O Corretivo

Outubro 31, 2009 at 12:04 pm | In Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

O Budismo faz um diagnóstico da nossa “doença” espiritual e receita “remédios”. Enquanto que algumas terapias podem ser agradáveis (uma boa massagem, por exemplo), nem todos os tratamentos “médicos” são confortáveis – alguns tratamentos são extremamente desagradáveis e dolorosos (Alguém afirmaria que passar por uma cirugia seria algo “agradável”?). Tomamos os remédios e aceitamos os tratamentos porque desejamos curar-nos das nossas enfermidades.

Portanto, para avaliar aquilo que vemos num relacionamento de um professor com seus alunos, precisamos observar o resultado no médio e longo prazo, sem julgar um único ou alguns poucos incidentes que possamos eventualmente testamunhar.

Trata-se de uma verdade comum a todas as tradições espirituais. Não são nada infreqüemtes as situações onde um observador (visitante, simpatizante, aluno), ao assistir alguma interação entre um professor e um de seus alunos, reage com “mil opinões” a favor ou contra a atitude do professor ou do aluno.

Às vezes, ao ver o professor agindo com firmeza com um aluno, o observador se assusta, ficando com medo de também ser tratado com a mesma firmeza (ou pior). Outras vezes, na mesma situação, se ofende, julgando que o professor é “agressivo”.

Ou, vendo o professor tratando um aluno com delicadeza, carinho ou alegria, acusa-o de “favoritismo”, “complacência” ou “falta de seriedade”.

Na verdade, geralmente, o observador está simplesmente projetando as suas próprias experiências de vida, interpretações, medos e opinões. Todos nós temos uma tendência de achar que sabemos como os outros “devem” agir, como o outro “deve” ensinar – sempre tendemos a achar que “sabemos melhor”. Tiramos as nossas conclusões rapidamente, na hora – já “vimos tudo”, “já entendemos a situação”. Mas, para poder avaliar corretamente, é necessário considerar não somente um “incidente” isolado, mas todo o contexto e o histórico do relacionamento do professor com aquele aluno, bem como o andamento depois do “incidente” em questão. Mais ainda, é necessário libertar-nos dos nossos próprios condicionamentos, projeções e opinões – abrindo o Olho da Sabedoria para saber enxergar além das aparências e o Coração de Compaixão verdadeira que possa compreender o coração do outro.

Encontrei este texto excelente no blog Christian Rocha. Podemos observar como esta nossa tendência de ficar julgando se expressa num conto Sufi:

Trecho do livro “Sufismo no ocidente”

Um mestre que conhecia o caminho para a sabedoria foi visitado por um grupo de buscadores. Encontraram-no num pátio, cercado de discípulos, em meio ao que parecia ser uma festa.

Alguns buscadores disseram:
– Que ofensivo, esta não é a forma de se comportar, qualquer que seja o pretexto.

Outros disseram:
– Isto nos parece excelente, gostamos desta sessão de ensinamento e desejamos participar dela.

E outros disseram:
– Estamos meio perplexos e queremos saber mais sobre este enigma.

Os demais buscadores comentaram entre si:
– Pode haver alguma sabedoria nisto, mas não sabemos se devemos perguntar ou não.

O mestre afastou todos.

Todas estas pessoas, em conversas ou por escrito, difundiram suas opiniões sobre o ocorrido. Mesmo aqueles que não falaram por experiência direta foram afetados por ele, e suas palavras e obras refletiram sua opinião a respeito.

Algum tempo depois, determinados membros do grupo de buscadores passaram novamente por ali e foram ver o mestre. Parados à sua porta, observaram que, no pátio, ele e seus discípulos estavam agora sentados com decoro, em profunda contemplação.

– Assim está melhor — disseram alguns dos visitantes. — É evidente que alguma coisa aprenderam com os nossos protestos.
– Isto é excelente — falaram outros — porque, na última vez, sem sombra de dúvida ele só nos estava colocando à prova.
– Isto é demasiado sombrio — outros disseram. — Podíamos ter encontrado caras sérias em qualquer lugar.

E houve outras opiniões, faladas e pensadas. O sábio, quando terminou o tempo de reflexão, dispensou todos estes visitantes.

Muito tempo depois, um pequeno número deles voltou para pedir sua interpretação do que haviam experimentado. Apresentaram-se diante da porta e olharam para dentro do pátio. O mestre estava sentado, sozinho, nem em divertimento, nem em meditação. Em parte alguma se via qualquer dos seus anteriores discípulos.

– Agora podem escutar a história completa — disse-lhes. — Pude despedir meus discípulos, já que a tarefa foi realizada. Quando vieram pela primeira vez, a aula tinha estado demasiadamente séria. Eu estava aplicando o corretivo. Na segunda vez em que vieram, haviam estado demasiado alegres. Eu estava aplicando o corretivo. Quando um homem está trabalhando, nem sempre se explica diante de visitantes eventuais, por muito interessado que eles acreditem estar. Quando uma ação está em andamento, o que conta é a correta realização dessa ação. Nestas circunstâncias, a avaliação externa torna-se um assunto secundário.

O rigor da prática Budista

Agosto 21, 2009 at 7:17 pm | In Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 2 Comments

A prática espiritual é rigorosa – em todas as tradições religiosas, inclusive no Budismo. Quem imagina que profunda auto-transformação, o confronto consigo mesmo, possa ser um processo “suave” e “agradável” está bastante iludido. É claro que também encontramos no caminho muitos efeitos positivos de relaxamendo, bem-estar, melhorias nos relacionamentos, até que um dia realizamos o fim do dukkha (sofrimento, insatisfatoriedade). Graças à prática é certo que vivenciamos mudanças grandes e positivas em nossas vidas.

Mesmo assim, o fato é que para nos libertarmos dos nossos condicionamentos, é preciso antes enxergá-los. E para enxergá-los é necessário que eles “apareçam”, o que em geral traz algum tipo de desconforto em nossa prática – conflitos com o professor, conflitos com colegas de Sanga, desconfortos de variados tipos. O “rigor” da prática serve para fazer “aparecer” estes condicionamentos.

