Plena Atenção vs. “Multitasking”
maio 3, 2013 às 9:16 am | Publicado em Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário
Carter Cleveland (foto encontrado no http://carterac.tumblr.com/)
Encontrei nesta foto um exemplo perfeito de um dos maiores desafios da nossa cultura moderna – o “multitarefa” (em inglês, “multitasking”). Esta tentativa de fazer várias coisas ao mesmo tempo é o oposto da Plena Atenção ensinada pelo Budismo.
Vi uma imagem de um jovem americano, Carter Cleveland, aparentemente ouvindo música (fones de ouvido), aparentemente trabalhando no computador (mãos acima de um teclado) com dois monitores e aparentemente comendo (talvez granola ou algo assim ao tentar adivinhar o conteúdo da tigela).
Esta foto apareceu na edição de 26 de novembro de 2012 da revista Época, num artigo sobre o sucesso deste jovem com a criação de um site chamado Art.sy – um site que já recebeu investimentos de milhões de dólares e recebeu 285 mil visitantes de 186 países em apenas um mês – um belo exemplo de sucesso “mundano”.
Mas, fiquei muito triste com o fato da revista escolher, para ilustrar o seu artigo, justamente esta imagem que mostra um dos comportamentos mais contraproducentes que existem hoje em dia – a tentativa de fazer uma variedade de atividades, todas ao mesmo tempo. Estamos numa época de acidentes fatais de carro sendo provocados por pessoas tentando escrever mensagens SMS nos seus celulares enquanto dirigem em alta velocidade, pessoas trombando umass com as outras andando nas ruas olhando, não para onde estão indo, mas para uma tela de mensagem num celular ou atravessando ruas movimentadas sem sinalização, falando no celular e tomando refrigerante ao mesmo tempo, mal olhando para onde estão indo. Vemos novos exemplos destes comportamentos perigosíssimos diariamente.
Um jovem “gênio” pode até escapar de algumas destes perigos dentro da segurança de uma sala, mas a grande maioria dos seres humanos mortais perdem produtividade e perdem acuidade ao tentar ouvir música, comer e trabalhar num computador – e correm sérios perigos de vida ao tentar levar estes comportamentos para a rua. Uma foto deste tipo não transmite um bom modelo para os nossos jovens. Fiquei bem chateada com os editores da revista Época, pois todos nós carregamos uma responsabilidade pelos modelos que oferecemos às gerações futuras – e revistas não escapam desta responsabilidade.
Agora, o mais interessante de tudo isto está no fato que Carter postou no seu Tumbler um artigo chamado “Mindfulness: The counterpoint to Isaacson’s HBR post on The Real Leadership Lessons of Steve Jobs” (Plena Atenção: O Contraponto ao artigo de Isaacson sobre ‘As Verdadeiras Lições de Steve Jobs sobre a Liderança’”) onde Jonathan Rotenberg (Fundador da Boston Computer Society), contesta a interpretação de Walter Isaacson sobre o significado da frase “Pense Diferente”, que era um slogan de Jobs. Em lugar deste “Pense Diferente” ser uma recomendação para um pensamento mais criativo e original aplicado à competição, mercados livres, teorias de gerenciamento, Rotenberg, amigo de Jobs de longa data, afirma que a frase de Jobs, “Pense Diferente” queria dizer “Pensar através da Plena Atenção”.
“Pense Diferente”. Como seria isto? Rotenberg segue explicando: “Pense Diferente” significa: abrir mão de TODAS as suas teorias, conceitos e ideias preconcebidas. PRESTE ATENÇÃO à realidade nua e crua que se apresenta através dos seus cinco sentidos e sua mente. É aqui que você encontrará “insight” e sabedoria verdadeiros.”
Vamos torcer que o jovem Carter descubra este “segredo” do sucesso!
