As Três Peneiras e Palavras Medicinais

junho 11, 2007 às 5:28 pm | Publicado em Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário

Existe uma história muito bonita, que já encontrei em várias versões. Aqui repito uma versão encontrada num site de Internet: “As Mais Belas Histórias Budistas – e outras belas histórias”:

1. As Três Peneiras

Olavo foi transferido de projeto. Logo no primeiro dia, para fazer média com o chefe, saiu-se com esta:
– Chefe, o senhor nem imagina o que me contaram a respeito do Silva. Disseram que ele…
Nem chegou a terminar a frase, o chefe aparteou:
– Espere um pouco, Olavo. O que vai me contar já passou pelo crivo das três peneiras?
– Peneiras? Que peneiras, Chefe?
– A primeira, Olavo, é a da VERDADE. Você tem certeza de que esse fato é absolutamente verdadeiro?
– Não. Não tenho, não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram.
– Então, sua história já vazou a primeira peneria. Vamos então para a segunda peneira, que é a da BONDADE. O que você vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?
– Claro que não! Nem pensar, Chefe.
– Então, sua história vazou a segunda peneira. Vamos ver a terceira peneira que é a NECESSIDADE. Você acha mesmo necessário me contar esse fato ou mesmo passá-lo adiante?
– Não, Chefe. Passando pelo crivo dessas peneiras, vi que não sobrou nada do que iria contar – fala Olavo, supreendido.
– Pois é, Olavo. Já penso como as pessoas seriam mais felizes se todos usassem essas peneiras? – disse o chefe sorridente e continuou:
– Da próxima vez em que surgir um boato por aí, submeta-o ao crivo dessas três peneiras: VERDADE, BONDADE, NECESSIDADE, antes de obedecer ao impulso de passá-lo adiante, porque:
Pessoas Inteligentes falam sobre idéias;
Pessoas Comuns falam sobre coisas;
Pessoas Medíocres falam sobre pessoas.

2. Palavras Medicinais – Palavras Venenosas

Que tipo de palavras saem de sua boca?  Palavras Medicinais ou Palavras Venenosas?

Qual a motivação por trás de suas palavras? Unir ou dividir? Construir ou destruir? Semear compaixão ou julgamentos negativos? Fomentar compreensão ou brigas?

Você está usando suas palavras para pacificar ou guerrear?

Uma vez pronunciada, uma palavra é como uma flecha lançada do arco – não há como trazê-la de volta, nem como anular quaisquer danos ou ferimentos causados!

Quando ficamos cheios de ressentimentos mal-resolvidos, podemos lançar muitas flechas venenosas contra alguém – especialmente pelas costas. Podemos andar por aí contando a nossa interpretação de “fatos” para quem nos dê ouvidos. Podemos até acreditar que estamos defendendo o “bem” contra o “mal”, nos sentindo moralmente superiores à pessoa sujeito de nossa fala. O grande perigo está nesta auto-ilusão – às vezes até criando uma “auto-ilusão de grupo”, convencendo outras pessoas de nossa “razão”. Mas, com o coração cheio de raivas e ressentimentos, ou com a cabeça cheia de arrogância e superioridade, não há como ter uma fala correta.

Isto significa que, sem purificar o nosso coração, abrindo o Coração de Compaixão, e sem purificar a nossa mente, abrindo o Olhar de Sabedoria, na hora que acreditamos que houve um erro, uma injustiça – antes de sair por aí falando sobre o acontecido –  temos de parar e olhar bem para dentro, perguntando: “Por que quero tanto falar sobre isto para todo mundo? Com que motivação? Será que a minha interpretação dos fatos é realmente a “verdade”, a única “verdade” que existe? Será que não estou enxergando as coisa através dos óculos dos meus próprios condicionamentos? Por mais que me sinto justificado, será que tenho o direito de me colocar como juíz?”

O que ensinam os Preceitos Budistas?