Em retiros de Vipassana, é freqüente haver um rigor absoluto de manter silêncio e não se mover durante os períodos de meditação. Monges da tradição Teravada, bem como os monges das tradições Mahayanas não-japonesas, seguem mais de 200 regras de comportamento e os leigos seguem 5, 8 ou 10 regras. Nas tradições japonesas, tanto os leigos quanto os monges seguem os “16 Preceitos do Bodisatva”.

As tradições tibetanas praticam um grande rigor nos debates, que podem ser praticamente “massacrantes”. A tradição da Terra Pura japonesa mostra o mesmo rigor nos debates.

E o Zen? Geralmente, temos bastante rigor na questão da manutenção do silêncio durante os retiros e durante a prática de samu. Geralmente, pede-se rigor de evitar movimentar-se durante o zazen.

Mas talvez o rigor mais surpreendente do Zen seja o rigor nas atividades diárias, na precisão das formas. Diferente de várias das outras tradições, no Zen temos regras sobre com que pé vamos entrar no Zendo e sobre como vamos andar, servir o chá, comer (com Oryoki – conjunto de tigelas) e realizar as várias funções da Prática de Cerimonial (tocar instrumentos, anunciar o próximo sutra, recitar dedicatória, entregar e recolher os livros dos sutras, fazer oferendas, etc). Mil detalhes, detalhes que nos chamam para a Plena Atenção, para o Aqui e Agora.

Mas o que é esta Plena Atenção, este “estar no Aqui e Agora”?

A cultura Ocidental tornou-se muito “informal”. Conseqüentemente, muitos praticantes se rebelam contra o rigor da “forma” no Zen. Mas no fundo o que significa “informal”? Acaba significando “in-forme”, ou seja, “sem forma”, “caótico”. Aqueles praticantes condicionados na “informalidade” se assustam quando tentam praticar as formas do Zen, pois talvez nunca cultivaram tamanho “auto-controle” nas suas atividades. Talvez achem tudo isso “pura chatice”. E quando ouvem um professor falar da importância de fazer as coisas com “naturalidade” e “espontaneidade”, acreditam que o seu jeito de fazer as coisas já é a “naturalidade” e a “espontaneidade” do Zen. Mas esta “informalidade”, na verdade, é um certo desleixo. Ou seja, não entenderam a “espontaneidade Zen”.

Mas também temos muitos “perfeccionistas” em nossa cultura. E como eles sofrem, inicialmente, com a nossa prática! Não entendem o que significa a verdadeira “Plena Atenção”. Confundem o rigor do Zen com a sua atenção aos detalhes, com a pressão e auto-cobrança quase obsessivos do perfecionismo que viveram no passado. Quando estes alunos fazem suas atividades sem estar verdadeiramente no Aqui e Agora, tendem a cair em suas auto-cobranças obsessivas, e sofrem muito. Talvez, querendo escapar do sofrimento, mas sem perceber a verdadeira causa, reclamam que o Zen é exigente demais, afirmando que “não precisava ser tudo tão certinho”… A verdade é que não estão entendendo a prática de olhar para os seus condicionamentos se manifestando e voltar à respiração, como treinam fazer com os pensamentos no Zazen.

Já os professores, às vezes, parecem bastante estranhos, aparentemente se contradizendo, uma hora pedindo “naturalidade e espontaneidade” e logo em seguida pedindo “precisão”, corrigindo vários detalhes. Pedem que façam as coisas “corretamente” e logo em seguida falam coisas como “Não tenha medo de errar! Se vai errar, por favor, erre com tudo!”.

Estão vendo os seus alunos indo de um extremo ao outro: tentando “não errar”, caem no perfecionismo; tentando agir “naturalmente”, caem no “desleixo”. Dualidade pura.

Falando paradoxalmente, aparentemente se contradizendo, os professores estão convidando os alunos a descobrirem a Plena Atenção, uma terceira postura na vida que permite uma precisão e atenção a detalhes que é natural e espontânea – algo bem diferente dos dois extremos do desleixo informal e do perfecionismo obsessivo da mente condicionada. Estão convidando os alunos a virem para o Aqui e Agora, plenamente conscientes de si mesmos, dos outros, do ambiente, das circunstâncias e de suas ações. Estão convidando-os a descobrir o “Zen na Ação”, a levar para as atividades diárias aquele mesmo estado de paz e tranqüilidade que é vivenciado no Zazen. Estão convidando-os a libertarem-se dos seus condicionamentos, manifestando a “mente iluminada”.

Este é o método do Zen.

Aqui reproduzo as reflexões do Monge Gensho, no blog O Pico da Montanha, depois de assistir o filme “Zen, a Vida de Mestre Dogen”:

“Nossos esforços de meditação imitam pobremente os de Dogen e dos monges que iniciaram a prática Soto Zen no Japão. No início do século XIII eles eram extremamente pobres, e às vezes, em lugar de arroz, só tinham água fervida para substituir refeições. [...]
A biografia do mestre é emocionante mas densa de tal modo que não passará em circuitos comerciais. Os diálogos diretamente tirados dos textos clássicos exigem comentários posteriores para serem melhor apreciados.
Ao vermos o budismo integral de Mestre Dogen, praticando como ele até morrermos sentados em zazen, compreendemos o significado da degenerescência do Dharma, como de todas as coisas que os homens fazem, sempre tentando ficar com o que é confortável em lugar de praticar verdadeiramente.”

Quanta verdade, Monge Gensho!

Em Busca do Espiritual – Entrevista do Jornal Aquarius

Fevereiro 27, 2009 at 11:12 am | In Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Preceitos Budistas, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 2 Comments

Trecho da entrevista da Monja Isshin publicada parcialmente na edição impressa de fevereiro, 2009 e na integra no blog do Jornal Aquarius, de Porto Alegre

Qual a diferença básica do Zen Budismo para os outros tipos de budismo?