Imagem de Jizô Bosatsu
abril 30, 2013 às 4:54 pm | Publicado em Cultura Japonesa, Japão e Cultura Japonês, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre, Zen e as Artes | Deixe um comentárioEncontrei um vídeo no Youtube mostrando um artesão japonês esculpindo uma imagem pequena do Jizô Bosatsu (Ksitigarbha), protetor das crianças, animais, viajantes e da terra:
Dia do Índio 2013
abril 19, 2013 às 9:20 am | Publicado em Blogroll, Cultura de Paz, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentárioAs 5 ideias mais equivocadas sobre os índios no Brasil desmistificadas pelo professor e historiador José Ribamar Bessa Freire:
1 – O índio não é “genérico” – Cada tribo tem seus costumes, crenças e culturas. São 200 etnias, que falam 188 línguas diferentes.
2 – As culturas indígenas não são atrasadas – Os povos indígenas produzem saberes, ciências, arte refinada, literatura, poesia, música, religião.
3 – As culturas indígenas não são congeladas – Pensar que todo índio deveria andar nu ou de tanga é um equívoco tão grande que quando vemos o contrário tem gente acha estranho.
4 – Os índios não fazem parte apenas do passado – Como mostramos aqui, eles estão aí defendendo sua cultura. Também é errado pensar que a cultura deles é contraria à evolução e a tudo que é moderno.
5 – O brasileiro é índio sim! – Muitos tem a ideia de que o povo brasileiro foi só formado por nações européias e africanas. Na verdade, a origem vem de todos, mas o brasileiro tende a se identificar com a origem européia que foi a principal colonizadora.
Quer ler o estudo na íntegra? Então clique aqui:http://bit.ly/EquivocosIndigenas
Por um Brasil consciente, inteligente e solidário
originalmente publicado em Projeto Gota D’Água
Palavras verdadeiras e compassivas
abril 9, 2013 às 10:45 am | Publicado em Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentárioEm relação às formas como percebemos a compaixão, temos estas palavras de um “gosho” do Nichiren Daishonin, fundador da escola japonesa de Budismo Nichiren. São palavras que se apliquem a qualquer caminho espiritual:
“Mesmo que talvez se apela para palavras duras, se tais palavras ajudam a pessoa a quem foram direcionadas, então estas palavras são dignas de serem consideradas como palavras verdadeiras e gentis.
De um modo semelhante, mesmo que talvez se use palavras suaves, se elas prejudicarem a pessoa a que foram direcionadas, estas são, de fato, palavras enganosas, palavras duras.”
Reportagem na Revista Pragmatha Gestão & Negócios
abril 1, 2013 às 6:49 pm | Publicado em Entrevista, Meditação em Porto Alegre, Revistas - Artigos e Entrevistas, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentário
Negócios, dinheiro e competição no contexto da espiritualidade
Sucesso material é compatível com espiritualidade? Pode-se falar em melhoria no padrão de competitividade, a partir de uma visão mais espiritual do mundo do trabalho? Segundo a a monja zen budista americana e naturalizada brasileira Isshin Havens Sensei, essas questões são complexas, mas ao mesmo tempo simples. Em Porto Alegre, Isshin atua como orientadora espiritual da Comunidade Zendo Sul, é autora do livro “A Vida Compassiva Compaixão” e também desenvolve projetos diferenciados para comunidades, empresas e profissionais.
Segundo a monja, há competitividade saudável e nãosaudável, a primeira mais praticada por aqueles que só pensam em si próprios, podendo-se valer de métodos inescrupulosos, e a segunda praticada por aqueles que cultivam a inteligência espiritual, desenvolvendo um centramento interno, espaço de calma que permite enxergar as situações com uma visão cada vez mais clara, ouvindo a voz da intuição e priorizando decisões éticas. Na competitividade saudável, garante Isshin, o foco maior é com o próprio trabalho e não na competição. Isto implica em cultivar um relacionamento ganha-ganha com colegas, empregados, empregadores, clientes, fornecedores. “Por exemplo, a sociedade, como um todo, está cada vez mais consciente da importância do pensamento ecológico e dos direitos dos outros seres, humanos e animais. Por mais que temos as nossas diferenças, somos todos parte de um algo maior. Para citar um clichê – estamos todos no mesmo barco, portanto, a inteligência espiritual nos ajudará a remar juntos”.
