Ordenação na tradição do Zen Vietnamita

fevereiro 5, 2010 at 10:42 am | In Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

Oferecemos os nossos parabéns com esta ampliação das linhagens e tradições do Zen representadas em nosso país!

reproduzido do blog da Sanga Plena Conseiência – São Paulo

Carta do primeiro monge brasileiro – Pháp Giang – na tradição do nosso venerável Thich Nhat Hanh

no dia 21 de novembro de 2009 fui ordenado como monge noviço em Plum Village, França, na tradição do ven. Thich Nhat Hanh.

A cerimônia foi simples e leve, entremeada por pequenos descuidos que a tornaram mais leve e bem humorada ainda. sei que para os europeus isso soa estranho, por que eles adoram atividades muito formais e sem a presença do acaso, mas para nós, brasileiros, tudo isso é muito bem vindo e me faz sentir mais em casa ainda…

Fui ordenado com mais dez amigos (seis homens e quatro mulheres, um do Canadá, dois da França, um estadunidense, dois vietnamitas, uma japonesa, uma holandesa, um alemão e uma chinesa – e eu do Brasil), no mesmo dia, vinte vietnamitas foram ordenados via internet. Thay deu a essa família o nome de Lótus Cor-de-Rosa (já houveram
famílias com o nome de Lótus Branca e Lótus Dourada). Essa família tem algumas características especiais, como diversidade de países e a idade (a maioria se situa na faixa dos 30 a 40 anos, um pouco velha para o costume).

Apesar dos muitos altos e baixos durante o período de aspirante, estou feliz com a minha escolha. Plum Village ainda é marcadamente européia, norte-americana e asiática, então espero tornar mais estreita a ligação entre Plum Village e o Brasil e a América Latina e enriquecer a diversidade cultural que é a marca dessa tradição. Gostaria de destacar dois fatos que considero sintomáticos:

o primeiro foi que o monge responsável pela distribuição das roupas não sabia meu nome e como eu não estava no quarto na hora em que ele trouxe o meu hábito de aspirante, ele apenas escreveu num pedaço de papel “Brazil”. Como único brasileiro e latino-americano desta comunidade senti nesse momento o peso da minha escolha e o impacto dessa escolha na vida da comunidade e, talvez, alguma expectativa também deles em relação a mim. Mas, é claro, uma das práticas aqui é não ter expectativas…

o segundo foi durante a ordenação, quando Thay pronunciou o meu nome de dharma monástico, Pháp Giang. Para os que não sabem ‘Pháp’ em sino-vietnamita quer dizer ‘Dharma’ (e em vietnamita moderno quer dizer França) e ‘Giang’ (pronuncia-se aproximadamente como Young em inglês, ou iang) significa ‘Rio’ – ou seja, Rio de Dharma. Para mim foi uma grande e agradável surpresa. Tendo vivido na Amazônia por muitos anos, quando ele disse esse nome, senti o rio Amazonas correr dentro de mim e me senti realmente como um rio. Mas sei que é um desafio ser realmente um
rio, como nas metáforas que o Buda usou para expressar algo que a tudo abraça e a tudo transforma.

interessante também ver que recebi o meu sanghati, hábito para grandes cerimônias formais, de um monge theravada da tailândia, T. Pittaya, e que agora mora em plum village permanentemente. O ricardo sasaki sabe o quanto tenho apreço pelo budismo theravada e o quanto aprecio que o budismo praticado em plum village tenha uma mistura interessante com essa tradição, então foi com muito bom gosto que recebi de suas mãos.

nesse período em que permaneci aspirante aprendi a duras penas a largar minha expectativas em relação a mim e em relação à comunidade e a não tentar pensar demais se serei um bom monge ou mesmo se serei um monge por toda vida…o que importa é o presente e no presente farei o melhor possível para mim e utilizando os elementos da nossa cultura para expressar esse melhor – não posso esquecer, e isso não é possível, que sou um monge cearense, de Quixeramobim, a maior parte de minhas raízes está lá, trago dentro de mim o mandacaru e suas flores, a seca, a
caatinga, a esperança de chuva, minha fala nordestina e muitos maneirismos dos meninos do interior do sertão e isso será, provavelmente, minha contribuição à diversidade cultural de Plum Village.

Agradeço a todos e todas que torceram por mim, direta ou indiretamente, ou que simplesmente se alegraram por saber que há um pedaço de Brasil nesta grande comunidade.

samuel / pháp giang

. Ler mais:
- Qual o Significado de Jukai?
Qual o Significado de Shukke Tokudo?
- Qual o Significado de Shuso?
- Qual o Significado de Hossenshiki?
- Ordenação Monástica
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu (texto reproduzido do antigo site do Zendo Brasil, sobre a prática Leiga e a Ordem Monástica de nossa escola)

Angô nos Estados Unidos

janeiro 6, 2010 at 5:55 pm | In Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

Na escola Soto Zen Shu do Japão, um dos prerequisitos para um monge-em-treinamento (“unsui”) poder, depois de receber a Transmissão de Darma de seu professor, obter reconhecimento formal como “Oshô” (monge formado) e “Sensei” (professor do darma) desta tradição é a sua participação em dois ou mais “Angôs” (períodos de treinamento intensivo) oficiais.

Até recentemente, era necessário ir até o Japão para fazer estes Angôs (tradicionalmente de três meses cada) em mosteiros oficiais japoneses, com todos os desafios de língua, barreiras culturais, distância, etc.

No dia 15 de dezembro, foi dado início ao primeiro Angô oficial nos Estados Unidos, sob a liderança do Superintendente (Sôkan) para América do Norte, Gengo Akiba Roshi, com uma equipe de 20 professores vindos de todo o mundo. O retiro está sendo realizado no Yokoji Zen Mountain Center a 2000 metros de altura, nas montanhas de San Jacinto no sul do estado de Califórnia, durante o inverno norte-americano.

Dois monges-em-treinamento brasileiros foram convidados a participar: o monge-aprendiz (Zagen) Genshô Chalegre (da Comunidade Zen Budista de Florianópolis) e a monja-noviça (Jôza) Jishun Morioka (do Templo Busshinji de Rolândia, PR).

. ver mais fotos do angô

. Ler mais:
- Qual o Significado de Jukai?
Qual o Significado de Shukke Tokudo?
- Qual o Significado de Shuso?
- Qual o Significado de Hossenshiki?
- Ordenação Monástica
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu (texto reproduzido do antigo site do Zendo Brasil, sobre a prática Leiga e a Ordem Monástica de nossa escola)

Qual o Significado de Hossenshiki?

novembro 27, 2008 at 7:08 am | In Blogroll, Compaixão Zen Budista, Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Preceitos Budistas, Prática Zen Budista, Qual o Significado, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment
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hossenshiki13Um dos momentos mais marcantes do treinamento de um monge da tradição Soto Zen é a Cerimônia de Combate do Darma (Hossenshiki ). Em alguns lugares esta cerimônia é realizada no início de seu período de treinamento como Shuso (líder dos noviços) e, em outros lugares, é realizado no final do mesmo período.

É a grande cerimônia pública do “unsui” (monge-em-treinamento), pois a Cerimônia de Transmissão do Darma – que, futuramente, finalizará o seu treinamento formal – é uma cerimônia fechada, particular entre o aluno e seu professor de transmissão (Honshi). A Cerimônia de Combate do Darma é uma cerimônia enérgica e dramática, que pode exigir meses de preparação. Até hoje, fico emocionada quando me lembro da minha , em 2003, no mosteiro feminino em Nagoya, Japão. Foi muito forte.

Mas o que significa esta cerimônia? Em primeiro lugar, representa o final da fase do treinamento como “noviço” (jôza) e a transição para o período de treinamento como “monge-aprendiz” (zagen). Corresponde aproximadamente à formatura do seminário de um futuro presbítero (padre) católico. Não são todos os monges-noviços que recebem o convite de ser shuso – nem todos passam para a etapa seguinte. Nem todos se formam no seminário… Geralmente, porém, quem passa pela Cerimônia de Combate do Darma, recebe a Transmissão do Darma, cedo ou tarde…

Geralmente, representa um reconhecimento público do aluno ter aprendido os aspectos “técnicos” básicos – cerimonial e procedimentos de nossa tradição – e significa o aval do professor de que o aluno tenha alcançado um certo nível de compreensão do Darma, mesmo que essa talvez não seja uma compreensão “profunda” ainda… Alguns professores, porém, nomeiam o shuso por antiguidade. Assim sendo, pode haver variações de acordo com a linhagem.

