os “fatos”.

Como adoramos jogar 100% da responsabilidade de uma situação sobre os ombros da outra pessoa, nos colocando como vítimas inocentes e sofredores – ou até como salvadores da pátria por alertarmos os outros sobre o perigo que correm em se associar com aquela pessoa.

Que delícia florear uma certa verdade para nos refletirmos bem, dando somente uma pequena esticada nos fatos!

E assim, vamos nos afundando cada vez mais no Samsara, com todas as conseqüências cármicas de nossas ações, palavras e pensamentos.

Como podemos sair deste Samsara? Como podemos nos libertar?

Uma das primeiras coisas que a gente aprende no mosteiro é de não se envolver nos conflitos das outras pessoas, não ficar ouvindo nem um lado, nem o outro. Quando a gente se descobre numa situação de dificuldade com alguém, somos orientados a “sentar em zazen com o nosso desconforto”. Espera-se que possamos descobrir que “tudo é vazio” – inclusive as nossas raivas, mágoas, julgamentos e os conflitos em si.

Podemos estudar e praticar os Preceitos Budistas – na tradição Soto Zen, seguimos os Dezesseis Preceitos do Bodisatva que encontramos no Sutra da Rede de Brama, em vários textos de Mestre Dogen e em vários livros (em inglês) de mestres modernos. São Três Refúgios, Três Preceitos Puros ou de Ouro e Dez Preceitos Maiores. Destes últimos, quatro tratam da fala, de tanta importância que é dada a nossas palavras.

Podemos estudar e praticar as Seis Paramitas – um dos quais é a “fala correta”.

Podemos estudar e praticar a Compaixão, a identificação com o outro, conforme os ensinamentos do Mestre Dogen (“Os Quatro Métodos de Orientação do Bodisatva” – “Bodaisatta Shisho-ho”

Podemos praticar a convivência em Sanga, com os nossos Amigos Espirituais, irmãos e irmãs do Darma – juntos vigilantes para manter a fala correta. Um pode ajudar o outro para evitar a quebra dos preceitos – ora evitando se permitir cair na tentação do mal uso das palavras, ora recusando-se a ouvir (e ser cúmplice) do mal uso das palavras por parte de um outro praticante.

Podemos aprofundar o nosso relacionamente com o Professor do Darma, com o coração-mente aberto, para que o Professor possa nos orientar, ser um espelho, apontar o Caminho, nos guiar.

Podemos aprofundar o nosso Zazen – sentando com os nossos desconfortos, raivas, reclamações e levando a prática de Plena Atenção para o nosso dia-a-dia, constantemente observando as nossas ações-palavras-pensamentos, as nossas motivações, sempre tendo em mente as consequências futuras.

Somos Natureza Buda e podemos manifestar a nossa verdadeira natureza cada dia mais. É esta a nossa prática.

Gassho

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