Sobre fontes de inspiração espiritual para uma melhor prática, a monja lembra que no pensamento protestante cristão existe a ética do trabalho, o trabalho como meio de salvação. No Zen Budismo, existe a prática do “samu” (geralmente traduzido como trabalho ou ‘atividade diária). “Consideramos todas estas atividades como sendo igualmente sagradas.”, explica. Outro exemplo é a experiência monástica católica. “Vemos os monges budistas ou católicos fazendo o seu trabalho com um espírito leve e com alegria, flexibilidade e prontidão de simplesmente fazer o que precisa ser feito, sem ficar presos em falso orgulho e medo ou outros sentimentos negativos. Para a pessoa leiga, verdadeiramente espiritualizada, seria a mesma coisa.
Por estarem centradas na sua espiritualidade, tais pessoas tendem a ter uma percepção mais clara das situações e uma intuição mais forte, que passa a trabalhar de uma forma integrada com o seu lado racional e as ajuda a reconhecer aspectos sutis dos acontecimentos e a enxergar o quadro maior.
Segundo a monja, os ensinamentos sobre a importância de servir e de liderar servindo são idênticos e comuns nas mais diversas religiões. No Japão e outros países asiáticos, diz Isshin, é bastante comum para as pessoas leigas, incluindo muitos empreendedores e profissionais, passar algum período de tempo num mosteiro budista, para fortalecer o caráter e treinar o servir. Monja Isshin atenta para o fato de que se criou uma imagem estereotipada da pessoa supostamente espiritualizada como “bicho grilo” e alienada, que não combinaria com o sucesso no mundo material, dinheiro ou negócios. Porém, é falsa em se tratando de pessoas de fato espiritualizadas. “Os mestres religiosos que conheço têm sido pessoas bem presentes no mundo real e incentivam que os leigos espiritualizados vivam com honestidade, ética, dignidade e generosidade, desfrutando do dinheiro, do sucesso e dos benefícios resultantes.”
Reportagem publicada na Revista Pragmatha / Gestão & Negócios – No. 3 – Março 2012- página 07 – Gestão pessoal
Entrevista no Blog “Bossa Zen” (Parte 1)
março 22, 2013 às 4:38 pm | Publicado em Blogroll, Entrevista, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Revistas - Artigos e Entrevistas, Uncategorized, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentárioReproduzo aqui uma entrevista minha que foi publicada no site Bossa Zen, um site muito bom e bastante sério sobre o Budismo, mantido pela praticante do Zen Coreano Jeane Dal Bo. Confesso que me senti bastante honrada com a apresentação que ela escreveu sobre mim:
“Sensei Isshin depois de longos anos de treinamento no Brasil, Japão e Estados Unidos, radicou-se em Porto Alegre. Não importa o título que receba, uma vez que nos habituamos a chamá-la de “monja”, assim será por toda sua vida, exceto para seus alunos que já a chamavam de sensei e agora podem seguir chamando-a. Dizem que ser monge de verdade é mais nobre que obter qualquer título. É certamente esse o esforço que Monja Isshin pratica em sua vida e na comunidade que lidera.
Seu dia-a-dia é preenchido por atividades na Sanga Águas da Compaixão e outras sangas em outras cidades do RS (Pelotas e Caxias do Sul), além de cursos e palestras tornando seu tempo bastante limitado, portanto, essa entrevista foi dividida em duas partes.
Agradeço a sua disposição em colaborar com esse projeto e espero que suas palavras possam iluminar o caminho de quem passar por aqui.
BZ: A sra. já fez parte de orquestras enquanto instrumentista. Em uma orquestra cada um deve fazer a sua parte em benefício do todo. Na comunidade (sangha) também é assim? Reger um Sangha é como reger uma orquestra?
