Qual o significado de Zuise?
novembro 28, 2011 às 4:40 pm | Publicado em Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Professor de Darma Zen Budista, Qual o Significado, Zen Budismo em Porto Alegre | 1 ComentárioNo caso de já ter completado o seu treinamento em mosteiro oficial, ao receber a Transmissão de Darma, o monge, agora na graduação de Rikishô, pode marcar as datas para se apresentar nos dois templos-sede da escola (Eiheiji e Sôjiji) para a realização de uma série de formalidades chamada Zuise (瑞世). Os caracteres chineses desta palavra atualmente significam “auspicioso” (zui) e “o mundo” (se), mas aparentemente esta palavra significava, antigamente, “receber promoção” ou “tomar um passo na carreira”.
Estas formalidades representam a oportunidade do monge recém-formado prestar homenagem e gratidão aos fundadores da nossa escola, Mestre Dogen (fundador do templo-mosteiro Eiheiji) e Mestre Keizan (fundador do templo-mosteiro Sôjiji).
Passa a possuir, agora, a graduação monástica de Oshô (和尚). O ato de oficiar cerimônias de recitação de sutras no papel de “abade por uma noite”, como parte das formalidades de Zuise em cada um dos dois templos-sede, Eiheiji (fundado pelo Mestre Dogen) e Sôjiji (fundado pelo Mestre Keizan), também demonstra simbolicamente que o novo Oshô recebeu a autorização necessária para se tornar abade (Jûshoku 住職, Monge Titular) de um templo oficialmente reconhecido.
Recebe, ao mesmo tempo, autorização oficial como Professor de Darma (Sensei), com o seu nível de graduação como professor dependendo do seu tempo de prática em mosteiro de treinamento oficialmente reconhecido. Está habilitado a transmitir os preceitos para leigos (Zaike Tokudo ou Jukai) e ordenar novos monges (Shukke Tokudo), bem como realizar todas as outras funções de um sacerdote, como oficiar casamentos, batizados, benções em geral, enterros, e outras cerimônias religiosas.
Na chegada ao templo-sede, na data marcada, é recebido por um atendente e convidado a usar chinelos vermelhos especiais de abade. Depois de tomar chá, recebe ensinamento sobre os procedimentos específicos do templo, uma vez que há detalhes na forma de oficiar cerimônias que são diferentes de um templo para outro. Terminado este ensaio, que pode levar três horas, recebe um jantar finíssimo, toma banho de o-furô (banheira japonesa) e dorme.
Levanta cedo no dia seguinte, às 03:30 hs e faz o início do zazen no “gaitan” (lado de fora do zendô) próximo à entrada do abade. Mas logo é chamado para o início das formalidades de Zuise.
Vai primeiro prestar homenagem ao fundador e primeiros abades do templo. Para isto, entra, talvez pela única vez na vida, numa área reservada, fechada, que fica atrás do altar da Sala dos Fundadores. Oferece incenso e faz uma série de prostrações.
Em seguida, vai para a sala de recepção do abade do templo-sede (Zenji), onde se encontra com um grupo de seis ou oito monges formados que tomarão parte do “ryôban”(as duas fileiras de monges na área cerimonial principal) para as cerimônias a seguir. Depois de fazer prostrações, ouve a leitura do certificado de Zuise e o recebe das mãos do Abade do templo-sede ou seu representante. Assim que o Abade saia da sala, recebe o chá honorário – primeiro é servida água doce com umeboshi (ameixa em conserva). Em seguida é servido um doce – mas em lugar de comer o doce agora, coloca-se o certificado que acabou de receber em cima do doce e o devolve. Imagino (mas não sei ao certo) que talvez este doce, com o certificado, vai para o altar durante as recitações de sutras que fazem parte das formalidades de Zuise. Termina esta etapa das formalidades com chá verde.
Nesta hora, o atendente traz o “nyoi” (払子, no Sojiji) ou o “hossu” (払子, no Eiheiji), cetros cerimoniais de oficiante. Acompanhado pelo grupo de monges do “ryôban”, vai agora oficiar duas cerimônias de recitação de sutras. A primeira (Zuise Shukutô) é a recitação do Maka Hannya Haramitta Shingyô (Sutra do Coração da Grande Sabedoria) na Sala de Buda e a segunda (Zuise Jôgu) é a recitação do Daihishin Darani (Mantra da Grande Mente de Compaixão) na Sala dos Fundadores.
Não há palavras para descrever a emoção deste momento – oficiando a cerimônia num templo-sede da escola, ouvindo o som da recitação pelas vozes dos aproximadamente 200 monges-em-treinamento e professores do templo-sede. E a plena atenção, mesmo com lágrimas de emoção nos olhos, no esforço de lembrar os “timings” das prostrações e ofertas de incenso e para acertar os detalhes dos movimentos, tais como aproximar-se ao altar e, ao afastar-se do altar lembrar-se de virar em direção horário (no Eiheiji) ou em sentido anti-horário (Sojiji). E o cuidado com a maneira de segurar o “nyoi” (Sojiji) ou de segurar e movimentar o “hossu” (Eiheiji) (os “cetros” de oficiante).
Terminadas as duas cerimônias, o novo “Oshô” retorna à sala de recepção. Depois de devolver o “nyoi” ou “hossu” ao atendente, recebe os parabéns dos monges que tomaram parte como “ryôban” – e os responde agradecendo a colaboração de todos nas cerimônias. Todos se reverenciem mutuamente com prostrações.
Depois de um momento para a fotografia oficial (se esta foi encomendada), há um encontro com o “Kannin” (Administrador Chefe) do mosteiro (ou seu representante) para um chá e pequeno bate-papo.
Por fim, recebe um café de manhã “espectacular” – com uma quantidade de comida impossível de se comer… .
Termina as formalidades com uma pequena cerimonial de agradecimento e despedida do atendente (zuian) e assistente do atendente (zuiji) que o cuidaram durante todo este processo. Acabaram-se as formalidades – são oito horas da manhã, mais ou menos. Foi um dia muito cheio… .
Ler mais:
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu
- Formação de um monge Soto Zen
- Qual o significado de Denpô (Transmissão de Darma)?
- Qual o significado de Hôkei (Linhagem no Darma)
- Qual o Significado de Hossenshiki?
- Qual o Significado de Shuso?
- Qual o Significado de Shukke Tokudo?
- Ordenação Monástica
- Ordenação Unsui em Florianópolis
- Qual o Significado de Jukai?
