Ordenação na tradição do Zen Vietnamita

fevereiro 5, 2010 at 10:42 am | In Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

Oferecemos os nossos parabéns com esta ampliação das linhagens e tradições do Zen representadas em nosso país!

reproduzido do blog da Sanga Plena Conseiência – São Paulo

Carta do primeiro monge brasileiro – Pháp Giang – na tradição do nosso venerável Thich Nhat Hanh

no dia 21 de novembro de 2009 fui ordenado como monge noviço em Plum Village, França, na tradição do ven. Thich Nhat Hanh.

A cerimônia foi simples e leve, entremeada por pequenos descuidos que a tornaram mais leve e bem humorada ainda. sei que para os europeus isso soa estranho, por que eles adoram atividades muito formais e sem a presença do acaso, mas para nós, brasileiros, tudo isso é muito bem vindo e me faz sentir mais em casa ainda…

Fui ordenado com mais dez amigos (seis homens e quatro mulheres, um do Canadá, dois da França, um estadunidense, dois vietnamitas, uma japonesa, uma holandesa, um alemão e uma chinesa – e eu do Brasil), no mesmo dia, vinte vietnamitas foram ordenados via internet. Thay deu a essa família o nome de Lótus Cor-de-Rosa (já houveram
famílias com o nome de Lótus Branca e Lótus Dourada). Essa família tem algumas características especiais, como diversidade de países e a idade (a maioria se situa na faixa dos 30 a 40 anos, um pouco velha para o costume).

Apesar dos muitos altos e baixos durante o período de aspirante, estou feliz com a minha escolha. Plum Village ainda é marcadamente européia, norte-americana e asiática, então espero tornar mais estreita a ligação entre Plum Village e o Brasil e a América Latina e enriquecer a diversidade cultural que é a marca dessa tradição. Gostaria de destacar dois fatos que considero sintomáticos:

o primeiro foi que o monge responsável pela distribuição das roupas não sabia meu nome e como eu não estava no quarto na hora em que ele trouxe o meu hábito de aspirante, ele apenas escreveu num pedaço de papel “Brazil”. Como único brasileiro e latino-americano desta comunidade senti nesse momento o peso da minha escolha e o impacto dessa escolha na vida da comunidade e, talvez, alguma expectativa também deles em relação a mim. Mas, é claro, uma das práticas aqui é não ter expectativas…

o segundo foi durante a ordenação, quando Thay pronunciou o meu nome de dharma monástico, Pháp Giang. Para os que não sabem ‘Pháp’ em sino-vietnamita quer dizer ‘Dharma’ (e em vietnamita moderno quer dizer França) e ‘Giang’ (pronuncia-se aproximadamente como Young em inglês, ou iang) significa ‘Rio’ – ou seja, Rio de Dharma. Para mim foi uma grande e agradável surpresa. Tendo vivido na Amazônia por muitos anos, quando ele disse esse nome, senti o rio Amazonas correr dentro de mim e me senti realmente como um rio. Mas sei que é um desafio ser realmente um
rio, como nas metáforas que o Buda usou para expressar algo que a tudo abraça e a tudo transforma.

interessante também ver que recebi o meu sanghati, hábito para grandes cerimônias formais, de um monge theravada da tailândia, T. Pittaya, e que agora mora em plum village permanentemente. O ricardo sasaki sabe o quanto tenho apreço pelo budismo theravada e o quanto aprecio que o budismo praticado em plum village tenha uma mistura interessante com essa tradição, então foi com muito bom gosto que recebi de suas mãos.

nesse período em que permaneci aspirante aprendi a duras penas a largar minha expectativas em relação a mim e em relação à comunidade e a não tentar pensar demais se serei um bom monge ou mesmo se serei um monge por toda vida…o que importa é o presente e no presente farei o melhor possível para mim e utilizando os elementos da nossa cultura para expressar esse melhor – não posso esquecer, e isso não é possível, que sou um monge cearense, de Quixeramobim, a maior parte de minhas raízes está lá, trago dentro de mim o mandacaru e suas flores, a seca, a
caatinga, a esperança de chuva, minha fala nordestina e muitos maneirismos dos meninos do interior do sertão e isso será, provavelmente, minha contribuição à diversidade cultural de Plum Village.