Nesta cerimônia, o shuso, após a recitação do Sutra do Grande Coração da Compaixão, faz – em bom e alto som – a recitação de um caso do Shôyôroku. Em seguida, recebe do Professor de Treinamento (Hôdôshi), o “shippei”, que simboliza a “espada que tira e dá a vida”. Depois de uma fala de abertura, no qual o shuso “desafia” os presentes a questiona-lo, inicia-se um “mondo” (perguntas e respostas sobre o Darma), durante o qual os outros noviços testam a compreensão do Darma do shuso. Este questionamento pode ser feito de uma forma “formal” e memorizada, usando “casos” históricos – neste caso, o Combate do Darma acontecerá num nível sutil, “energético”. Outras vezes, este questionamento pode ser feito de uma forma “espontânea”, sem que o shuso saiba, de antemão, o teor das perguntas que terá que responder. Como havia duas americanas em treinamento no meu mosteiro na época do meu próprio Combate do Darma, pude ter uma experiência com o questionamento “formal” decorado, em japonês clássico, e o questionamento espontâneo, na minha língua materna, o inglês. Vejo grande valor nos dois sistemas. Aqui no Ocidente, vi cerimônias de “combate do darma” que mais pareciam simples “bate-papos agradáveis” e espero que possamos manter a tradição do “combate”. Acho importante que a “energia” de “combate do darma” seja mantida, pois acredito que pode ser valiosa no desenvolvimento do monge-em-treinamento.

Terminado os questionamentos, o shuso devolve o “shippei” e faz uma fala final que encerra o Combate propriamente dito. A Cerimônia é finalizada com as declamações de poemas de congratulações por parte dos presentes e – fotos…

shushentrance03

Como parte deste cerimonial, no dia anterior à Cerimônia, há uma Palestra do Darma. O atendente do professor (“jisha”) leva um “sambo” (suporte cerimonial) com uma cópia do “Shôyôroku” (“Livro da Serenidade”) até o professor para que este inicie uma Palestra do Darma. Neste momento, o professor formalmente convida o aluno a dar a palestra no seu lugar e o “sambo” é levado até o Shuso, que fará a palestra. No meu caso, porém, não foi possível eu dar qualquer palestra, pois não falava Japonês suficientemente bem. Assim sendo, a Aoyama Roshi deu esta palestra “no meu lugar”. Guardo, com muito carinho, uma foto mostrando eu, depois de receber o “sambo”, o entregando a Aoyama Roshi. Ela, vendo as minhas anotações (a minha “cola”) em “romaji” (letra ocidental), sorriu – e eu sorri de volta – num momento de carinho e cumplicidade… Agradeço este (entre tantos outros) gesto de compaixão desta grande Roshi, a minha Professora de Treinamento (“Hôdôshi”).

Para este cerimonial (a Palestra de Darma e Hossenshiki), o Shuso veste uma faixa branca na parte superior de seu Kesa (manto de Buda) e na parte interior das mangas de seu “koromo”.

Terminado o seu período como noviço-líder (shuso), ainda é um monge-em-treinamento (“unsui” – nuvem-água) mas já é um “sempai”, um veterano, apto a começar o seu treinamento de liderança, inicialmente orientando os noviços e, futuramente, possivelmente, passando a liderar grupos de prática, sob a supervisão de seu professor.

O seu registro como monge-em-treinamento (“unsui”) na Escola Soto Zen (Soto Shu), que tinha um prazo de validade de 10 anos até então, passa a ser um registro definitivo (ainda como monge-em-treinamento) no final do período de treinamento monástico, e, geralmente, corresponde aproximadamente ao término da fase de shuso.

O “unsui” ainda está no meio do caminho de seu treinamento. É um “sempai”, um veterano, mas ainda usa o Kesa preto de monge-em-treinamento…

. Assistir parte de uma cerimônia de Combate do Darma no Japão (em japonês – mesmo assim dá para entender muita coisa do espírito e energia da cerimônia)

. Assistir ao vídeo da Cerimônia de Hossenshiki de Monge Genshô Chalegre, realizada no dia 17 de outubro de 2008, em Florianópolis:
. Parte 1:

. Assistir ao parte 2

. Ver fotos da minha cerimônia de Hossenshiki, no Mosteiro Feminino em Nagóia, Japão, no ano 2003.

. Ler mais:
- Qual o Significado de Shuso?
- Qual o Significado de Jukai?
- Qual o Significado de Shukke Tokudo?
- Ordenação Monástica
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu
- Retiro Aberto com Saikawa Roshi em Florianópolis

. Este texto em espanhol no site Mas que Palabras

Qual o Significado de Shuso?

novembro 5, 2008 at 10:54 am | In Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Qual o Significado, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment
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Após algum tempo de treinamento (em média, três anos de treinamento intensivo junto com o professor de ordenação ou num mosteiro), o monge-noviço (jôza) pode ser convidado a se tornar “shuso” (noviço-líder) durante um período de treinamento intensivo (angô), que dura, geralmente, três meses. Este período se inicia com uma cerimônia de “Entrada de Shuso”, quando o novo “shuso” expressa formalmente o seu sentimento de inaptidão para tomar este passo.

Primeira fase da Cerimônia de Entrada como Shuso - Monja Isshin - Mosteiro Feminino em Nagoya, Japão - 2003

Durante o angô, o shuso é encarregado de várias funções, que incluem tocar o sino de despertar todo dia de manhã (assim, é o primeiro dos noviços a se levantar de manhã – mas não é incomum alguns professores ou instrutores se levantarem mais cedo ainda …). O seu samu é de limpar os banheiros. Sim, a tarefa da limpeza dos banheiros é reservado para quem ocupa o cargo mais elevado entre os noviços…

Um noviço torna-se “shuso” por indicação do professor – depois que tenha aprendido o essencial dos procedimentos e cerimonial Soto Zen e quando o professor acredita que o aluno tenha atingido um determinado nível de compreensão do Darma – para poder “defender” o Darma num “combate”.

Alguns professores, porém, nomeiam o shuso por antiguidade. Portanto, pode haver variações de acordo com a linhagem.

Nos mosteiros, tradicionalmente são realizados dois angôs por ano. Isto significa que somente duas pessoas podem se tornar “shuso” por ano. Assim, é uma grande honra ter a oportunidade de treinar como “shuso” num mosteiro como Eihei-ji ou Soji-ji, e ser líder de aproximadamente 200 noviços. É mais frequente que o noviço faça o seu treinamento como “shuso” no templo de seu professor de treinamento (que pode ser o seu professor de ordenação ou pode ser um outro professor com que é criado um relacionamento.)

O ponto alto do período como “shuso” é a Cerimônia de Combate de Darma, chamada Hossenshiki.

. Ler mais:
- Qual o Significado de Jukai?
- Qual o Significado de Shukke Tokudo?
- Ordenação Monástica
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu
- Retiro Aberto com Saikawa Roshi em Florianópolis

Qual o Significado de Shukke Tokudo?

outubro 31, 2008 at 3:17 pm | In Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Preceitos Budistas, Prática Zen Budista, Qual o Significado, Vídeo, Zen Budismo em Porto Alegre | 1 Comment
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A Cerimônia da Ordenação Monástica Soto Zen, Shukke Tokudo (出家得度), representa o momento quando um praticante leigo torna-se monge-noviço ou monja-noviça (Jôza 上座) e entra na primeira fase de seu treinamento, se preparando para cumprir o papel social de sacerdote.

Mas qual o significado de Shukke Tokudo? Para que alguém torna-se monge?

Os ideogramas chineses (kanjis) para “tokudo” (得度) significam “obter a travessia”, ou “entrar no caminho para a outra margem” – a travessia para a outra margem, que é a Iluminação, e os kanjis para “shukke” (出家) significam “sair do lar”. Assim, “shukke tokudo” significa “obter a travessia, saindo do lar, deixando os laços familiares”, enquanto que o “zaike tokudo” significa “obter a travessia, ficando no lar”.

Representa uma mudança na prioridade da vida do indivíduo. E qual é esta nova prioridade?

Tenho ouvido muitas pessoas afirmarem que a prioridade do monge deve ser o “servir os outros” ou “servir o Darma”. Tenho visto muitas pessoas buscarem a ordenação “para se tornar alguém”, “para ganhar um título, uma posição social”, “para salvar pessoas”. Tudo isto pode ser muito bonito – e certamente não diria que estaria completamente errado. Mas, se ao iniciar o caminho, o novo monge-noviço pensa demais em “servir os outros”, ele corre o risco de perder o foco correto e desviar a sua prática, por estar assumindo responsabilidades demais e envolvendo-se com tentativas de “servir os outros” cedo demais, antes de realmente estar corretamente preparado para isto. Neste processo, desvia a atenção do seu interior e da busca da realização de sua Natureza Buda. Pode até acabar usando os ensinamentos budistas, mal-interpretados, para justificar e reforçar comportamentos neuróticos. Quantos bons candidatos acabam se perdendo nos jogos do ego condicionado nestas horas.