- Os Preceitos do Bodisatva
Ler também: What does it take to become a full-fledged Soto-shu priest? (em inglês)
. Part 1: Monk´s ordination, risshin and dharma combat
. Part 2: Ten points to keep in mind about dharma transmissio
. Part 3: Ten-e and some words about Zui-se
. Part 4: Zui-se – abbot for the night
. Part 5: Sessa-takuma - ango as life in a rock grinder
. Part 6: Muhô the Zen Nazi
Qual o significado de Denpô (Transmissão de Darma)?
março 1, 2011 às 12:06 pm | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Qual o Significado, Zen Budismo em Porto Alegre | 2 ComentáriosA Transmissão de Darma (denpô, 伝法) representa a finalização do treinamento formal de um monge no Soto Zen (o treinamento “verdadeiro” continua durante toda a vida). O “zagen” (monge-aprendiz) passa para a graduação de “rikishô“, ou monge plenamente formado.
Nesta graduação, o monge possui a autoridade plena necessária para oficiar casamentos, batizados, benções em geral, enterros, e outras cerimônias religiosas.
Em princípio, a Transmissão de Darma significa o reconhecimento, por parte do professor, de “realização” e compreensão/aplicação do Darma, por parte do aluno. Representa uma declaração “pessoal” do professor da qualificação do aluno e sua entrada na Linhagem no Darma (hôkei, 法系) de sucessão do professor.
Há linhagens “fortes”, onde a exigência, por parte do professor, para dar a Transmissão de Darma para um aluno, é bastante alta, mas também existem casos onde a transmissão chega a ser dada basicamente para permitir que uma determinada pessoa assuma como monge titular (jûshoku) de algum templo. Mesmo assim, há requisitos rigorosos de treinamento da escola Soto que devem ser cumpridos para uma pessoa tornar-se um Jûshoku..
Como parte do processo de transmissão, o aluno reverencie os ancestrais de sua linhagem, escreve certos documentos e recebe vários ensinamentos – geralmente num retiro individual de sete dias (chamado “Shihô” 嗣法) – finalizando com duas cerimônias (não abertas ao público): a Transmissão dos Preceitos do Bodistava, (“Denkai” 伝戒) e a Transmissão do Darma (“Denpô” ou “Denbô” 伝法), propriamente dito, no qual o aluno torna-se herdeiro do darma do seu professor e sucessor dele.
No Soto Zen, há três etapas importantes no treinamento de um monge. O aluno pode ter, oficialmente, um professor diferente para cada etapa ou pode realizar todas as três etapas com o mesmo professor. O primeiro professor é o Professor de Ordenação (“jugôshi” ou “shishô“). O segundo é o Professor do Levantamento da Bandeira do Darma, que oficia a Cerminônia de Combate de Darma do aluno (“hôdôshi“), e o terceiro é o Professor de Transmissão de Darma, que é considerado o “Professor Verdadeiro” (“honshi“).
Nas cerimônias de shihô, o aluno presta homenagem ao professor, com numerosas reverências. Mas há um momento no qual o professor presta homenagem ao aluno, numa certa “inversão” dos papéis.
Por isso, é indispensável que haja afinidade, respeito e confiança mútua entre o professor de transmissão e o aluno. Caso contrário, não poderá haver uma transmissão verdadeira, uma vez que, com a Transmissão do Darma, passa a circular – simbolicamente – a mesma sangue nas veias do professor e aluno (que também seria a mesma sangue do todos os mestres da linhagem). Quando há uma transmissão verdadeira, os dois passam as ser, simbolicamente, iguais no despertar – e “Uno” com todos os mestres da linhagem.
A Transmisão de Darma é seguida ainda por outras formalidades: “Ten-e” e “Zuise“. Na troca do manto (“Ten-e“), o novo monge formado deixa de usar o manto preto de “unsui” (monge-em-treinamento) e passa a vestir o manto colorido – geralmente marrom – de monge plenamente formado. Se tiver completado a sua prática num mosteiro oficial de treinamento, poderá agora solicitar a autorização para a realização de cerimônias formais nos dois templos sede (Zuise 瑞世, nos templos Eiheiji e Sôjiji), que representarão o seu ingresso público como monge plenamente formado na Ordem Monástica do Soto Shu (Escola Soto Zen).
Também é definida, na hora do “Zuise“, a sua graduação como Professor de Darma (“Sensei” 先生), de acordo com o seu tempo de prática em mosteiro de treinamento oficialmente reconhecido.
Passa a possuir, agora, a qualificação mínima que o dá a possibilidade de seguir para a próxima graduação monástica (Oshô 和尚) ao assumir a plena responsabilidade por um templo, tornando-se Monge Titular ou Jûshoku (住職).
Traduzindo um texto da Internet:
“Shihô (嗣法) refere-se a uma série de cerimônias em Soto Zen Budismo em que um monge-aprendiz (zagen) recebe a plena ordenação como herdeiro do darma de seu mestre com poderes para transmitir os preceitos e a linhagem para os outros. Uma cerimônia de shihô pode durar de uma a duas semanas, com a cerimônia final composta de duas cerimônias específicas. O primeiro é a transmissão dos preceitos do mestre para o aluno, conhecido como denkai (伝戒), onde o mestre confirma que o aluno tenha manifestado os preceitos no seu dia-a-dia. Nesta cerimónia, o aluno torna-se, “o sangue de Buda”. A segunda, denpô (伝法), é a cerimônia de Transmissão do Darma, onde o aluno herda o Darma e se torna habilitado a transmitir a linhagem. Na cerimônia denpô, o aluno torna-se um ancestral da tradição e recebe um manto e a tigela, entre outros objetos. Também durante a cerimônia de denpô o aluno recebe um certificado de “Shoshike” (que lhe confere a autoridade de realizar Jukai) e também os documentos conhecidos como as “Três Insignias de Transmissão” (Sanmotsu): “shisho” (certificado de herança), “odaiji” (um diagrama que simboliza o Assunto Grande) e “kechimyaku shoden” (linhagem de transmissão do Darma). Após a conclusão destas cerimônias o novo professor se torna independente.”
Texto original (em inglês)
Ler mais:
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu
- Formação de um monge Soto Zen
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- Qual o significado de Hôkei (Linhagem no Darma)
- Qual o Significado de Hossenshiki?
- Qual o Significado de Shuso?
- Qual o Significado de Shukke Tokudo?
- Ordenação Monástica
- Ordenação Unsui em Florianópolis
- Qual o Significado de Jukai?
- Os Preceitos
Ler também: What does it take to become a full-fledged Soto-shu priest? (em inglês)
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Qual o significado de Hôkei (Linhagem no Darma)?
fevereiro 22, 2011 às 9:26 am | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Qual o Significado | Deixe um comentárioO Jukai (transmissão dos preceitos) é realizada na cerimônia de Zaike Tokudo (para leigos), como parte da cerimônia de Shukke Tokudo (ordenação de um monge-noviço) e como parte do processo da Transmissão de Darma (finalização do treinamento formal do monge).