Agradeço a todos e todas que torceram por mim, direta ou indiretamente, ou que simplesmente se alegraram por saber que há um pedaço de Brasil nesta grande comunidade.

samuel / pháp giang

. Ler mais:
- Qual o Significado de Jukai?
Qual o Significado de Shukke Tokudo?
- Qual o Significado de Shuso?
- Qual o Significado de Hossenshiki?
- Ordenação Monástica
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu (texto reproduzido do antigo site do Zendo Brasil, sobre a prática Leiga e a Ordem Monástica de nossa escola)

Falecimento de Kawai Shihan

janeiro 27, 2010 at 4:15 pm | In Meditação em Porto Alegre, Zen Budismo em Porto Alegre, Zen e Artes Marciais | 2 Comments

Kawai Sensei

Hoje fiquei sabendo do falecimento de Reishin Kawai Shihan (chamado de Kawai Sensei pelos alunos), introdutor do Aikidô no Brasil, na noite de terça-feira, dia 26.

Antes de me tornar monja Zen Budista, mal-e-mal consegui chegar à faixa verde de Aikidô – mas carregarei para sempre uma divida de gratidão enorme para este grande artista marcial (8º Dan) e acupunturista. Treinei durante várias anos na Academia Central sob a sua orientação e aquele pouquinho de coordenação motora que tenho hoje é graças a este treinamento.

Ele me honrou com a sua presença na minha ordenação monástica no Zen e, posteriormente, mostrou-me o seu altar, onde ele praticava a sua espiritualidade durante umas 4 horas por dia. A força energética da salinha onde ficava o seu altar é algo que nunca esquecerei.

Acredito que ele foi muito pouco compreendido pelos brasileiros, tantos dos quais romperam com ele e acabaram criando tantas divisões no Aikidô brasileiro. Talvez, as barreiras de língua e de cultura simplesmente foram altas demais para que pudessemos entender melhor as suas tentativas de explicar “energia”, “vazio”, as sutilizas da pratica – aspectos que ele compreendia e dominava muito bem. Gosto de imaginar que, mesmo que eu não tenha conseguido desenvolver a “técnica” de aikidô, talvez eu tenha conseguido vislumbrar um pouquinho a respeito da energia e espiritualidade do Aikidô, graças ao contato que tive com ele.

Com certeza, a experiência com ele na Academia Central me ajudou estar um pouco mais preparada para a minha viagem ao Japão e para o meu treinamento monástico (mas, para qual, na verdade, é impossível estar “preparado”…).

Doumo arigatou gozaimashita, Sensei!

ler a reportagem no blog “Made in Japan

Vídeo: Sanga

janeiro 15, 2010 at 9:44 pm | In Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Vídeo, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

Não sei a origem deste filme – aparentemente é indiano – ou o contexto no qual foi realizado, mas fiquei muito emocionada ao assisti-lo, pois me lembra da vivência que venho tendo nestes últimos anos com a nossa Sanga Águas da Compaixão.

Como responsável pelo grupo, freqüentemente tenho a sensação de estar assistindo a um grupo de praticantes no qual todos estão caminhando juntos, de mãos dadas, na superação das suas dificuldades e desafios. O espírito de união, de harmonia e ajuda mútua deles me inspira. Ao meu ver, esse é o verdadeiro significado de “Sanga”.

Como monja, ver eles crescendo e transformando a si mesmos e as suas vidas – e “de mãos dadas uns com os outros” me deixa com um sentimento de humildade e gratidão.