Quando pesquisamos os sutras clássicos e os ensinamentos de Mestre Dogen, a mensagem é muito clara: nós nos ordenamos monges para buscar a nossa própria iluminação, por um caminho mais fácil que o caminho do praticante leigo, com as suas preocupações com a família e o trabalho profissional. A iluminação é a prioridade do monge-noviço. Isto é verdade, mesmo na tradição Mahayana, com os Quatro Votos dos Bodisatva – servir e libertar os outros vem depois – depois que tenhamos atingidos algum nível de realização, depois da nossa própria libertação (mesmo que parcial), depois que tenhamos condições de servir os outros com Sabedoria e Compaixão – e a confirmação deste fato por parte dos nossos professores. Primeiro, temos que nos preparar adequadamente.

Portanto, ao receber a ordenação, o candidato torna-se um noviço – um monge-noviço, um estudante – um estudante do Darma, cultivando sua própria iluminação. Ao “deixar o lar”, a sua prioridade não é mais sua família, suas amizades, sua casa, seu trabalho profissional – a sua prioridade absoluta é o cultivo de sua própria mente, sua própria realização do Caminho. Isto é o significado de tornar-se monge-noviço (ou monja-noviça). Não significa, se for casado, que tenha que abandonar o casamento, mas significa, sim, que deve assumir a mudança de prioridade – por isso, na cerimônia de ordenação, são feitas reverências aos pais e familiares, se “despedindo”. Veste agora o manto preto do monge-em-treinamento (o “kesa” preto do “unsui”).

Nas condições ideais, ao receber a ordenação, o monge-noviço entra na fase do treinamento de “calar a boca e limpar o chão”, um período onde é permitido muito pouco contato com o público em geral (quanto menos “aparecer”, melhor) e todo o seu esforço é canalizado em sentar em zazen, praticar o samu (trabalho ou atividade diária) e observar, escutar, perceber – aprender com o corpo e o coração. É o tempo de aprender a fluir, como “unsui” – nuvem-água – que vai onde o vento o leva e se adapta a qualquer recipiente. Para nós ocidentais, se pudermos fazer parte de nosso treinamento num mosteiro oficialmente reconhecido como mosteiro de treinamento, este também pode ser um tempo incrível de aprender a ser simplesmente parte de um grupo – integrado com o grupo – sem qualquer aspecto de querer “ser especial” ou de “ser diferente” – algo quase inconcebível depois de todo o nosso condicionamento cultivando a nossa “individualidade”.

Este treinamento deve ser feito em íntimo convívio com o professor. Isto é a tradição, desde a época de Buda. Na tradição Teravada, o noviço deve morar junto com o seu professor durante um mínimo de cinco anos e, na tradição Soto Zen, não é muito diferente. Infelizmente, aqui no Ocidente, temos muitos noviços que raramente têm a oportunidades de passar mais que alguns poucos dias periodicamente na convivência direta com os seus professores. Isto é uma coisa triste, pois, muitos destes noviços, apesar de toda a sua boa vontade e esforço, acabam desenvolvendo uma espécie de “Budismo-achismo”, baseado mais nas suas próprias interpretações de livros que na prática real e na transmissão dos ensinamentos diretamente de um professor de carne e osso. Tenho encontrado versões de “budismo-hippie”, “budismo-nova era”, “budismo-espirita”…

Tudo isto faz parte da transmissão de uma cultura para outra – quando olhamos a história do budismo, vemos que o processo da transmissão dos ensinamentos da Índia para a China também passou por muitas dificuldades e levou séculos – sim, séculos – para o Budismo se enraizar, se adaptar à nova cultura, e para ficarem clarificadas as distinções entre o Budismo e as religiões-filosofias nativas chinesas, o Taoismo e o Confucionismo. Aqui no Brasil, estamos muito no começo deste processo. Vamos passar por nossas dificuldades, mal-entendidos e confusões. Mas, desde que haja uma única pessoa que tenha compreendido o Darma para continuar a transmissão (e já temos várias pessoas com essa compreensão aqui no Brasil!), o Budismo continuará a crescer no país do verde e amarelo.

. Ouvir a orientação dada pelo Saikawa Roshi, Superintendente Geral da Escola Soto Zen na América do Sul, ao final da (re)ordenação monástica do chileno Meiyô Vargas realizada durante o Retiro Aberto em Florianópolis no dia 17 de outubro de 2008.

. Assistir o vídeo de uma cerimônia de Ordenação Monástica no Japão (em japonês), mostrando o momento em que o Professor de Ordenação, representando o próprio Buda, raspa a parte final do cabelo do candidato – chamado de “shura” – que somente um Buda pode raspar.

. Ler mais:
- Qual o Significado de Jukai?
- Ordenação Monástica
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu
- Retiro Aberto com Saikawa Roshi em Florianópolis

Este artigo em espanhol no blog Mas que Palabras

Qual o Significado de Jukai?

outubro 28, 2008 at 11:11 am | In Meditação em Porto Alegre, Preceitos Budistas, Prática Zen Budista, Qual o Significado, Zen Budismo em Porto Alegre | 2 Comments
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Qual o significado da Cerimônia da Transmissão dos Preceitos para Leigos (Jukai ou Zaike Tokudo)?

Nesta cerimônia, o praticante leigo do Zen Budismo assume formalmente seu voto de orientar sua vida de acordo com os Dezesseis Preceitos do Bodisatva. Neste momento, também assume um relacionamento com o Professor dos Preceitos e entra formalmente na “Família de Buda” (a Sanga), que, desde a época de Buda, é composta de quatro grupos: os monges, as monjas, os praticantes leigos e os praticantes leigas.

Não é uma ordenação – assim sendo, procuramos evitar o termo “leigo ordenado”, apesar do fato deste termo ter caído no uso comum no Ocidente. Os kanjis (ideogramas chineses) que formam o termo “zaike” (在家) significam “ficar no lar” e os kanjis para “tokudo” (得度) significam literalmente “obter a travessia”, ou “entrar no caminho para a outra margem” – a travessia para a outra margem, que é a Iluminação. Corresponde aproximadamente à confirmação católica ou o batismo protestante e não possui qualquer significado de “colação de grau” ou de algum tipo de “formatura”, nem confere qualquer tipo de “autorização” especial. O termo “monge leigo” definitivamente não existe, por ser uma contradição de termos.

No Japão, raramente é feito qualquer tipo de “curso dos preceitos”, e é por isso que, frequentemente, os Mestres Japoneses realizam a Cerimônia de Transmissão dos Preceitos Leigos para os seus alunos ocidentais sem exigir este pré-requisito. Aqui no Ocidente, porém, devido às diferenças quase inimagináveis entre a cultura Japonesa e a nossa cultura ocidental e as más-compreensões (e até escândalos) que surgiram como resultado, numerosos professores ocidentais de darma já estão exigindo o estudo do significado dos preceitos budistas, em cursos que variam de duração entre 6 semanas até um ano ou mais.

Durante a cerimônia, depois de afirmar três vezes o seu voto de seguir os Preceitos do Bodisatva, o praticante recebe o rakusu (possivelmente costurado por ele mesmo) assinado no verso pelo professor dos preceitos, um nome do darma e, possivelmente, um documento de “linhagem” simbolizando sua entrada na “Família de Buda”.

Dentro de seu grupo de prática, depois de receber o seu rakusu, o praticante geralmente passa a assumir um papel de “monitor”, ajudando a dar as orientações básicas às pessoas mais novas. Mesmo assim, sua prática deve sempre ser voltada para o aprofundamento de sua própria prática, o cultivo de sua própria mente e a caminhada em direção à Iluminação.

. Ouvir a gravação do grupo de praticantes fazendo seus votos com o Saikawa Roshi na cerimônia de Transmissão dos Preceitos realizada no dia 16 de outubro em Florianópolis

. Ler mais:
. A Ordem Monástica da Escola Soto Shu
. Retiro Aberto com Saikawa Roshi em Florianópolis

Este artigo em espanhol no blog Mas que Palabras

Ordenação Monástica

outubro 19, 2007 at 4:09 pm | In Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Preceitos Budistas, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | 2 Comments

Recentemente, ganhei três novos Irmãos do Darma. A minha família monástica cresceu, pois “nasceram” três “bebês-buda”. Dorin Bresser, Dengaku Bandeira e Waho Degenszajn. Que felicidade! Quão auspicioso para o futuro do Zen Budismo no Brasil! Qual o significado dessa Ordenação Monástica?

Fizeram os votos de dedicar suas vidas ao serviço do Darma, à prática Zen Budista, ao cultivo da Iluminação, da Paz e Tranqüilidade, da Sabedoria e Compaixão. Fizeram os votos de servir a Comunidade, de renunciar os interesses próprios, de orientar suas vidas de acordo com os Preceitos do Bodisatva, de treinar sob a orientação da professora de ordenação, a Monja Coen. Deixaram de ser praticantes leigos e tornaram-se noviços, monges-noviços. Passaram pela cerimônia chamado “shukke tokudo”. “Shukke” significa ‘sair de casa’ e “tokudo” significa ‘alcançar o Caminho’, ‘entrar no caminho para a outra margem’, ‘obter a travessia’, ‘confrontar a “Grande Questão do Nascimento e Morte”‘. Renovaram os Votos de Bodisatva que fizeram na cerimônia de Transmissão dos Preceitos para Leigos, agora como monges-noviços.