Sensei: (Risos) Acho que é bem mais fácil reger uma orquestra. Numa orquestra o músico não tem dificuldade em perceber qual é o seu papel dentro do todo, enquanto que, especialmente na nossa cultura ocidental individualista e competitiva, não é nada fácil um praticante chegar a se perceber como fazendo parte de um todo maior e tendo o seu lugar, o seu papel dentro deste todo.
Acredito que a minha experiência com a música (banda marchante durante o colégio e a carreira em orquestra sinfônica) me facilitou a percepção do sentido de “grupo” no meu treinamento no Japão – e isto foi um dos grandes aprendizados que recebi lá. Tive a oportunidade (rara para os estrangeiros) de ser tratada como se fosse uma japonesa, sujeita às mesmas exigências que as minhas colegas japonesas, pois muitos mosteiros, sabendo que a maioria dos estrangeiros, que geralmente não falam a língua e estão lá por três meses, o tempo do visto de turista, não se interessam por vários aspectos da prática (como o cerimonial, por exemplo), então eles deixam de incluir estrangeiros nestes tipos de atividades. Assim sendo, se, de um lado, tive que enfrentar grandes dificuldades, devido às barreiras culturais e linguísticas, pelo outro lado, a oportunidade de participar, sem qualquer exceção,de todos os aspectos do treinamento monástico japonês foi de um valor inestimável. Assim, pude me mergulhar na experiência de “ter o meu lugar dentro do grupo”. Foi uma vivência incrível, pelo qual sou extremamente grata.
Mas, transmitir isto aos praticantes leigos ocidentais não vem sendo uma tarefa fácil, pois o resultado da cultura ocidental de individualismo – um senso sutil de isolamento e solidão existencial – é muito enraizado na mente inconsciente coletiva. Devido a este condicionamento, muitas “sangas” ocidentais não passam de pontos de encontro de indivíduos – quase consumidores – que se encontram para o zazen, mas onde não chega a existir a “entidade” de Sanga. Como a nossa Sanga ainda é relativamente nova, temos uma longa caminhada pela frente para chegar a criar uma verdadeira Sanga, onde cada membro possa vivenciar profundamente o “pertencer ao grupo” e “ter o seu lugar” e passar a realmente “tocar a sua parte” na criação da harmonia de uma Sanga. Mesmo assim, reconheço e agradeço a boa vontade e empenho sincero dos membros da nossa Sanga – passo por passo,vamos caminhando… .
BZ: Em geral os praticantes budistas estão na faixa etária de 40-70 anos, já tem supostamente uma estabilidade na vida. Isso facilita mais a adesão a prática budista?
Sensei: Sim e não. Facilita sim, porque a pessoa nesta faixa etária já sabe melhor o que quer e o que pensa. E dificulta, porque frequentemente, estas pessoas, chegam à prática cheias de ideias preconcebidas sobre como deve ser a prática e como o(a) professor(a) de darma deve se comportar. Já leram livros, já criaram “mitos” dentro de suas cabeças e frequentemente não querem aceitar qualquer coisa que contraria estes “mitos”. Muitas vezes, acreditam mais nas suas interpretações dos livros que lerem que na experiência e treinamento do(a) professor(a).
BZ: Seus grupos são predominantemente de jovens. Acha que tem mais afinidade com eles?
Sensei: Não sei, pois nunca pensei nisto – não havia percebido este fato… . Como mencionei no item anterior, as pessoas com mais idade tendem a ter suas próprias ideias preconcebidas, não querendo abrir mão delas… . Mesmo assim, apesar de nossa Sanga ser ainda bastante nova, já houve o tempo suficiente para que algumas pessoas que não se adaptaram a nossa sanga e a minha liderança saírem.
Possivelmente, o fato de eu ser uma pessoa “high tech” ajude a aproximação dos mais jovens.
De qualquer forma, nem penso em idade quando estou com as pessoas ou quando penso em mim mesma. Procuro receber cada pessoa simplesmente como ela é nesse momento.
BZ: Recentemente a sra. recebeu o manto de açafrão, tornando-se sensei, o que essa nova etapa significa para a sra. e a comunidade e quais são suas atribuições como sensei?