Publico este vídeo como uma expressão do profundo amor que sinto pelos praticantes que me acompanham na nossa jornada espiritual. Que possamos continuar caminhando de mãos dadas até alcançar a Iluminação – juntos.

Angô nos Estados Unidos

janeiro 6, 2010 at 5:55 pm | In Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

Na escola Soto Zen Shu do Japão, um dos prerequisitos para um monge-em-treinamento (“unsui”) poder, depois de receber a Transmissão de Darma de seu professor, obter reconhecimento formal como “Oshô” (monge formado) e “Sensei” (professor do darma) desta tradição é a sua participação em dois ou mais “Angôs” (períodos de treinamento intensivo) oficiais.

Até recentemente, era necessário ir até o Japão para fazer estes Angôs (tradicionalmente de três meses cada) em mosteiros oficiais japoneses, com todos os desafios de língua, barreiras culturais, distância, etc.

No dia 15 de dezembro, foi dado início ao primeiro Angô oficial nos Estados Unidos, sob a liderança do Superintendente (Sôkan) para América do Norte, Gengo Akiba Roshi, com uma equipe de 20 professores vindos de todo o mundo. O retiro está sendo realizado no Yokoji Zen Mountain Center a 2000 metros de altura, nas montanhas de San Jacinto no sul do estado de Califórnia, durante o inverno norte-americano.

Dois monges-em-treinamento brasileiros foram convidados a participar: o monge-aprendiz (Zagen) Genshô Chalegre (da Comunidade Zen Budista de Florianópolis) e a monja-noviça (Jôza) Jishun Morioka (do Templo Busshinji de Rolândia, PR).

. ver mais fotos do angô

. Ler mais:
- Qual o Significado de Jukai?
Qual o Significado de Shukke Tokudo?
- Qual o Significado de Shuso?
- Qual o Significado de Hossenshiki?
- Ordenação Monástica
- A Ordem Monástica da Escola Soto Shu (texto reproduzido do antigo site do Zendo Brasil, sobre a prática Leiga e a Ordem Monástica de nossa escola)

Ordenações no Busshinji

janeiro 4, 2010 at 6:05 pm | In Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

O oficiante do Tokudo, Mestre Saikawa Roshi (Foto: Daniela Coen)

Em novembro, receberam ordenação monástica do Mestre Saikawa Roshi os praticantes Daitetsu Seigen (Bruno) e Dotetsu Wajun (Ezequiel) no Templo Busshinji – ganhei novos irmãos de darma! Parabéns ao dois novos monges-noviços!

Foto: Jarbas Viana

Foto: Daniela Coen

Vídeo: Cerimônias no Templo Busshinji

dezembro 3, 2009 at 12:14 pm | In Cultura Japonesa, Meditação em Porto Alegre, Música japonesa, Prática Zen Budista, Vídeo, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment
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Gravamos, com a nossa câmerazinha Panasonic (convertidos para o formato “.flv”, um formato mais leve), alguns trechos das cerimônias realizadas nos dias 13 a 15 de novembro, para a inauguração do prédio “Dai Kankaku” (centro de treinamento para América do Sul), celebração dos 50 Anos do Templo Busshinji e os Serviços Memoriais dos Fundadores, Abades e membros.

Com estas cerimônias, tivemos uma raríssima oportunidade de assistir à beleza das cerimônias formais Soto Zen, como são treinadas nos mosteiros e realizadas periodicamente em alguns templos Japoneses.