Tornaram-se ‘unsui’ – nuvem-água – indo e vindo com a leveza da nuvem sem estar preso a nada ou ninguém com a fluidez da água que se adapta a qualquer recipiente mas que tem a força de vencer qualquer rocha. Como ‘unsui’ (monge-em-treinamento) devem passar pelas etapas de monge-noviço (jôza), líder dos noviços (shuso, fazendo Hossenshiki – Combate ao Darma) e monge-aprendiz (zagen), até se formarem como monge (oshô, recebendo Shihô, Transmissão do Darma).

Estão iniciando uma caminhada longa. Não é fácil o confronto consigo mesmo. Não é fácil liberta-se do ego e das opiniões. Não é fácil o treinamento de mosteiro. Pode ser que passem por momentos de grande solidão, que atravessam a ‘noite escura da alma’.

Mesmo assim, é uma caminhada maravilhosa, que vem sendo trilhada por monges e monjas há 2.600 anos – o Caminho da Libertação.

Como em toda família, às vezes os irmãos briguem entre si. Mas nem por isso deixam de sentir amor um pelo outro. Espero que, em nossa família, possamos ter poucas brigas, muita paz e muita alegria.

Quero que esses, meus irmãos mais novos, saibam que podem sempre contar comigo. Farei tudo para ser uma boa “sempai”.

Nota: para mais informações sobre a prática Leiga e a Ordem Monástica de nossa escola, veja a reprodução deste texto do antigo site do Zendo Brasil: A Ordem Monástica da Escola Soto Shu.

Veja fotos da Ordenação da Monja Wahô (do site Zendo Brasil)

Com os meus votos de grande harmonia e paz.

Gassho

Conteúdo

setembro 24, 2007 at 12:20 am | In Uncategorized | 4 Comments

Índice: Esta é uma lista dos textos deste blog:

Dezembro, 2009

Vídeo: Cerimônias no Templo Busshinji

November, 2009

Cerimônias no Busshinji

Casamento Zen Budista em Porto Alegre

Outubro, 2009

O Corretivo

Qual o significado de Samu?

Falecimento: John Daido Loori, Roshi

Desejo

Daido Loori, Roshi – Doença

Setembro, 2009

Cerimônias no Templo Busshinji em novembro

Vídeo: Entrevista sobre Baika

Vídeo: Asagohan

Agosto, 2009

Respeito Religioso

O rigor da prática Budista

Vídeo: Chuva

A luz do corpo

Vídeo: Zen, a Vida de Mestre Dogen (trailer)

Hiroshima e Nagasaki

Julho, 2009

Sumi-e Fotográfico

Quando me amei de verdade (adaptação)

Vídeo: O Chamado

Junho, 2009

Vídeo: A Partida

Cerimônia de Acolhida de Criança na Família

Últimas palavras

Maio, 2009

Vídeo: Sonho do Último Dia

38º Gasshuku de Karate-do Dojinmon

Abril, 2009

Zen e Aikidô

Vídeo: Sakura

Março, 2009

Encontro Budô – Tigre Coreano

Vídeo: Samsara

1º Budô Tigre Coreano 2009

Fevereiro, 2009

Em Busca do Espiritual – Entrevista do Jornal Aquarius

Palestra na Livraria Cultura – Convite

Unidos, somo fortes; divididos, enfraquecemos (1)

São Paulo: Zazen no Hospital e na Praça

Janeiro, 2009

Shiksha: Sistema de Treinamento

Mosteiro Morro da Vargem Atingido pelas Chuvas

Palestra ZenSurf

Vídeo: As religiões – todas transmitem os mesmos valores

Nota de Falecimento: Nissim Cohen

Mesa Redonda Interreligiosa: 108 Horas de Paz

Dezembro, 2008

Vídeo: O Poder do Agora

Vídeo: Montando o Touro – A Mente

Novembro, 2008

Qual o Significado de Hossenshiki?

Zen e o Surfe

Zazen no Hospital – São Paulo

Curso Online – Originação Dependente

Qual o Significado de Shuso?

Outubro, 2008

Qual o Significado de Shukke Tokudo?

Qual o significado de Jukai?

Vídeo: Aikidô é uma arte marcial com uma proposta diferente

Setembro, 2008

Vídeo: Imigração Japonesa – Cem Anos

Vídeo: Centenário da Imigração Japonesa – Porto Alegre

Vídeo: Imigração Japonesa

Vídeo: Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil – RS

agosto, 2008

Palestra-Vivência no Espaço Semear

Koshukai de Integração – RS Aikikai

Netetiqueta (1)

Trecho do Livro “A Lição Final”

Vídeo: Hiroshima e Nagasaki

julho, 2008

Vídeo: Randy Pausch – A Última Aula

A Monja na Revista Digital Ehlas

Vídeo: Descubra o que a Ciência Chama de Cérebro Moral

Vídeo: Ensaio sobre a Cegueira

Incêndio ameaça o mosteiro Zen mais antigo das Américas

Palestra no Colégio Saint-Exupéry

Retiro com Saikawa Roshi em Florianópolis

Seleção de Voluntários para Pesquisa sobre Efeitos da Prática Intensiva de Meditação na Atividade Cerebral

junho, 2008

Início de Atividades – Sanga Aikikai

maio, 2008

I Simpósio Internacional de Medicinas Tradicionais Indiana e Tibetana e de Práticas Contemplativas

Milho de Pipoca

Cerimônia de Benção do novo Dojo RS Aikikai

Foto: Debate Público sobre a Questão Tibetana

Sobre o Debate Público em Prol do Tibet – RJ

Relatório: Debate Público sobre a Questão Tibetana

Debate Público sobre a Questão Tibetana

Brasil pela Birmania

Entrevista: Compaixão é sentir com amor

abril, 2008

Centenário da Imigração Japonesa

Vídeo: Só por Hoje!

A vida é uma grande rede – Revista Diálogo

Vídeo: Jogos Olímpicos – Estilo Kasou Taishou

março, 2008

Vídeo: Flor da Cerejeira

Vídeo: Celebrando a Flor da Cerejeira

Tibete: Vídeo e Petição

Vídeo: Uma flor única do Mundo

Capital do Tibete é fechada

Mandamentos do Consumo – Frei Beto

Galeria de Arte Moderna Hirshorn

fevereiro, 2008

ZenSurf

Vídeo: Imagens de Budismo

O Cachorrinho que faz Gassho

Curso Introdutório – Rio de Janeiro

Entrevista na TV Com

janeiro, 2008

Vídeo: Monja Coen fala sobre a paciência

Reportagem: O inimigo sou eu

Soto Zen Budismo de Luto

Reportagem sobre Costura Budista

dezembro, 2007

A Ordem Monástica da Escola Soto Shu

Seminário de Aikido

novembro, 2007

Onde estarão os monges de Mianmar?

Surfar as Ondas da Vida

outubro, 2007

Coral Koyasan Kongoryu do Japão

Retiro de Karate-dô e Zen (XXXV Gasshuku Regional)

Exposição César Pires

Evento para Myanmar, no Busshinji

Evento contra a Opressão em Myanmar

Ordenação Monástica

Cerimônia de Ascensão à Montanha de Monja Coen

Vídeo: Mude o seu Pensamento, Mude o seu Mundo: A Mosca

setembro, 2007

Retiro de Costura de Rakusu em Curitiba

Padrões Repetitivos

A Mentira Passiva

agosto, 2007

A Mente que Mente

Comunicação Trans-cultural

Ansiedade

Cortar despesas

julho, 2007

A Prática de Gratidão

junho, 2007

A Cultura de Oposição

Zazenkai – Dia de Reflexão

A Noite Escura da Alma

O Ego

O Barro

Torcer Contra?

Raiva – o que você faz com a sua?

Fotos da Cerimônia de Combate de Darma

Arrependimento

Silêncio

As Três Peneiras e Palavras Medicinais

Harmonia a Qualquer Custo

Dor, Sofrimento e Resistência à Prática

O Rei Dragão e A Face Irada de Kanon

Quando o Aluno…

maio, 2007

Minha Mestra

Mestre Ikkyu

O Amigo Espiritual

Sensei

Os Preceitos

junho 12, 2007 at 8:20 pm | In Uncategorized | 8 Comments

Apresento o vídeo de uma cerimônia de Transmissão dos Preceitos para Leigos e algumas versões dos Preceitos do Bodisatva, de acordo com as tradições Mahayana e Zen:

Sutra da Rede de Brama
Código Moral dos Bodhisattvas

IV. Os Dez Preceitos Maiores

Buda disse aos seus discípulos, “Existem dez preceitos Prātimoksa (maiores) de Bodhisattva. Se alguém recebe os preceitos mas não os recita, não é um Bodhisattva nem uma semente do estado Buda. Também eu recito estes preceitos. Todos os Bodhisattvas os estudaram no passado, os estudarão no futuro e os estudam agora. Seguidamente explicarei as características principais dos preceitos de Bodhisattva. Deveis estudá-los e observá-los de todo o coração.”