Sensei: Sou muito grata ao Onoda Roshi por ter me honrado com a sua linhagem e tenho aprendido muito com ele. Também sou muito agradecida aos outros professores principais que tive durante a minha caminhada – tenho dívidas de gratidão especialmente com a Monja Coen, professora de ordenação; Shundo Aoyama Roshi, professora de treinamento e abadessa do mosteiro no Japão e Saikawa Roshi, o nosso superintendente para a América do Sul. Naturalmente, todos nós ficamos contentes com a finalização oficial do treinamento formal (pois, na verdade, o “treinamento” – a prática – nunca termina).
Com a troca do manto preto do “unsui” (monge-em-treinamento) para um dos mantos coloridos do monge plenamente formado – “rikishô” (manto marrom, antes das cerimônias de zuise) ou “oshô” e “sensei” (manto açafrão ou outras cores, depois destas cerimônias), passamos a ter a “autoridade” conferida pelo reconhecimento oficial que recebemos do professor e da “instituição” da escola Soto Zen propriamente dita, que estão declarando que completamos todos os pré-requisitos de treinamento e somos autorizados como sacerdotes e professores do Darma, habilitados a ordenar novos monges e oficiar Transmissão de Preceitos.
Mas a cor do manto não muda a pessoa e não acrescente nenhuma sabedoria especial. É simplesmente um novo pedaço de pano, mais um passo na nossa caminhada. Na prática, a troca de manto e oficialização do título “sensei” não mudou muita coisa para mim ou para o nosso grupo. Já vinha orientando um grupo de prática fazia cinco anos, quando recebi transmissão esse grupo que já me aceitava como “sensei” continuou me aceitando do mesmo jeito e quem não me aceitava, continuou não me aceitando (risos). Panos coloridos e títulos não fazem muita diferença e não precisamos nos preocupar com eles. O que conta é o dia-a-dia, o relacionamento que vai se construindo com os alunos.
BZ: É comum vermos muitos noviços e noviças sendo chamados de monges e monjas e tão logo recebam seus votos já passam a se intitular como tal. Esse querer ser antes de ser é cultural ou acontece também no Japão?
Sensei: Tecnicamente não está errado chamar um noviço ou monge-aprendize (duas graduações para “unsui” ou “monges-em-treinamento” de “monge” ou “monja”. Mas, pessoalmente, após, testemunhar determinadas situações nos Estados Unidos, quando lá fiz meu treinamento avançado, cheguei a conclusão que isso cria alguns problemas potencialmente graves que acredito podem surgir aqui também.
O que acontece é que num país cristão-especialmente num país católico-chamar alguém de “monge” ou “monja” pode induzir as pessoas à interpretações errôneas, pois o público em geral tende a entender o termo “monge” como alguém já formado, com seu treinamento completo, enquanto que no Budismo, a ordenação monástica é somente o primeiro passo de um longo caminho de treinamento.
Tenho um aluno que recebeu ordenação monástica no ano passado tornando-se “unsui”, na graduação de “jôza” ou noviço. Recomendei que ele evitasse de se chamar de monge enquanto estiver na graduação de “jôza”, o incentivando a se assumir perante os outros como noviço enquanto esse fase durar. Vejo que isto tem dado bons resultados no desenvolvimento dele.
No Japão, um monge-em-treinamento não teria permissão de estar liderando grupos ou tentando ensinar a prática.
Com todos sendo chamados de “monge” ou “monja”, a cor do manto acaba não fazendo diferença nenhuma, e o que aparentemente “chama” as pessoas novas para este ou aquele grupo fica mais na questão de visibilidade, fama e carisma do responsável do grupo e menos nas qualificações e graduações.
No Brasil e América do Sul temos, ainda, poucos professores realmente qualificados e, devido ao tamanho do país, estes frequentemente se vêem obrigados a tentar ensinar “à distância” – o que dificulta terrivelmente a supervisão e “moldagem” destes alunos ou noviços, que, por sua vez, estão liderando grupos de prática e, às vezes, se colocando como “orientadores espirituais”. É uma situação complicada, sem soluções fáceis – todos fazendo o melhor que podem, dentro de suas causas e condições, com sinceridade e boa vontade… .