Canto da Música de Baika e Entrada Cerimonial:

Cerimônia dos 600 Volumes da Grande Sabedoria (Prajna Paramita, Dai Hannya), oficiada pelo Sokan Saikawa Roshi:

Entrega das tábuas memoriais e leitura dos nomes dos falecidos sendo lembrados na Cerimônia das 10,000 Velas:

Gyôdô – recitação de sutra circumambulação pelo Ryôban (área das cerimônias) – Cerimônia Memorial dos Fundadores e Abades Falecidos:

Veja também vídeos gravados pelos praticantes da Comunidade Zen Budista de Florinaópolis:
http://www.youtube. com/watch? v=xi0kM-g37eE

http://www.youtube. com/watch? v=OQ7f-tDXJ00
http://www.youtube. com/watch? v=JorfenLf1Aw
http://www.youtube. com/watch? v=nXIEMTYq3s4

Cerimônias no Busshinji

novembro 29, 2009 at 9:11 am | In Blogroll, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

Foram três dias de uma verdeira maratona de cerimônias, com a presença de ilustres Mestres Zen do Japão, grandes Roshis e conceituados  Mestres de Baika.

É sempre um grande prazer estar presente nestas atividades, pois além da beleza das cerimônias, representam uma oportunidade de rever amigos e formar novas amizades.

Mais ainda, foi um momento de encontro harmonioso de membros das várias sangas brasileiras.

Primeiro dia, 13 de novembro

Segundo dia, 14 de novembro

Terceiro dia, 15 de novembro

. Visualizar o álbum de fotografias de Comunidade Zen Buddhista de Florianópolis, SC: Busshinji 50 Anos

Programação da cerimônia do cinquentenário do Templo Busshinji
Dia 13 de novembro
10:00 – Recepção do Shumo Socho
. Corte da Faixa de Inauguração e Descerramento da Placa
. Apresentação do novo prédio
11:00 – Cerimônia de Abertura da Imagem do Fundador
11:30 – Cerimônia dos 600 volumes do Sutra Prajna Paramita
12:30 – Banquete no Salão do Pavilhão Dai Kankaku

Dia 14 de Novembro
13:00 – Cerimônia de Abertura do Monumento
13:30 – Palestra
14:30 – Cerimônia Memorial dos Fundadores
15:30 – Cerimônia de Abertura dos Olhos das Imagens Daiguen Shuri Bosatsu e Daruma Soshi
16:30 – Cerimônia Memorial dos Antepassados
17:30 – Cerimônia do Manto Kuyo (Milhões de Luzes)

Dia 15 de Novembro
08:30 – Cerimônia de Recepção do Shumo Socho
09:00 – Cerimônia Memoria dos Monges e Professores falecidos da América do Sul
10:00 – Cerimônia Comemorativa do Cinquentenário do Templo Busshinji
. Entrega do Certificado de Honra ao Mérito de Shumocho para Convidados
11:00 – Cerimônia Memorial para todos os membros
. Entrega do Certificado de Honra ao Mérito do Busshinji para Convidados

Casamento Zen Budista em Porto Alegre

novembro 22, 2009 at 10:59 am | In Blogroll, Cultura Japonesa, Japão e Cultura Japonês, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Vídeo, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment
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No dia 20 de novembro de 2009, foi celebrada a cerimônia Zen Budista de Casamento em Frente de Buda de George e Daniele Martins. A cerimônia, oficiada pela Monja Isshin, contou com a presença de familiares e amigos do casal – e até com “padrinhos virtuais” que puderem participar à distância graças à tecnologia de Internet e Skype.

Compartilho um vídeo da minha professora de treinamento e de Combate de Darma, Aoyama Shundo Roshi, abadessa do mosteiro feminino Aichi Senmon Nisodo em Nagoya, oficiando um casamento no seu templo Muryô-ji em Nagano Prefecture, Japão.