1. Primeiro Preceito Maior: Não Matar

Um discípulo de Buda não deve matar, encorajar outros a matar, matar por expedientes, louvar o ato de matar, rejubilar-se ao presenciar o ato de matar ou matar mediante encantamentos ou mantras desviantes. Não deve criar as causas, condições, métodos ou karma de matar e não deve matar intencionalmente qualquer criatura viva.

Enquanto discípulo de Buda, deve desenvolver uma mente compassiva e filial, procurando sempre meios hábeis para salvar e proteger todos os seres. Se, pelo contrário, falha em se restringir, tirando prazer cruel em matar, comete uma ofensa Pārājika (maior).

2. Segundo Preceito Maior: Não Roubar

Um discípulo de Buda não deve roubar, encorajar outros a roubar, roubar por expedientes, roubar mediante encantamentos ou mantras desviantes. Não deve criar as causas, condições, métodos ou karma de roubar. Nenhum valor ou bem, mesmo pertencente a fantasmas, espíritos ou ladrões, seja ele pequeno como uma agulha ou uma erva, pode ser roubado.

Enquanto discípulo de Buda, deve desenvolver uma mente misericordiosa, compassiva e filial – ajudando sempre as pessoas a obterem méritos e virtudes e a alcançarem felicidade. Se, pelo contrário, ele rouba o que pertence a outros, comete uma ofensa Pārājika.

3. Terceiro Preceito Maior: Não Manter Condutas Sexuais Impróprias

Um discípulo de Buda não deve envolver-se em atos licenciosos ou encorajar outros a fazê-lo. [Enquanto Monge] não deve ter relações sexuais com nenhuma fêmea – seja ela humana, animal, divindade ou espírito – nem criar as causas, condições, métodos ou karma dessa má conduta. Além disso, não deve envolver-se em conduta sexual imprópria com ninguém.

Um discípulo de Buda deve ter uma mente filial, salvando os seres e instruindo-os no Dharma da pureza e castidade. Se, em vez disso, é desprovido de compaixão e encoraja outros a se envolverem em condutas sexuais impróprias, ou envolve-se promiscuamente com alguém, incluindo animais ou mesmo a sua mãe, filha, irmã ou outros parentes próximos, comete uma ofensa Pārājika.

4. Quarto Preceito Maior: Não Mentir Nem Falar com Falsidade

Um discípulo de Buda não deve usar palavras ou expressões falsas, nem encorajar outros a mentir ou mentir mediante expedientes. Não deve envolver-se nas causas, condições, métodos ou karma de mentir, dizendo ter visto o que não viu ou vice-versa, ou mentindo implicitamente mediante meios físicos ou mentais. Como discípulo de Buda deve manter sempre a Fala Correta e o Ponto de Vista Correto e levar os outros a mantê-los também. Se, em vez disso, conduz os outros a um discurso errôneo, a pontos de vista errôneos ou mau karma comete uma ofensa Pārājika.

5. Quinto Preceito Maior – Não Vender Bebidas Alcoólicas

Um discípulo de Buda não deve negociar bebidas alcoólicas ou encorajar os outros a fazê-lo. Ele não deve criar as causas, condições, métodos ou karma de vender qualquer substância tóxica, porque os tóxicos são a fonte de todos os tipos de ofensas.

Enquanto discípulo de Buda, deve ajudar todos os seres a alcançar sabedoria clara – se em vez disso os induz a um pensamento perturbado e turvo, comete uma ofensa Pārājika.

6. Sexto Preceito Maior: Não Veicular as Faltas da Assembléia

Um discípulo de Buda não deve veicular as faltas ou infrações de Bodhisattvas ordenados ou leigos, nem de monges e monjas comuns, nem encorajar outros a fazê-lo. Não deve criar as causas, condições, métodos ou karma de discutir as faltas da assembléia.

Enquanto discípulo de Buda, sempre que ouça pessoas malévolas, não-Budistas ou seguidoras dos Dois Veículos falarem de práticas contrárias aos preceitos no seio da comunidade Budista, deve instruí-los com mente compassiva e levá-los a desenvolver uma fé sadia no Mahāyāna. Se, em vez disso, discute as faltas e más ações que ocorram no seio da assembléia, comete uma ofensa Pārājika.

7. Sétimo Preceito Maior: Não Se Louvar Depreciando os Outros

Um discípulo de Buda não deve louvar-se e falar mal dos outros ou encorajar outros a fazê-lo. Não deve criar as causas, condições, métodos ou karma de se louvar a si mesmo e depreciar os outros.

Enquanto discípulo de Buda deve estar disposto a se sacrificar por todos os seres e a suportar humilhações e calúnias – aceitando censuras e deixando que os outros seres recebam toda a glória.

Se, em vez disso, exibe as suas virtudes e encobre os aspectos positivos dos outros, fazendo desse modo com que sofram calúnias, comete uma ofensa Pārājika.

8. Oitavo Preceito Maior: Não ser Avarento Nem Abusivo

Um discípulo de Buda não deve ser avarento nem encorajar outros a sê-lo. Não deve criar as causas, condições, métodos ou karma da avareza. Enquanto Bodhisattva, sempre que uma pessoa necessitada pede ajuda, deve dar-lhe o que quer que ela precise. Se, em vez disso, com raiva e ressentimento, lhe nega toda a assistência – recusando-se a ajudar ainda que com apenas um centavo, uma agulha ou uma erva, mesmo que com uma sentença ou verso ou uma letra do Dharma, mas em vez disso, censura e insulta essa pessoa – comete uma ofensa Pārājika.

9. Nono Preceito Maior: Não Alimentar Raiva e Ressentimento

Um discípulo de Buda não deve acolher o sentimento de raiva ou encorajar outros a se enfurecer. Não deve criar as causas, condições, métodos ou karma da raiva.

Enquanto discípulo de Buda, deve ser compassivo e filial, ajudando todos os seres a desenvolverem boas raízes de não-confrontação. Se, em vez disso, insulta e desrespeita os seres, mesmo seres de transformação [tais como divindades ou espíritos] com palavras rudes, agredindo-os com o punho ou com o pé, com uma faca ou com um pau – ou guarda rancor mesmo depois de a vítima confessar os seus erros e pedir perdão com uma voz doce e conciliatória – o discípulo comete uma ofensa Pārājika.

10. Décimo Preceito Maior: Não Caluniar as Três Jóias

Um discípulo de Buda não deve falar mal dos Três Tesouros ou encorajar outros a fazê-lo. Não deve criar as causas, condições, métodos ou karma da calúnia. Se um discípulo ouve ainda que uma só palavra de calúnia contra Buda, proferida por não-Budistas ou seres malévolos, experimenta uma dor semelhante à de trezentas setas a trespassarem o seu coração. Como pode então ser possível ele mesmo caluniar as Três Jóias?

Assim, se um discípulo é desprovido de fé e de sentimentos filiais e ajuda pessoas malévolas ou com noções aberrantes a caluniar os Três Tesouros, comete uma ofensa Pārājika.

. Fazer o download do texto completo do Sutra da Rede de Brahma (incluindo os 48 Preceitos Menores)

Shushôgi – O Significado da Prática e Verificação
- Mestre Eihei Dôgen
Capítulo III – Ordenação e Iluminação

Os Três Refúgios:

“Refugiamo-nos em Buda.
Refugiamo-nos na Lei.
Refugiamo-nos na Comunidade Budista.

Refugiamo-nos em Buda porque ele é nosso grande mestre.
Refugiamo-nos na Lei porque é bom remédio.
Refugiamo-nos na Comunidade Budista porque é composta de excelentes amigos.”

[...]

“… os Três Preceitos Puros.

O primeiro é o de não fazer o mal;
o segundo de fazer o bem e
o terceiro de conferir abundantes benefícios a todas criaturas vivas”.

“Então aceitamos as dez grandes proibições:
- não matar;
- não roubar;
- não praticar atos sexuais impróprios;
- não mentir;
- não se intoxicar;
- não falar dos erros alheios;
- não se elevar nem rebaixar outros;
- não ser mesquinho com o Darma ou com bens materiais;
- não ser levado pela raiva;
- não falar mal dos Três Tesouros”.

. Ler o texto completo do Shushôgi

Zen Mountain Monastery, Daido Loori Roshi
(tradução: Monja Isshin)

1. Afirmar a vida. Não matar.
2. Ser doador. Não roubar.
3. Honrar o corpo. Não abusar da sexualidade.
4. Manifestar a verdade. Não mentir.
5. Proceder com clareza. Não entorpecer a mente.
6. Enxergar a perfeição. Não falar dos erros e falhas dos outros.
7. Manifestar que o próprio ser e os outros são Uno. Não se elevar e culpar os outros.
8. Doar generosamente. Não ser avarento.
9. Atualizar a harmonia. Não ser raivoso.
10. Experienciar a intimidade das coisas. Não difamar os Três Tesouros.