Nestas ocasiões, geralmente é dado um documento de “linhagem de sangue” (kechimyaku 血脈) que simboliza a entrada na “família de Buda”. Neste documento consta a “linhagem no darma” (hôkei, 法系).
A linhagen no darma torna-se especialmente importante no cerimonial de Transmissão de Darma, que finaliza o treinamento formal de um monge. Nesta hora, o monge é reconhecido como um “portador” de sua linhagem. Se já completou a sua prática num mosteiro oficial de treinamento, depois de passar por mais um cerimonial chamado “Zuise” (瑞世, visita formal aos dois templos-sede), torna-se reconhecido formalmente como possuindo plenos poderes de transmitir esta linhagem para outros, oficiando cerimônias de Zaike Tokudo e Shukke Tokudo.
No serviço matinal diário da escola Soto Zen, recitamos a nossa linhagem – a nossa “árvore geneológica” – que vem desde o Shakyamuni Buda. Geralmente, a linhagem é recitada até o nome do professor do monge titular do templo ou centro de prática. Nos mosteiros, onde se encontram alunos de muitos professores de linhagens diferentes, esta recitação geralmente termina com o nome do Mestre Keizan, uma vez que a grande maioria dos professores de darma no Japão possui a mesma linhagen até este ponto.
Nesta recitação, relembramos todo o processo da transmissão do Darma de mestre para discípulo – de geração à geração – trazendo os ensinamentos até nós. Relembramos que fazemos parte da grande família de Buda. Hoje em dia, as linhagens completas já constam de mais de 90 nomes, enquanto que a versão curta (cujo título é 57 Budas), que é recitada nos mosteiros, contém 61 nomes (seis Budas anteriores, Shakyamuni Buda e 50 Ancestrais de Índia e China, seguidos dos primeiros quatro Mestres no Japão).
Ao pensar na linhagem, temos que considerar o fato de que, na época de Buda, esta era uma tradição oral, com os sutras passando a ser escritos somente mais ou menos 300 anos depois do parinirvana do Buda. Mesmo depois disto, muitos documentos se perderam e muita informação ficou para trás naquelas nuvens do tempo.
Por isso, não existem documentos suficientes para uma reconstrução precisa dos nomes anteriores do nome do Sexto Ancestral, Daikan Enô Daioshô (Hui Neng). A partir dele, os nomes tornam-se cada vez mais “documentados” e confiáveis, no sentido acadêmico.
Então, se parte desta linhagem que recitamos é “mítico”, por que motivo fazemos esta recitação?
Não é a precisão histórica documentada que é o aspecto mais importante para a nossa prática.
Ao recitar a nossa linhagem, lembramos que somos parte de uma grande corrente de transmissão dos ensinamentos de Buda, uma corrente que flui já faz 2.600 anos. Lembramos que somos herdeiros de algo “insuperável” – o Caminho de Buda – como dizemos na recitação dos Versos do Bodisatva.
Invocamos a “energia” de nossa linhagem para apoiar a nossa prática. Mais importante de tudo, lembramos que somo todos UM.
Eles estão aqui conosco – não fora de nós, não lá quantos anos atrás no passado. Metaforicamente, é o sangue de todos eles que corre ems nossas veias.
Falando sobre o serviço vespertino da nossa tradição, a Sensei Eve Myonen Marko disse:
“Estamos, na realidade, convidando aquelas manifestações [deles que já estão em nós mesmos] a aparecer. Somos os Budas e Bodisatvas. Somos os Três Tesouros: Buda, Darma e Sanga. Somos as formas sem-forma através do tempo e do espaço.”
“Somos o Manjusri Bodisatva, cortando a delusão. Sendo Avalokitesvara, somos não somente aquele que escuta todos os sons do universo; somos os sons do universo. Escutamos aos sons do universo sendo todos aqueles sons. E sendo com o nosso mestre original, Shakyamuni Buda, Shakyamuni Buda está aqui mesmo – não simplesmente um cara que viveu 2500 anos atrás – e ele mesmo falou isso. Na Sutra da Flor de Lótus, ele fala que quando as pessoas realmente pratiquem e realmente desejam que isto se manifeste, ‘Eu e toda a minha assembleia aparecemom no Pico dos Abutres’. E isso não significa somente o Pico dos Abutres, significa nós mesmos, aqui em National City, no Sweetwater Zendo [local onde ela estava dando esta palestra]. Quando fazemos aquele serviço, Shakyamuni está presente. E sendo UNO com a linhagem desde Mahakashapa Sonja (Makakashô Daioshô), a linhagem não é simplesmente alguns caras com nomes esquisitos que recitamos de tempos em tempos, ou mulheres cujos nomes estranhos recitamos. É aqui mesmo dentro deste círculo, eles são nós, eles estão aqui mesmo, ouvindo e conversando – agora mesmo – e fazendo aquela cerimônia e sendo servidos quando fazemos aquele serviço.”
Que possamos, junto com todos os seres, vivenciar plenamente esta unidade com todos os mestres – e com todo o universo!
Ler um texto do Monge Genshô sobre Linhagem, publicado no blog O Pico da Montanha
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Qual o significado de Samu?
outubro 13, 2009 às 11:27 am | Publicado em Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Qual o Significado, Zen Budismo em Porto Alegre | 6 Comentários
Samu – Meditação em Ação, a Prática da Atividade Diária
Na nossa prática Zen Budista, temos vários atividades que focalizam diferentes aspectos de nosso treinamento: o Zazen (meditação sentada), o Kinhin (meditação andando), a Prática do Cerimonial (meditação no ritual) e o Samu, que é a Prática da Atividade Diária (meditação em ação). A prática do Samu, em particular, é traduzida pelos praticantes em quase todos os centros de prática como “trabalho” Mas é preciso observar que a palavra “trabalho” pode trazer muitas conotações negativas.
Na tradição judiaco-cristã, por exemplo, o trabalho foi o castigo dado ao homem por ter comido da maçã do conhecimento do bem e do mal (a dualidade). De certa forma, como “Deus descansou no sétimo dia”, parece que a grande meta da vida tornou-se poder “descansar”, desfrutar do ócio. Frequentemente, em casa, depois do “trabalho”, dizemos que estamos “cansados” quando alguém nos pede para ajudar com uma tarefa da casa, como ajudar a secar a louça. No entanto, quando alguém nos convida para jogar futebol ou ir dançar, de repente já não estamos mais “cansados”. O fato é que secar a louça gasta muito menos energia do que jogar futebol ou dançar, mas costumamos definir a terefa de secar a louça como “trabalho” e jogar futebol e dançar como “divertimento”.