Ler uma reportagem sobre Casamento Budista no Brasil (Monja Coen): Casamento Zen Budista

Ler textos de Aoyama Roshi do livro Para uma Pessoa Bonita:
. Passam Burros, Passam Cavalos
. Eu, Aqui e Agora

O Corretivo

outubro 31, 2009 at 12:04 pm | In Compaixão Zen Budista, Meditação em Porto Alegre, Professor de Darma Zen Budista, Prática Zen Budista, Zen Budismo em Porto Alegre | Leave a Comment

O Budismo faz um diagnóstico da nossa “doença” espiritual e receita “remédios”. Enquanto que algumas terapias podem ser agradáveis (uma boa massagem, por exemplo), nem todos os tratamentos “médicos” são confortáveis – alguns tratamentos são extremamente desagradáveis e dolorosos (Alguém afirmaria que passar por uma cirugia seria algo “agradável”?). Tomamos os remédios e aceitamos os tratamentos porque desejamos curar-nos das nossas enfermidades.

Portanto, para avaliar aquilo que vemos num relacionamento de um professor com seus alunos, precisamos observar o resultado no médio e longo prazo, sem julgar um único ou alguns poucos incidentes que possamos eventualmente testamunhar.

Trata-se de uma verdade comum a todas as tradições espirituais. Não são nada infreqüemtes as situações onde um observador (visitante, simpatizante, aluno), ao assistir alguma interação entre um professor e um de seus alunos, reage com “mil opinões” a favor ou contra a atitude do professor ou do aluno.

Às vezes, ao ver o professor agindo com firmeza com um aluno, o observador se assusta, ficando com medo de também ser tratado com a mesma firmeza (ou pior). Outras vezes, na mesma situação, se ofende, julgando que o professor é “agressivo”.

Ou, vendo o professor tratando um aluno com delicadeza, carinho ou alegria, acusa-o de “favoritismo”, “complacência” ou “falta de seriedade”.

Na verdade, geralmente, o observador está simplesmente projetando as suas próprias experiências de vida, interpretações, medos e opinões. Todos nós temos uma tendência de achar que sabemos como os outros “devem” agir, como o outro “deve” ensinar – sempre tendemos a achar que “sabemos melhor”. Tiramos as nossas conclusões rapidamente, na hora – já “vimos tudo”, “já entendemos a situação”. Mas, para poder avaliar corretamente, é necessário considerar não somente um “incidente” isolado, mas todo o contexto e o histórico do relacionamento do professor com aquele aluno, bem como o andamento depois do “incidente” em questão. Mais ainda, é necessário libertar-nos dos nossos próprios condicionamentos, projeções e opinões – abrindo o Olho da Sabedoria para saber enxergar além das aparências e o Coração de Compaixão verdadeira que possa compreender o coração do outro.

Encontrei este texto excelente no blog Christian Rocha. Podemos observar como esta nossa tendência de ficar julgando se expressa num conto Sufi:

Trecho do livro “Sufismo no ocidente”

Um mestre que conhecia o caminho para a sabedoria foi visitado por um grupo de buscadores. Encontraram-no num pátio, cercado de discípulos, em meio ao que parecia ser uma festa.

Alguns buscadores disseram:
– Que ofensivo, esta não é a forma de se comportar, qualquer que seja o pretexto.

Outros disseram:
– Isto nos parece excelente, gostamos desta sessão de ensinamento e desejamos participar dela.

E outros disseram:
– Estamos meio perplexos e queremos saber mais sobre este enigma.

Os demais buscadores comentaram entre si:
– Pode haver alguma sabedoria nisto, mas não sabemos se devemos perguntar ou não.

O mestre afastou todos.

Todas estas pessoas, em conversas ou por escrito, difundiram suas opiniões sobre o ocorrido. Mesmo aqueles que não falaram por experiência direta foram afetados por ele, e suas palavras e obras refletiram sua opinião a respeito.

Algum tempo depois, determinados membros do grupo de buscadores passaram novamente por ali e foram ver o mestre. Parados à sua porta, observaram que, no pátio, ele e seus discípulos estavam agora sentados com decoro, em profunda contemplação.

– Assim está melhor — disseram alguns dos visitantes. — É evidente que alguma coisa aprenderam com os nossos protestos.
– Isto é excelente — falaram outros — porque, na última vez, sem sombra de dúvida ele só nos estava colocando à prova.
– Isto é demasiado sombrio — outros disseram. — Podíamos ter encontrado caras sérias em qualquer lugar.