Todas as escolas Budistas transmitem os mesmos ensinamentos básicos. As diferenças surgem principalmente nas adaptações a cada país e cultura (roupa, por exemplo), na escolha dos textos que serão mais estudados, nos detalhes da interpretação “filosófica” e, principalmente, no estilo da prática. Enquanto que todas as escolas valorizam a meditação, o Zen coloca o Zazen (a meditação Zen) como o eixo central da prática. Ainda mais, o método do treinamento do zen baseia-se nas atividades do dia-a-dia, que podem ser consideradas a meditação vipasana do zen (meditação de plena atenção). No visão do Mestre Dogen, fundador da escola Soto Zen japonês, a prática correta é a iluminação. Por isso, é dada extrema importância à “prática correta” – a “forma” de se portar, os detalhes nos procedimentos, os atos corriqueiros como servir chá ou até atividades como trabalhar no computador, escrever cartas ou cozinhar – todos feitos com plena atenção, com a postura do “ser iluminado” e não do “ego condicionado”. A Iluminação é praticada na convivência com os outros praticantes, na prática dos preceitos nos relacionamentos, com a supervisão de um instrutor autorizado ou de um professor formado. As atividades “comuns” acabam sendo tão importantes para o desenvolvimento da prática zen quanto a meditação sentada. Enquanto que o estudo dos ensinamentos nunca pode ser dispensado, inicialmente é deixado para um segundo momento.

ler a entrevista completa

Mosteiro Morro da Vargem atingido pelas chuvas

Janeiro 26, 2009 at 5:35 pm | In Compaixão Zen Budista, Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 3 Comments

mosteiromorrodavargem-imagem-011Com muito atraso, compartilho duas mensagens que recebi do Monge Daiju, do Mosteiro Zen Morro da Vargem (Ibiraçu, ES), que foi atingido pelas chuvas. Convido todos a colaborarem com a reconstrução, enviando doações de cimento e/ou dinheiro.

12 de janeiro:
Aqui passamos por um momento dificil com a tromba d’agua que houve na região, com muitos desabrigados, e do qual nosso templo tambem não escapou. Estamos há dias carregando pedras e retirando a lama e barreira da estrada que em parte foi destruída. São no mínimo dois meses de trabalhos intensos para que as coisas voltem ao normal. Não podemos esmorecer.

14 de janeiro:
Nós continuamos na luta para reconstruir a estrada, um trabalho árduo que requer paciência, persistência e muito esforço. Os recursos são limitados e como você mencionou anteriormente que poderia postar no blog sobre nossas dificuldades visando ajuda… Uma coisa que estamos precisando muito é cimento. Não sei se daria certo, mas se você quiser tentar, aceitamos com muita gratidão.
De toda forma agradecemos pela solidariedade nesse momento catastrófico, tendo a certeza que a as tragédias nos levam a fortalecer a união com todos os seres e a reafirmar os nossos esforços no Dharma.

mosteiromorrodavargem-imagem-030 Mosteiro Zen Morro da Vargem
BR-101, Km 217, Ibiraçu/ES
CEP:29670-000
tel/fax (27) 3257-3030

Cerimônia de Ascensão à Montanha de Monja Coen

Outubro 15, 2007 at 8:19 am | In Blogroll, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Uncategorized | 1 Comment

Shinsanshiki-collage-gdeShinsan-shiki de Monja Coen – 12 de outubro de 2007

弧圓先生の晋山式

Com a presença de Kuroda Roshi do Templo Kirigayaji de Tóquio, Japão, Egyoku Roshi do Templo Busshinji do Zen Center de Los Angeles, Saikawa Roshi Sokan, Superintendente da Escola Soto Zen para América do Sul, monges do Japão e do Brasil e numerosos praticantes e amigos de Zen, foi realizada a cerimônia de Shinsan-shiki, a Cerimônia de Ascenção à Montanha. Nessa cerimônia lindíssima, o Zendo Brasil foi reconhecido como um templo oficial da escola Soto Zen, o nome Tenzui Zendo (Local de Prática Zen Tenzui) foi mudado para Tenzui Zenji (Templo Zen Tenzui) e a Monja Coen foi elevada a abadessa do templo. 

A foto acima foi gentilmente cedida pelo Emerson Zamprogno. Mais imagens podem ser vistas no seu álbum da Internet.

 Gassho

Retiro de Costura de Rakusu em Curitiba

Setembro 14, 2007 at 4:11 pm | In Preceitos Budistas, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Uncategorized | 1 Comment

Comunidade Zen-Budista de Curitiba (Monge Leonardo Kendo)
http://www.sotozencuritiba.org/

7 a 9 de setembro de 2007

O rakusu é uma peça das vestimentas budistas. Simboliza o manto de Buda e é usado por monges e por leigos, depois da cerimônia da Transmissão dos Preceitos, no qual o praticante faz o voto de orientar a sua vida de acordo com os Preceitos do Bodisatva e formaliza o seu relacionamento com o seu Professor do Darma.

A Noite Escura da Alma

Junho 23, 2007 at 3:33 pm | In Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 6 Comments

Encontrei uma expressão Chan (Zen chinês) que diz:

“Grande dúvida, grande iluminação.
Pequena dúvida, pequena iluminação.
Nenhuma dúvida, nenhuma iluminação.”

A tradição nos ensina que existem três pre-requisitos para a prática verdadeira: Grande Dúvida, Grande Fé e Grande Determinação.

1. Grande Dúvida

A maioria das pessoas chegam à prática espiritual motivada por um sofrimento que deu origem a um questionamento. Quase sempre, a pessoa está fazendo uma pergunta do tipo “Por que está acontecento ‘x’?” ou “Por que eu?”

Muitas destas pessoas nem dão continuidade num centro de prática séria, e vão embora depois de uma, duas – algumas – visitas. Outras pessoas, depois de algumas sessões de meditação, sentindo algum alívio do problema imediato que as trouxeram até o zazen, já relaxam os seus questionamentos. Talvez até se tornem associadas, até venham a se considerar “praticantes”. Mas a verdade é: não chegaram a fazer a pergunta essencial, não se abriram para a “Grande Dúvida” e, assim, ainda não entraram realmente no caminho espiritual.

Algumas poucas pessoas, ao passar por uma situação de dificuldade, acabam aprofundando as perguntas iniciais (“Por que eu?”, “Por que está acontecendo ‘x’?”) para começar a questionar: “Quem sou eu?”, “Qual é o significado da minha vida?”, “Qual o sentido da vida e da morte?”.