BZ: A sra. sempre quis ser monja? Qual o papel do monge na comunidade zen?
Sensei: Fui criada numa família protestante fundamentalista. Não me adaptei àquela interpretação religiosa e a abandonei aos 16 anos. Quando, durante o colégio, estava procurando escolher a minha futura profissão, me lembro de ter pensado que, se tivesse sido católica, me tornaria freira. Mas, como isto não era possível, acabei me tornando musicista. Não me lembrava mais deste detalhe até chegar no Zen, quando pedi ordenação monástica, mas o fato é que sempre nutria o desejo de “trabalhar com o ser humano”. Acabei largando a profissão de musicista justamente porque não me dava esta possibilidade da forma que queria… . Cheguei, inclusive, a refazer estudos de colégio, pensando em prestar vestibular para estudar medicina-psiquiatria ou a psicologia – até que o Plano Collor atrapalhou aqueles planos. Quando cheguei no Zen, tive a sensação de ter chegado “em casa” – que era isto que eu sempre havia procurado. E realmente, me sinto realizada e feliz com o desfecho das coisas.
Não é fácil dizer qual o papel do monge na sua comunidade. Ele deve “servir” à Sanga, apontando a Lua e deve cuidar de sua própria prática. Não deve tomar posturas “autoritárias” ou cometer abusos da ética, mas também precisa ter a coragem para fazer o que for necessário para o bem do aluno e da comunidade. Mais ainda, acho que o monge deve “ser uma pessoa real” – sem jogos, máscaras ou papeis de “bonzinho”, etc. Acredito que uma das coisas mais importantes que tenho para compartilhar com os meus alunos é justamente a auto-aceitação e a possibilidade de simplesmente ser “quem é” ou “quem está em cada momento”.
Na verdade, recebi muito pouco treinamento de “liderança” e venho aprendendo a fazer a aplicação prática do meu treinamento para cuidar da nossa Sanga na base de tentativa e erro… . Gosto muito da palavra “sensei” porque ela não coloca a gente num pedestal como um ser especial – simplesmente diz que “vivemos antes” (temos alguma experiência e treinamento). Passo-por-passo, vamos caminhando todos juntos, cultivando a nossa prática.”
Francisco
março 14, 2013 às 12:10 pm | Publicado em Compaixão Zen Budista, Cultura de Paz, Diálogo Interreligioso, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentárioQue o Papa Francisco possa ser um São Francisco moderno e guiar sua igreja ao ingresso no mundo contemporânea de respeito às diferenças e dos direitos de todos.
Oração da paz
Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe.
É perdoando que se é perdoado.
E é morrendo que se vive para a vida eterna.
Ler mais sobre o novo papa.
Vídeo: O “povo” e as guerras
março 14, 2013 às 11:47 am | Publicado em Blogroll, Compaixão Zen Budista, Cultura de Paz, Diálogo Interreligioso, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Vídeo, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentárioReproduzo aqui um artigo que publiquei num outro blog meu, chamado “Interconexão“:
Pressionados e comprados pelos lobbies (geralmente corporações), os políticos, declaram guerras e manipulam a população através dos meios de comunicação para apoiar tais guerras, como nos Estados Unidos. Vejamos as mentiras dos políticos que levaram a esta tal de “guerra contra o terrorismo” que vem destruindo Iraque e Afeganistão, ceifando milhares e milhares de vidas de cidadães “comuns” (idosos, mulheres, crianças), trazendo lucro (e que lucro!) somente para uma indústria de medo (armas, aparelhos de “segurança” como nos aeroportos, etc).
Mas será que é isto que o cidadão “comum” realmente pensa e quer?
Como diz o Dalai Lama, todo ser deseja a felicidade. E guerra certamente não é felicidade – e não traz a felicidade. Cultivar o ódio não traz a felicidade.