Os Estados Unidos, que é um país predominantemente protestante, se beneficiou da interpretação do “trabalho como meio de salvação” – a “ética do trabalho”. Como resultado, o trabalho é valorizado e muitos adolescentes cortam a grama ou cuidam das crianças do vizinho (“babysitting”), entregam jornais e fazem numerosas pequenas tarefas para ganhar um trocadinho e complementar as suas mesadas.
Tentem imaginar isso no Brasil – é quase impossível! Afinal, o Brasil é um país predominantemente católico e não herdou esta “ética do trabalho”. Mais ainda, o Brasil foi um país escravista e, como conseqüencia, traz na mente inconsciente coletiva uma atitude que diz que trabalhar é para os “escravos”, não para as pessoas “dignas”. E pior, quem “manda” nos escravos é um “capataz”, um “maldoso”.
A cultura popular fala da “malandragem” e do “levar vantagem” como se fossem qualidades positivas. Finalmente, a retórica esquerdista argumenta que os trabalhadores estão sempre sendo “explorados” pelos empresários, e que estes roubam do povo. Este retórica coloca os trabalhadores sempre no papel de vítimas e “demoniza” sempre os empresários.
Conseqüentemente vejo numerosos conflitos internos em muitos brasileiros em relação ao trabalho. Vejo muito sofrimento desnecessário, devido a estas atitudes.
Com a “demonização” dos empresários e o fim da escravidão, até mesmo as pessoas bem-sucedidas na sociedade brasileira com freqüência se vêem enfrentando conflitos internos entre a sua vontade de “subir na vida” e estes conceitos negativos sobre o trabalho que estão na mente coletiva inconsciente. Pior ainda: às vezes, ao “subir na vida, ao se tornaram “bem-sucedidos”, se tornam alvos do preconceito dos outros, como se fossem ladrões e capatazes.

Saikawa Roshi varre o chão do Templo Busshinji
Com tudo isso, a prática Zen Budista na qual vejo maior resistência entre os praticantes é justamente o Samu, a Prática da Atividade Diária ou a Meditação em Ação. As Sangas relacionados com o nosso grupo atualmente funcionam em espaços de academias de artes marciais e uma parte da nossa prática é de montar a sala com os zabutons, zafus e altar para a nossa prática Zen e, depois, desmontar a sala, deixando-a em ordem para a prática das artes marciais.
É quase cômico observar como alguns dos praticantes chegam – como se estivessem cronometrando – justamente assim que a sala termina de ficar montada, pronta para o Zazen. Se uma pessoa interpreta o Samu como “trabalho”, é natural que não queira participar do Samu. Afinal, ninguém é louco!
Pelo outro lado, é muito gratificante notar como, depois de um tempo de ajudar a desmontar a sala meio “contra a vontade”, “de cortesia, para não deixar a monja sozinha”, etc, os membros da Sanga já demonstram prazer em praticar o Samu de desmontar a sala, e estão aprendendo a “fluir” nas atividades. Sem necessidade de alguém “supervisionando”, as tarefas acabem sendo realizadas, a sala é entregue para as práticas das artes marciais e os nossos objetos são guardados. Não demonstram pressa para “ir embora”. Saímos todos juntos, quando tudo ficou pronto. O Samu deixou de ser visto como “trabalho”.

Saikawa Roshi Cozinhando
Bem, se o Samu não é “trabalho”, então o quê é? Para quê serve?
Vejo um continuum na nossa prática que vai desde o Zazen até o Samu, nos preparando para levar a nossa prática para o mundo “lá fora”, onde não estamos mais cercados por praticantes, por pessoas unidas pela mesma busca espiritual – a nossa Sanga, mas onde estamos cercados por pessoas de todos os tipos e crenças.
No Zazen, a meditação sentada, vamos entrando em contato com o nosso “centro”, com o estado de Paz e Tranquilidade que está aí dentro, disponível para todos nós. Temos poucas distrações, poucos estímulos para nos distrair, facilitando o nosso mergulho interno, facilitando o nosso cultivo deste estado de Paz e Tranquilidade.
Então seguimos para o Kinhin, a meditação andando, onde treinamos a manutenção deste mesmo estado de Paz e Tranquilidade numa ação levemente mais complicada. Precisamos estar atentos ao equilíbrio do corpo ao andar, combinando os nossos passos não apenas com a nossa respiração mas também com o ritmo do grupo, mantendo a mesma distância entre a pessoa à nossa frente e a pessoa atrás de nós. Lidamos com mais estímulos – as sensações nos pés ao andar, o “cenário” que muda quando mudamos de lugar na sala… No Kinhin também já começamos a entrar em contato com as nossas preferências, na medida em que aparecem aqueles pensamentos como “ele está andando muito rápido” ou ficando irritados ao achar que a pessoa na nossa frente está andando muito devagar. Treinamos não nos deixar ser levados por estes pensamentos e sentimentos.
Depois disso vamos para a Prática do Cerimonial, onde recitamos sutras e participamos de atividades “pré-estruturadas”, com poucas variações. Esta prática é freqüentemente muito mal-compreendida, interpretada como mero “ritual” sem valor. Mas é uma prática riquíssima onde não apenas praticamos harmonizar a nossa voz com a voz do grupo (“recitar as sutras com os ouvidos”) mas também incorporamos os ensinamentos dos sutras através da recitação e treinamos manter o estado de Paz e Tranquilidade – e a plena atenção – ao realizar ações e movimentos cada vez mais complicados – na medida em que passamos a treinar as diferentes posições que fazem parte do cerimonial (sogei, mokugyo, doan, jisha, dennan, etc.). Enfrentamos o nosso medo de errar, os nossos sentimentos mistos (talvez até com rebeldia) ao lidar com a exigência de precisão nos movimentos e a exatidão nos toques com os instrumentos, etc. Entramos em confronto com a nossa falta de atenção ao errar algum detalhe sempre que nos distraímos e deixamos de manter a plena atenção. É aí que muitos praticantes ou partem para o “piloto automático” e ritual “morto” ou entram na resistência, fugindo da prática, sem imaginar o quanto estão perdendo.
Finalmente, chegamos ao Samu, a Prática da Atividade Diária, que pode ser entendida como a Meditação em Ação ou a “Medit-Ação”. Frequentemente realizada através das atividades “comuns” como servir o chá, varrer o chão, cozinhar, lavar janelas, também inclui toda e qualquer atividade diária como realizar tarefas no computador, costurar, arrumar uma sala, fazer a contabilidade e o controle financeiro do grupo, escrever cartas, instalar uma estante, etc., etc. e etc. Até mesmo estudar pode ser uma prática de Samu. Pode-se dizer que somente ficariam excluídas as atividades de entretenimento, como assistir filmes ou ouvir música.