Estas são perguntas da “Grande Dúvida” – o início da caminhada espiritual. A tradição Rinzai Zen usa os ‘koans’ para provocar a Grande Dúvida. Quanto mais intensamente se vivencie a “Grande Dúvida”, tanto maior será a “iluminação” obtida. Acredito que, na nossa realidade de seres humanos, as nossas “iluminações” são, na verdade, “pequenas iluminações”, pois a diferença entre “ter uma ou algumas experiências de iluminação” e “se tornar uma pessoa iluminada”, ou “se tornar uma pessoa que manifeste plenamente a sua iluminação”, é igual a diferença entre água e vinho.

Os mestres também nos ensinam que aquela pessoa que se acha “iluminada”, não é. Ainda nos ensinam que a prática deve ser constante e pelo resto da vida – e próximas vidas, também.

Portanto, sempre que acreditamos que encontramos uma resposta à “Grande Dúvida”, é importante que recoloquemos a pergunta e sigamos além, além da resposta atual, além da nossa compreensão deste momento, sempre além, sempre nos aprofundando mais e mais.

O grande perigo aqui está em achar que encontramos “A Resposta” e que a “Grande Dúvida” já acabou. Vamos cair numa complacência, arrogância – talvez até nos posicionando como prontos para liderar outras pessoas, mas, na realidade, estamos nos iludindo e iludindo os outros. De certa forma, a nossa caminhada espiritual foi abandonada. O nosso Zazen se tornou um ‘zazen de conforto’, um ‘zazen de consumo’. Sempre podemos encontrar mais um pedaço da resposta à “Grande Dúvida”.

Mas, vamos dizer que você está com o seu questionamento “à flor da pele”. Entrou no caminho espiritual e iniciou uma prática. Aí surge a questão da fé.

2. Grande Fé

O segundo elemento essencial a uma boa prática é uma “Grande Fé”. Fé na prática, fé nos ensinamentos, fé no professor – um ser humano, com falhas humanas, que tem mais experiência no Caminho e algum tanto de “iluminação” manifestada. E, mais ainda, fé na sua possibilidade de poder manifestar a sua própria “iluminação”, de encontrar a “resposta” de sua Grande Dúvida.

Inicialmente, pode ser que parte desta fé você encontre depositando fé nos outros. Você gostou e confia no seu Professor de Darma. Ou admira um praticante budista e confia nele. Mas os seres humanos são literalmente isto – seres humanos, sujeitos a falhas. Podem nos desiludir. Mais ainda, uma das funções dos Professores de Darma é de “puxar o tapete” debaixo de nossos pés. Podem até nos provocar, fazendo com que manifestemos a nossa “sombra”, na esperança de que possamos “iluminar” este aspecto nosso que foi trazido à luz. Nestas horas, podemos até nos sentir “traídos” pelo Professor, enquanto não estamos compreendendo o que ele está tentando nos ensinar. Portanto, temos que ir além desta fé inicial, depositada em seres humanos externos à nos mesmos. De um lado, temos que amadurecer e aprofundar a nossa fé no Professor e outros seres humanos, temperando-a com fé nos ensinamentos e no próprio Darma – passo-por-passo.

E os ensinamentos, que foram transmitidos já durante 2.600 anos – podemos depositar fé neles? Podemos, mas isto também tem suas limitações, pois a transmissão dos ensinamentos depende da comunicação e das palavras, sempre sujeitas às mais variadas interpretações. Transcrições de diálogos entre grandes mestres e os seus alunos não nos transmitem o contexto, o cenário, todos os detalhes que fizeram com que aquelas palavras fossem as mais apropriadas para aquele aluno naquele momento.

No Zen, encontramos inúmeros exemplos de professores que, num momento dizem uma coisa e, em outro momento, dizem exatamente o contrário. Será que estão mentindo? Será que são loucos? Ou será que estão simplesmente falando exatamente aquilo que é mais apropriado para aquele momento, aquele contexto, aquele aluno – para convidá-lo a tomar o próximo passo de aprendizagem? Como alunos do Zen, existem momentos que podemos nos desesperar com um professor que parece estar se contradizendo. Como é forte, nestes momentos, o sentimento de “mas você não falou ‘x’ antes? Por que está falando ‘y’ agora? Qual é a verdade, ‘x’ ou ‘y’?”

Conheço uma mestra moderna que faz isto o tempo todo. Será que ela é louca? Não acho, não. Acho que ela está simplesmente me desafiando a mergulhar para dentro e encontrar a MINHA verdade – e desafiando outras pessoas com quem ela faz a mesma coisa a fazer o mesmo mergulho para dentro. Não é um processo fácil. Mas certamente me oferece a oportunidade de me aprofundar na fé verdadeira que preciso cultivar – a Grande Fé. Fé na minha própria Natureza Buda, fé no Universo, fé no Darma, fé na minha prática, fé em mim mesma. Fé para atravesar a noite escura da alma – ou as noites escuras da alma. É aí que entra o terceiro pre-requisito da prática.

3. Grande Determinação.

Sem a Grande Determinação, não vamos conseguir atravessar a noite escura. Se falhar a nossa determinação, vamos acabar “voltando para trás” em lugar de completar esta etapa da jornada. Não vamos chegar até o raiar do novo dia, aquele pedaço de Iluminação que seria resultado de nosso questionamento, fé e determinação.

Se a nossa determinação for fraca, vamos falhar. Se a nossa determinação depende de outras pessoas para nos apoiar, vamos falhar. Pois a noite escura da alma é exatamente isto. É um momento em que nos sentimos totalmente sós – a nossa dúvida nos consumindo, a auto-confiança cambaleada, a nossa fé no limite – só vemos escuridão e é somente a nossa determinação que nos segura no caminho. Afinal, o momento mais escuro da noite é o momento logo antes do nascer do sol. E é a mesma coisa na jornada espiritual.