De vez em quando, surge uma pessoa de coragem admirável, que pode, quem sabe, dar início a uma mudança.
Veja este vídeo lindo:
Quem deseja acompanhar o criador deste vídeo pode achar ele no: seu canal de Youtube, Google+ ou no Facebook.
Retiro de Inverno – Busshinji, SP
março 13, 2013 às 2:49 pm | Publicado em Prática Zen Budista | Deixe um comentárioFuyu Sesshin 2013
Sesshin de Inverno 2013 no Templo Busshinji de São Paulo
O Templo Busshinji de São Paulo realizará no período de 08 a 13 de julho de 2013 o Sesshin de Inverno – Fuyu Sesshin 2013
O Templo Busshinji dispõe de 30 vagas para acomodação que serão disponibilizadas de acordo com a ordem de efetivação das inscrições.
Aos interessados solicitamos que encaminhem as informações abaixo por email para o seguinte endereço:
Nome :
Email:
Tel.
Cel.
Restrições Alimentares:
Nome Búdico:
Mestre:
Data da Ordenação:
Templo ou Dojo:
Número de vezes que participou de Sesshin no Templo Busshinji de São Paulo:
1 – O Sesshin de Inverno começa no dia 08 e termina no dia 13 de julho de 2013;
2 – O valor é de R$ 520,00 (quinhentos e vinte reais);
3 – Os inscritos devem ingressar até as 10 horas da manhã do dia 08 de julho;
4 – Após o ingresso no Sesshin, a permanência é obrigatória até o encerramento que ocorrerá por volta das 19h30 do dia 13 de julho;
5 – Em caso de desistência, após a inscrição ou no decorrer do Sesshin, o valor pago não será devolvido;
6 – Não há a possibilidade de participação intercalada durante o Sesshin;
7 – Convidamos a todos os praticantes a participarem do Sesshin. Mas, desestimulamos àqueles que não tenham treinado zazen suficientemente;
8 – É obrigatório manter silêncio durante o Sesshin, inclusive nos momentos de outras atividades;
9 – Com exceção do dia de abertura, 08 de julho, serão realizadas ao longo do dia, 12 períodos de zazen de 40 minutos cada;
10 – Não será permitido utilizar o telefone, inclusive os celulares (Em casos de extrema necessidade, o templo fará o recebimento das ligações e o devido encaminhamento);
11 – O alimento oferecido durante o sesshin é fresco e vegetariano, todos devem aceita-lo sem discriminação;
12 – Durante o período do Sesshin, não será permitido deixar o local para cuidar de assuntos pessoais;
13 – Recomendamos o uso de roupas pretas com calças largas, dogui ou similar;
14 – O templo não disponibilizará roupas de cama, portanto recomendamos que tragam lençóis e manta (as temperaturas costumam cair bastante à noite). Recomendamos também, para uso pessoal, toalhas, um par de sandálias de borracha, produtos de higiene pessoal e outros de sua necessidade;
15 – Com exceção do dia 08 de julho as atividades terão início às 5h45 e término às 19h30;
16 – O despertar será às 5h30 e o recolhimento às 21h00.
17 – Informação adicional:
- O estacionamento locado na área do Templo Busshinji é terceirizado e com horário restrito de funcionamento. Desta forma, qualquer entendimento referente ao estacionamento deverá ser feito diretamente com a empresa administradora, Facpark Estacionamento Ltda, tel. (11)-3341-6268.
Declaração Pública do CBB
março 13, 2013 às 7:13 am | Publicado em Diálogo Interreligioso, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Preceitos Budistas, Zen Budismo em Porto Alegre | Deixe um comentárioComo membro-colaboradora do CBB, apoio esta declaração pública:
O Colegiado Buddhista Brasileiro (CBB) vem nesta expressar sua profunda preocupação com a indicação e com a nomeação do Deputado Marcos Feliciano (PSC) para a diretoria da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da câmara.