Mas o que diferencia estas atividades como “Samu” das mesmas atividades no sentido comum, frequentemente rotuladas como “trabalho”? Ao realizar estas tarefas com o espírito da “prática de Samu”, estamos treinando manter, agora em atividades das mais variadas, aquele mesmo estado de Paz e Tranquilidade que descobrimos no Zazen e que praticamos manter no Kinhin e no Cerimonial. Quando fazemos o nosso Samu junto com outros membros da Sanga, temos o apoio de pessoas com quem temos afinidades, que seguem os mesmos valores e realizam a mesma prática. No entanto, na hora do Samu, entramos em contato com as nossas preferências, os nossos julgamentos. Somos cheios de “eu quero/não quero”, “gosto de fazer isto/não gosto de fazer aquilo”. Por exemplo: “não quero lavar janelas, quero cozinhar!” “Não quero cozinhar, mas aceito secar pratos!” E quantas opiniões descobrimos ter: “quero fazer do meu jeito”, “aquela pessoa faz errado”, “não gosto de trabalhar junto com fulano”, “aquilo é serviço de mulher!”. Descobrimos a nossa tendência de querer tagarelar ou o nosso hábito de fazer as coisas “no piloto automático” em lugar de silenciosamente manter a plena atenção na nossa atividade. Temos a oportunidade de treinar voltar para o nosso centro, mergulhar no estado de Paz e Tranquilidade, sair das dualidades de nossas preferências, julgamentos e opinões e fluir com a atividade, aprendendo a simplesmente fazer a atividade que está à nossa frente.
Que bela preparação para levar a nossa prática “ao mercado”, ao mundo “lá fora”, à nossa convivência com os outros na nossa família ou em nosso local de trabalho!
Que os méritos de nossa prática se estendem a todos os seres, para que, junto com todos os seres, realizemos o Caminho de Buda!
Qual o Significado de Hossenshiki?
novembro 27, 2008 às 7:08 am | Publicado em Blogroll, Compaixão Zen Budista, Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Qual o Significado, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentárioTags: cerimônias zen budistas, Monja Isshin
Um dos momentos mais marcantes do treinamento de um monge da tradição Soto Zen é a Cerimônia de Combate do Darma (Hossenshiki ). Em alguns lugares esta cerimônia é realizada no início de seu período de treinamento como Shuso (líder dos noviços) e, em outros lugares, é realizado no final do mesmo período.
É a grande cerimônia pública do “unsui” (monge-em-treinamento), pois a Cerimônia de Transmissão do Darma – que, futuramente, finalizará o seu treinamento formal – é uma cerimônia fechada, particular entre o aluno e seu professor de transmissão (Honshi). A Cerimônia de Combate do Darma é uma cerimônia enérgica e dramática, que pode exigir meses de preparação. Até hoje, fico emocionada quando me lembro da minha , em 2003, no mosteiro feminino em Nagoya, Japão. Foi muito forte.
Mas o que significa esta cerimônia? Em primeiro lugar, representa o final da fase do treinamento como “noviço” (jôza) e a transição para o período de treinamento como “monge-aprendiz” (zagen). Corresponde aproximadamente à formatura do seminário de um futuro presbítero (padre) católico. Não são todos os monges-noviços que recebem o convite de ser shuso – nem todos passam para a etapa seguinte. Nem todos se formam no seminário… Geralmente, porém, quem passa pela Cerimônia de Combate do Darma, recebe a Transmissão do Darma, cedo ou tarde…
Geralmente, representa um reconhecimento público do aluno ter aprendido os aspectos “técnicos” básicos – cerimonial e procedimentos de nossa tradição – e significa o aval do professor de que o aluno tenha alcançado um certo nível de compreensão do Darma, mesmo que essa talvez não seja uma compreensão “profunda” ainda… Alguns professores, porém, nomeiam o shuso por antiguidade. Assim sendo, pode haver variações de acordo com a linhagem.
Nesta cerimônia, o shuso, após a recitação do Sutra do Grande Coração da Compaixão, faz – em bom e alto som – a recitação de um caso do Shôyôroku. Em seguida, recebe do Professor de Treinamento (Hôdôshi), o “shippei”, que simboliza a “espada que tira e dá a vida”. Depois de uma fala de abertura, no qual o shuso “desafia” os presentes a questiona-lo, inicia-se um “mondo” (perguntas e respostas sobre o Darma), durante o qual os outros noviços testam a compreensão do Darma do shuso. Este questionamento pode ser feito de uma forma “formal” e memorizada, usando “casos” históricos – neste caso, o Combate do Darma acontecerá num nível sutil, “energético”. Outras vezes, este questionamento pode ser feito de uma forma “espontânea”, sem que o shuso saiba, de antemão, o teor das perguntas que terá que responder. Como havia duas americanas em treinamento no meu mosteiro na época do meu próprio Combate do Darma, pude ter uma experiência com o questionamento “formal” decorado, em japonês clássico, e o questionamento espontâneo, na minha língua materna, o inglês. Vejo grande valor nos dois sistemas. Aqui no Ocidente, vi cerimônias de “combate do darma” que mais pareciam simples “bate-papos agradáveis” e espero que possamos manter a tradição do “combate”. Acho importante que a “energia” de “combate do darma” seja mantida, pois acredito que pode ser valiosa no desenvolvimento do monge-em-treinamento.
Terminado os questionamentos, o shuso devolve o “shippei” e faz uma fala final que encerra o Combate propriamente dito. A Cerimônia é finalizada com as declamações de poemas de congratulações por parte dos presentes e – fotos…
Como parte deste cerimonial, no dia anterior à Cerimônia, há uma Palestra do Darma. O atendente do professor (“jisha”) leva um “sambo” (suporte cerimonial) com uma cópia do “Shôyôroku” (“Livro da Serenidade”) até o professor para que este inicie uma Palestra do Darma. Neste momento, o professor formalmente convida o aluno a dar a palestra no seu lugar e o “sambo” é levado até o Shuso, que fará a palestra. No meu caso, porém, não foi possível eu dar qualquer palestra, pois não falava Japonês suficientemente bem. Assim sendo, a Aoyama Roshi deu esta palestra “no meu lugar”. Guardo, com muito carinho, uma foto mostrando eu, depois de receber o “sambo”, o entregando a Aoyama Roshi. Ela, vendo as minhas anotações (a minha “cola”) em “romaji” (letra ocidental), sorriu – e eu sorri de volta – num momento de carinho e cumplicidade… Agradeço este (entre tantos outros) gesto de compaixão desta grande Roshi, a minha Professora de Treinamento (“Hôdôshi”).
Para este cerimonial (a Palestra de Darma e Hossenshiki), o Shuso veste uma faixa branca na parte superior de seu Kesa (manto de Buda) e na parte interior das mangas de seu “koromo”.