Se iniciamos a jornada com uma pequena dúvida, a noite escura vai ser “pequena” e o raiar do sol também. Mas se o nosso primeiro passo foi baseado numa GRANDE Dúvida, a noite escura vai ser igualmente GRANDE. A crise – mistura de perigo com oportunidade – vai ser GRANDE. Para atravessar esta noite escura, vamos ter que descobrir, dentro de nós, fé da mesma grandeza e, por fim, GRANDE Determinação – talvez aquela determinação que diz: “mesmo que perca tudo, não arredo o pé daqui”, “mesmo que eu tenha que morrer tentando, não desisto”, “mesmo que estejam todos me chamando de louco, não saio deste caminho”, “mesmo que todos os meus amigos me abandonem, não abro mão”. Talvez a vida vá nos exigir uma entrega total, a “morte simbólica”, morte do ego, morte para tudo que pensávamos que importava. Mas na realidade, a vida está nos convidando a passar pela morte dos condicionamentos – nos convidando à Libertação.

No meio da noite escura da alma, passamos por uma fase de ficar só enxergando as perdas, as “mortes”. Talvez percamos contato com a nossa fé. Talvez nos entreguemos ao medo. Talvez não resistamos às pressões e voltemos correndo, tentando voltar à nossa ‘zona de conforto’ anterior, voltar à ‘harmonia conhecida’, voltar às amizades e relacionamentos antigos que não queremos arriscar perder, buscando apoio externo na falta de nosso próprio apoio interno. Quantas e quantas pessoas fraquejam neste ponto, justo quando estão quase lá, quase vencendo esta fase da jornada. Que tristeza! É como se vendessem a alma, caissem em “tentação”.

É por isto que todas as tradições espirituais falam da dificuldade da jornada. Todas as tradições espirituais têm a sua forma de descrever o processo de passar pela “noite escura da alma”. Algumas tradições xamânicas ou indígenas usam “jornadas interiores” indo ao encontro da morte e renascimento simbólicos, desmembramento e “re-membramento” simbólicos, para facilitar esta passagem. A tradição budista nos fala da determinação de Buda quando ele sentou em baixo da figueira, decidido a não se levantar dali até que encontrasse a resposta, a Iluminação. Fala, em linguagem simbólica, dos ninhos que pássaros construiram em seu cabelo, das teias que as aranhas teceram, das plantinhas que cresceram entre os dedos dos seus pé – tudo para nos ajudar a imaginar uma determinação tão firme, inquebrantável que permitisse que ficasse lá – sentado em meditação – o tempo suficiente e com a “imobilidade” – firmeza de propósito – suficiente para atingir a Iluminação.

Lembro-me de momentos de dúvida (dúvidas que pareciam bastante grandes para mim, na época), onde toda a minha fé foi posta à prova e onde parecia que a minha determinação não ia agüentar – e lembro-me dos raiares do sol que vieram no final daquelas noites escuras da alma. Não posso dizer que eu tenha atingindo qualquer GRANDE Iluminação, mas com certeza, sinto que posso dizer que cheguei em algumas pequenas iluminações, de acordo com a minha capacidade de ter uma dúvida, de cultivar a fé e de achar dentro de mim mesma a determinação de prosseguir até a hora do sol nascer.

Como será que isto vai acontecer? Como será o momento da virada, de uma pequena iluminação? Vai ser o seu momento, único, totalmente diferente dos meus momentos – e nem para mim um momento será igual ao outro. Só posso compartilhar que, para mim, a virada vinha muitas vezes quando eu finalmente parava de lutar contra os acontecimentos e me entregava totalmente. Sabia que a gente tem todo o direito de espernear e reclamar tudo que quiser neste universo? Só que o Darma simplesmente vai continuar procurando nos ensinar. Então não precisa se sentir culpado por passar por uma fase de “briga com o universo” antes de chegar numa entrega! Outras vezes, a virada veio quando finalmente percebi a “comédia dos absurdos” numa situação e caí nas gargalhadas, de corpo e alma. De qualquer forma, a virada vinha quando algo dentro de mim mudou. A mudança nunca vinha de fora, só de dentro. Este que é o detalhe importante: a mudança tem que vir de dentro.

A noite passa. O novo dia nasce. A Luz retorna. Portanto, se você estiver atravessando uma noite escura da alma, não abra mão de sua fé, não vacile na sua determinação. Não tente voltar ao “conforto” ou “harmonia” ou “segurança” anterior. Se, no seu coração você sabe que está ouvindo a voz de sua Natureza Buda, prossiga firme. Mergulhe, deixe que a Grande Dúvida lhe “consuma” até os ossos, até a medula, até restar somente o grande Vazio. Estique a sua fé, mantenha a sua determinação – e atinja mais um pedaço da Iluminação. O importante é de sempre manter-se firme na busca de Sabedoria e Compaixão.

Se você está com mais Sabedoria e Compaixão, mais Paz e Tranqüilidade no “dia seguinte”, saberá que atravessou a noite. Mas, se está com alguma raiva, algum mal-estar, alguma inquietação, saberá que ainda não terminou a travessia ou, pior, saberá que desistiu no meio do caminho e voltou para trás. Mesmo assim, não perca esperanças, não se critique, não se julgue. Você fez o seu melhor. Aprenda com o processo. Veja onde “falhou”, onde “errou” e comece de novo. A vida sempre nos oferece novas oportunidades. Temos todo o tempo do universo para nos iluminar – kalpas e kalpas estão à nossa disposição!

Então, não tenha medo. A noite passa.

Que os méritos de nossa prática se estendam a todos os seres e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado.

Gassho.

Dor, Sofrimento e Resistência à Prática

Junho 5, 2007 at 8:47 pm | In Blogroll, Compaixão Zen Budista, Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

Trechos do quarto capítulo de Parte Dois (Ética, Responsabilidade, Prática) do livro “Zen-Budismo: O Caminho da Iluminação”por Roshi Philip Kapleau, Editora Arx, 2003 – pp.102-109

Às vezes, após praticar o Zen por um curto período, as pessoas sentem que não estão obtendo dele o que esperavam. Embora admitam que seus problemas pessoais tenham sido aliviados até certo ponto, ainda se sentem agitadas, impacientes, irritáveis. Muitas vezes, esse estado mental é acompanhado pela confissão de que “de algum modo sinto que não estou ajudando as pessoas permanecendo aqui no Centro. Acho um tanto egoísta minha permanência aqui*. …”

Com freqüência, o que atrai as pesssoas ao Centro é uma sensação de constrição, de frustração, de falta de controle e da necessidade de algum tipo de disciplina estruturada. [...]