E houve outras opiniões, faladas e pensadas. O sábio, quando terminou o tempo de reflexão, dispensou todos estes visitantes.

Muito tempo depois, um pequeno número deles voltou para pedir sua interpretação do que haviam experimentado. Apresentaram-se diante da porta e olharam para dentro do pátio. O mestre estava sentado, sozinho, nem em divertimento, nem em meditação. Em parte alguma se via qualquer dos seus anteriores discípulos.

– Agora podem escutar a história completa — disse-lhes. — Pude despedir meus discípulos, já que a tarefa foi realizada. Quando vieram pela primeira vez, a aula tinha estado demasiadamente séria. Eu estava aplicando o corretivo. Na segunda vez em que vieram, haviam estado demasiado alegres. Eu estava aplicando o corretivo. Quando um homem está trabalhando, nem sempre se explica diante de visitantes eventuais, por muito interessado que eles acreditem estar. Quando uma ação está em andamento, o que conta é a correta realização dessa ação. Nestas circunstâncias, a avaliação externa torna-se um assunto secundário.

Qual o significado de Samu?

outubro 13, 2009 at 11:27 am | In Blogroll, Meditação em Porto Alegre, Prática Zen Budista, Qual o Significado, Zen Budismo em Porto Alegre | 6 Comments

ZenFriends12-3Web1Samu – Meditação em Ação, a Prática da Atividade Diária

Na nossa prática Zen Budista, temos vários atividades que focalizam diferentes aspectos de nosso treinamento: o Zazen (meditação sentada), o Kinhin (meditação andando), a Prática do Cerimonial (meditação no ritual) e o Samu, que é a Prática da Atividade Diária (meditação em ação). A prática do Samu, em particular, é traduzida pelos praticantes em quase todos os centros de prática como “trabalho” Mas é preciso observar que a palavra “trabalho” pode trazer muitas conotações negativas.

Na tradição judiaco-cristã, por exemplo, o trabalho foi o castigo dado ao homem por ter comido da maçã do conhecimento do bem e do mal (a dualidade). De certa forma, como “Deus descansou no sétimo dia”, parece que a grande meta da vida tornou-se poder “descansar”, desfrutar do ócio. Frequentemente, em casa, depois do “trabalho”, dizemos que estamos “cansados” quando alguém nos pede para ajudar com uma tarefa da casa, como ajudar a secar a louça. No entanto, quando alguém nos convida para jogar futebol ou ir dançar, de repente já não estamos mais “cansados”. O fato é que secar a louça gasta muito menos energia do que jogar futebol ou dançar, mas costumamos definir a terefa de secar a louça como “trabalho” e jogar futebol e dançar como “divertimento”.

Os Estados Unidos, que é um país predominantemente protestante, se beneficiou da interpretação do “trabalho como meio de salvação” – a “ética do trabalho”. Como resultado, o trabalho é valorizado e muitos adolescentes cortam a grama ou cuidam das crianças do vizinho (“babysitting”), entregam jornais e fazem numerosas pequenas tarefas para ganhar um trocadinho e complementar as suas mesadas.

Tentem imaginar isso no Brasil – é quase impossível! Afinal, o Brasil é um país predominantemente católico e não herdou esta “ética do trabalho”. Mais ainda, o Brasil foi um país escravista e, como conseqüencia, traz  na mente inconsciente coletiva uma atitude que diz que trabalhar é para os “escravos”, não para as pessoas “dignas”. E pior, quem “manda” nos escravos é um “capataz”, um “maldoso”.

A cultura popular fala da “malandragem” e do “levar vantagem” como se fossem qualidades positivas. Finalmente, a retórica esquerdista argumenta que os trabalhadores estão sempre sendo “explorados” pelos empresários, e que estes roubam do povo. Este retórica coloca os trabalhadores sempre no papel de vítimas e “demoniza” sempre os empresários.