Terminado o seu período como noviço-líder (shuso), ainda é um monge-em-treinamento (“unsui” – nuvem-água) mas já é um “sempai”, um veterano, apto a começar o seu treinamento de liderança, inicialmente orientando os noviços e, futuramente, possivelmente, passando a liderar grupos de prática, sob a supervisão de seu professor.
O seu registro como monge-em-treinamento (“unsui”) na Escola Soto Zen (Soto Shu), que tinha um prazo de validade de 10 anos até então, passa a ser um registro definitivo (ainda como monge-em-treinamento) no final do período de treinamento monástico, e, geralmente, corresponde aproximadamente ao término da fase de shuso.
O “unsui” ainda está no meio do caminho de seu treinamento. É um “sempai”, um veterano, mas ainda usa o Kesa preto de monge-em-treinamento…
. Assistir parte de uma cerimônia de Combate do Darma no Japão (em japonês – mesmo assim dá para entender muita coisa do espírito e energia da cerimônia)
. Assistir ao vídeo da Cerimônia de Hossenshiki de Monge Genshô, realizada no dia 17 de outubro de 2008, em Florianópolis:
. Parte 1:
. Assistir ao parte 2
. Ver fotos da minha cerimônia de Hossenshiki, no Mosteiro Feminino em Nagóia, Japão, no ano 2003.
. Ler mais:
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu
- Formação de um monge Soto Zen
- Qual o significado de Zuise?
- Qual o significado de Denpô (Transmissão de Darma)?
- Qual o significado de Hôkei (Linhagem no Darma)
- Qual o Significado de Hossenshiki?
- Qual o Significado de Shuso?
- Qual o Significado de Shukke Tokudo?
- Ordenação Monástica
- Ordenação Unsui em Florianópolis
- Qual o Significado de Jukai?
- Os Preceitos
. Este texto em espanhol no site Mas que Palabras
Qual o Significado de Shuso?
novembro 5, 2008 às 10:54 am | Publicado em Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Qual o Significado, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentárioTags: cerimônias zen budistas
Após algum tempo de treinamento (em média, três anos de treinamento intensivo junto com o professor de ordenação ou num mosteiro), o monge-noviço (jôza) pode ser convidado a se tornar “shuso” (noviço-líder) durante um período de treinamento intensivo (angô), que dura, geralmente, três meses. Este período se inicia com uma cerimônia de “Entrada de Shuso”, quando o novo “shuso” expressa formalmente o seu sentimento de inaptidão para tomar este passo.

Primeira fase da Cerimônia de Entrada como Shuso - Monja Isshin - Mosteiro Feminino em Nagoya, Japão - 2003
Durante o angô, o shuso é encarregado de várias funções, que incluem tocar o sino de despertar todo dia de manhã (assim, é o primeiro dos noviços a se levantar de manhã – mas não é incomum alguns professores ou instrutores se levantarem mais cedo ainda …). O seu samu é de limpar os banheiros. Sim, a tarefa da limpeza dos banheiros é reservado para quem ocupa o cargo mais elevado entre os noviços…
Um noviço torna-se “shuso” por indicação do professor – depois que tenha aprendido o essencial dos procedimentos e cerimonial Soto Zen e quando o professor acredita que o aluno tenha atingido um determinado nível de compreensão do Darma – para poder “defender” o Darma num “combate”.
Alguns professores, porém, nomeiam o shuso por antiguidade. Portanto, pode haver variações de acordo com a linhagem.
Nos mosteiros, tradicionalmente são realizados dois angôs por ano. Isto significa que somente duas pessoas podem se tornar “shuso” por ano. Assim, é uma grande honra ter a oportunidade de treinar como “shuso” num mosteiro como Eihei-ji ou Sôji-ji, e ser líder de aproximadamente 200 noviços. É mais frequente que o noviço faça o seu treinamento como “shuso” no templo de seu professor de treinamento (que pode ser o seu professor de ordenação ou pode ser um outro professor com que é criado um relacionamento.)
O ponto alto do período como “shuso” é a Cerimônia de Combate de Darma, chamada Hossenshiki.
Ler mais:
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu
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Qual o Significado de Shukke Tokudo?
outubro 31, 2008 às 3:17 pm | Publicado em Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Qual o Significado, Vídeo, Zen Budismo em Porto Alegre | 1 ComentárioTags: cerimônias zen budistas
A Cerimônia da Ordenação Monástica Soto Zen, Shukke Tokudo (出家得度), representa o momento quando um praticante leigo torna-se monge-noviço ou monja-noviça (Jôza 上座) e entra na primeira fase de seu treinamento, se preparando para cumprir o papel social de sacerdote.
Mas qual o significado de Shukke Tokudo? Para que alguém torna-se monge?
Os ideogramas chineses (kanjis) para “tokudo” (得度) significam “obter a travessia”, ou “entrar no caminho para a outra margem” – a travessia para a outra margem, que é a Iluminação, e os kanjis para “shukke” (出家) significam “sair do lar”. Assim, “shukke tokudo” significa “obter a travessia, saindo do lar, deixando os laços familiares”, enquanto que o “zaike tokudo” significa “obter a travessia, ficando no lar”.
Representa uma mudança na prioridade da vida do indivíduo. E qual é esta nova prioridade?
Tenho ouvido muitas pessoas afirmarem que a prioridade do monge deve ser o “servir os outros” ou “servir o Darma”. Tenho visto muitas pessoas buscarem a ordenação “para se tornar alguém”, “para ganhar um título, uma posição social”, “para salvar pessoas”. Tudo isto pode ser muito bonito – e certamente não diria que estaria completamente errado. Mas, se ao iniciar o caminho, o novo monge-noviço pensa demais em “servir os outros”, ele corre o risco de perder o foco correto e desviar a sua prática, por estar assumindo responsabilidades demais e envolvendo-se com tentativas de “servir os outros” cedo demais, antes de realmente estar corretamente preparado para isto. Neste processo, desvia a atenção do seu interior e da busca da realização de sua Natureza Buda. Pode até acabar usando os ensinamentos budistas, mal-interpretados, para justificar e reforçar comportamentos neuróticos. Quantos bons candidatos acabam se perdendo nos jogos do ego condicionado nestas horas.
Quando pesquisamos os sutras clássicos e os ensinamentos de Mestre Dogen, a mensagem é muito clara: nós nos ordenamos monges para buscar a nossa própria iluminação, por um caminho mais fácil que o caminho do praticante leigo, com as suas preocupações com a família e o trabalho profissional. A iluminação é a prioridade do monge-noviço. Isto é verdade, mesmo na tradição Mahayana, com os Quatro Votos dos Bodisatva – servir e libertar os outros vem depois – depois que tenhamos atingidos algum nível de realização, depois da nossa própria libertação (mesmo que parcial), depois que tenhamos condições de servir os outros com Sabedoria e Compaixão – e a confirmação deste fato por parte dos nossos professores. Primeiro, temos que nos preparar adequadamente.