Os Dez Preceitos Graves
Adaptação da versão de Robert Aitken Roshi
(tradução: Monja Isshin)

1. Não matar
2. Não roubar
3. Não abusar da sexualidade
4. Não mentir
5. Não oferecer nem tomar drogas
6. Não discutir as falhas dos outros
7. Não elogiar a si mesmo e abusar dos outros
8. Não ser mesquinho com os recursos do Darma
9. Não ser indulgente com a raiva
10. Não difamar os Três Tesouros

Código de Ética do Centro Zen de Rochester
(Tradução: Francisco Scherer; Revisão: Giovanni Kakugen)

B. Os Três Refúgios

Os três refúgios representam a fundação e a orientação de nossas vidas como seguidores do Caminho de Buda.

1. Eu tomo refúgio no Buda. Ao tomar refúgio no Buda, nós reconhecemos a Natureza Búdica de todos os seres. Embora haja diferentes níveis de autoridade administrativa e religiosa no Centro Zen, nós reconhecemos que todos nós somos, igualmente, a expressão da Natureza Búdica.

2. Eu tomo refúgio no Dharma. Ao tomar refúgio no Dharma, nós reconhecemos a sabedoria e a compaixão do modo de vida Budista. É através do Dharma que nós exprimimos e tornamos acessíveis os ensinamentos de Buda tal como nos foram transmitidos através da linhagem de nossos professores. O termo “Dharma” é freqüentemente traduzido como “Lei”, e nesta perspectiva nós podemos ver os ensinamentos de Buda como diretrizes para nosso comportamento em todas as áreas de nossas vidas.

3. Eu tomo refúgio na Sangha. Ao tomar refúgio na Sangha, nós reconhecemos o importante papel que a vida comunitária do Centro Zen desempenha na nossa prática. A fim de que a Sangha seja um refúgio, nós aspiramos criar um ambiente inclusivo, com espaço para compreensão e aceitação de nossas diferenças. Ao mesmo tempo, nós trabalhamos para implementar a percepção de que a Sangha e seus membros não são entidades separadas. Uma comunicação aberta e permanente dentro da Sangha é essencial para que seja criado este refúgio. Quaisquer preocupações ou conflitos éticos devem ser integralmente ouvidos e apropriadamente discutidos./

C. As Três Resoluções Gerais

As Três Resoluções Gerais são inseparáveis da prática budista ensinada no Centro Zen. Eles representam a aspiração de qualquer seguidor do Caminho de Buda.

Eu decido evitar o mal. Evitar o mal significa abster-se de dano a si mesmo e aos demais – ou a animais, plantas ou à Terra – por meio de nossos pensamentos, palavras e ações.

Eu decido fazer o bem. Fazer o bem significa agir com base na compaixão e equanimidade de nossa natureza desperta. Como parte de nosso esforço para viver eticamente, nós abraçamos as práticas Mahayanas da confissão, do arrependimento, reparação e reconciliação.

Eu decido libertar todos os seres sencientes. Libertar todos os sencientes significa manifestar a nossa Natureza Búdica para o benefício de todos. Quando nós expressamos a nossa natureza desperta, nós damos aos demais a oportunidade descobrir a sua própria Mente Verdadeira.

D. Os Dez Preceitos Cardinais

Os Dez Preceitos Cardinais são inseparáveis da Natureza Búdica e de nossos relacionamentos.

1. Eu decido não matar, e sim cuidar de toda forma de vida. Este preceito expressa a intenção de viver de forma compassiva e inofensiva, e deriva do reconhecimento da unidade intrínseca de toda existência. Quando compreendido em seu contexto mais amplo, “não matar” também pode ser entendido como não causar dano, especialmente não causar dano ao corpo ou a psique de outro. Violência física e comportamento abusivo (o que inclui ameaças física e demonstrações extremas de raiva e malícia) são vistos como uma forma de “matar”. Conseqüentemente todas as armas de fogo e outras armas projetadas principalmente para tirar a vida não são permitidas dentro dos locais de prática do Centro Zen, e carnes não deverão ser consumidos dentro dos locais de prática do Centro Zen, a menos que tal seja permitido pelo Abade em circunstâncias especiais. Nós também reconhecemos nosso papel, seja diretamente ou em cumplicidade com outros, no aniquilamento de outras formas de vida. Como nós somos uma Sangha, quando questões que incluem o aniquilamento de animais e plantas são levantadas, nós precisamos cuidadosamente considerar as nossas necessidades reais e nossas responsabilidades, para que seja possível trabalhar para o benefício de todos os seres.

2. Eu decido não tomar o que não é dado, e sim respeitar a propriedade alheia. Este preceito expressa o comprometimento de viver com base em um coração generoso, ao invés de viver com base em uma mente ávida. Este comprometimento está baseado na percepção de que, tal como nós somos, nada nos falta. Em um nível pessoal, o comportamento ganancioso prejudica a pessoa que rouba tanto quanto prejudica a pessoa que é vítima do roubo. Em nível comunitário, roubar pode comprometer ou mesmo destruir o ambiente de confiança mútua para a prática Zen. Aqueles que administram os fundos da Sangha ou outros recursos tem a responsabilidade especial de zelar pelos mesmos e impedir o mal-uso deliberado ou a apropriação indébita destes recursos e fundos, uma vez que o mal uso deliberado e a apropriação indébita são, ambos, formas institucionais de roubo (Favor consultar Seções V, Conflitos de Interesse, e VI, Política Financeira, Proibição de Benefício Privado, no texto infra). Em adição, nós reconhecemos que o mal-uso de autoridade e status é uma forma de tomar aquilo que não é dado. Dentro da complexa vida da Sangha, vários níveis hierárquicos de autoridade e anterioridade desempenham uma função em determinadas situações. É particularmente importante que indivíduos em posições de confiança não utilizem a sua autoridade como uma forma de obter privilégios especiais, ou como uma forma de controlar ou influenciar os demais de maneira inapropriada.

3. Eu decido não utilizar mal a minha sexualidade, e sim ser cuidadoso e responsável. Nós reconhecemos que a sexualidade faz parte da nossa prática tanto quanto qualquer outro aspecto das nossas vidas diárias. Reconhecer e honrar a nossa sexualidade é uma forma de criar um ambiente onde relacionamentos conscientes e compassivos podem ser cultivados. Deve ser tomado um cuidado especial quando pessoas de status desiguais ou níveis desiguais de autoridade iniciam uma relação sexual. Em especial, existem duas formas de relacionamento que podem levar a grande dano e confusão. Cada uma destas formas é considerada uma violação deste preceito. Em primeiro lugar, todo adulto que se envolver sexualmente com um menor está incorrendo em comportamento sexual inadequado. Evitar relacionamentos desta natureza é uma responsabilidade exclusiva do indivíduo adulto.

Em segundo lugar, é considerado um mal abuso de autoridade, responsabilidade e sexualidade o envolvimento sexual de um professor do Centro Zen com o seu ou sua estudante. Se um professor e/ou estudante sentir-se em risco de violar esta diretriz, ela ou ela deve suspender o relacionamento professor-aluno e procurar aconselhamento com o Abade do Centro Zen e/ou com o Comitê de Aconselhamento.

Antes de formar um relacionamento sexual com qualquer um que é ou recentemente tenha sido um estudante, qualquer Instrutor, o Responsável pelo Zendo, qualquer Líder Afiliado, ou qualquer outra pessoa em uma posição formal que possa acarretar claras vantagens ou influência sobre outros, deverá discutir com o abade se este potencial relacionamento é adequado e correto. O Abade, antes de formar um relacionamento desta natureza, deverá discutir com o Comitê de Aconselhamento se este é adequado e correto. É também considerado um mal uso da sexualidade o envolvimento sexual de um professor do Centro Zen com um ex-estudante antes do término do prazo de um ano, contado a partir do término do relacionamento professor-estudante.

Um cuidado especial deve ser tomado com novos membros do Centro Zen. Nós acreditamos que um novo membro demora aproximadamente seis meses para estabelecer os fundamentos da sua prática e começar a entender a complexa natureza dos relacionamentos internos da Sangha. A fim de proteger a oportunidade de prática que todo novo membro tem, nós esperamos que qualquer membro com mais de seis meses de prática aja com especial cuidado antes de formar um potencial relacionamento com qualquer pessoa durante os primeiros seis meses da sua participação, como membro, das atividades do Centro Zen.

Qualquer pessoa que vier ao Centro Zen, em qualquer condição, tem o direito de não ser assediado sexualmente. Continuar expressando interesse sexual, após ser informado de que tal interesse não é bem-vindo, também é considerado um mal uso da sexualidade (Ver Seção II, Relacionamentos Bilaterais, e Seção III, Assédio Sexual, no texto infra).