Na tradição Zen Vietnamita de Mestre Thich Nhat Hanh, são praticados cinco preceitos para os leigos, que ele chama dos Cinco Maravilhosos Treinamentos da Consciência. O Quarto Treinamento da Plena Consciência nos ensina:

“Atento ao sofrimento causado pela fala imprópria e pela inabilidade de escutar aos outros, eu me comprometo a cultivar a fala amorosa e a escuta atenciosa, de modo a trazer alegria e felicidade para os outros e assim aliviá-los de seu sofrimento. Sabendo que as palavras podem criar tanto felicidade como sofrimento, eu prometo aprender a falar sinceramente, com palavras que inspirem autoconfiança, alegria e esperança. Estou empenhando a não divulgar notícias que eu não saiba serem corretas e a não criticar ou condenar coisas das quais não estou seguro. Eu me absterei de articular palavras que possam causar divisão ou discórdia, ou que possam causar danos às famílias ou à comunidade. Eu farei todos os esforços para reconciliar e solucionar todos os conflitos, mesmo os insignificantes”.

Na tradição Soto Zen Japonês, são praticados dezesseis preceitos, igualmente para leigos e monges. Temos os Três Refúgios, os Três Preceitos Puros ou de Ouro e os Dez Preceitos Grandes. Destes últimos, quatro tratam da fala. Temos várias traduções destes preceitos, além de adaptações para a nossa época e cultura ocidental.

Por exemplo, os “Votos dos Fazedores de Paz (Peacemakers) para o Dia de Reflexão” nos ensinam (tradução de Monja Coen, Zendo Brasil):

O quarto preceito: “Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não-mentir, dizendo a verdade e não enganando ninguém, eu,  com honestidade, pela duração de um dia, escutarei e falarei  a partir do coração. Verei e agirei de acordo com o que é”.

O sexto preceito: “Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não falar dos erros e falhas alheias, eu, com bondade, pela duração de um dia, aceitarei o que cada momento tem a oferecer. Assumirei responsabilidade por todas as coisas na minha vida”.

O sétimo preceito: “Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não elevar a si mesmos e rebaixar os outros, eu, com humildade, pela duração de um dia, direi o que percebo ser verdade sem culpa ou acusações. Darei o melhor de mim e aceitarei os resultados”.

Finalmente, o décimo preceito: “Como fazedores da paz, através do espaço e do tempo, têm observado o preceito de não pensar mal dos Três Tesouros, eu, com compaixão, pela duração de um dia, honrarei minha vida como um instrumento para fazer a paz. Reconhecerei a mim mesmo e os outros como manifestações da Unidade, Diversidade e Harmonia.” Lembramos que os Três Tesouros são Buda, Darma e Sanga. Assim, este preceito nos ensina a não falar mal de Buda (nem do buda que cada um de nós é, nem do buda representado pelos professores de darma), Darma (os ensinamentos) ou Sanga (nem de qualquer membro de nossa sanga). Por extensão, este preceito acaba nos ensinando a não falar mal nem de ninguém nem de nenhum acontecimento ou fenômeno.

A fala amorosa, a fala a partir do Coração de Compaixão – estas são palavras medicinais. A fala raivosa, a fala que vem de um coração ressentido, a fala que vem de orgulho e superioridade – estas são palavras venenosas. Às vezes, podemos falar até a mesma palavra, que, dependendo do “coração” do qual partiu, vai ser medicinal ou venenosa – o segredo está no coração do falante.

Portanto, como praticantes Budistas, precisamos estar constantemente abrindo e purificando o nosso coração, abrindo e purificando o nosso pensamento, abrindo espaço para a nossa Sabedoria e Compaixão – a nossa Iluminação natural – se manifestarem corretamente, em lugar de nossos condicionamentos egóicos.

Quanto mais “raiva” tivermos, quanto mais vontade tivermos de ficar criticando alguém – tanto mais devemos olhar para dentro de nós mesmos, para nos libertar daquele ponto onde estamos deixando a outra pessoa nos afetar. A “raiva” é nossa, o desconforto é nosso – o “botão” de “raiva” que está sendo acionado é nosso.  A outra pessoa é o que é. O mundo é o que é.

Se estamos com “raiva”, é porque não estamos conseguindo aceitar o mundo, as pessoas, a realidade como são. Simplesmente isto.  Se estamos precisando falar palavras “venenosas”, é porque a nossa prática está falha e estamos precisando praticar o “silêncio”, a “gratidão”. Estamos precisando sentar mais Zazen – corretamente sentado, estudar mais o Darma com um Professor de Darma (e fazer Dokusan), praticar com humildade junto com uma Sanga saudável.  

Que os méritos de nossa prática possam se estender a todos e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado.

Gassho,

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