Portanto, ao receber a ordenação, o candidato torna-se um noviço – um monge-noviço, um estudante – um estudante do Darma, cultivando sua própria iluminação. Em japonês, é chamado de “unsui“, o que corresponde aproximadamente ao “sekha” (pali) dos sutras clássicos de Buda e tradição Teravada atual. Ao “deixar o lar”, a sua prioridade não é mais sua família, suas amizades, sua casa, seu trabalho profissional – a sua prioridade absoluta é o cultivo de sua própria mente, sua própria realização do Caminho. Isto é o significado de tornar-se monge-noviço (ou monja-noviça). Não significa, se for casado, que tenha que abandonar o casamento, mas significa, sim, que deve assumir a mudança de prioridade – por isso, na cerimônia de ordenação, são feitas reverências aos pais e familiares, se “despedindo”. Veste agora o manto preto do monge-em-treinamento (o “kesa” preto do “unsui”).
Nas condições ideais, ao receber a ordenação, o monge-noviço entra na fase do treinamento de “calar a boca e limpar o chão”, um período onde é permitido muito pouco contato com o público em geral (quanto menos “aparecer”, melhor) e todo o seu esforço é canalizado em sentar em zazen, praticar o samu (trabalho ou atividade diária) e observar, escutar, perceber – aprender com o corpo e o coração. É o tempo de aprender a fluir, como “unsui” – nuvem-água – que vai onde o vento o leva e se adapta a qualquer recipiente. Para nós ocidentais, se pudermos fazer parte de nosso treinamento num mosteiro oficialmente reconhecido como mosteiro de treinamento, este também pode ser um tempo incrível de aprender a ser simplesmente parte de um grupo – integrado com o grupo – sem qualquer aspecto de querer “ser especial” ou de “ser diferente” – algo quase inconcebível depois de todo o nosso condicionamento cultivando a nossa “individualidade”.
Este treinamento deve ser feito em íntimo convívio com o professor. Isto é a tradição, desde a época de Buda. Na tradição Teravada, o noviço deve morar junto com o seu professor durante um mínimo de cinco anos e, na tradição Soto Zen, não é muito diferente. Infelizmente, aqui no Ocidente, temos muitos noviços que raramente têm a oportunidades de passar mais que alguns poucos dias periodicamente na convivência direta com os seus professores. Isto é uma coisa triste, pois, muitos destes noviços, apesar de toda a sua boa vontade e esforço, acabam desenvolvendo uma espécie de “Budismo-achismo”, baseado mais nas suas próprias interpretações de livros que na prática real e na transmissão dos ensinamentos diretamente de um professor de carne e osso. Tenho encontrado versões de “budismo-hippie”, “budismo-nova era”, “budismo-espirita”…
Tudo isto faz parte da transmissão de uma cultura para outra – quando olhamos a história do budismo, vemos que o processo da transmissão dos ensinamentos da Índia para a China também passou por muitas dificuldades e levou séculos – sim, séculos – para o Budismo se enraizar, se adaptar à nova cultura, e para ficarem clarificadas as distinções entre o Budismo e as religiões-filosofias nativas chinesas, o Taoismo e o Confucionismo. Aqui no Brasil, estamos muito no começo deste processo. Vamos passar por nossas dificuldades, mal-entendidos e confusões. Mas, desde que haja uma única pessoa que tenha compreendido o Darma para continuar a transmissão (e já temos várias pessoas com essa compreensão aqui no Brasil!), o Budismo continuará a crescer no país do verde e amarelo.
Segue a orientação dada pelo Saikawa Roshi, Superintendente Geral da Escola Soto Zen na América do Sul, ao final da (re)ordenação monástica do chileno Meiyô Vargas realizada durante o Retiro Aberto em Florianópolis no dia 17 de outubro de 2008:
“O Caminho de Buda é um caminho. Analisar este caminho e tomar decisões seria acreditar, compreender, praticar, realizar e aplicar.
“Primeiro, temos que acreditar no Caminho de Buda. Em seguida, precisamos compreender em que direção andar e praticar, de acordo com esta compreensão. Você precisa realmente chegar a enxergar o seu Verdadeiro Eu, sua Verdadeira Natureza. Então, você aplicará isto na sua vida diária.
“No início, você praticará em benefício próprio. Mas, se você realizar o Caminho, ou Alcançar o Despertar, você terá que trabalhar 24 horas por dia para salvar os outros – do mesmo jeito como foi a vida de Shakyamuni Buda.
“Então, a vida de um “Shukke”, de um monge – alguém que deixou o lar – é muito, muito diferente. Viver neste mundo dualista e transmitir os ensinamentos do Darma da Unidade do Todo é uma coisa muito difícil – é difícil fazer as pessoas entender. Mas, para dar Paz e Harmonia, você terá que doar a sua vida aos outros.
“Como você desejou ser monge, você mostrou para mim a sua grande determinação. Devo lhe dar os meus parabéns – ou não?”
. Assistir o vídeo de uma cerimônia de Ordenação Monástica no Japão (em japonês), mostrando o momento em que o Professor de Ordenação, representando o próprio Buda, raspa a parte final do cabelo do candidato – chamado de “shura” – que somente um Buda pode raspar.
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Qual o Significado de Jukai?
outubro 28, 2008 às 11:11 am | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Qual o Significado, Zen Budismo em Porto Alegre | 2 ComentáriosTags: cerimônias zen budistas, Monja Isshin
Qual o significado da Cerimônia da Transmissão dos Preceitos para Leigos (Jukai ou Zaike Tokudo)?
Nesta cerimônia, o praticante leigo do Zen Budismo assume formalmente seu voto de orientar sua vida de acordo com os Dezesseis Preceitos do Bodisatva. Neste momento, também assume um relacionamento com o Professor dos Preceitos e entra formalmente na “Família de Buda” (a Sanga), que, desde a época de Buda, é composta de quatro grupos: os monges, as monjas, os praticantes leigos e os praticantes leigas.
Não é uma ordenação – assim sendo, procuramos evitar o termo “leigo ordenado”, apesar do fato deste termo ter caído no uso comum no Ocidente. Os kanjis (ideogramas chineses) que formam o termo “zaike” (在家) significam “ficar no lar” e os kanjis para “tokudo” (得度) significam literalmente “obter a travessia”, ou “entrar no caminho para a outra margem” – a travessia para a outra margem, que é a Iluminação. Corresponde aproximadamente à confirmação católica ou o batismo protestante e não possui qualquer significado de “colação de grau” ou de algum tipo de “formatura”, nem confere qualquer tipo de “autorização” especial. O termo “monge leigo” definitivamente não existe, por ser uma contradição de termos.