Nossa preocupação se deve ao inequívoco discurso intolerante e alienador que caracteriza as ideias do referido deputado. Suas palavras e atitudes de fundo racista e segregador o tornam um claro exemplo de tudo o que deveria ser denunciado pelo mais importante órgão de promoção e defesa dos direitos humanos em nosso país. Que as lideranças políticas brasileiras, por força de omissão ou deliberada troca de favores, permitam a tal pessoa assumir a coordenação da CDHM, demonstra um preocupante cenário de alienação ética no Brasil.
Acreditamos que a pregação do ódio contra quaisquer grupos étnicos, comunidades sociais ou instituições religiosas motiva com frequência atos de violência contra indivíduos e contra essas mesmas organizações e minorias. O CBB entende que, ao citar “comunidades sociais” deve-se considerar quaisquer grupos e comportamentos que não violentam os direitos alheios, entre os quais a comunidade LGBT. O CBB rejeita implicitamente as declarações homofóbicas do deputado citado juntamente com todas as outras manifestações discriminatórias. Esta cultura de ódio e fanatismo, sendo ela mesma fruto de uma profunda falta de consciência e grande desrespeito humano, torna-se ao final desse processo destrutivo e ignorante um câncer a devorar mentes e corações em todas as camadas sociais, atingindo a todos sem exceção. Tais práticas são essencialmente incompatíveis com qualquer proposta construtiva e unificadora para toda sociedade humana fundamentada em direitos e liberdades, base do estado laico e do próprio estado de direito.
O Colegiado Buddhista Brasileiro, fundamentado na tradição do Dharma de Buddha, entende que o bem comum em uma sociedade somente prevalece quando suas instituições políticas e sociais são capazes de criar condições para que o diálogo, a compreensão, a compaixão, a justiça social e o verdadeiro exercício da tolerância sejam não apenas possíveis a todos os seus cidadãos, mas adequadamente exemplificados pelos seus mais altos representantes.
Neste sentido, a atual condição da gestão política brasileira tem reiteradamente sido um demonstrativo de grave desprezo aos mais fundamentais elementos éticos e de justiça ao permitir que indivíduos alienados em suas crenças pessoais e tacanhos em suas opiniões assumam posições em que a consciência, o equilíbrio e a clareza de visão são qualidades essenciais.
É preciso que haja uma real mudança de atitudes no congresso brasileiro, e que os direitos humanos sejam exercidos e definidos com sabedoria e correção. A nomeação do deputado Marcos Feliciano apenas reflete a medíocre interpretação dos modos e fundamentos que integram o conceito legislativo da sociedade brasileira por parte de seus representantes políticos. Ela também simboliza a assustadora corrupção de valores que domina os poderes políticos atuais em nosso país, que distorce a democracia para favorecer interesses escusos.
O Brasil, já há muito tempo, é liderado e legislado por parcialidades. Doutrinas populistas e manipuladoras da ignorância e das carências sócio-educacionais neste país estão cada vez mais assumindo nichos políticos essenciais, e defendendo por meio de suas visões particulares a sustentação da cobiça dos poderosos.
O CBB repudia esta cultura da mediocridade, este desrespeito aos valores de consciência e coerência que grassa na sociedade brasileira, e conclama aos seus representantes políticos a terem mais visão e dignidade, mais honestidade e valor humano. Que seja revertida a nomeação do deputado Marcos Feliciano para coordenação da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara, e que seja realizada uma ampla reforma ética nas ações políticas de nosso país.
Colegiado Buddhista Brasileiro
Diretoria
Presidente Rev. Shaku Haku-Shin
Rev. Genshô Sensei
Dhammacariya Dhanapala
Shaku Hondaku
Rev. Miklos Kômyô
Presidente do Conselho do CBB
Rev. Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves
Conselho
Lama Chagdud Khadro
Rev. Monge Rinchen Khienrab
Rev. Heyla Downey
Ven. Uttaranyana Sayadaw
Rev. Shaku Sogyo
Rev. Monja Sinceridade
Rev. Coen Senseio
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