Aí elas vêm para o Centro, praticam o Zen por um breve tempo e sentem uma clara melhoria. Ficam mais estáveis, menos perturbadas, não dissipando mais as energias como antes. No entanto, atingem um ponto em que começam a sentir que não estão ajudando a aliviar o sofrimento. Sem dúvida, qualquer impulso em direção à compaixão é positivo. Porém, em quase todos os casos, esse tipo de declaração, quando proferida em um estágio prematuro da prática, não passa de racionalização, de uma espécie de justificação ou desculpa para tentar retornar aos velhos padrões de pensamento, sentimento e ação, àqueles padrões geradores de dor que dispersam nossas energias e acabam levando a um tipo de vida sem objetivo, fútil e dolorosa.

É fundamental que não podemos ajudar alguém antes de ajudarmos a nós mesmos. Enquanto não tivermos o suficiente, nada teremos para distribuir. Isso é tão fundamentao que é difícil entender como uma pessoa pode dizer que quer sair e ajudar as pessoas, quando obviamente ainda tem pouco controle sobre si mesma, pouca estabilidade, alegria e liberdade em sua própria vida. Além disso, não é fácil ajudar outras pessoas sem, ao mesmo tempo, prejudicá-las. [...]

Se analisamos melhor a condição de pessoas que expressam essa insatisfação após um período relativamente curto de prática de Zen, vemos que o padrao é comum e que quase todos passam por ele. A pessoa exposta ou sujeita à disciplina de um centro de treinamento espiritual – na verdade, uma disciplina mínima – pode, após algum tempo, começar a ressenti-la. Ela estava habituada à dispersao das energias e à perturbação mental. Antes estava muito mais sujeita aos caprichos, como um cata-vento soprado em diferentes direções por todo tipo de vento emocional. Estranhamente, é comum que, assim que nos vejamos em uma posição de relativa liberdade dessas perturbações, comecemos a nos ressentir dela. Velhos hábitos querem se reafirmar. Começamos a sentir o antigo impulso das velhas obsessões. Não apenas começamos a ressentir o lugar, mas ressentimos também as pessoas, que vemos como responsáveis por estarmos ali, naquela situação. Isso poderia acontecer em um sesshin (retiro de meditação intensiva), com alguém que vive normalmente “solto no mundo”, ou então com alguém que esteja vivendo no Centro, participando de um programa de treinamento ou fazendo parte do pessoal residente. Esse é um ponto vital atingido na prática Zen, uma encruzilhada. Se a pessoa se entregar a esse sentimento e realmente escapar, terá de recomeçar do zero em alguma outra época e em algum outro lugar. O problema básico não terá sido resolvido.

Por outro lado, se, apesar do desejo de fugir, continuarmos nos esforçando com a disciplina e com nossa prática, subitamente descobriremos que existe uma reversão. A velha ânsia por isso ou aquilo, o desejo de fugir, de fazer determinada coisa, subitamente se aquieta. Uma verdadeira estabilidade e uma grande dose de energia vêm à tona. No sentido mais profundo, reina uma paz, uma grande tranqüilidade e uma clareza, cada vez mais profundas. De novo, tudo é uma questão de tempo, de nosso próprio carma, da força desses impulsos cegos em nós. Mas os praticantes estão sjueitos a um ou outro grau desse fenômeno: não só quem pratica no Centro, mas também quem vai para a floresta, ao deserto ou mesmo a uma cabana ou casa para praticar o zazen. Como, nessas situações, faltam a disciplina de um programa regular e o apoio dos colegas no Caminho, poucas pessoas conseguem ir em frente. Geralmente, apenas aquelas já experientes na prática conseguem obter resultados desse tipo de ambientes ou regime. A razão de termos um centro, de haver centros com uma estrutura, uma disciplina, é exatamente essa.

Existem, é claro, centros e ashrams que funcionam dentro de um princípio totalmente diferente. Trata-se, na verdade, de comunidades de pessoas que querem seguir certo estlo de vida. Mas estamos falando, aqui, de disciplina religiosa, não de pessoas que se reúnem para “curtir suas coisas” em uma atmosfera que consideram agradável. Falarei sobre isso adiante. Assim, é importante distinguir entre um centro como o nosso, onde existem disciplina religiosa e um mestre, e vários outros tipos de centro, onde a disciplina, se é que existe, costuma ser muito menos estruturada. Poda haver uma rápida rotatividade nesses lugares, ou, em caso negativo, as pessoas podem facilmente se acomodar a um tipo confortável de rotina, seus problemas básicos – os espirituais ou religiosos, as ansiedades básicas de querer saber quem e o que somos e qual o sentido da vida – sendo encobertos por um estilo de vida confortável. E ele não deixa de ser confortável porque você está comendo alimentos naturais e fazendo artesanato. Isso pode se tornar outro tipo de “boa vida”, como de fato se tornou, atualmente, para muitas pessoas nesse país**. Diferente, é claro, da versão country-club da boa vida, mas em muitos aspectos igualmente estilizada, igualmente – dada a sua personalidade e interesses – confortável. Claro que podemos falar muita coisa positiva sobre ela, mas ao mesmo tempo temos de reconhecer que ela é diferente de lugares em que existe a genuína disciplina religiosa com ênfase na Compreensão. [...]

O sofrimento do mundo sempre começa no nível individual. Foi por isso que o Buda disse: “Em verdade, digo-lhes que, dentro desse corpo com altura de uma braça, reside o mundo, seu crescimento e seu desaparecimento”. A longo prazo, se você quiser exercer um efeito sobre a angústia do mundo, aprenda a atuar incessantemente sobre si mesmo, enquanto continua se esforçando, diariamente, para fazer o melhor pelos outros.

* Na época em que esta palestra foi proferida, a prática do Zen nos Estados Unidos ainda estava muito centrada na vida como residente em um Centro Zen.