4. Eu decido não mentir, e sim falar a verdade.O preceito “não mentir” é particularmente importante para a vida comunitária de uma Sangha. Apesar de as transgressões éticas poderem envolver qualquer um dos preceitos, muitas dessas dificuldades não surgiriam se não houvesse um elemento de falsidade envolvido. Mentir para si mesmo, para outro ou para a comunidade obscurece a natureza da realidade e cria obstáculos à prática do Budismo. Mentir pode incluir a retenção intencional de informação, meias-verdades, a criação deliberada de falsas impressões, e não corrigir abertamente as mentiras. Uma comunicação aberta e direta é essencial em nosso trabalho e prática comunitária. Nós temos direito à informação completa e direta quando nós solicitamos avaliações sobre nosso comportamento, posição, ou desempenho no seio da comunidade. Com nossa solicitação esperamos que esta informação seja dada com um espírito de honestidade e compaixão. Estudantes no Centro Zen deveriam sentir que eles podem praticar livremente em uma atmosfera de confiança. Os professores e líderes de prática do Centro Zen não devem revelar informação recebida em dokusan, daisan, ou em discussões onde a confidencialidade é solicitada e concedida, a não ser que sério dano possa resultar à indivíduos ou à Sangha se esta informação não for revelada. Mesmo quando não há solicitação específica de reserva, estas informações não devem ser partilhadas casualmente em nenhuma circunstância por nenhuma das pessoas envolvidas na conversação. No contexto do processo de ensinamento, entretanto, consultas entre professores sobre assuntos que não são estritamente confidenciais podem ser apropriadas, particularmente quando membros da equipe de funcionários estão envolvidos. Todos aqueles que se envolverem nestas consultas deverão fazer todo esforço para assegurar que isto é feito de forma sensível, justa e respeitosa.

5. Eu decido manter a minha mente clara, não abusar do álcool ou outros intoxicantes, e nem levar os outros a fazê-lo. A prática budista ocorre dentro de um contexto de consciência e plena atenção, um estado de mente que não é condicionado por tóxicos de nenhum tipo. Quando a claridade é perdida, é muito fácil violar os demais preceitos. Além disso, nós pretendemos que o Centro Zen seja um ambiente que apóie aqueles que estão tentando viver sem tóxicos. Portanto, álcool e intoxicação por drogas no Centro Zen é inapropriado e constitui causa de preocupação e possível intervenção. Quando um membro está envolvido em uso abusivo de drogas ou se torna dependente das mesmas, é importante lembrar-lhe que a liberação de todos os apegos está no coração da prática Budista, e que se espera que ele ou ela busque ajuda dentro e/ou fora da Sangha. Uma vez que a negação dos fatos é freqüentemente um sintoma de dependência, a Sangha é encorajada a ajudar pessoas dependentes a reconhecer a necessidade de auxílio.

6. Eu decido não falar sobre as falhas de outros, mas sim ser compreensivo e solidário. Este preceito deriva de nossos esforços para construir harmonia social e compreensão mútua. Declarações falsas e maliciosas, por sua própria natureza, são atos de alienação que originam-se de uma percepção ilusória de oposição entre “eu” e “outros”. Geralmente a injúria traz como conseqüências a dor para os outros, e a fragmentação para a Sangha. Quando surgir a intenção de injuriar, esforçar-se para compreender as raízes deste impulso já uma expressão deste preceito. E mesmo quando uma afirmação difamatória é consistente com os fatos, aqueles que se engajarem em criticismo gratuito podem ser feridos pela influência negativa que resulta do ato de falar de forma insistente nas falhas de outras pessoas.

7. Eu decido não enaltecer a mim mesmo e desfazer os demais, mas sim superar as minhas próprias limitações.Enquanto que alegrar-se com nossas melhores qualidades e feitos é uma prática Budista consagrada pelo tempo, elogiar a si mesmo ou buscar um ganho pessoal às custas dos demais é uma atitude derivada de uma compreensão equivocada da natureza interdependente do “eu”. No Centro Zen, poderá ser necessário, em alguns casos, criticar a ação de certos indivíduos ou grupos. Quando tal é feito, nós devemos prestar atenção especial aos nossos motivos, ao conteúdo específico do que é dito, a quem é dito, e às potenciais repercussões da crítica.

8. Eu decido não sonegar ajuda espiritual ou material, mas conceder-las gratuitamente quando necessário. Todas os cargos no Centro Zen, incluindo a função de Abade, existem para o apoio da prática e despertar de todos. Nem os recursos do Centro Zen nem qualquer posição dentro do Centro Zen são posse de alguma pessoa específica. Não é apropriado para qualquer um, especialmente um professor, usar seu relacionamento com o Centro Zen para obter vantagem pessoal às custas da Sangha ou de qualquer um de seus membros (Ver Seção V, Conflitos de Interesse, e Seção VI, Política Financeira – Proibição de Benefício Privado, no texto infra). No espírito de desprendimento, grupos de tomada de decisão no Centro Zen devem tomar decisões conjuntas de forma cooperativa, e com um esforço sincero de levar em consideração todos os pontos de vista. É importante que as finanças do Centro Zen, a estrutura do processo de decisão, e as atas dos órgãos mais importantes de decisão sejam disponibilizadas à todos de uma forma acessível e compreensível.

9. Eu decido não me entregar à raiva, mas sim praticar a paciência. O cultivo da má-vontade é um veneno para indivíduos e para a comunidade. Ainda mais corrosivo é o cultivo de idéias de vingança. Os membros da Sangha que estiverem em conflito ou tensão com outros membros ou com qualquer grupo de tomada de decisão do Centro Zen devem tentar resolver estes impasses diretamente em espírito de honestidade, humildade e de amor-bondade. Entretanto, se uma resolução informal não é viável, a mediação deve ser buscada como uma forma de esclarecer a dificuldade.

10. Eu decido não desrespeitar Três Tesouros (Buda, Dharma e Sangha), mas sim nutri-los e sustenta-los. Como os Três Tesouros são inseparáveis uns dos outros, o despertar modela a nossa prática e a nossa vida comunitária, a prática modela a nossa vida comunitária e o nosso despertar, e a vida comunitária modela o nosso despertar e a nossa prática. O desrespeito a qualquer um dos três tesouros acarreta também danos para os outros dois. Reconhecer as nossas transgressões, buscar reconciliação, e renovar o nosso compromisso com os preceitos é o trabalho da Natureza Búdica e a reafirmação nosso lugar na Sangha. Quando a integridade da Sangha é honrada e protegida, os Três Tesouros se manifestam.

Votos dos Fazedores de Paz (Peacemakers) para o Dia de Reflexão
(tradução: Monja Coen, Zendo Brasil)

Eu, ______________ pelo período deste dia, retorno e me abrigo em Buda, a natureza desperta de todos os seres; no Darma, oceano de sabedoria e compaixão, e na Sanga, a comunidade daqueles que vivem em harmonia com todos os Budas e Darmas.

Eu, _______________, pelo período deste dia, me comprometo a não-saber, a fonte de todas as manifestações, e a ver todas as manifestações como ensinamentos do não-saber; e também me comprometo a testemunhar, permitindo-me ser tocado pelas alegrias e dores do universo; convido todos os espíritos famintos a entrarem na mandala do meu ser e dedico toda minha energia e amor na cura de mim mesmo/a, da terra, da humanidade e de tudo que existe.

1. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não-matar; não levando uma vida prejudicial nem encorajando outros a fazê-lo, eu, _______________, com gratidão, pela duração de um dia, reconheço que não estou separado de tudo que é. Viverei em harmonia com tudo que vive e o entorno que o sustenta.

2. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não-roubar, eu, ________________, com contentamento, pela duração de um dia, estarei satisfeito com o que tenho, e livremente darei, pedirei e aceitarei o que é necessário.

3. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de uma conduta casta, eu, _______________, com amor, pela duração de um dia, encontrarei tudo que existe com respeito e dignidade. Eu darei e aceitarei amor e alegria sem apego.

4. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não-mentir, dizendo a verdade e não enganando ninguém, eu, ______________, com honestidade, pela duração de um dia, escutarei e falarei a partir do coração. Verei e agirei de acordo com o que é.

5. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não estarem deludidos, e tampouco encorajarem outros a fazê-lo, eu, ___________________, com consciência, pela duração de um dia, cultivarei uma mente que vê claramente. Abraçarei diretamente tudo que experimentar.

6. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não falar dos erros e falhas alheias, eu, _____________________, com bondade, pela duração de um dia, aceitarei o que cada momento tem a oferecer. Assumirei responsabilidade por todas as coisas na minha vida.

7. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não elevar a si mesmos e rebaixar os outros, eu, _______________, com humildade, pela duração de um dia, direi o que percebo ser verdade sem culpa ou acusações. Darei o melhor de mim e aceitarei os resultados.

8. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não serem avarentos, eu, ___________________, com generosidade, pela duração de um dia, usarei todos os ingredientes da minha vida. Não cultivarei uma mente de pobreza em mim mesmo e em outros.

9. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não ficar com raiva (não ser movido pela raiva) e de não guardar ressentimento, ódio ou vingança, eu, ___________________, com determinação, pela duração de um dia, transformarei sofrimento em sabedoria. Incluirei todas as experiências negativas em minha prática.

10. Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não pensar mal dos Três Tesouros, eu, ___________________, com compaixão, pela duração de um dia, honrarei minha vida como um instrumento para fazer a paz. Reconhecerei a mim mesmo e os outros como manifestações da Unidade, Diversidade e Harmonia.

Os Votos para o Dia de Reflexão do Zen Center de Los Angeles
(tradução: Monja Isshin)

1. Reconhecerei que não sou separado de tudo que é. Esta é a prática de Não-matança. Não levarei uma vida destrutiva, nem incentivarei outros a assim fazer. Viverei em harmonia com todas as formas de vida e com o meio ambiente que lhe dá sustento.

2. Ficarei satisfeito com aquilo que tenho. Esta é a prática de Não-roubo. Livremente darei, pedirei e aceitarei aquilo que for necessário.

3. Tratarei todas as criaturas com respeito e dignidade. Esta é a prática de conduta casta. Darei e aceitarei amor e amizade com desapego.

4. Direi a verdade e não enganarei a ninguém. Esta é a prática de Não-mentira. Falarei a partir do coração. Verei e agirei de acordo com aquilo que é.

5. Cultivarei a mente que enxerga claramente. Esta é a prática de Não Ser Deludido. Não incentivarei que os outros se deludam. Abraçarei todas as experiências diretamente.

6. Aceitarei incondicionalmente aquilo que cada momento oferece. Esta é a prática de Não Falar sobre os Erros e Falhas dos Outros. Assumirei a responsabilidade por tudo na minha vida.

7. Direi aquilo que percebo como sendo a verdade sem culpas ou acusações. Esta é a prática de Não me Elevar e Culpar os Outros. Darei o meu melhor esforço e aceitarei os resultados.

8. Usarei todos os ingredientes da minha vida. Esta é a prática de Não Ser Avarento. Não fomentarei uma mente de pobreza em mim ou nos outros.

9. Transformarei o sofrimento em sabedoria. Esta é a prática de Não Ser Raivoso. Não guardarei ressentimentos, ira ou vingança. Tomarei todas as experiências negativas como parte da minha prática.

10. Honrarei a minha vida como um instrumento da construção da paz. Esta é a prática de Não Pensar Mal dos Três Tesouros. Reconhecerei a mim mesmo e aos outros como manifestações da Unidade, Diversidade e Harmonia.

Zoketsu Norman Fischer Sensei, The Everyday Zen Foundation
(tradução: Monja Isshin)

1. Não matar mas afirmar a vida.
2. Não roubar aquilo que não tenha sido dado, mas receber aquilo que seja oferecido como presente.
3. Não abusar da sexualidade mas ser cuidadoso e leal nos relacionamentos íntimos.
4. Não mentir mas ser verdadeiro.
5. Não se intoxicar com substâncias ou ideologias mas promover a clareza e consciência.
6. Não falar das falhas dos outros mas falar a partir da bondade-amorosa.
7. Não se elogiar às custas dos outros mas ser modesto.
8. Não ser possessivo de qualquer coisa mas ser generoso.
9. Não guardar raiva mas perdoar.
10. Não fazer nada para diminuir os Três Tesouros mas apoiar e nutrí-los.

Sangharakshita
(tradução: Monja Isshin)

1. Comprometo-me no treinamento da abstenção da matança de seres vivos. Com atos de bondade-amorosa, purifico o meu corpo.
2. Comprometo-me no treinamento da abstenção de tomar aquilo que não foi dado. Com generosidade de mãos abertas, purifico o meu corpo.
3. Comprometo-me no treinamento da abstenção de condutas sexuais impróprias. Com quietude, simplicidade e contentamento, purifico o meu corpo.
4. Comprometo-me no treinamento da abstenção da fala falsa. Com a comunicação da verdade, purifico a minha fala.
5. Comprometo-me no treinamento da abstenção da fala áspera. Com palavras bondosas e graciosas, purifico a minha fala.
6. Comprometo-me no treinamento da abstenção da fala frívola. Com a fala harmoniosa e de ajuda, purifico a minha fala.
7. Comprometo-me no treinamento da abstenção da fala difamatória. Com a fala harmoniosa e de ajuda, purifico a minha fala.
8. Comprometo-me no treinamento da abstenção da ganância. Abandonando a ganância em favor da tranqüilidade, purifico a minha mente.
9. Comprometo-me no treinamento da abstenção do ódio. Transformando o ódio em compaixão, purifico a minha mente.
10. Comprometo-me no treinamento da abstenção dos pontos de vista falsos. Transformando a ignorância em sabedoria, purifico a minha mente.

Os Cinco Maravilhosos Treinamentos da Consciência
(anteriormente “Os Cinco Maravilhosos Preceitos”)
Tradição Zen do Mestre Thich Nhat Hanh
- do site “Chung Tao” de Internet

O Primeiro Treinamento da Plena Consciência:
Atento ao sofrimento causado pela destruição da vida, eu me comprometo a cultivar a compaixão e aprender modos de proteger as vidas das pessoas, animais, plantas e minerais. Eu estou empenhado em não matar, não permitir que outros matem, e não tolerar qualquer ato de matança no mundo, seja em meus pensamentos, seja em meu modo de vida.

O Segundo Treinamento da Plena Consciência:
Atento ao sofrimento causado pela exploração, injustiça social, roubo e opressão, eu me comprometo a cultivar o amor pleno e aprender modos de trabalhar pelo bem estar das pessoas, animais, plantas e minerais. Eu me comprometo a praticar a generosidade compartilhando meu tempo, energia e recursos materiais com aqueles que estão em real necessidade. Estou empenhado em não roubar e não possuir nada que deveria pertencer a outros. Eu respeitarei a propriedade alheia, mas procurarei impedir que outros lucrem com o sofrimento humano ou com o sofrimento de outras espécies na Terra.

O Terceiro Treinamento da Plena Consciência:
Atento ao sofrimento causado pela má conduta sexual, eu me comprometo a cultivar a responsabilidade, e aprender modos de proteger a segurança e integridade de indivíduos, casais, famílias e da sociedade. Eu estou empenhado a não me envolver em relações sexuais sem amor e sem um compromisso duradouro. Para preservar a felicidade de mim mesmo e de outros, estou determinado a respeitar meus compromissos e os compromissos alheios. Farei tudo em meu poder para proteger as crianças do abuso sexual, e para impedir que casais e famílias sejam separados devido à má conduta sexual.

O Quarto Treinamento da Plena Consciência:
Atento ao sofrimento causado pela fala imprópria e pela inabilidade de escutar aos outros, eu me comprometo a cultivar a fala amorosa e a escuta atenciosa, de modo a trazer alegria e felicidade para os outros e assim aliviá-los de seu sofrimento. Sabendo que as palavras podem criar tanto felicidade como sofrimento, eu prometo aprender a falar sinceramente, com palavras que inspirem autoconfiança, alegria e esperança. Estou empenhando a não divulgar notícias que eu não saiba serem corretas e a não criticar ou condenar coisas das quais não estou seguro. Eu me absterei de articular palavras que possam causar divisão ou discórdia, ou que possam causar danos às famílias ou à comunidade. Eu farei todos os esforços para reconciliar e solucionar todos os conflitos, mesmo os insignificantes.

O Quinto Treinamento da Plena Consciência:
Atento ao sofrimento causado pelo consumo impróprio, eu me comprometo a cultivar a boa saúde física e mental para mim, minha família, e minha sociedade, praticando os atos de comer, beber e consumir coisas de forma consciente. Eu me comprometo a ingerir apenas aquilo que preserve a paz, o bem-estar e o prazer em meu corpo, em minha consciência, e no corpo e consciência coletivos de minha família e da sociedade. Eu estou empenhado em não usar álcool ou qualquer outro intoxicante, e não consumir alimentos ou outros produtos que contenham venenos, tais como certos programas de televisão, revistas, livros, filmes e tipos de conversa. Eu estou consciente de que danificar meu corpo ou minha consciência com estes venenos é como trair meus antepassados, meus pais, minha sociedade e as gerações futuras. Eu trabalharei para transformar a violência, o medo, a raiva e a confusão em mim e na sociedade praticando um regime de vida em meu benefício e em prol da sociedade. Eu entendo que um regime de vida correto vem a ser crucial para a auto-transformação e para a transformação da sociedade.

. Ler mais:
- Qual o Significado de Jukai?
Qual o Significado de Shukke Tokudo?
- Qual o Significado de Shuso?
- Qual o Significado de Hossenshiki?
- Ordenação Monástica
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu (texto reproduzido do antigo site do Zendo Brasil, sobre a prática Leiga e a Ordem Monástica de nossa escola)

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