No Japão, raramente é feito qualquer tipo de “curso dos preceitos”, e é por isso que, frequentemente, os Mestres Japoneses realizam a Cerimônia de Transmissão dos Preceitos Leigos para os seus alunos ocidentais sem exigir este pré-requisito. Aqui no Ocidente, porém, devido às diferenças quase inimagináveis entre a cultura Japonesa e a nossa cultura ocidental e as más-compreensões (e até escândalos) que surgiram como resultado, numerosos professores ocidentais de darma já estão exigindo o estudo do significado dos preceitos budistas, em cursos que variam de duração entre 6 semanas até um ano ou mais.
Durante a cerimônia, depois de afirmar três vezes o seu voto de seguir os Preceitos do Bodisatva, o praticante recebe o rakusu (possivelmente costurado por ele mesmo) assinado no verso pelo professor dos preceitos, um nome do darma e, possivelmente, um documento de “linhagem” simbolizando sua entrada na “Família de Buda”.
Dentro de seu grupo de prática, depois de receber o seu rakusu, o praticante geralmente passa a assumir um papel de “monitor”, ajudando a dar as orientações básicas às pessoas mais novas. Mesmo assim, sua prática deve sempre ser voltada para o aprofundamento de sua própria prática, o cultivo de sua própria mente e a caminhada em direção à Iluminação.
. Ouvir a gravação do grupo de praticantes fazendo seus votos com o Saikawa Roshi na cerimônia de Transmissão dos Preceitos realizada no dia 16 de outubro, 2008 em Florianópolis
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Sensei
maio 20, 2007 às 9:30 pm | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Professor de Darma Zen Budista, Qual o Significado, Zen Budismo em Porto Alegre | 2 Comentários“Sensei” – o que significa esta palavra?
Os ideogramas (kanjis) para a palavra “sensei” possuem os seguintes significados:
(“sen”) antes, na frente, anterior, futuro, precedente (before, ahead, previous, future, precedence)
(“sei”) vida, genuína, nascimento (life, genuine, birth)
Literalmente, significam “quem viveu antes”.
Assim, a palavra “sensei” significa um ser humano que simplesmente acumulou mais experiência e/ou treinamento específico para exercer uma determinada função. No Japão, médicos, professores de todos os níveis, e professores do Darma são todos chamados de “sensei”. “Roshi”, na tradição Soto Zen, é um termo reservado para Professores do Darma experientes, que já formaram discípulos, e significa “velho mestre”.
Temos mais dois termos importantes para considerar, “kouhai” e “sempai”. Vamos ver o significado destas palavras:
“kouhai”
(“kou”) depois, atrás, posterior (behind, back, later)
(“hai”) camarada, colega, povo, companheiro (comrade, fellow, people, companions)
Literalmente, “companheiro que veio depois”
“sempai” (a letra ‘n’ de “sen” muda para ‘m’ quando seguido pela letra ‘p’)
(“sen”) antes, na frente, anterior, futuro, precedente
(“pai”) camarada, colega, povo, companheiro
Literalmente, “companheiro que veio na frente”.
Diferente do relacionamento ocidental de “veterano-novato”, o relacionamento “sempai-kouhai” implica numa série de responsabilidades mútuas, com o “sempai” ensinando e zelando pelo bem do “kouhai”.
Durante o treinamento monástico, o treinando passa de uma fase de ser “kouhai” em relação a todos os demais treinandos para uma outra fase durante a qual é “kouhai” em relação a alguns dos colegas em treinamento e é “sempai” para outros que entram depois dele. Na medida em que os seus próprios “sempais” vão se formando e saíndo do mosteiro, e mais “kouhais” entram, a responsabilidade do treinando como “sempai” – a responsabilidade de zelar pelo bem dos “kouhais” – vai aumentando. Assim, vai se preparando para assumir as responsabilidades de “sensei”.
Deve ser um relacionamento de responsabilidade e zelo, e não um relacionamento de poder ou autoridade.
A responsabilidade de um “sensei” se torna maior ainda. Mas um sensei nunca deixa de ser um ser humano.
Aqui no Ocidente, temos uma tendência de querer idealizar os nossos líderes, como se numa busca constante de um pai ou mãe idealizado(a). Freqüentemente queremos santos, que fiquem num pedestal.
Mais ainda, quantas vezes, queremos professores que não nos incomodem, que somente nos façam sentir bem.
Mas será que é este o papel de um “sensei”, Professor do Darma? Só nos dar conforto? Só ficar num pedestal sorrindo pacificamente?
Um outro termo para descrever um Professor do Darma pode ser “Amigo Espiritual”.
Se “amigo” é aquela pessoa com quem você sabe que pode contar sempre, “amigo” também não é aquela pessoa que lhe fala a verdade, para o seu próprio bem, quando todos os outros estão quietos, deixando você fazendo uma besteira? Que é leal o suficiente para te enfrentar quando você não quer ouvir, não quer enxergar? “Amigo” não é aquela pessoa que serve de espelho para você se conheçer melhor?
Pois é, é isto que um “sensei” deve ser, um verdadeiro “amigo espiritual”, mais experiente, que passou por treinamento específico e recebeu autorização para zelar para o bem de seus alunos do Darma. Carrega uma responsabilidade grande, com consequências Cármicas e sabe disto.
Mas, o ser humano não é “perfeito” – mais ainda, um ser humano nunca vai corresponder à noção de “perfeito” que você carrega dentro de você. Como é que faz então? Finge que não tem problema? Faz a “dança do contente”? Vai ficar ofendido e ir embora – ou mandar o professor embora? Vai andar por aí reclamando, criticando o professor (que possui treinamento que você não tem), semeando descontentamentos – quebrando os preceitos budistas (não se elevar e rebaixar os outros, não falar dos erros alheios, não falar mal dos Três Tesouros – Buda, Darma, Sanga)?
Ou vai aproveitar da oportunidade para mergulhar mais ainda na lição do Darma que estas tais das “imperfeições” representam? Estudar suas próprias dualidades (já que “perfeito” e “imperfeito” são conceitos dualistas)? Observar suas próprias projeções para se libertar dos condicionamentos? Transcender as limitações do pequeno ego, cheio de “desejos”, “apegos” e “raivas”? Descobrir que tudo é Darma, é energia que se move?
Que possamos todos realizar a verdadeira prática sincera dos preceitos, o estudo profundo do Darma e o zazen verdadeiro e alcançar o estado de não-dualidade, de Sabedoria e Compaixão, de Paz e Tranqüilidade.
Gassho
Que os méritos de nossa prática se estendem a todos os seres e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado
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