** O país são os Estados Unidos, e o texto foi escrito na época da “contracultura” jovem e das comunidades hippies.

Quando o Aluno…

Junho 3, 2007 at 3:59 pm | In Meditação em Porto Alegre, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

Existe um ditado que diz: “Quando o aluno está pronto, o professor aparece”. Acredito que há muita verdade aí. E, em algum momento da minha vida, acabei completando este ditado com: “E quando o aluno aprendeu a lição, o professor muda (ou muda de aula ou muda-se e vai embora)”.

Em outras palavras, quando eu termino de aprender a lição de que alguém está na minha vida para me ensinar, das duas uma: ou esta pessoa vai mudar de atitude e comportamento comigo (e, assim, passar a me ensinar uma outra matéria na escola da vida) ou a situação vai mudar de alguma forma e o professor vai acabar mudando-se e saindo da minha vida (e deixando espaço para um outro “professor” entrar na sala de aula da minha vida). Outras pessoas podem expressar o mesmo conceito com “quando a gente muda, tudo em volta muda”. Essencialmente, estão dizendo a mesma coisa.

Pois é, em qualquer situação quem tem de aprender – quem tem de mudar – sou eu mesma – não importa o que estiver acontecendo, não importa qual o tamanho da injustiça que possa parecer ter acontecido, tamanho da violência – nada disto importa, por mais incrível que pareça! É tudo Vazio! É tudo energia se manifestando! No fundo, não há certo ou errado, justo ou injusto – só existe a Vida se manifestando, o Darma se expressando. Quem está tendo uma oportunidade de estudar o Darma, de se aprofundar na prática sou eu!

Somos tão acostumandos a estar sempre pensando em termos dualistas, que esta maneira de olhar as coisas pode até parecer chocante, uma loucura, mas como foi bom para mim quando eu passei a me questionar sobre qual era a lição que tinha de aprender com uma determinada pessoa, e focar a investigação sobre mim mesma – como foi libertador! Mas há um certo segredo aí – um macete que faz toda a diferença! Este focar sobre o que é que eu tenho que aprender não pode ser com qualquer sentimento de culpa ou inferioridade! Toda esta auto-investigação só vai dar resultados se for feita com compaixão e auto-aceitação. Auto-flagelações não resolvem nada. Culpa não ensina nada!

Compaixão e auto-aceitação não significam complacência, mas significam o reconhecimento do fato de que, não importa qual o erro que eu possa ter comentido, foi o melhor que pude fazer naquele momento, dentro de todas as minhas causas e condições – e que, o importante é aprender, diminuir a minha ignorância, raiva e ganância, diminuir as minhas ilusões para que, num próximo momento, eu possa ter uma resposta melhor. Compaixão e aceitação do outro também não significa complacência, mas o reconhecimento que o outro está fazendo o melhor possível naquele momento, dentro de suas causas e condições – limitadas pelas ilusões – ignorância, raiva e ganância. Existem dois tipos de ignorância: o não-saber por falta de informação e a ignorância do falso conhecimento – a gente acha que sabe, mas é um saber falso. Durante quantos séculos acreditávamos sinceramente que a terra era plana e não redonda? Isto era um falso conhecimento. Os nossos condicionamentos e traumas são outros exemplos do falso conhecimento. E a ignorância é a raiz de todos os nossos venenos – raivas e ganâncias. Raivas contra os outros, raivas contra nós mesmos. Ganâncias de sempre querer mais – mais dinheiro, mais reconhecimento, mais conhecimento, mais melhorias, mais “perfeição”…

Então, eu me pergunto: o que vou fazer se eu me vejo numa situação “ruim”, “desagradável”? O que vou fazer se eu me descubro supostamente sendo “vítima”? Vou chorar, me lamentar, reclamar das injustiças da vida? Vou mergulhar nos ressentimentos, feito aluna rebelde, e ficar com raiva do meu professor, julgá-lo, falar mal dele para outros – até mandá-lo embora*, só para eu não precisar mudar a mim mesma? Será que vou tentar “matar a minha aula”, fugir da escola? Ou será que vou me sentar na minha carteira de estudante da escola da vida e me aplicar no estudo da lição de Darma que a vida está tentando me passar? Será que posso sentar-me em Zazen, estudar os ensinamentos Budistas (especialmente a Psicologia Budista) – até junto com um Professor de Darma, estudar a mim mesmo, aprofundar-me na minha prática dos Preceitos e na convivência com a Sanga? Será que posso abrir o coração, a mente, os ouvidos, os olhos?

Será que posso abrir o Olho de Sabedoria e Coração de Compaixão para discernir qual é realmente a lição que o meu professor está tentando me ensinar? Se estou lidando com um padrão “repetitivo”, um “koan” da minha vida, será que posso reconhecer partes do padrão que já mudaram (que já foram resolvidas) e perceber – e aprender com – os aspectos que aparentemente se repetem sem muita mudança. São estes aspectos que estão sendo reciclados, para que eu possa avançar mais um passo na resolução do meu “Genjokoan” (Koan da Vida Diária) pessoal (pronunciada Guen-djo-co-an)?

Será que posso manter o coração de gratidão, mesmo nos momentos difíceis? E, acima de tudo, será que posso manter uma fé inquebrantável, uma confiança completa e irrestrita no Buda, Darma e Sanga? Que possamos todos mergulhar cada vez mais em nossa prática, aprofundando cada vez mais em nossa própria Natureza Buda – além das dualidades, além dos conceitos, tornando-nos cada vez mais a manifestação da Paz e Tranqüilidade, da Compaixão e Sabedoria.

* Nota: Sabemos que, numa situação de violência doméstica, por exemplo, é absolutamente necessária a tomada de medidas para garantir a integridade física e emocional da “vítima”. Num caso destes, a primeira “mudança” pode ser de eu aprender a parar de ser “vítima” e talvez até afastar-me fisicamente do “agressor”. Mas estes tipos de situações, na realidade, não são o foco aqui neste momento e serão tratados em futuros textos.