Conseqüentemente vejo numerosos conflitos internos em muitos brasileiros em relação ao trabalho. Vejo muito sofrimento desnecessário, devido a estas atitudes.

Com a “demonização” dos empresários e o fim da escravidão, até mesmo as pessoas bem-sucedidas na sociedade brasileira com freqüência se vêem enfrentando conflitos internos entre a sua vontade de “subir na vida” e estes conceitos negativos sobre o trabalho que estão na mente coletiva inconsciente. Pior ainda: às vezes, ao “subir na vida, ao se tornaram “bem-sucedidos”,  se tornam alvos do preconceito dos outros, como se fossem ladrões e capatazes.

Saikawa Roshi varre o chão do Templo Busshinji

Saikawa Roshi varre o chão do Templo Busshinji

Com tudo isso, a prática Zen Budista na qual vejo maior resistência entre os praticantes é justamente o Samu, a Prática da Atividade Diária ou a Meditação em Ação. As Sangas relacionados com o nosso grupo atualmente funcionam em espaços de academias de artes marciais e uma parte da nossa prática é de montar a sala com os zabutons, zafus e altar para a nossa prática Zen e, depois, desmontar a sala, deixando-a em ordem para a prática das artes marciais.

É quase cômico observar como alguns dos praticantes chegam – como se estivessem cronometrando – justamente assim que a sala termina de ficar montada, pronta para o Zazen. Se uma pessoa interpreta o Samu como “trabalho”, é natural que não queira participar do Samu. Afinal, ninguém é louco!

Pelo outro lado, é muito gratificante notar como, depois de um tempo de ajudar a desmontar a sala meio “contra a vontade”, “de cortesia, para não deixar a monja sozinha”, etc, os membros da Sanga já demonstram prazer em praticar o Samu de desmontar a sala, e estão aprendendo a “fluir” nas atividades. Sem necessidade de alguém “supervisionando”, as tarefas acabem sendo realizadas, a sala é entregue para as práticas das artes marciais e os nossos objetos são guardados. Não demonstram pressa para “ir embora”. Saímos todos juntos, quando tudo ficou pronto. O Samu deixou de ser visto como “trabalho”.

Saikawa Roshi Cozinhando

Saikawa Roshi Cozinhando

Bem, se o Samu não é “trabalho”, então o quê é? Para quê serve?

Vejo um continuum na nossa prática que vai desde o Zazen até o Samu, nos preparando para levar a nossa prática para o mundo “lá fora”, onde não estamos mais cercados por praticantes, por pessoas unidas pela mesma busca espiritual – a nossa Sanga, mas onde estamos cercados por pessoas de todos os tipos e crenças.

No Zazen, a meditação sentada, vamos entrando em contato com o nosso “centro”, com o estado de Paz e Tranquilidade que está aí dentro, disponível para todos nós. Temos poucas distrações, poucos estímulos para nos distrair, facilitando o nosso mergulho interno, facilitando o nosso cultivo deste estado de Paz e Tranquilidade.

Então seguimos para o Kinhin, a meditação andando, onde treinamos a manutenção deste mesmo estado de Paz e Tranquilidade numa ação levemente mais complicada. Precisamos estar atentos ao equilíbrio do corpo ao andar, combinando os nossos passos não apenas com a nossa respiração mas também com o ritmo do grupo, mantendo a mesma distância entre a pessoa à nossa frente e a pessoa atrás de nós.  Lidamos com mais estímulos – as sensações nos pés ao andar, o “cenário” que muda quando mudamos de lugar na sala… No Kinhin também já começamos a entrar em contato com as nossas preferências, na medida em que aparecem aqueles pensamentos como “ele está andando muito rápido” ou ficando irritados ao achar que a pessoa na nossa frente está andando muito devagar. Treinamos não nos deixar ser levados por estes pensamentos e sentimentos.