Minha Mestra

Maio 28, 2007 at 3:08 pm | In Meditação em Porto Alegre, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 2 Comments

Não demorou muito no começo de meu treinamento com a minha professora de ordenação para perceber que havia um ponto no qual eu sentia que ela não me compreendia de jeito nenhum, onde toda a orientação que ela dava, sobre este ponto, parecia que iria me colocar de volta em posturas neuróticas antigas minhas das quais eu havia levado anos de terapia para me libertar. Mesmo tentando conversar com ela sobre estes pontos, a minha experiência foi como se fosse de bater contra uma parede de concreto. Dentro das minhas limitadas habilidades, não havia como chegar a um entendimento com ela sobre este ponto.

Eu me vi obrigada a me manter firme, seguindo tudo como havia trabalhado nas minhas terapias anteriores, mesmo sentindo que não contava com a compreensão dela neste ponto.

Isto virou um koan para mim. O primeiro ponto do koan foi: continuo com esta professora apesar deste ponto de desencontro ou não?

Bem, sabia que tudo de positivo que estava aprendendo com ela era de um valor que nenhum dinheiro do mundo pudesse retribuir. Todos os outros ensinamentos que estava recebendo dela, com exceção a este ponto, estavam me levando muito além de qualquer coisa que alguma terapia do mundo pudesse me levar, pois estava me levando à Paz e Tranqüilidade, a Realizações de “pequenas iluminações” de aceitação do mundo como ele é no momento presente e de mim mesma como sou no momento presente.

Primeira resposta do koan: sim, com certeza, continuo com esta professora maravilhosa que está me ensinando tanto. Aceito este ponto de aparente não-compreensão como o Darma em ação, como um koan para estudar.

O segundo ponto do koan foi: posso esperar que ela mude? Todos nós desejamos mudar aquilo que não gostamos no outro, não é? Queremos sempre que o outro seja do jeito que nós acreditamos que deve ser – queremos impor os nossos valores, como pequenos deuses. Nós nos achamos sábios, qualificados para avaliar o que deve ser mudado no outro. E nós, não precisamos mudar a nós mesmos? Mas a verdade é que se mexer com um pontinho de um sistema qualquer, obrigatoriamente está modificando o sistema inteiro – freqüentemente com resultados totalmente imprevisíveis. Isto significa que, se mudasse uma única caraterística da minha professora, ela passaria a ser uma pessoa totalmente diferente – e talvez, assim, nem teria mais as qualidades excelentes que possui como ela é agora (com esta qualidade que eu, no meu egoísmo, gostaria de mudar). Era eu que tinha que mudar, não ela. Quem era principiante era eu, não ela – uma Professora de Darma plenamente qualificada.

Hmmm, ou eu a aceito como ela é, por inteiro, ou não a aceito.

Segunda resposta do koan: sim, com certeza, aceito-a como ela é, por inteiro. Aceito este ponto de aparente não-compreensão como o Darma em ação, como um koan para estudar.

E, foi aí, acredito eu, que eu me abri realmente para aprender com ela – e aprendi muito, mas muito mesmo. O Mestre Dogen afirma, em “Pontos a Observar no Estudo do Caminho” (Gakudo Yojin-shu) que, se não puder achar um professor verdadeiro, nem deve estudar o Budismo. É verdade, pois a nossa capacidade de nos auto-iludir é infindável. Mas eu tive a honra de achar uma professora verdadeira e tentei aprender tudo que pude.

Não posso dizer que foi um aprendizado fácil, nem que tenha sido sempre agradável. Não sou uma aluna fácil, não possuo um temperamento fácil e nem sempre é fácil mudar os nossos comportamentos. E, pior ainda, a função de um mestre espiritual verdadeiro é de enfiar o dedo nos dó-dóis da gente, para que possamos percebê-los e nos libertar dos condicionamentos por trás. Outra função de um mestre espiritual verdadeiro é de nos frustrar – nos ajudando a nos libertar das opinões e expectativas que nos afastam da realidade da vida como ela é. Alguém disse que isto seria fácil, indolor?

Quantas vezes eu saía do templo bufando de raiva, ofendidíssima, ou chorando, magoada até o fundo do coração, ou desanimada, querendo desistir – tudo ego, tudo condicionamento. Quanta libertação pude alcançar nas mãos dela! Como sou grata por esta benção que pouco mereci.

Agora é a minha vez de tentar fazer o papel de Professora de Darma para outras pessoas. Será que vou ser capaz? Será que os meus alunos vão entender as minhas tentativas de transmitir tudo que descobri nesta caminhada? Será que vão poder entender que tenho que usar todos os meios que conheço para tentar ajudá-los a despertar para a realidade como ela é? Será que vou conseguir que compreendem que o remédio que serve para um é diferente do medicamento do próximo – e que tenho que cuidar de meus alunos numa base de caso-por-caso, da melhor forma que eu puder, sem qualquer favoritismo ou preferência – não importa a aparência? Será que vão agüentar o tranco do confronto consigo mesmos – e será que vou poder ajudá-los a agüentar olhar para si mesmos até chegar naquele ponto em que descubram que são, e sempre foram, Natureza Buda?

E aquelas pessoas que vão rejeitar os meus ensinamentos ou o meu estilo de ensinar, que até que vão se virar contra mim? Será que vou conseguir sempre reconhecer que somos todos Um, interconectados nesta maravilhosa Rede de Brama, sem separação? Será que vou conseguir manter o coração de Compaixão, sempre reconhecendo que tudo é vazio, que não há nem agressão nem agressor – que só existe Natureza Buda? Será que vou conseguir manter o coração de gratidão, agradecendo mesmo as duras lições que estes professores representam? Será que vou conseguir aprender aquilo que o Darma estaria tentando me ensinar através deles? Será que vou conseguir saber dar tempo ao tempo, aceitar o momento de cada um, respeitar a escolha de cada um – não importa o que falem, o que façam? Será que vou conseguir sempre me lembrar que isto também passa, que é simplesmente o Darma em movimento, energia se manifestando? Será que vou conseguir não esquecer que está tudo perfeito – nada faltando, nada em excesso? Somos todos Natureza Buda, a vida se manifestando com todo o seu esplendor.

Que milagre! Que maravilha! Que bom poder fazer parte disto tudo! Que possamos cada dia aprofundar mais e mais a nossa prática, mergulhando na essência do Ser, nos abrigando no Buda, Darma e Sanga.

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