Depois disso vamos para a Prática do Cerimonial, onde recitamos sutras e participamos de atividades “pré-estruturadas”, com poucas variações. Esta prática é freqüentemente muito mal-compreendida, interpretada como mero “ritual” sem valor. Mas é uma prática riquíssima onde não apenas praticamos harmonizar a nossa voz com a voz do grupo (“recitar as sutras com os ouvidos”) mas também incorporamos os ensinamentos dos sutras através da recitação e treinamos manter o estado de Paz e Tranquilidade – e a plena atenção – ao realizar ações e movimentos cada vez mais complicados – na medida em que passamos a treinar as diferentes posições que fazem parte do cerimonial (sogei, mokugyo, doan, jisha, dennan, etc.). Enfrentamos o nosso medo de errar, os nossos sentimentos mistos (talvez até com rebeldia) ao lidar com a exigência de precisão nos movimentos e a exatidão nos toques com os instrumentos, etc. Entramos em confronto com a nossa falta de atenção ao errar algum detalhe sempre que nos distraímos e deixamos de manter a plena atenção. É aí que muitos praticantes ou partem para o “piloto automático” e ritual “morto” ou entram na resistência, fugindo da prática, sem imaginar o quanto estão perdendo.

Finalmente, chegamos ao Samu, a Prática da Atividade Diária, que pode ser entendida como a Meditação em Ação ou a “Medit-Ação”. Frequentemente realizada através das atividades “comuns” como servir o chá, varrer o chão, cozinhar, lavar janelas, também inclui toda e qualquer atividade diária como realizar tarefas no computador, costurar, arrumar uma sala, fazer a contabilidade e o controle financeiro do grupo, escrever cartas, instalar uma estante, etc., etc. e etc. Até mesmo estudar pode ser uma prática de Samu. Pode-se dizer que somente ficariam excluídas as atividades de entretenimento, como assistir filmes ou ouvir música.

Mas o que diferencia estas atividades como “Samu” das mesmas atividades no sentido comum, frequentemente rotuladas como “trabalho”? Ao realizar estas tarefas com o espírito da “prática de Samu”, estamos treinando manter, agora em atividades das mais variadas, aquele mesmo estado de Paz e Tranquilidade que descobrimos no Zazen e que praticamos manter no Kinhin e no Cerimonial. Quando fazemos o nosso Samu junto com outros membros da Sanga, temos o apoio de pessoas com quem temos afinidades, que seguem os mesmos valores e realizam a mesma prática. No entanto, na hora do Samu, entramos em contato com as nossas preferências, os nossos julgamentos. Somos cheios de “eu quero/não quero”, “gosto de fazer isto/não gosto de fazer aquilo”. Por exemplo: “não quero lavar janelas, quero cozinhar!”  “Não quero cozinhar, mas aceito secar pratos!” E quantas opiniões descobrimos ter: “quero fazer do meu jeito”, “aquela pessoa faz errado”, “não gosto de trabalhar junto com fulano”, “aquilo é serviço de mulher!”. Descobrimos a nossa tendência de querer tagarelar ou o nosso hábito de fazer as coisas “no piloto automático” em lugar de silenciosamente manter a plena atenção na nossa atividade. Temos a oportunidade de treinar voltar para o nosso centro, mergulhar no estado de Paz e Tranquilidade, sair das dualidades de nossas preferências, julgamentos e opinões e fluir com a atividade, aprendendo a simplesmente fazer a atividade que está à nossa frente.

Que bela preparação para levar a nossa prática “ao mercado”, ao mundo “lá fora”, à nossa convivência com os outros na nossa família ou em nosso local de trabalho!

Que os méritos de nossa prática se estendem a todos os seres, para que, junto com todos os seres, realizemos o Caminho de Buda!

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